O senhor primeiro-ministro elogiou ontem, dia de greve geral, os que tiveram coragem para trabalhar. E acabo de o ver, num das televisões generalistas, a sublinhar o papel dos que ontem decidiram não fazer greve. O propósito é claro. Trata-se de separar os portugueses entre grevistas e não grevistas. Entre aqueles que estão empenhados em contribuir para um futuro melhor para o país e aqueles cujo comportamento, implicitamente rotulado de nocivo, deve ser tolerado porque, para além do mais, não existe outro remédio. Entre, em suma, aqueles que estão com o senhor primeiro-ministro e os que não estão. Pretende, portanto, o senhor primeiro-ministro colar-se a todos os muitíssimos que decidiram trabalhar. Mais, quer apropriar-se do dia de trabalho de todos esses tantos. Ora, é importante que fique claro, para meu sossego, que o meu dia de trabalho de ontem não é do senhor primeiro-ministro. É das minhas convicções, das minhas esperanças, das minhas dúvidas, das minhas lealdades, dos meus medos, do meu passado, do meu presente e do meu futuro. E da minha entidade patronal, a quem o vendi por preço que considero minimamente aceitável, à falta de melhor oferta. E já agora, para tudo dizer, por preço algum o cederia ao senhor primeiro-ministro para que dele fizesse uso político. Mais, o meu dia de trabalho de ontem valeu o que a minha entidade patronal paga por ele. Mas não vale mais do que o dia de greve daqueles que a decidiram fazer. Nestes casos, o que está certo é termos a liberdade de fazer escolhas. Mas nunca é certo que tenhamos feito as escolhas mais correctas, aquelas que melhor defendem os nossos interesses ou os do nosso país. A liberdade, disse-o Pessoa, está também em ter um livro para ler e não o fazer. Até hoje nunca fiz greve. Mas sei que isso só é uma liberdade porque existe um livro onde o direito à greve está inscrito. Por tudo isto, convém que o senhor primeiro-ministro não se aproprie das decisões que tomo em nome da minha liberdade pessoal e intransmissível. Dei-lhe, é certo, o meu voto em 2011. E sei que as regras democráticas não me permitem recuperá-lo com efeitos retroactivos apesar do uso que lhe tem dado. O meu dia de trabalho de ontem, todavia, não é seu.
Nem pense nisso, senhor primeiro-ministro
Rui Rocha,

Lindo.
Parabéns pelo post:-)
Obrigado, Paula.
Bravo!!!
Isto está a ficar perigoso e muito próximo do ponto sem retorno, a atingir as raias do descalabro e da demência colectiva. Não admitiremos que façam de nós parvos! Já basta!
(e eu não votei em si, mas noutro da coligação, deixe-me acrescentar)
Concordo, Fatima.
Àmen!!!
Mas, já agora, reflicta-se também no que Henrique Monteiro aqui escreve:
http://expresso.sapo.pt/greve-geral-ou-g reve-grisalha=f766717
Bem sei. A “normalização” da greve e a evolução das relações de trabalho coloca questões pertinentes. Mas talvez se possa dizer da greve o mesmo que se diz da democracia. É um péssimo sistema mas não se conhece ainda coisa melhor.
Caro Rui,
Faço minhas as suas palavras.
Sem tirar nem pôr.
Obrigado
Eu é que agradeço, Bernardo.
Pena que aquele cebolinha de 3 fios de cabelo, não possa ler o seu texto.
Caramba. Ao tempo que eu andava a matutar nisso: com quem é que aquele tipo se parece? É o Cebolinha! Só me falta agora confirmar se o Tó Zé não tem uns ares de Cascão.
Brilhante.
Obrigado, caríssimo.
Excelente, meu caro Rui.
Obrigado, Helena
.
ok. Mas basicamente ontem, o RR no lugar do 1º Ministro teria dito o quê?
Fernando, a minha posição é a de que o direito à greve merece todo o respeito. Como tal, quanto menos se falar sobre o seu exercício, com alfinetadas, comentários e exemplos, melhor.
Vou ser franco, o que me ficou na retina da greve geral de ontem, foram os casaquitos do pessoal da CGTP, que tambem o Senhor Arménio trazia quando andava com uma equipa de televisão atrás dele, enquanto colaborava com os camaradas para a preparação da dita.
Sim, percebo isso, Fernando. Mas tenho dois olhos. Procuro manter ambos abertos.
Bravo.
Relativamente ao voto, o meu sentimento é igual ao do Rui.
Lembro-me do que escrevemos na sexta-feira antes das eleições num post em que declarei votar em PPC, Isabel. Infelizmente as minhas e as suas expectativas, que não eram é certo, muito elevadas, foram defraudadas.
Lamento não escapa.
Metade do dia é provavelmente do Estado, do Governo.
Como estamos em Novembro, gosto de pensar que me vi livre do confisco por alturas do Verão, Lucky.
Sim, também me parece que o governo não pode considerar como apoiantes os não grevistas. E, se bem entendi, o Passos Coelho fez essa ressalva: muita gente não fez greve, como gostaria, por não poder fazê-la, como é o caso dos desempregados.
Todavia, a verdade é que só estão a fazer greves as classes trabalhadoras mais bem remuneradas. E, sobretudo, os funcionários públicos.
E que essas greves prejudicam muito outros trabalhadores que auferem salários muito mais baixos, prejudica, e, às vezes, muito.
Tenho para mim que a greve deveria ser o “último recurso”, e que uma greve “geral” só deveria ser decretada para derrubar o governo e substitui-lo por outro. Democraticamente, claro.
Ouvi dizer que no Japão os trabalhadores muito raramente fazem greve, mas que, quando querem dizer à entidade patronal que estão descontentes, colocam uma fita no braço. E que, quando isso acontece, os patrões ficam preocupados e procuram satisfazer as suas legítimas aspirações. É uma ideia.
Tenho para mim que a greve está a ser banalizada e que qualquer dia o povo cansa-se e vai voltar-se contra os sindicatos, o que é mau. Parece-me.
Não há dúvida sobre a banalização da greve, TA. O que considero é que os trabalhadores são os detentores do poder de decidir como a usam.
Há trinta e oito anos que dizem o mesmo.
Tenho 42 e ainda não me sinto velho…
Meu caro, (se me permite) meu amigo, honrosas, humanas e dignas palavras estas que formam/constituem este texto.
I salute you, from thy heart.
Obrigado. Abraço…grande abraço.
David, eu é que tenho de lhe agradecer as suas palavras e retribui-lhe com um abraço amigo.
ai, ai, o RR recusou-me a fazer a saudação:
“avé ó primeiro, nós que vamos morrer, perdão, trabalhar, te saudamos”.
isto vai ter consequências, vai, vai.
(gostei muito)
Avé nem à Maria, Carlos. E bem vistas as coisas ela era capaz de ser rapariga para merecer mais.
Já que estamos numa de confissão em quem votaria agora o caro RR?
Branco. Porque não posso votar negro.
…e a solução para o nosso problema era? Dar uma de avestruz?
Não acredito na obrigação de votar apesar de tudo e de todos numa determinada eleição, Fernando. E não me sentirei culpado se as soluções que o sistema for capaz de apresentar não cumprirem os requisito que considero mínimos.
Percebo o teu ponto de vista. Mas ele até se ‘apropria’ menos do que muitos outros, quando declaram que o «povo português» isto e aquilo…
(E pode constituir uma surpresa mas eu não votei nele.)
A comparação de Passos com outros é bem capaz de o favorecer, em geral, Jaa. Mas na minha relação com ele, one to one, isso é pouco relevante. Dei-lhe o meu voto. Não leva mais nada.