Nem pense nisso, senhor primeiro-ministro


Rui Rocha,

O senhor primeiro-ministro elogiou ontem, dia de greve geral, os que tiveram coragem para trabalhar. E acabo de o ver, num das televisões generalistas, a sublinhar o papel dos que ontem decidiram não fazer greve. O propósito é claro. Trata-se de separar os portugueses entre grevistas e não grevistas. Entre aqueles que estão empenhados em contribuir para um futuro melhor para o país e aqueles cujo comportamento, implicitamente rotulado de nocivo, deve ser tolerado porque, para além do mais, não existe outro remédio. Entre, em suma, aqueles que estão com o senhor primeiro-ministro e os que não estão. Pretende, portanto, o senhor primeiro-ministro colar-se a todos os muitíssimos que decidiram trabalhar. Mais, quer apropriar-se do dia de trabalho de todos esses tantos. Ora, é importante que fique claro, para meu sossego, que o meu dia de trabalho de ontem não é do senhor primeiro-ministro. É das minhas convicções, das minhas esperanças, das minhas dúvidas, das minhas lealdades, dos meus medos, do meu passado, do meu presente e do meu futuro. E da minha entidade patronal, a quem o vendi por preço que considero minimamente aceitável, à falta de melhor oferta. E já agora, para tudo dizer, por preço algum o cederia ao senhor primeiro-ministro para que dele fizesse uso político. Mais, o meu dia de trabalho de ontem valeu o que a minha entidade patronal paga por ele. Mas não vale mais do que o dia de greve daqueles que a decidiram fazer. Nestes casos, o que está certo é termos a liberdade de fazer escolhas. Mas nunca é certo que tenhamos feito as escolhas mais correctas, aquelas que melhor defendem os nossos interesses ou os do nosso país. A liberdade, disse-o Pessoa, está também em ter um livro para ler e não o fazer. Até hoje nunca fiz greve. Mas sei que isso só é uma liberdade porque existe um livro onde o direito à greve está inscrito. Por tudo isto, convém que o senhor primeiro-ministro não se aproprie das decisões que tomo em nome da minha liberdade pessoal e intransmissível. Dei-lhe, é certo, o meu voto em 2011. E sei que as regras democráticas não me permitem recuperá-lo com efeitos retroactivos apesar do uso que lhe tem dado. O meu dia de trabalho de ontem, todavia, não é seu.

38 comentários em “Nem pense nisso, senhor primeiro-ministro”

  1. Bravo!!!

    Isto está a ficar perigoso e muito próximo do ponto sem retorno, a atingir as raias do descalabro e da demência colectiva. Não admitiremos que façam de nós parvos! Já basta!

    (e eu não votei em si, mas noutro da coligação, deixe-me acrescentar)

    1. Bem sei. A “normalização” da greve e a evolução das relações de trabalho coloca questões pertinentes. Mas talvez se possa dizer da greve o mesmo que se diz da democracia. É um péssimo sistema mas não se conhece ainda coisa melhor.

    1. Caramba. Ao tempo que eu andava a matutar nisso: com quem é que aquele tipo se parece? É o Cebolinha! Só me falta agora confirmar se o Tó Zé não tem uns ares de Cascão.

    1. Fernando, a minha posição é a de que o direito à greve merece todo o respeito. Como tal, quanto menos se falar sobre o seu exercício, com alfinetadas, comentários e exemplos, melhor.

  2. Vou ser franco, o que me ficou na retina da greve geral de ontem, foram os casaquitos do pessoal da CGTP, que tambem o Senhor Arménio trazia quando andava com uma equipa de televisão atrás dele, enquanto colaborava com os camaradas para a preparação da dita.

    1. Lembro-me do que escrevemos na sexta-feira antes das eleições num post em que declarei votar em PPC, Isabel. Infelizmente as minhas e as suas expectativas, que não eram é certo, muito elevadas, foram defraudadas.

  3. Sim, também me parece que o governo não pode considerar como apoiantes os não grevistas. E, se bem entendi, o Passos Coelho fez essa ressalva: muita gente não fez greve, como gostaria, por não poder fazê-la, como é o caso dos desempregados.
    Todavia, a verdade é que só estão a fazer greves as classes trabalhadoras mais bem remuneradas. E, sobretudo, os funcionários públicos.
    E que essas greves prejudicam muito outros trabalhadores que auferem salários muito mais baixos, prejudica, e, às vezes, muito.
    Tenho para mim que a greve deveria ser o “último recurso”, e que uma greve “geral” só deveria ser decretada para derrubar o governo e substitui-lo por outro. Democraticamente, claro.
    Ouvi dizer que no Japão os trabalhadores muito raramente fazem greve, mas que, quando querem dizer à entidade patronal que estão descontentes, colocam uma fita no braço. E que, quando isso acontece, os patrões ficam preocupados e procuram satisfazer as suas legítimas aspirações. É uma ideia.
    Tenho para mim que a greve está a ser banalizada e que qualquer dia o povo cansa-se e vai voltar-se contra os sindicatos, o que é mau. Parece-me.

  4. Meu caro, (se me permite) meu amigo, honrosas, humanas e dignas palavras estas que formam/constituem este texto.

    I salute you, from thy heart.

    Obrigado. Abraço…grande abraço.

  5. ai, ai, o RR recusou-me a fazer a saudação:
    “avé ó primeiro, nós que vamos morrer, perdão, trabalhar, te saudamos”.
    isto vai ter consequências, vai, vai.
    (gostei muito)

          1. Não acredito na obrigação de votar apesar de tudo e de todos numa determinada eleição, Fernando. E não me sentirei culpado se as soluções que o sistema for capaz de apresentar não cumprirem os requisito que considero mínimos.

  6. Percebo o teu ponto de vista. Mas ele até se ‘apropria’ menos do que muitos outros, quando declaram que o «povo português» isto e aquilo…

    (E pode constituir uma surpresa mas eu não votei nele.)

    1. A comparação de Passos com outros é bem capaz de o favorecer, em geral, Jaa. Mas na minha relação com ele, one to one, isso é pouco relevante. Dei-lhe o meu voto. Não leva mais nada.

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