Embirrações


cronicasnofeminino,

O Senhor Palomar e as crianças de tenra idade naquela fase em ainda não se reconhecem como sujeitos são provavelmente as únicas criaturas de quem suporto sem o menor incómodo que falem de si próprias na terceira pessoa. Abomino tudo o resto. A mais recente pessoa adicionada a esse rol de gente é o Presidente da República. Aquela mania de falar de si como o Presidente da República, como se fosse outro que não ele próprio, muito vincada na primeira parte do discurso, é profundamente irritante. Mesmo sendo um recurso estilístico –como estou benemérita – para se aproximar passo a passo da verbalização na primeira pessoa e modificar a perspectiva não lhe fica bem e soa a conversa de jogador de futebol. Não gosto.

21 comentários em “Embirrações”

  1. Leonor: provavelmente o Senhor Palomar e o Senhor Silva são ambos ‘farinha do mesmo saco’. Daí, talvez, o considerarem-se terceiros em relação a eles próprios. Quanto ao primeiro, porém, não tenho elementos que possam confirmar tal teoria.
    Já quanto ao Sr. Silva, penso que já todos temos elementos de sobra para considerar que o homem está mesmo fora de si. Não admira, pois, que ele seja um e o PR seja outro, assim como uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, está a ver?

    1. Não diga isso, Luís, que eu gosto tanto do Senhor Palomar. Acho que aquela característica lhe advém do livro Palomar de Italo Calvino. Já o Cavaco não tem desculpa.

  2. Então, Leonor, terás de estender essa embirração aos provedores de leitores dos jornais. Todos, sem excepção, escrevem desse maneira: «O Provedor conclui», «O Provedor considera», «O Provedor foi confrontado…»

  3. E que diz daquela cena de alguns eternos e intermináveis segundos em que S. Ex.ª o Venerando Chefe do Estado fez chegar a seus sequiosos lábios o copo de água a fim de os humedecer e assim poder continuar sua prédica ao país?

  4. Tem toda a razão, concordo.

    Outra coisa irritante, análoga, é a mania que os comentadores de futebol têm de falar na primeira pessoa do plural quando se referem à equipa nacional de futebol. Dizem “não pressionamos o adversário” ou “estamos a jogar muito bem” como se fôssemos nós quem o estivesse a fazer, e não os 11 jogadores que estão no campo.

  5. Leonor, também reparei. E não gostei nada mesmo. Na altura pensei que se fosse um jogador de futebol caía-lhe logo tudo em cima a ressaltar o analfabetismo estético funcional. Admiti, no entanto, que fosse alguma daquelas normas, cujo alcance eu não atinjo, eventualmente porque radicam em práticas que não estão ao alcance do comum dos mortais como eu. Vejo agora que não é forçoso que assim seja.
    Também não gostei. Acho que esta forma de se exprimir vem no seguimento de outras coisas que me dispenso de nomear agora.

    :)))))))

  6. Há um livro do Astérix em que Júlio César fala de si mesmo na terceira pessoa. Segue-se uma cena hilariante, com as outras personagens a perguntarem-lhe “ele, quem?”, etc.

      1. Pode perguntar-se ao presidente da República, sim, mas também a muito mais gente, incluindo o primeiro-ministro, ministros, etc. Não tenho qualquer embirração com a terceira pessoa quando pretende relevar o cargo e não a pessoa que o ocupa: é o que sucede quase sempre que o presidente e outros titulares de cargos públicos usam a terceira pessoa. Este uso é muito mais frequente do que estes comentários possam sugerir. Mesmo os juízes, quando decidem, falam de uma decisão do tribunal e não deles mesmos. Trata-se do mesmo processo de menorização da pessoa face ao cargo institucional. É diferente quando usado por futebolistas ou outras pessoas sem qualquer inscrição da função numa circunstância institucional.

        1. Tem a ver com o contexto, naturalmente, e neste caso específico não gostei. Uma vez que se tratava de uma comunicação ao país e não de uma tomada de posição como as que refere no caso dos juízes, em que por razões óbvias deveria interessar menos a pessoa do que a sua função institucional, pareceu-me deselegante e desajustado. Posteriormente, o PR mudou o registo e passou a usar a primeira pessoa, levando-me a crer que houve intenção de abandonar progressivamente o cargo e passar à pessoa que o desempenha.

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