A nostalgia do bitoque


cronicasnofeminino,

Saudade. Um misto de nostalgia salpicado com leves pitadas de angústia. Um batido com duas partes de tristeza e uma de melancolia, deve servir-se ao som lamúria e do lamento, preferencialmente em dias de nevoeiro e de morrinha ininterrupta. Um molho com a agrura do fado e a doçura das cantadeiras. Um caldo condimentado com o sabor adocicado da canela e a rispidez da pimenta branca. A escolha interminável entre o partir e chegar. O aconchego da presença e a dor da ausência. Não acredito na intraduzibilidade da palavra, outras línguas existem em que há palavras sem equivalente em português. Cosy ou cosiness é absolutamente intraduzível, os equivalentes traem o sentido da palavra original. Não obstante, os anglófonos lá andam olhando para o seu umbigo alvo e não ouvi nunca gabarolice meteórica sobre a coziness, sem tradução, acredito.

O português, porém, é rapaz muito dado a estas coisas do mais e do maior. Os sucessivos records batidos nos mais inusitados feitos constituem a prova cabal de que queremos ser grandes e levamos esta obsessão de ser mais a sério. Por conseguinte, a palavra saudade constituirá o móbil sentimentaleiro que urde os comportamentos saudosos e nostálgicos do pátrio lar, uma vez em férias, período que durará uma ou duas semanas. Sete ou catorze dias contra os trezentos e cinquenta e oito ou trezentos e cinquenta e um do ano sobejante. Acredito que será um ataque súbito deste tal sentimento tão único, tão luso e sempre tão elevado que acomete o turista português mal se encontre em terras de além-mar ou além-rio.

Os hotéis ou resorts de férias são campo propício a estas manifestações. Logo nos pequenos-almoços, o português é rapaz para se queixar. Lá para o segundo dia maldirá a variedade, sempre a mesma coisa, e de nada lhe servirá ter à disposição infinitas vezes mais alimentos do que o quotidiano lhe oferece. Uma maçada. Sempre manga, papaia, abacaxi, melancia, melão, papão, banana, uvas. Um enfado. Lá para o quarto dia começa a dizer que já não pode, é que já não pode com o cheiro daquela comida, verbalização que, regra geral, é acompanhada por esse tal furor nostálgico da sua comidinha portuguesa. E ao quinto dia pela fresca, o português desfia então o rol pesaroso das saudades gastronómicas, enaltece a nobreza da gastronomia lusa, merecedora do epíteto naturalmente, e diz-se desejoso para chegar a casa e poder comer o seu bitoque, o belo bife com o ovo a cavalo, as batatocas fritas e uma forminha de arroz. Uma delícia da qual poderá usufruir as restantes três centenas e meia de dias, vedada porém durante os sete ou catorze dias em que se abalançou por esse mundo fora e escolheu para teoricamente se descontrair. Um problema.

 

Publicado aqui e repescado pela iminência do confronto com os nostálgicos do bitoque.

20 comentários em “A nostalgia do bitoque”

  1. Também sempre me irritou essa choradeira tão lusa pelo pastel de bacalhau, pelo solzinho português e pelo pastel de nata quando se sentem a milhas do rectãngulo. Se sofrem assim tanto, por que saem do bairro? Não há paciência!

  2. Conheci vários destes espécimes quando vivi longe de Portugal. Suspiravam pelo queijinho da serra, pelo bacalhauzinho com todos, pelo cabritinho no forno e não prestavam a mínima atenção a toda a variedade de sabores que havia à volta deles só por não terem o selo da pátria-mãe. Esta maltinha (para manter o diminutivo) é a negação do tradicional espírito aventureiro português. Nada a ver com o arrojo e a ousadia e as vistas largas dos grandes navegadores que descobriram novos mundos.

  3. Este post, pelo título, fez-me lembrar um saboroso blogue que infelizmente terminou há coisa dum ano e picos, onde, como comentador, me diverti quase tanto como aqui, precisamente, O Bitoque (http://obitoque.blogspot.com).

    Que se passa Leonor, encontra-se de férias no estrangeiro e não aprecia a forma de estar dos compatriotas que por aí encontra?

    1. Pois fique sabendo que é muito bem-vindo ao DO, onde temos o privilégio de contar com uma mão-cheia de comentadores de quem já éramos ou de quem passámos a ser amigos. E já começámos a contar consigo também, Carlos.

    2. Olá Carlos,
      Estou de férias mas por cá por enquanto. Raramente me identifico com a forma de estar dos meus compatriotas em viagem. Encontram-se pessoas simpáticas mas já viajei com outras que me deixaram muito constrangida.

      1. Olá Leonor

        Compreendo perfeitamente as suas palavras mas, não se esqueça de que também são portugueses, essas pessoas de quem escreve, partilham a nossa Língua, a de Camões (descalça vai para a fonte), a de Pessoa (e os pés espetados por um prego com cabeça), a de Bocage (traçando o plano de cruéis empresas) e até, pensando bem, a língua que espelha a nostalgia dum bom bife com um ovo montado a cavalo (ou duma bica tirada expressamente como deve ser e não doutra maneira, para esse efeito).
        O que é mais, a sua própria análise reflecte tratar-se dum povo relativamente civilizado, um «ser» desta maneira e não doutra, a falar alto, brigão, brincalhão, xenófobo e sexista no masculino, amoroso e por vezes futebolista e ainda mais sexista no feminino e, quase sempe, cobarde a pedido, campeão quando não há outra hipótese, latino, igrejo, crítico, sagaz; em suma, algo que é diverso da nulidade do mundo do «ser» dos outros com os quais nunca nos identificámos, quanto mais não seja porque estes nunca souberam traduzir «saudade» para as respectivas línguas; é um «ser» português e, mesmo broncos, mesmo conspicuamente notórios, eu, pessoalmente, gosto muito deles, gosto muito de ter tido a honra de nascer em Portugal.

        PS – Esqueci-me de lhe dizer que este seu texto é de se lhe tirar o chapéu; parabéns e continue!

        1. Mas, Carlos, mesmo sendo tudo isso, o problema é que, como muito bem notou, são broncos, e aborrecem com os remoques e olhares de soslaio para o que lhes vai sendo apresentado. Não temos, não devemos aceitar tudo apenas porque é novidade e porque vem de fora, mas a comparação intensa, partindo sempre do princípio que em Portugal é que é bom, aborrece-me bastante.

          Obrigada pelo elogio ao texto.

  4. Adorei este texto, Leonor. Já tenho comentado com amigos a capacidade camaleónica dos portugueses além fronteiras. Como num passe de mágica, Portugal passa a ser um país maravilhoso.
    Quando os nossos políticos desobrirem isso, mandam todos os portugueses de férias 15 dias antes das eleições…

  5. Fantástico texto, Leonor. Parabéns.
    Também eu fujo a sete pés dos nostálgicos do bitoque, que só o masoquismo explica como turistas. Por mim, gosto imenso de experimentar gastronomias alheias, mesmo as mais exóticas. A única coisa de que tenho saudades fora de Portugal (excepto talvez em Itália, e mesmo assim…) é o café. Isso é que ninguém faz como nós. De resto, diluo-me facilmente nos sítios onde estou e é assim que gosto de fazer turismo. Não tenho saudades de mais nada quando estou em viagem, nem mesmo (espero que os meus filhos não me leiam) de pessoas.

    Só um reparo: a palavra Saudade é mesmo intraduzível, pelo menos nas línguas que conheço. O que fizeste foi explicá-la por outras palavras (brilhantemente, aliás), mas traduzi-la para outra língua é outra coisa.

    1. O café também me faz falta mas só se for em estadias mais longas. Aceito isso como o preço a pagar por ir ver outros mundos. Tal como tu, não tenho saudades da casa.
      Em relação à tradução das palvras, o meu ponto é que todas as línguas têm palavras que não se traduzem para outras, porque são determinadas pela vivência cultural. Os holandeses fazem muita gala com o seu gezellig, os dinamarqueses têm outra parecida e cada povo terá a sua.
      Obrigada 🙂

  6. O curioso é que falam da pátria mãe, têm saudades do bitoque e do bacalhau com todos, mas principalmente os que vêm “á terra” no verão, dão um ar da sua graça, nos carrões alugados e a falar o seu frances portuganhol como forma de se sentirem mais importantes que os outros todos;))))

      1. Eu percebi Leonor, mas veio-me á ideia os emigrantes …E compreendo que tenham saudades mas não acho necessário fazerem certas figuras…;)) Espero não ser mal interpretada.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *