Das ironias


Rui Rocha,

Há, pelo menos, duas formas de ironia. A primeira socorre-se da linguagem, embora a tome muito para lá do seu valor facial. Quando Aníbal pede na cerimónia de entrega dos prémios Gazeta que digam que esteve mas não falou, o que propõe é um jogo que pressupõe o desvio do sentido literal das palavras que profere. É um tipo de ironia em que o proponente está aos comandos. Para que a ironia funcione é indispensável, é claro, que os destinatários participem. Que desviem o olhar interpretativo do valor facial das palavras para inquirir sobre aquilo que se quis dizer. Neste tipo de ironia há sempre algum risco. Se o proponente não tiver habilidade ou se os destinatários apresentarem uma qualquer barreira ao processo de comunicação (conhecimento deficiente da língua, desconhecimento do contexto ou segundas intenções, por exemplo) o efeito pretendido pode não verificar-se ou acontecer mesmo que a ironia acabe por residir no facto de esta se virar contra quem pretendia ser irónico. Em todo o caso, quando alguém utiliza a linguagem para produzir um significado oposto ou diferente do que decorre do sentido literal das palavras utilizadas temos sempre um proponente que aspira a controlar a informação transmitida, ainda que na prática as coisas possam, como vimos, descontrolar-se. Outras vezes, todavia, a ironia revela-se na descontinuidade entre um efeito e aquilo que seria de esperar que determinada acção viesse a desencadear. Aqui, a ironia não tem nada de voluntário. Surge sem que exista um proposta irónica inicial e intencional. A estas costumamos designá-las ironias do destino, expressão que traduz com a proximidade possível a irrupção de uma situação irónica inesperada e não controlada. Na entrega dos prémios Gazeta, a ironia que Aníbal quis produzir funcionou enquanto tal (outra coisa é saber se beneficia ou não o proponente). O sentido literal de estou calado foi transformado, remetendo para a interpretação do significado dos silêncios de Aníbal. Não deixa de ser irónico, todavia, que o Presidente tenha nesta mesma semana sido protagonista do outro tipo de ironia de que aqui se falou. Quando Aníbal refere a necessidade de regressar ao mar, à agricultura e à indústria, sendo ele quem foi, parece não se dar conta de que foi apanhado a jeito por uma ironia que surge de forma não provocada. É por essas e por outras que, mais do que ironias do destino, prefiro chamar-lhes supremas ironias.

Que os há, lá isso há


Rui Rocha,

Pelo visto, a NASA prepara-se para anunciar uma grande descoberta relacionada com a missão da Curiosity. Os mais entusiasmados especulam com a  existência de provas irrefutáveis de existência de vida em Marte. Esta possibilidade provoca em mim a sensação que também temos quando visitamos pela primeira vez um local que, todavia, nos parece surpreendentemente familiar. Como se já lá tivéssemos estado. Na verdade, a existência de marcianos é algo que, com os parcos meios de que disponho, já intuía há um bom par de anos. Mais. Estou firmemente convencido de que os marcianos constituíram uma colónia com um número razoável de indivíduos em Portugal. Vejamos. Só um tipo acabado de chegar de Marte pode afirmar, como fez o Secretário de Estado Hélder Rosalino, que o Orçamento de Estado para 2013 traz boas notícias porque “devolve” um subsídio aos funcionários públicos. E, da mesma forma, só marcianos poderiam perpetuar a discussão sobre a diluição dos subsídios do sector privado em duodécimos como se isso tivesse importância estratégica na solução de qualquer dos problemas do país (aliás, se pudessem parar de falar em diluição quando se referem a parte da minha remuneração, ficaria muito mais sossegado). E também só um marciano poderia vir dizer que a solução de diluição (irra) está em cima da mesa apenas para 2013 porque é o orçamento de 2013 que está em discussão. Ou os meus subsídios de trabalhador do sector privado passam a ser pagos pelo Orçamento de Estado, ou o deputado João Almeida deve ter uma tremenda dificuldade em dissimular a antena que tem no meio da testa. Para além do mais, só um marciano poderia desconhecer a carga de trabalho administrativo que a alteração implica, embora se deva reconhecer, tudo deve ser dito, que é muito mais trabalhoso encontrar deputados e membros do governo que, em vez de uma antena, tenham dois dedos de testa. Esperemos então para ver. Mas até que as novidades da Curiosity sejam reveladas, ainda algum extraterrestre virá propor uma solução específica para os subsídios em anos bissextos.

Dar ao apito


Rui Rocha,

O Carlos Guimarães Pinto insurge-se aqui contra o gasto de dois milhões de euros em salsichas. Ora, uma pesquisa rápida permite concluir que também temos investido forte em chouriços. Na verdade, desde 1 de Janeiro de 2009 o dinheiro dos contribuintes foi investido com alegria em, entre outros, concertos de Tony Carreira, Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa e Quim Barreiros. A bandeirada do senhor Carreira ronda os quarenta e cinco mil euros por espectáculo. A do sócio Pedro Abrunhosa e a de Paulo Gonzo os vinte e cinco mil euros para cada um. Cada uma das récitas de Quim Barreiros custou, por seu turno, cerca de dez mil euros. Sem grande preocupação de rigor, que não é para aqui chamado, no período indicado o país terá investido coisa de dois milhões e tal de euros só para estes quatro (os curiosos poderão pesquisar aqui). Como diria um dos artistas, e se fossem todos

Ninguém pára o Gloricoiso


Rui Rocha,

 

Todos os clubes, grandes e pequenos, têm na sua história momentos inolvidáveis. Um título que se conquista, um apuramento para as provas europeias, uma subida de divisão, uma descida que se evita, um golo memorável, um resultado inesperado e sabe-se lá que mais. Porém, é justo reconhecê-lo, só o Benfica é capaz de colocar em campo um onze em que pontificam um Luisão e um Luisinho.

A falácia da teoria da empresa como local e espaço de cooperação


Rui Rocha,

Emerge uma concepção da empresa e do trabalho como lugares e espaços de cooperação. Trata-se, se quisermos, da visão simétrica da que resulta da  luta de classes marxista. Marx estava, é claro, enganado. Falta, na sua análise redutora e para dar só alguns exemplos, e se nos quisermos manter apenas na dinâmica do conflito, a perspectiva da luta entre o norte e o sul, entre insiders e outsiders do mercado de trabalho e o sentido da ironia histórica que viria a deslocar o epicentro da luta de classes como ele a entendia para a China. E, se quisermos ir mais longe, a percepção dos múltiplos sentimentos e formas de ser humanas que não se explicam na estreiteza da ideologia, seja ela marxista ou outra. Entre as quais se incluem o altruísmo, a solidariedade, a compaixão, o egoísmo e outras virtudes e vícios, adquiridos ou de fabrico, que dão origem a lutas sem classe. Muitas vezes, a lutas sem classe mesmo nenhuma que são capazes de minar as relações entre pessoas estejam elas ligadas por uma qualquer hierarquia ou sejam pares de uma mesma função. Mas, se isto é assim, deve admitir-se que a dita concepção da empresa como local de cooperação é igualmente falaciosa pelas exactas e mesmas razões. Aliás, para perceber que assim é, basta levar as consequências do argumento até ao fim. No tempo das empresas colaborativas, dizem, não faz sentido ver consagrado o direito à greve que, pela sua natureza conflitual, está completamente ultrapassado. Pois muito bem. Demos então todos os passos em frente ao mesmo tempo. E expurguemos da legislação do trabalho, também, a possibilidade de despedimento individual com justa causa. Pois se a empresa é local de cooperação… No fundo, o que temos de concluir, para marxistas e teóricos da cooperação, é que podes saber tudo sobre os vários pilares da sociologia. Mas, se não te conheces a ti mesmo, com todas os teus méritos, defeitos e limitações, isso é sinal de que ainda não sabes nada do mundo.

Separar Saramago do joio


Rui Rocha,

Saramago faria hoje 90 anos. Dou comigo a pensar que preferia que tivesse sido estrangeiro. Que a distância não me tivesse impedido de ler aqueles dois ou três livros seus que me ficaram de deslumbramento. Frases com ideias dentro, lembro-me bem de notar embasbacado enquanto embarcava nessa Península Ibérica que se separava da Europa naquele primeiríssima Jangada de Pedra. Não o enredo, a estrutura narrativa, mas as ideias que brotavam a cada frase e que pareciam ser a justificação última do livro. Como se conversássemos. E que não me tivesse mesmo, se tivesse de ser, poupado aos outros que acabei por abandonar. Como no Ano da Morte de Ricardo Reis, em que me devo ter ficado pelos primeiros dias de Março. Mas que me preservasse dos pormenores, das birras, do feitio, da cegueira ideológica, da Pilar e de outros bicos. Como das próprias tricas e invejas que também lhe dedicaram. E da mesquinhez das contas da água e da luz da Fundação. Essa proximidade áspera incomoda-me, perturba-me a leitura. Por mim, Saramago seria norueguês ou chileno. Teria vindo cá nas férias. Andado de eléctrico em Lisboa, como fez Transtromer. Comido naquele restaurante da Póvoa de Lanhoso onde está pendurada na ramada uma fotografia de Jorge Amado a beber vinho verde e a comer bacalhau. Ou teria sido um português mais antigo. Como Pessoa ou Camões. Porque ser um português antigo é uma outra forma de nos ser estrangeiro. De interpor distância entre nós e a realidade. De filtrar a pessoa de modo a que só nos fiquem as palavras e a lenda. Não sei se Camões tinha dentes podres. E é reconfortante pensar que descobrir a verdade sobre isso impõe um grande esforço que não estou disposto a fazer. Claro que alguém já escreveu sobre o tema numa tese que mereceu todas as honras e distinções de um júri de uma universidade qualquer. Mas essa tese, que existe, estou certo, repousa agora onde lhe pertence, no fundo de um obscuro repositório. Quero tanto a ventania de alguma escrita de Saramago que o seu hálito tão próximo quase me magoa as mãos quando lhe pego nos livros. E sei também que esse incómodo diz mais sobre mim do que sobre o próprio escritor.  

Também é verdade que não é culpa nossa que o PS, depois de nos proporcionar um governo liderado pelo Joe Dalton, não tenha melhor para oferecer do que o Rantanplan


Rui Rocha,


Tó Zé Seguro afirma que, se for primeiro-ministro, austeridade será necessidade e não prioridade. 

Nem pense nisso, senhor primeiro-ministro


Rui Rocha,

O senhor primeiro-ministro elogiou ontem, dia de greve geral, os que tiveram coragem para trabalhar. E acabo de o ver, num das televisões generalistas, a sublinhar o papel dos que ontem decidiram não fazer greve. O propósito é claro. Trata-se de separar os portugueses entre grevistas e não grevistas. Entre aqueles que estão empenhados em contribuir para um futuro melhor para o país e aqueles cujo comportamento, implicitamente rotulado de nocivo, deve ser tolerado porque, para além do mais, não existe outro remédio. Entre, em suma, aqueles que estão com o senhor primeiro-ministro e os que não estão. Pretende, portanto, o senhor primeiro-ministro colar-se a todos os muitíssimos que decidiram trabalhar. Mais, quer apropriar-se do dia de trabalho de todos esses tantos. Ora, é importante que fique claro, para meu sossego, que o meu dia de trabalho de ontem não é do senhor primeiro-ministro. É das minhas convicções, das minhas esperanças, das minhas dúvidas, das minhas lealdades, dos meus medos, do meu passado, do meu presente e do meu futuro. E da minha entidade patronal, a quem o vendi por preço que considero minimamente aceitável, à falta de melhor oferta. E já agora, para tudo dizer, por preço algum o cederia ao senhor primeiro-ministro para que dele fizesse uso político. Mais, o meu dia de trabalho de ontem valeu o que a minha entidade patronal paga por ele. Mas não vale mais do que o dia de greve daqueles que a decidiram fazer. Nestes casos, o que está certo é termos a liberdade de fazer escolhas. Mas nunca é certo que tenhamos feito as escolhas mais correctas, aquelas que melhor defendem os nossos interesses ou os do nosso país. A liberdade, disse-o Pessoa, está também em ter um livro para ler e não o fazer. Até hoje nunca fiz greve. Mas sei que isso só é uma liberdade porque existe um livro onde o direito à greve está inscrito. Por tudo isto, convém que o senhor primeiro-ministro não se aproprie das decisões que tomo em nome da minha liberdade pessoal e intransmissível. Dei-lhe, é certo, o meu voto em 2011. E sei que as regras democráticas não me permitem recuperá-lo com efeitos retroactivos apesar do uso que lhe tem dado. O meu dia de trabalho de ontem, todavia, não é seu.