Os livros são o melhor antídoto para dias solitários de praia. Arrumo dois no saco, longe dos protectores, a salvo dos cheiros intensos. Incapaz de prever os meus humores e apetites, acomodo-os lado a lado com a garrafa de água e rumo à praia não sem antes espreitar a tarja de mar pela janela e concluir que, embora o resto do país asse literalmente na canícula exuberante, o microclima presentear-me-á com uma tarde encoberta. Nem uma réstia de sol. Hesito à chegada. Vale a pena? E concluo que vale a pena, com os dois livros no saco e a tarde sem afazeres de qualquer ordem, vale a pena. Paira uma neblina levíssima, um manto indelével mesclado com o perfume da maresia. Vale a pena. Claro. Escolho uma clareira de frente para o mar e estendo a toalha e estendo-me à espera que o sol tímido, o que não vejo, se faça sentir numa longa carícia tépida. Procuro o livro e retomo a leitura. Deixem passar o homem invisível de Rui Cardoso Martins, o meu primeiro deste autor. Página 81. A meu lado duas mulheres e um homem trocam palavras. Tentam vislumbrar alguém no imenso areal, crianças, presumo, pela preocupação, até que descobrem um dos procurados. Tá ali, ó! E a conversa retoma, uma delas tem de ir fazer chichi, as crianças não chegam, o telemóvel toca. Página 81 a meio: E pensava; é a tarde dos cromos e dos artistas de circo. O céu torna-se subitamente menos cinzento, a praia começa a encher-se pouco a pouco. As crianças chegam entretanto, ouço-lhes o chilrear e as brincadeiras na areia bem a meu lado, ignoram os remoques da mulher mais velha e afirmam ter estado num sítio mesmo bom, uma piscina natural dizem. Debandam todos para o mar depois de mais uns dedos de conversa para voltarem a seguir, os adultos apenas. A mulher mais velha solta para o homem uns passos atrás Estes cabrões deviam ter um chip. Que merda! Página 81 a meio: E pensava; é a tarde dos cromos e dos artistas de circo
Página 81, a meio
cronicasnofeminino,

Típica Gémeos: em vez de um, levas dois livros. Também sou assim.
É como dissiste: atitude típica.
Ora bem.
Claro. Um é pouco.
Típica resposta de Gémeos. Subscrevo.
E não é pouco? É-o quase sempre.
É-o sempre.
Nem sempre, João. Quase sempre…
Venho provar que o mito não é verdadeiro: eu sou Gemeos e não levo dois livros para a praia (posso ter mais na mesinha de cabeceira mas só levo um à rua, nem sei porquê).
Na mesa-de-cabeceira não tenho nenhum nem dois nem três… Nem todos os Gemeos são iguais, felizmente para todos nós.
Aprende-se muito sobre astrologia nestas caixas de comentários 🙂
Aí está uma coisa que não consigo fazer na praia: ler. Entre a algazarra dos cromos e artistas de circo, o vento e a areia, não consigo concentrar-me. Talvez com uma cadeira confortável e um chapéu de sol conseguisse melhor, mas não levo nada disso para a praia.
Não é fácil mas consegue-se, Ana. Claro que numa espreguiçadeira ou numa cadeira se está muito melhor mas nunca levo tralha para a praia. O livro está quase no fim.
Eu ainda não consegui acabar a ‘Montanha Mágica’. Há sempre um livro mais interessante que se mete pelo meio. Ou dois.
Muitos pelos vistos, Pedro, pelas minhas contas andas há muitos meses com A Montanha para acabar. Eu já tinha desistido. Não sou muito perseverante se não gostar.
Também eu. Tantos livros para ler, não vale a pena fazer sacrifícios, Pedro.
Penso o mesmo quanto aos blogues, Ana. Alguns nem merecem uma visita.
É verdade.
Comecei agora o Jerusalém, do Mia Couto. Já o levei para a praia, cheia de boas intenções, mas desisti. Prefiro lê-lo em casa.
Ei li-o num dia de praia, melhor devorei-o, mas estava bem sentada e recostada. Gostei imenso, tanto que o li duma vez só.
Estou a gostar imenso.
Leu tão rápido que nem leu bem o titulo JeSusalém .
Escreveu tão rápido que nem escreveu bem título.
Quem se enganou no título fui eu, não a Leonor.
Bem vou meter a minha colherada :))), como sou uma terrível touro, só levo um livro para a praia. Acrescento o expresso e a vogue. Raramente pego no expresso, nem na vogue, leio concentradamente o livro e na hora do regresso penso sempre, mas porque diabo venho carregada com o jornal e a revista se nunca lhes pego?:)))
Regressando ao post “Estes cabrões deviam ter um chip. Que merda !” Só mimos estes nossos conterrâneos .
Pois é, os Touros são outra coisa, mais conforto, mais calma. O Expresso nunca, Ariel! É enorme, até para o ler em casa tenho de o estender.
Quanto ao resto, é verdadeiramente espantoso que alguém trate assim alguém em voz bem alta em plena praia, os seus próprios filhos ainda pior.
Falta ao Touro o desassossego existencial do Gémeos. Onde o Touro vê uma linha recta, o Gémeos vê uma série de linhas cruzadas. Bem, o melhor é ficar por aqui que isto dava conversa para a noite inteira.
E dava mesmo. Touros e Gémeos são muito diferentes, de facto.
Caramba Pedro, essa da linha recta é mesmo para me desmoralizar…:))))
Olhe que não, Ariel. Já nos dizem os mestres da geometria: linha recta é sempre a distância mais curta entre dois pontos.
Isso é verdade Pedro, mais curta sim, mas nem sempre a mais sábia…:)))
Pois.
Como sou Escorpião, é óbvio que ontem à noite não tive tempo para blogar.
Livros só um de cada vez. Lido devagar, para melhor o saborear, na praia ou numa esplanada junto ao mar. Algumas já aqui a Ana mencionou.
Como não frequento praias no Verão, raras vezes tenho de suportar esses apartes. É o que dá ter um chip avariado, que está mais tranquilo junto ao mar nas estações mais calmas. No Verão pefiro a varanda do meu rochedo. Tem sol, vista para o mar, espreguiçadeira, mas não tem areia e está imune a intrusos, porque só lá entra quem eu quero.
E quanto a banhos, vou-me contentando com a banheira, enquanto ouço a Rita Lee “E só nós dois, numa banheira de espuma…”
Se pudesse optar trabalhava o Agosto inteiro e tirava férias lá para Setembro ou Outubro. Detesto Agosto, Carlos, mas não tenho alternativa infelizmente.
Quanto às leituras, leio quase sempre mais do que um livro ao mesmo tempo.
Leonor:
LOl… também já tive situações idênticas, se bem que os “vizinhos” do lado tinham um cão que resolveu vir sacudir-se para cima de mim e do livro que estava a ler, ou melhor a tentar ler, porque o casal estava numa animada briga doméstica, na praia cheia em pleno mês de Agosto…Só rindo..;)))
É incrível como as pessoas perdem a noção de que estão num espaço público, Ana. Estes episódios davam uma série.
Acho uma boa ideia Leonor, dava uma série hilariante…;))