Separar Saramago do joio


Rui Rocha,

Saramago faria hoje 90 anos. Dou comigo a pensar que preferia que tivesse sido estrangeiro. Que a distância não me tivesse impedido de ler aqueles dois ou três livros seus que me ficaram de deslumbramento. Frases com ideias dentro, lembro-me bem de notar embasbacado enquanto embarcava nessa Península Ibérica que se separava da Europa naquele primeiríssima Jangada de Pedra. Não o enredo, a estrutura narrativa, mas as ideias que brotavam a cada frase e que pareciam ser a justificação última do livro. Como se conversássemos. E que não me tivesse mesmo, se tivesse de ser, poupado aos outros que acabei por abandonar. Como no Ano da Morte de Ricardo Reis, em que me devo ter ficado pelos primeiros dias de Março. Mas que me preservasse dos pormenores, das birras, do feitio, da cegueira ideológica, da Pilar e de outros bicos. Como das próprias tricas e invejas que também lhe dedicaram. E da mesquinhez das contas da água e da luz da Fundação. Essa proximidade áspera incomoda-me, perturba-me a leitura. Por mim, Saramago seria norueguês ou chileno. Teria vindo cá nas férias. Andado de eléctrico em Lisboa, como fez Transtromer. Comido naquele restaurante da Póvoa de Lanhoso onde está pendurada na ramada uma fotografia de Jorge Amado a beber vinho verde e a comer bacalhau. Ou teria sido um português mais antigo. Como Pessoa ou Camões. Porque ser um português antigo é uma outra forma de nos ser estrangeiro. De interpor distância entre nós e a realidade. De filtrar a pessoa de modo a que só nos fiquem as palavras e a lenda. Não sei se Camões tinha dentes podres. E é reconfortante pensar que descobrir a verdade sobre isso impõe um grande esforço que não estou disposto a fazer. Claro que alguém já escreveu sobre o tema numa tese que mereceu todas as honras e distinções de um júri de uma universidade qualquer. Mas essa tese, que existe, estou certo, repousa agora onde lhe pertence, no fundo de um obscuro repositório. Quero tanto a ventania de alguma escrita de Saramago que o seu hálito tão próximo quase me magoa as mãos quando lhe pego nos livros. E sei também que esse incómodo diz mais sobre mim do que sobre o próprio escritor.  

30 comentários em “Separar Saramago do joio”

        1. Foi director adjunto, e quem quiser ficar elucidado basta ir ao Google. Eu não preciso, pois já era crescidinho em 1975.

  1. Se não se importa, era preferível que fosse o Rui Rocha a mudar de nacionalidade, poderia ser Norte Americano, pois com os seus preconceitos ideológicos ficaria bem com essa nacionalidade. Assim não perderia Portugal um dos seus cidadãos mais brilhantes, ficando apenas com menos um blogger com alguma graça.

    1. Começo por sublinhar que o preconceito que me atribui é aquele em que incorre quando me associa à nacionalidade norte americana. Depois, esclareço que é uma perspectiva que não me aflige. Tenho da nacionalidade e dos nacionalismos a mesma abordagem que guardo para o euromilhões: questão de sorte, azar e circunstância. O brilhantismo de Saramago é, antes de mais, dele e só por muito interposta influência, do país. Entretanto, penso que terá compreendido que o que decorre do texto é a necessidade de distância e que a questão da nacionalidade ali colocada é geográfica e não de bandeira.

      1. Percebi tudo muito bem, mas se é para criar distância não seja egoísta, a distância daqui a Beja é a mesma que de Beja aqui, por isso pode ser o Rui Rocha, nesse seu cenário imaginário obviamente, a ser Norueguês ou Chileno, pronto. Assim obtinha a sua distância sem estragar a dos outros.

          1. Devo entretanto informá-lo que aqui em Bamako, no Mali, há um cafezinho simpático com um wifi muito aceitável que me permitirá continuar a colocar posts com regularidade, um dos quais versará, certamente, sobre a irrelevância da nacionalidade em tudo o que não estiver exclusivamente ligado ao futebol.

    2. Eu não gosto dos livros do Saramago, mas se lhe atribuiram o Nobel da Literatura, alguns meritos lhe hão-de ter encontrado. Mas convém não confundir a “obra prima do mestre” com a “prima do mestre de obras”, quer dizer confundir o homem com a sua obra. O que não falta por aí são génios, da musica, da pintura, ou da literatura que como pessoas eram execráveis.
      E Saramago, se para muita gente foi um grande escritor, e não sou eu quem o nega, já como ser humano deixa muito a desejar, e a sua passagem pelo Diário de Noticias foi um exemplo disso mesmo.
      Por aquilo que ele fez no DN, comportando-se mais como comissário politico do que como jornalista e sub-director do jornal, podemos pensar no que ele teria feito se o PCP tivesse alguma vez tomado as redeas deste país: provavelmente teria passado de sub-director do DN para director do Campo Pequeno.

  2. Eu também fiquei deslumbrado com o Memorial do Convento. E gostei muito da Jangada de Pedra. Ainda li Todos os Nomes, mas não consegui ler mais nenhum.
    Saturei, mas mantive pelo escritor grande respeito e admiração.
    Aborrecem-me, todavia, essas casas de dois bicos e essas habilidades para manter uma fundação sem fundos.
    Quem estará a receber os direitos do autor que me surpreendeu?
    Além disso, nunca gostei de pilares. Prefiro colunas…

  3. Li o “Memorial do Convento” há alguns anos e adorei. Mais tarde devorei “O Evangelho segundo Jesus Cristo” e terminei há pouco “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Muito bons.
    Relativamente a outros livros do autor não consegui passar das primeiras linhas. Não simpatizo nem um pouco com J. Saramago, mas reconheço que me proporcionou momentos de muito boa leitura. Quanto à Dona Pilar, além de muito vaidosa, é uma oportunista.

  4. escritor que já arrecadou o seu lugar e ser humano, cheio de idiossincrasias, defeitos, pecados e misérias como todos os outros seres humanos. isso não diminui o seu génio. mas entendo que fosse mais fácil para os outros, nós, que a distância nos deixasse mais confortável com a sua vida de pessoa comum. never the less, hoje recordei-o, neste seu aniversário, como alguém que, inegavelmente, marcou a minha vida.

    1. Mais curioso ainda é este denominador comum que parece haver nos leitores de Saramago (nos quais me incluo, sem variar a regra): gostar muitíssimo de um, dois ou três livros, a ponto de achar que marcam uma vida; e não gostar nada dos restantes, a ponto de deixá-los a meio.

  5. Escrevendo assim (independentemente da apreciação sobre a pessoa JS) devia insistir e recomeçar a ler O Ano da Morte de Ricardo Reis. Asseguro-lhe que não perdendo de vista Pessoa vale muito a pena. E se já leu o Memorial siga com o Cerco a Lisboa. Não se esqueça de ler os Cadernos e verá que se alguma coisa Saramago teve de grande em vida foi a humanidade, e passe o pleonasmo, de grande humanista que soube ser no tempo que coube. Ah! fundamental mesmo é Levantado do Chão. Mas…para compreender… talvez seja necessário ter vivido um pouco antes do PREC durante e depois.

    1. Eu vivi antes do PREC, assisti e participei no PREC, e ainda estou vivo, o que me habilita, segundo diz, a compreender o Saramago. Talvez por isso mesmo é que escrevi o que escrevi, como pode ver mais acima. E não concordo nada com aquela coisa da humanidade em Saramago. Nada mesmo.

  6. o título está engraçado…como engraçado é verificar que passou o tempo em que não se gostava dos livros de saramago por causa das pontuações e assim…

  7. Saramago é horrível. Um chato, sem interesse.
    Li Saramago até porque tenho amantes da sua “literatura” na minha família. Tive de o ler.
    Passei muitas páginas na diagonal. Isto só acontece quando o livro é chato.

    Gostei da Jangada de Pedra. Mas acabou no fim do 1º capítulo. Depois foi um arrastar mórbido de quem já não sabia mais o que dizer. 5% de uma boa ideia e 95% de palavras sem criatividade, sem história.

    Saramago vale à custa de quem nunca o leu, ou pouco leu dos outros. A ileteracia funcional que a escola tem produzido, também tem culpa.

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