Bem vistas as coisas, podia ter sido bem pior


Dâmaso Salcede,

«Marcelo filmado a comer um gelado em Belém

O Presidente da República disse hoje que “é preciso ter calma, não dar o corpo pela alma”, rodeado por comunicação social, junto ao Palácio de Belém, em Lisboa, e filmado pelas televisões enquanto comia um gelado. (…)

O chefe de Estado também não quis fazer analogias entre os sabores do seu gelado, “limão, framboesa e chocolate”, e a situação política nacional ou as opções que tem em cima da mesa, depois de o primeiro-ministro ter decidido manter João Galamba como ministro das Infraestruturas, contra a sua opinião.» – Sapo

 

Ainda bem (ainda bem!!!) que Marcelo teve a sensatez de não se deixar filmar com um Calippo: estremeço só de pensar nas “analogias” ou “leituras” que se tentariam fazer.

O regular funcionamento das instituições


Dâmaso Salcede,

«Governo fez uma denúncia à Polícia Judiciária por causa do computador de Frederico Pinheiro, exonerado por João Galamba no dia 26 de abril. Portátil já está na posse do Estado e não houve buscas domiciliárias. Frederico Pinheiro afirma ao Expresso que o entregou “de livre vontade”. Antes disso, houve conflitos e agressões no gabinete quando o adjunto foi buscar o computador ao gabinete. PSP foi chamada ao local por causa das “altercações” e assessoras de Galamba fizeram queixa.» – Expresso

O estranho caso dos CEOs de Schrödinger


Dâmaso Salcede,

No meio de toda esta confusão em legalês reportada pelo Eco, estamos com uma CEO que está simultaneamente demitida e não-demitida, e um futuro CEO que está simultaneamente nomeado e não-nomeado. Em Portugal, a nossa lógica não colapsa, no nível subatómico, em fantasmas e sombras: colapsa, sim, no nível governamental, em tretas e esquemas.

O estranho caso do parecer que não cabia no âmbito apesar de não ter massa nem volume


Dâmaso Salcede,

Ontem: 

Numa nota enviada à agência Lusa, o gabinete da ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, alega que “o parecer em causa não cabe no âmbito da comissão parlamentar de inquérito (CPI)” e “a sua divulgação envolve riscos na defesa jurídica da posição do Estado”.

Hoje:

“Não há nenhum parecer” a sustentar os despedimentos de gestores na TAP, garante Medina.

 

Obviamente, demitia-o!


Dâmaso Salcede,

“Hoje de manhã, antes de partir para a Coreia do Sul, o primeiro-ministro repudiou a atuação do ex-secretário de Estado do seu governo, Hugo Mendes. “Não conhecia esse email”, disse Costa, “e se o tivesse conhecido teria pedido ao ministro Pedro Nuno Santos para o demitir na hora”, afirmou na nota enviada à Lusa antes de embarcar.” – Sapo24.

 

Ver esta bravata de Costa é ainda mais divertido por já nem nos conseguirmos recordar de todos os ministros, secretários de Estado, adjuntos e assessores que Costa manteve até os seus cadáveres políticos exalarem um fedor capaz de enojar um dragão de Komodo.

Um Livro de Areia


Dâmaso Salcede,

Homem.jpg

Há semanas, um alfarrabista juntou ao seu catálogo este livro: 307 páginas, lê-se na descrição técnica. Pouco mais de trezentas páginas, pelos vistos, bastaram para Hans Hass escrever um tratado científico sobre os mistérios do comportamento do homem. Já se ele tentasse o mesmo para a mulher, “Mulher: os mistérios do seu comportamento”, só o conseguiria com uma espécie de livro de areia borgesiano: um enigma com páginas infinitas, onde nenhuma é a primeira e nenhuma é a última, e nunca se consegue encontrar duas vezes a mesma página.

E agora, o nosso momento zen


Dâmaso Salcede,

Livros de Roald Dahl sofrem alterações para remover linguagem “ofensiva” (…)

Augustus Gloop, por exemplo, o rapaz gordinho de “Charlie e a Fábrica Chocolate”, com uma camisola às riscas vermelhas e brancas, viciado em chocolate, agora será “enorme” ao invés de “gordo”  (…)

Segundo o Daily Telegraph, a editora Puffin contratou leitores “sensíveis” para reescrever fragmentos dos textos, garantindo assim que “eles possam continuar a ser apreciados atualmente por todos”. (…)

As alterações foram feitas, sobretudo, ao nível das descrições sobre a aparência física dos personagens, onde se encontram palavras como “gordo” e “feio”.

Em “The Witches”, de acordo com o The Guardian, no parágrafo em que as bruxas são carecas sob as perucas, é acrescentada uma frase que Dahl nunca escreveu: “Existem muitas outras razões pelas quais as mulheres podem usar perucas e certamente não há nada de errado com isso”. (…)

Nas publicações, as palavras “preto” e “branco” também não são usadas, e “louco” ou “insano” também já não é utilizado “​​em defesa da saúde mental”.

A editora Puffin e a Roald Dahl Story Company fizeram as mudanças juntamente com o “Inclusive Minds”, um grupo que o seu porta-voz descreve como “um coletivo de pessoas apaixonadas por inclusão e acessibilidade na literatura infantil”.

(no Jornal I)

 

(…) References to “female” characters have disappeared. Miss Trunchbull in Matilda, once a “most formidable female”, is now a “most formidable woman”.

Gender-neutral terms have been added in places – where Charlie and the Chocolate Factory’s Oompa Loompas were “small men”, they are now “small people”. The Cloud-Men in James and the Giant Peach have become Cloud-People. (…)

Alexandra Strick, a co-founder of Inclusive Minds, said they “aim to ensure authentic representation, by working closely with the book world and with those who have lived experience of any facet of diversity”. (…)

(no The Guardian)

A propósito da demissão du jour


Dâmaso Salcede,

Pedro Magalhães Ribeiro, assessor do gabinete de Costa e ex-presidente da Câmara Municipal do Cartaxo, demitiu-se por, segundo a Comissão Nacional de Eleições, ter “usado canais de comunicação da autarquia para fazer campanha eleitoral”. É comum a actividade da CNE despertar-me reticências: vejo-a amiúde construir casos bastante forçados, como admito parecer-me este, e vejo-a também assobiar para o ar em situações muito mais graves. Mas isto diverte-me: António Costa escolhe-os a dedo. E agora fico a pensar: será que o questionário-maravilha anunciado por Costa já inclui a pergunta “Alguma vez usou canais de comunicação da sua autarquia para fazer campanha eleitoral”, ou irá ele afinal ter 35 perguntas em vez das 34 anunciadas por Mariana Vieira da Silva?

Demos, no entanto, o mérito a quem o merece. Há meses, Mariana Vieira da Silva foi fustigada por ter empregado (com salário topo-de-gama) um jotinha recém-formado. É agora óbvia a sua perspicácia: se é necessário garantir que os nomeados não têm rabos-de-palha, vai-se buscá-los aos bancos de escola. E se mesmo isto não for suficiente, ainda veremos o próximo governo de Costa com ministros vindos – da creche.

Adenda (13/01/2023, 09:56): afinal, já vai em 36 perguntas em vez das iniciais 34.