Tipologia dos assentos


Rui Rocha,

Com a coisa do banco bom e do banco mau convém que não nos desviemos do essencial. O único banco adequado a uma situação desta natureza é um mocho: aquele onde se devem sentar os administradores, compadres, auditores e revisores que se conluiaram para provocar um dos maiores escândalos financeiros da nossa história.

Ilunga


Rui Rocha,

De acordo com vários estudos linguísticos internacionais, Ilunga, palavra do dialecto Tshiluba falado no sul da República Democrática do Congo, é uma das mais difíceis de traduzir. Pelo visto, Ilunga descreve a situação de uma pessoa que aceita um abuso uma primeira vez, tolera esse abuso uma segunda vez, mas está completamente indisponível para aceitar ou perdoar um terceiro abuso. Pois assim estamos. Pelo caminho que as coisas tomam, em breve precisaremos de uma palavra ainda mais complicada para a língua portuguesa. Aquela que, depois dos escândalos do BPP, do BPN e do BES, traduza a nossa incapacidade de tolerar um abuso mais que seja. E temo que depois precisemos ainda de outras palavras complicadíssimas de traduzir, à medida que forem abusando mais e mais.

Granadeiro, o Justo


Rui Rocha,

Na Atenas berço da democracia, Aristides, herói a quem coube a organização da Liga de Delos e a definição da estratégia na batalha de Maratona, mereceu o cognome de Justo. Mas nem isso impediu que, nas voltas da polis grega, o seu nome fosse discutido na assembleia anual em que os cidadãos votavam os políticos que, por perigosos, deviam ser condenados ao ostracismo. Conta Plutarco que nessa reunião um camponês se aproximou do próprio Justo, não sabendo quem ele era, e lhe pediu para inscrever o nome Aristides na telha destinada a registar o nome dos que deviam ser ostracizados, pois que não sabia escrever. Surpreendido, o Justo perguntou ao camponês que mal lhe fizera o tal Aristides, ao que o camponês respondeu que nada, que nem o conhecia, mas que estava farto de que todos lhe chamassem Justo. Aristides, sem mais perguntas, escreveu o seu nome na telha, juntando assim, pelo seu punho, mais um voto à própria condenação. A carta de Granadeiro é a telha de Arisitides, o voto de um Justo que se condena a si próprio à demissão ainda que nada lhe pese, ainda que nenhum facto praticado possa perturbar a natureza pacata da sua consciência. Como Aristides, que enquanto se afastava de Atenas ia rezando aos Deuses para que fossem benévolos com o futuro da Grécia, Granadeiro, o Justo, agiu sempre, apesar dos actos de terceiros, no melhor interesse da Portugal Telecom, dos seus colaboradores e de todos os accionistas. Assim sendo, como é, o Justo Granadeiro merece da PT e desta nossa pátria, que no fundo são uma e a mesma coisa, aquela a insígnia e esta o desígnio, tratamento idêntico ao que era reservado aos gregos ostracizados: respeito por todos os seus bens e propriedades durante a ausência de funções de Chairman e outras brincadeiras. Que a democracia grega era primitiva mas já então não era primária. Granadeiro, o Justo, não pode esperar menos e, se este ainda for o país que sempre foi, não deve ter menos. Se dúvidas houvesse, aí estariam sempre novecentos milhões de moedas de euro a dar testemunho e garantia.

Má sorte não terem investimentos na Comporta


Rui Rocha,

 

De acordo com o Diário de Notícias, dois alegados burlões, um de 30 anos e outro de 31, residentes na Amadora, terão sido detidos por comercializarem kits de produção de notas. Pelo visto, vendiam estes kits com a promessa de que bastaria colocar ali notas de euros que depois sairiam do outro lado com o valor triplicado graças a uma reacção química. Os dois alegados burlões terão sido detidos na quarta-feira, em flagrante delito, depois de terem recebido mais uma tranche de pagamento de uma vítima, uma mulher de 57 anos, comerciante, que no conjunto lhes passou cinco mil euros para as mãos. Um dos homens estará já acusado formalmente de burla noutro processo. Trata-se de uma situação registada em Março de 2013, em Loures, também relacionada com a venda de um kit de produção de notas. A vítima dessa vez terá sido uma mulher de 50 anos, empresária, que confiou 15 mil euros ao alegado burlão na esperança de triplicar o respectivo valor. Na notícia, a única coisa que não percebo é o excesso de cautela do Diário de Notícias. Insiste em chamar aos prevaricadores alegados burlões quando é óbvio que são culpados. Não tiveram, sequer, o cuidado de nomear um regulador que garantisse a solidez do negócio. E também não têm, ao que se sabe, investimentos imobiliários na Comporta.

Antevisão da nova época futebolística


Rui Rocha,

Do ponto de vista da fé, a nova época será mais pobre. Privados de Espírito Santo, que orientará o Valência, resta-nos esperar pelos embates épicos entre Deus, do Gil Vicente, e Jesus, do Benfica. Mas, por outro lado, digam-me, se conseguirem lembrar-se, em que outros momentos da história do ludopédio lusitano estivemos tão perto de ter um derby que opussesse Rabiu a Rabia.

O assombro do inexplicável


Rui Rocha,

William Topaz McGonagall ficou conhecido, ao que parece com razoável justiça, como o pior poeta de sempre da língua inglesa. A dimensão do talento de McGonagall percebe-se melhor se tomarmos um exemplo da sua vasta obra:

Beautiful Railway Bridge of the Silv’ry Tay!
Alas! I am very sorry to say
That ninety lives have been taken away
On the last Sabbath day of 1879,
Which will be remember’d for a very long time.

 

Pelo visto, na tragédia em que McGonagall se inspirou, morreram, na realidade, 75 pessoas. Mas, na verdade, isso não importa. Já se sabe que a veia não se deixa conformar pelos estreitos caminhos dos factos e que o poeta deve dar vazão à sua urgência criadora. De acordo com crónicas credíveis, a inspiração levou McGonagall a incontáveis momentos de apoteose junto de um público que aproveitava invariavelmente as suas récitas para dar destino aos excessos de stock de ovos, tomates e vegetais diversos. A sua fama correu célere pelas colinas verdejantes da Escócia e a sua fama precedeu-o em incontáveis ocasiões. Informado da morte de Tennyson, McGonagall decidiu dirigir-se ao castelo de Balmoral para propor-se como poet laureate, tendo sido informado de que a Rainha se encontrava ausente sem previsão de regresso. Numa das suas obras mais notáveis, Poetic Gems, Mcgonagall deixou para a posteridade a confissão de que o momento mais assombroso da sua vida foi aquele em que descobriu o seu incomensurável talento poético. O mesmo assombro, a mesma vertigem da descoberta, terá experimentado o ministro Pires de Lima perante o inexplicável desastre financeiro do BES e da PT. Esperemos que, face à míngua de tomates que enfrentamos, e ao contrário do que aconteceu a McGonagall, Pires de Lima possa ainda ser reconhecido como poeta oficial da República Portuguesa.

O caso BES: uma demonstração científica da existência de viajantes do tempo


Rui Rocha,

Em 1986, o Journal of Portfolio Management publicou um artigo interessante: Is Time Travel Impossible? A Financial Proof. Nele, o economista Marc Reinganum salientava que alguém que dispusesse de uma máquina do tempo teria um enorme incentivo para manipular os mercados de investimento, utilizando o conhecimento do futuro para recolher enormes mais-valias. E se tal fosse possível, aconteceria numa escala tão grande que eliminaria o risco, fazendo que as taxas de juro fossem empurradas para zero. Por isso, o facto de existirem taxas de juro positivas provaria que não há viajantes no tempo. Os factos que rodearam o caso BES mostram, todavia, que Reinganum estava enganado. Determinadas decisões de venda de acções só podem ter-se devido a informação obtida por viajantes do tempo. A alternativa seria admitir a existência de práticas de insider trading, coisa que nos recusamos obviamente a admitir em players do mercado tão virtuosos. E, para além disso, a verdade é que as taxas de juro, por estes dias, estão historicamente baixas e muito próximas de zero.

A vitória de Crato


Rui Rocha,

Os resultados da Prova de Avaliação de Conhecimentos mostram o que qualquer pessoa de bom senso já sabia. Existem, entre os que exercem a função docente e aqueles que a ela se candidatam, abundantes exemplos de profissionais dedicados, cientificamente formados e pedagogicamente competentes. Mas, a par desses, permanecem nas escolas ou tentam entrar nelas uns bons milhares de professores e aspirantes a professores que não reúnem os requisitos mínimos para ensinar. O momento crítico do processo era, obviamente, o da realização da primeira Prova. A partir daí, a evidência sobrepor-se-ia sempre à contestação. A realidade é que numa prova extremamente fácil, mil e quinhentos candidatos a professores chumbaram. E a verdade é que muitos dos que passaram à justa (alguns milhares mais) numa prova dessa natureza, não têm também competência para exercer a função docente. Mas o importante era, no meio da contestação, conseguir abrir a porta. Depois disto, a Prova deverá ser um processo irreversível. Aplicando-se, naturalmente, quer a questões de conhecimento geral, quer a aspectos pedagógicos e científicos. E não existe do ponto de vista do interesse dos alunos (que é o que deve prevalecer) qualquer razão para que a Prova não se faça quer a todos os docentes contratados, quer aos que já integram o quadro. Para lá de todo o berreiro e contestação, teremos mais uma vez, se assim for no futuro, a comprovação de que dez a quinze por cento dos docentes não dominam conhecimentos elementares. Uma prova aplicada periodicamente a todos os docentes, com a possibilidade de uma fase de recurso, garantiria uma educação sustentada em patamares mínimos de competência e introduziria um factor de justiça dentro da própria classe docente. Não faltam, na verdade, exemplos de pessoas competentes excluídas do sistema apenas porque o critério determinante é o tempo de serviço. O processo foi em muitos momentos mal conduzido e os objectivos de Crato foram, sobretudo, tácticos. A exclusão de candidatos por via da Prova reduz o peso dos números do desemprego docente. Mas, a verdade é que, por uma vez, os objectivos tácticos coincidem com o interesse dos alunos e do sistema educativo. Já não é pouca coisa, se nos lembrarmos que genericamente esses interesses foram sempre em sentido divergente, como aconteceu com o aumento do número de alunos por turma.

Entretanto, na Comporta


Rui Rocha,

 – Ai Manel, Manel, Manel… se o menino não comer a sopa de barbatana de tubarão, abalone, pepino do mar e presunto Hunan, peço ao tio Ricardo para o levar para o banco mau!

– Buáaaaaa, a mãe é pior que o tio Ricciardi. Prometeu que passávamos a tarde a brincar aos pobrezinhos e agora quer mandar-me para o banco onde ficaram os pequenos accionistas. Buáaaaaaa!

Ainda sou do tempo em que este tipo de avisos se fazia através da entrega ao domicílio de uma cabeça de cavalo


Rui Rocha,

Num comunicado curto, Ricardo Salgado adianta que “aguarda pelas conclusões do relatório da auditoria forense realizada às contas do Banco Espírito Santo, relativas ao primeiro semestre de 2014, que está a ser feita pelo Banco de Portugal e pela PwC , momento em que se reserva o direito de se pronunciar sobre as mesmas”.

Hey Costa, over here!


Rui Rocha,

A pequena cidade de Ocean Shores, no Estado de Washington, tem uma curiosa tradição. Trata-se de relembrar a noite do ano de 1792 em que o explorador George Vancouver navegou ao largo da localidade sem a descobrir. Todos os anos, à meia-noite do último Sábado de Abril, para comemorar o Undiscover Day, a população junta-se no porto de mar e grita Hey George, over here! Creio que seria o caso de as instituições bancárias portuguesas adoptarem uma celebração semelhante. Tendo em conta tudo o que tem passado debaixo do nariz dos reguladores sem que estes sequer pestanejem, estaria bem que os conselhos de administração pretéritos e presentes se juntassem uma vez por ano à porta do Banco de Portugal e celebrassem o seu próprio Undiscover Day, gritando a plenos pulmões: Hey Constâncio, Hey Costa, over here!

Manter a narrativa


Rui Rocha,

– Bolas. Logo agora que tinha contado aos miúdos a história do bebé abandonado a quem chamaram Espirito Santo por ter sido encontrado numa igreja e que acabou por fundar o maior banco do país, acontece uma destas. E agora, o que é que lhes digo sobre esta coisa do Novo Banco?

– Diz-lhes que é uma alusão ao Novo Testamento.