À atenção do Engenheiro Sócrates
cronicasnofeminino,
O Senhor Palomar e as crianças de tenra idade naquela fase em ainda não se reconhecem como sujeitos são provavelmente as únicas criaturas de quem suporto sem o menor incómodo que falem de si próprias na terceira pessoa. Abomino tudo o resto. A mais recente pessoa adicionada a esse rol de gente é o Presidente da República. Aquela mania de falar de si como o Presidente da República, como se fosse outro que não ele próprio, muito vincada na primeira parte do discurso, é profundamente irritante. Mesmo sendo um recurso estilístico –como estou benemérita – para se aproximar passo a passo da verbalização na primeira pessoa e modificar a perspectiva não lhe fica bem e soa a conversa de jogador de futebol. Não gosto.
A caminho de casa o meu carro deixou de fazer pisca para a esquerda. Não sei se trata de um conselho ou de um prenúncio.
Há alturas em que me apetece citar Vital Moreira. Quando fui à papelaria comprar um manual escolar e me pediram vinte e quatro euros e setenta cêntimos pelo dito, mais cinco euros pelo livro de exercícios e outro tanto por outro livro e ainda uns seis euros pelo manual interactivo, perfazendo a elegante quantia de trinta e sete euros e uns pozinhos apeteceu-me citar o Vital Moreira e aplicar-lhes o substantivo da discórdia: roubalheira. Não sei como as famílias sobrevivem ao tsunami de manuais escolares nesta altura do ano e como conseguem fugir às livrarias e editoras a impingir todo o tipo de complementos aos manuais. E se isto não é uma roubalheira não sei o que é. Procurarei entretanto um eufemismo. Enquanto isso fico-me pelo substantivo maldito.
Diz que provoca irritabilidade, insónia, tristeza, dificuldade de concentração e lentidão. Há quem a sinta assim que começa a fazer a mala de regresso ao pátrio lar, uma espécie de modorra que se instala no corpinho hipoteticamente bronzeado dos veraneantes ou na alma teoricamente lavada por outras paragens e embalada no remanso de nada fazer, profissionalmente entenda-se. O corpo que se recusa a reagir ancorado nas férias como um burro teimoso. Há ainda quem seja acometido de ataques de mau humor súbito, um enraivecimento colérico gerador de impropérios largados como quem deglute prozacs e digassims em catadupa sempre na senda da cura para este mal moderno. Podia ser contemporâneo, é, aliás, contemporâneo, contudo esta mania que se instalou agora de epitetar de depressão ou de síndrome todos os estado de alma é característico de uma modernice bacoca. A mais recente é a depressão pós-férias ou também chamado síndrome pós-férias. A acreditar na "Única" desta semana este mal, e que mal, passará algumas semanas depois do regresso ao trabalho. Não sei quando é que perdemos a capacidade de aceitar a vida como ela é. Tudo é passível de causar depressões, o regresso às aulas, o fim das férias, medos e fobias de coisa nenhuma e de todas as coisas mas que se não forem aceites como são podem transformar-se nesse mal dos males. Assim que assoma a primeira tristeza ou fanico da alma dorida, normal, diria eu, arranja-se sempre um síndrome, depressão também, que se lhe chame. Há que cumprir o fado, o destino de xailes negros e cantares tormentosos. Sem uma depressão nada se faz. Regressar ao trabalho é apenas regressar ao trabalho.
Uma caipirinha com uma carne de sol na Cantina da Lua, longe de ser tranquila, vertiginosa e sensual como o movimento de transeuntes. Soteropolitanos e gringos que se deslocavam num vaivém frenético e colorido, ladeiras acima e abaixo até ao Largo do Pelourinho, iluminado pela Igreja do Rosário dos Pretos e a Fundação-Casa Jorge Amado, azuis ambas, ponto obrigatório de qualquer visita à cidade do Salvador, coração negro do Brasil, capital primeira do Brasil. E o movimento que se instala, cada vez mais intenso e vivo, um desfile que foi tomando o seu lugar pelas ladeiras circundantes: os filhos de Gandhi, o Olodum, as baianas como se conhecem por esse mundo fora, Bumba Meu Boi, Iemanjá. E de máquina fotográfica em punho embalada com o ritmo contagiante, o cortejo rodopiou, com o sol a brilhar já cadente por trás da Igreja de São Domingos de Gusmão, o contraste necessário para o fulgor do desfile, que soube depois, seria do Dia do Folclore, celebrado a 22 de Agosto no Brasil, escrito para sempre nos meus 22 de Agosto vindouros.
Mas Salvador é mais do que uma data. Salvador é um sentimento que não se deixa pôr por palavras. É ir ao Bonfim e conversar com a Carol e o Jairson sobre patuás e orixás, Erê, o meu, e ninguém tocou ainda, Carol, e fitas coloridas, trazer a pagela do Santo Expedito que todos os dias me olha aqui mesmo ao lado. É ver a cidade lá em baixo. É subir e descer as ladeiras do Pelô, regatear com o Caetano o preço dos colares de sementes, descer o elevador Lacerda com a Baía de Todos os Santos em frente, azul e imensa, e vislumbrar do outro lado Itaparica, berço de João Ubaldo Ribeiro. É passear no Mercado Modelo entre souvenirs e pinturas, comprar o que quase todos os turistas compram, mas não, um berimbau não, sentarmo-nos no Maria de São Pedro com a baía que se estende como um lençol azul prateado até encontrar as nuvens plúmbeas do Inverno baiano. Ver os capitães da areia lá em baixo, trocar impressões com os inúmeros artistas que frequentam o restaurante – é sabido que baiano não nasce, estreia– enquanto se saboreia uma moqueca ou se relê sem livro algum à nossa frente, a prosa poética de Jorge Amado, alguma dela escrita no Rio Vermelho, onde se pode provar o acarajé longe do burburinho do Pelô. Salvador é o Recôncavo de Dona Canô e o Reconvexo de Bethânia. É saber ali perto Itapoã, onde Toquinho e Vinicius passaram uma tarde de vagabundagem e onde um dia irei sentir a terra toda a rodar. Sem mais palavras, portanto.
Saudade. Um misto de nostalgia salpicado com leves pitadas de angústia. Um batido com duas partes de tristeza e uma de melancolia, deve servir-se ao som lamúria e do lamento, preferencialmente em dias de nevoeiro e de morrinha ininterrupta. Um molho com a agrura do fado e a doçura das cantadeiras. Um caldo condimentado com o sabor adocicado da canela e a rispidez da pimenta branca. A escolha interminável entre o partir e chegar. O aconchego da presença e a dor da ausência. Não acredito na intraduzibilidade da palavra, outras línguas existem em que há palavras sem equivalente em português. Cosy ou cosiness é absolutamente intraduzível, os equivalentes traem o sentido da palavra original. Não obstante, os anglófonos lá andam olhando para o seu umbigo alvo e não ouvi nunca gabarolice meteórica sobre a coziness, sem tradução, acredito.
O português, porém, é rapaz muito dado a estas coisas do mais e do maior. Os sucessivos records batidos nos mais inusitados feitos constituem a prova cabal de que queremos ser grandes e levamos esta obsessão de ser mais a sério. Por conseguinte, a palavra saudade constituirá o móbil sentimentaleiro que urde os comportamentos saudosos e nostálgicos do pátrio lar, uma vez em férias, período que durará uma ou duas semanas. Sete ou catorze dias contra os trezentos e cinquenta e oito ou trezentos e cinquenta e um do ano sobejante. Acredito que será um ataque súbito deste tal sentimento tão único, tão luso e sempre tão elevado que acomete o turista português mal se encontre em terras de além-mar ou além-rio.
Os hotéis ou resorts de férias são campo propício a estas manifestações. Logo nos pequenos-almoços, o português é rapaz para se queixar. Lá para o segundo dia maldirá a variedade, sempre a mesma coisa, e de nada lhe servirá ter à disposição infinitas vezes mais alimentos do que o quotidiano lhe oferece. Uma maçada. Sempre manga, papaia, abacaxi, melancia, melão, papão, banana, uvas. Um enfado. Lá para o quarto dia começa a dizer que já não pode, é que já não pode com o cheiro daquela comida, verbalização que, regra geral, é acompanhada por esse tal furor nostálgico da sua comidinha portuguesa. E ao quinto dia pela fresca, o português desfia então o rol pesaroso das saudades gastronómicas, enaltece a nobreza da gastronomia lusa, merecedora do epíteto naturalmente, e diz-se desejoso para chegar a casa e poder comer o seu bitoque, o belo bife com o ovo a cavalo, as batatocas fritas e uma forminha de arroz. Uma delícia da qual poderá usufruir as restantes três centenas e meia de dias, vedada porém durante os sete ou catorze dias em que se abalançou por esse mundo fora e escolheu para teoricamente se descontrair. Um problema.
Publicado aqui e repescado pela iminência do confronto com os nostálgicos do bitoque.
O MMS lançou hoje o seu primeiro cartaz para as legislativas próximas em que sugere enviar os líderes partidários para a Conchinchina, no cartaz Conchichina. Resta saber quem sugerem que se vá embora a seguir. A continuar assim ainda ficamos despovoados. Bem podem juntar-se a um outro partido que queria os imigrantes daqui para fora. É sempre mais fácil arranjar bodes expiatórios. Resta saber o que pretendem fazer depois de expulsar os líderes. O eleitorado agradecia.
Vocês, os ‘amigos’ do Facebook, conseguiram transformar em realidade o pesadelo do Orwell e o sonho de todas as polícias: montaram uma rede onde todos se cruzam e expõem, onde é fácil descobrir o paradeiro de cada um, mesmo quando ele não quer, onde se estabelecem relações amorosas por magnetismo virtual, se desvendam traições e adultérios, se partilham segredos no meio da multidão, se revelam as fotografias e as andanças que deveriam ser íntimas, e onde se faz tudo isso com uma compulsão de drogados, viciados em voeyurismo e exibicionismo.
Miguel Sousa Tavares, "Let´s face it", no Expresso de hoje
É atencioso, atento, grato, gosta de livros e escreve bem, sempre na terceira pessoa e sem pontos de exclamação. Não faço a menor ideia de quem é, se tiver problemas de cabelo é-me completamente indiferente, conquanto continue a escrever. Não posso passar sem ele. É por estas e por outras que o Senhor Palomar é o meu blogue da semana.
Nem sempre viajei para sul, mas nada vi de tão extraordinário como o sul. O Sul é uma porta de avião que se abre e um cheiro inebriante a verde que nos suga, o calor, a humidade colada à pele, os risos das pessoas, o ruído, a confusão de um terminal de bagagens, um excesso de tudo que nos engole e arrasta como uma vaga gigantesca. Apetece fechar os olhos, quebrar os gestos e deixar-se ir.
Miguel Sousa Tavares, Sul.
Depois de o Tribunal Constitucional se ter recusado a aceitar o pedido de todos os partidos com assento na Assembleia da República, à excepção do Partido Socialista, para apreciar alguns artigos do Decreto que regulamenta a avaliação de professores, uma vez que "não lhe compete, no âmbito da fiscalização sucessiva abstracta, conhecer de eventuais vícios de desconformidade entre regulamentos e actos legislativos" foi a vez do Governo cantar vitória. Tal como qualquer outro texto, tudo se presta a múltiplas interpretações, só assim se compreende que Valter Lemos tenha concluído ufano através da recusa do Tribunal Constitucional que “não existe nenhuma inconstitucionalidade e ilegalidade na questão da avaliação dos professores”. José Sócrates, contudo, não partilha a opinião de Valter Lemos, já que admite que “existem ‘discrepâncias’ entre o decreto regulamentar e as disposições contidas no Estatuto da Carreira Docente”. Resta saber o que pretendem fazer relativamente às “discrepâncias", já que o modelo transitório foi prolongado por mais dois anos e que quando o foi já havia "discrepâncias". Não constituem pois qualquer novidade. Foi o Governo de Sócrates que as criou e teima em manter. Entendam-se. Há um país cá fora à espera que se decidam. Em Setembro decidiremos nós.
Não é preciso ser-se génio para perceber que esta medida não leva a nada e que não constitui um real apoio ou incentivo à natalidade. O rendimento médio dos portugueses é um indicador fiável de que a necessidade de apoio é premente e que deve repercutir-se no imediato. Daqui a dezoito anos as necessidades são outras, 252 euros com juros, segundo a Deco, servirão para muito pouco. Apelidá-la de “medida divertida” é um eufemismo simpático para mais uma medida vã.
A discussão foi animada nesta caixa de comentários. No Delito não somos tão extremistas como o Senhor Palomar no que respeita ao famigerado, incompreendido e a caminho de ser proscrito ponto de exclamação. O Senhor Palomar detesta pontos de exclamação, o José Mário Silva corrobora, o Francisco José Viegas propôs a criação de um banner e o Pedro Vieira desenhou. Se fosse por mim, e salvo algumas excepções como esta, o ponto de exclamação estaria à míngua, atirado para um armário recôndito, encafuado numa gaveta sem fundo. Triste fim. Cada vez lhe dou menos uso. Banimo-lo também?
ilustração: Pedro Vieira
O PNETMulher onde croniquei durante um ano e pouco deu origem ao PNETCrónicas. Podem encontrar-me lá também.