Motivação nas organizações


Rui Rocha,

Há, seguramente, milhões de estudos, teorias, propostas e abordagens ao tema. No fundo, trata-se de descobrir o mecanismo que faz com que um trabalhador tenha uma súbita vontade de esforçar-se (ainda) um pouco mais. De fazer (dizem os consultores) an extra mile. O clique que faz com que, diríamos nós em bom português que por alguma coisa não somos consultores, um trabalhador tenha um desejo genuíno, altruísta e indomável de correr pela sua empresa. Pois bem. Após anos e anos de trabalho de campo, estou em condições de revelar ao mundo (e a si, leitor do DELITO DE OPINIÃO, em estreia absoluta), o único método verdadeiramente infalível  e com validade universal (aplicável a todos os níveis hierárquicos), testado em milhares de situações, para pôr um trabalhador de uma organização a correr. Na verdade, é muito simples. Basta seguir rigorosamente os seguintes passos.

 

  1. Escolha um corredor ou passagem da empresa com mais de 5 metros de comprimento
  2. Coloque-se estrategicamente junto de uma porta do corredor ou passagem
  3. Aguarde pacientemente que um trabalhador da empresa surja no horizonte
  4. Quando a pessoa em causa estiver ainda razoavelmente distante da sua posição (não menos de 3 metros), segure a porta, fazendo-a perceber, através de linguagem corporal contida mas explícita, que aguardará todo o tempo necessário pela respectiva passagem e só depois retomará o seu caminho.

 

Estou certo que conseguirá pôr  a pessoa a deslocar-se em passo muito mais rápido ou até a correr, ainda que se trate do CEO da empresa. Nos milhares de casos em que testei o método, apenas não consegui resultados satisfatórios com o Lopes que tinha sido operado à coluna. Aqui fica pois esta partilha desinteressada. Apenas peço em troca que aplique o método e que nos traga, a benefício da ciência da motivação, notícia dos resultados alcançados.

Contra os cínicos, declaro-me optimista: existe agora uma possibilidade real de Ricardo Salgado ser condenado


Rui Rocha,

Depois do estupor provocado pela detenção de Ricardo Salgado, engrossa a fileira dos cínicos. Agoiram que o homem só será realmente julgado daqui a uma década, que a teia de interesses, subterfúgios, expedientes e recursos processuais impedirá qualquer condenação efectiva, que tudo acabará em águas de bacalhau (bacalhau, salgado, perceberam?), que o monte branco acabará por parir um rato (esta então foi de uma oportunidade…). Pois eu, vendo o verdadeiro terramoto ocorrido recentemente no sistema jurídico português, tendo a estar extremamente optimista. Creio que existe agora uma possibilidade consistente de Salgado ser julgado e condenado em tempo mais que aceitável. Isto, claro, se entretanto abandonar à sua sorte um bichano, um rafeiro ou, de acordo com algumas interpretações, uma ratazana.

Monte Branco


Rui Rocha,

 

Uma breve nota de geomorfologia alpina. Como pode ver-se na imagem, mesmo ao lado do Monte Branco, fica o Monte Maldito. O que faz todo o sentido. Um pouco mais à esquerda, o Monte Rosa. Se é que me entendem. Mas, se olharem bem, temos também, ali mais à direita, os Bosses. Mais não digo. E, se disserem que disse, nego.

Portugal não é ainda uma república de santanas


Rui Rocha,

Vamos cá ver uma coisa. Não tenho nada contra o facto de o Dr. Passos, individualmente, dar asas a um desejo incontrolável de se cobrir de ridículo. Por mim, pode pintar a cara de verde, caminhar de andas, fazer piruetas no tejadilho de um eléctrico ou tocar ferrinhos num daqueles programas televisivos de domingo à tarde. Outra coisa bem diferente é tomar decisões que são ofensivas para os portugueses, independentemente das suas preferências políticas. Bem sei que o facto de ter escolhido e mantido o Dr. Relvas no governo para lá de todo o mais elementar bom senso, de ter aguentado o Dr. Machete como ministro não sei de quê ou de continuar a ter como porta-estandarte a Dra Teresa Leal ao Coelho e a sua écharpe, sem que tenha sucedido revolução, motim ou cataclismo, dariam a qualquer um certa sensação de impunidade. Há, todavia, limites para tudo. E é bom que o Dr. Passos perceba que, se persistir na tresloucada tentação de empurrar o Dr. Santana Lopes para as presidenciais, sujeitará o seu partido e o candidato a uma monumental humilhação, inversamente proporcional, aliás, à votação que poderá ambicionar obter. Apesar de todo o esforço do Dr. Passos e da elevada concentração de palermas, tarolas e bananas evidenciada pela política doméstica, não chegou ainda o tempo de sermos considerados oficialmente uma república de santanas.

As incríveis coincidências que rodeiam os desastres aéreos e o jornalismo que nos traz tais notícias


Rui Rocha,

Os últimos dias trouxeram de volta um ramo do jornalismo de investigação extremamente interessante. Trata-se de sublinhar coincidências notáveis relacionadas com acidentes aéreos. A coisa, ao que parece, é praticada em duas modalidades. Uma consiste em identificar cidadãos marcados pela tragédia em vários desastres. O jornalista incansável procura debaixo dos escombros o habitante anónimo de uma área remota da ilha de Bornéu que perdeu uma tia num voo fatal de uma companhia malaia e um compadre num outro avião com a mesma bandeira que foi derrubado por um míssil. Não há, convenhamos, coração que resista a uma história destas. E se nos permitimos continuar com a nossa vida sem uma profundíssima depressão é apenas porque existe a outra modalidade do mesmo ramo do jornalismo. Aquela que procura incansavelmente o caso afortunado da pessoa que, por incrível conjugação da sorte e do destino, escapou de viajar em ambos os voos. Que sorte, caraças. Qualquer um fica até com uma pontinha de inveja. Esquecendo, inclusivamente, que o facto de estar a ler tão estimulantes notícias tem implícito o significado profundo de ter escapado, até à data, a todos os acidentes aéreos acontecidos, pelo menos, depois do nascimento. 

Entretanto, à esquerda


Rui Rocha,

Partido, bloco, corrente, sensibilidade, tendência, fórum, alternativa, manifesto, petição, plataforma… Por este caminho, só falta mesmo experimentar o terraço e a açoteia. Parecem infinitas as possibilidades de (des)organização do espaço político à esquerda. A fragmentação e a incapaciadade crónica de entendimento não podem ser uma coincidência. Pela sua recorrência e permanência esta circunstância só pode corresponder a uma característica intrínseca do modo de ser da esquerda portuguesa. E, aqui, o traço mais evidente que ressalta é o da superioridade moral que todos os que se querem situar nessa geografia política se arrogam. É assim face ao espaço à direita. O auto-proclamado cidadão de esquerda considera-se a si próprio como ocupando um degrau superior na cadeia política e, pela ordem natural das coisas, declara-se mais culto. Mas é assim também dentro da própria esquerda. Recorrentemente, a discussão centra-se na pureza da proposta de todas e cada uma das esquerdas. No comprimento progressista da visão das alternativas. Na dimensão, espessura e profundidade das utopias de cada um dos protagonistas. Ora, quando num determinado espaço político cada um dos partidos, blocos, correntes, sensibilidades… (pois, já sabemos), parte para a discussão ancorado num pressuposto de superioridade indiscutível da posição que defende, o caminho está à partida impedido para qualquer entendimento.