Entretanto, à esquerda


Rui Rocha,

Partido, bloco, corrente, sensibilidade, tendência, fórum, alternativa, manifesto, petição, plataforma… Por este caminho, só falta mesmo experimentar o terraço e a açoteia. Parecem infinitas as possibilidades de (des)organização do espaço político à esquerda. A fragmentação e a incapaciadade crónica de entendimento não podem ser uma coincidência. Pela sua recorrência e permanência esta circunstância só pode corresponder a uma característica intrínseca do modo de ser da esquerda portuguesa. E, aqui, o traço mais evidente que ressalta é o da superioridade moral que todos os que se querem situar nessa geografia política se arrogam. É assim face ao espaço à direita. O auto-proclamado cidadão de esquerda considera-se a si próprio como ocupando um degrau superior na cadeia política e, pela ordem natural das coisas, declara-se mais culto. Mas é assim também dentro da própria esquerda. Recorrentemente, a discussão centra-se na pureza da proposta de todas e cada uma das esquerdas. No comprimento progressista da visão das alternativas. Na dimensão, espessura e profundidade das utopias de cada um dos protagonistas. Ora, quando num determinado espaço político cada um dos partidos, blocos, correntes, sensibilidades… (pois, já sabemos), parte para a discussão ancorado num pressuposto de superioridade indiscutível da posição que defende, o caminho está à partida impedido para qualquer entendimento.

12 comentários em “Entretanto, à esquerda”

  1. Não lembrava ao careca chamar a uma tendência (ou lá o que é) Associação Forum Manifesto, se eu lá estivesse teria alvitrado Forum Associação Manifesto (FAM) ou Manifesto Forum Asssociação (MFA)…

  2. Aquela choldra balança entre “reunião de condóminos” (nível patamar de escada) ou tertúlia de café-snack …

  3. Desde a sua fundação o BE tentou ter um ar messiânico, mas nunca ligou ás realidades, é (era) essencialmente constituído por pessoas que tendo boas ideias nunca as souberam pôr em pratica e alinharam sempre e em demasia para o bem dos Portugueses (e deles) com uma certa “franja” do PS e por arrasto com o mesmo em questões e problemas que já se afiguravam graves na altura como os gastos excessivos do estado e sempre defenderam mais despesa.

    Ora um partido formado por um conjunto de pessoas que não tem contacto com a realidade porque não governa em lado nenhum, porque é constituído por pessoas que sendo e tendo capacidades estão cegas por ideologias completamente ultrapassadas e que permite todo o tipo de correntes muitas vezes antagónicas no seu seio não pode sobreviver.

    Obviamente que se esta esquerda não consegue encontrar pontes entre si, bases comuns a partir das quais possa edificar algo como poderia alguma vez aspirar a fazer parte de um governo de Portugal e quem esvaziou o BE não foi o PC, foi o PS ao aderir por mero interesse táctico ás causas ditas fracturantes que o BE sempre fomentou.

    Um partido que todos os dias se esfrangalha desde 2011 não pode ser nunca opção para ajudar a governar um Portugal esfrangalhado desde 2002.

    E fora do contexto do post tenho quase a certeza que o PS de Costa não vencerá as eleições de 2015 porque os Portugueses não são parvos e estão esclarecidos acerca do que daí adviria e preferem um pássaro (quase a morrer de fome é certo) na mão do que 2 a voar.

    O problema maior do BE foi que a maior parte do seus mais ilustres membros sempre foram muito independentes na vida e sempre tiveram horror aos “compromissos” que acontecem em excesso no PSD, PS e CDS e nunca teve ou conseguiu produzir um cimento ideológico como PC sempre teve e que voltou a reafirmar novamente com Jerónimo de Sousa.

    Quem perde não é o BE é Portugal que deixa de ter um Partido estruturado e composto por pessoas independentes (demasiado) que deveriam ter tido uma visão com muito mais alcance não só pela educação que tiveram como pela história recente do séc. XX.

      1. Não ganharia coisa alguma, Portugal já tem Esquerda para dar e vender, começa na Constituição e acaba no PSD e CDS, que estão muito confortáveis com gastos do Estado a mais de 50% do PIB e a dizerem o que é que devemos ou não comer.

  4. Critica a fragmentação quem não percebe nem quer perceber: há mais propostas e debate de ideias entre 2 militantes de esquerda comuns do que entre todo o centro-direita europeu. Entre os 2 primeiros rapidamente se chega a questões fraturantes, entre os outros milhões há “pragmatismo” (do tipo do que se encontra na elite de empresários portugueses, como se vê no caso GES-BES-governos-PT-etc, ou seja, o pragmatismo “não concordamos ideologicamente porque não há ideias, mas somos bons amigos enquanto houver dinheiro para distribuir…”).

    O Bloco por si só, como o nome indica aos mais distraídos, foi uma convergência à esquerda entre 3 forças muito diferentes. Quando se formaram foram criticados como “saco de gatos”, agora que se separam são também criticados “nunca se entendem”… este tipo de críticas, sempre sobre a forma e nunca sobre o conteúdo, são o carimbo de “qualidade” da política baixa de todos os agentes que não são de esquerda (desde o centro do PS ao extremo mais à direita). O triste é que é uma forma vazia de fazer política que agrada a muita gente.

    Desde que o Bloco existe e eu posso votar que o meu sentido de voto é neste setor de esquerda, nem moderado nem extremista, que começou no Política XXI, estrangulado pelos outros 2 movimentos sectários do Bloco, mas que parece agora ter pernas para andar sozinho ou muito bem acompanhado (ou acompanhando) o Livre, que é o partido em que voto neste momento.

    Se aliarmos a isto uma corrente de socialistas cada vez menos identificada com o excesso de centrismo do PS, que é como quem diz, da falta de ideias chave que os diferenciem do que se diz e faz mais à direita, temos então um público alvo potencial para estes movimentos na casa dos 20% ou mais.

    Quando o Bloco quase chegou aos 15% de eleitorado, era isto mesmo que representava: uma alternativa de esquerda, mais moderada que o PCP e menos inútil que o PS. Tomaram caminhos que os colocaram na sombra do extremismo do PCP e ao mesmo tempo inúteis como alternativa ao PS, pelo que a sua expressão desceu para os 5% e a tendência é que desapareça.

    Perante isto era necessário a todos os que sabem que é fundamental para o futuro da governação dum Portugal democrático ter uma alternativa não extremista à esquerda do PS, criarem novos movimentos, manifestos, partidos, etc, debater e ver no que isso dava. As consequências práticas disto, após todas as saídas do Bloco, são a criação do Livre e a saída da Política XXI do Bloco.

    Fazem parte desses 2 movimentos de cidadãos muitas das melhores pessoas deste país, por isso não será de estranhar que nas próximas legislativas já concorram unidos, com o apoio de mais alguns independentes, até de dissidentes mais esquerdistas do PS e que alcancem o 4º lugar nos resultados finais, atrás de PS, PSD e PCP, mas já à frente de PP, de farsas como Marinho Pinto e do restante ruído de fundo.

    Para quem não percebe esta minha previsão, é só fazer as contas: a Política XXI representa 30% do Bloco e tem muitos simpatizantes no tal grupo que há alguns anos chegou a votar no Bloco e entretanto deixou de o fazer, enquanto o Livre, apenas recém criado, obteve já uma votação nas Europeias que lhe valem o título de melhor partido estreante e que em eleições legislativas, com estes resultados, teria já eleito deputados para a Assembleia da República.

    Se nos meses que se seguem, os tais movimentos, manifestos, fóruns, etc mostrarem, nos poucos segundos de tempo de antena que têm nos raros intervalos entre os “lavadores cerebrais do centrão” do costume, se mostrarem o tal debate sério, as ideias, a vontade de convergência para a criação da alternativa que o Bloco prometeu ser mas nunca foi realmente, então, aliando a isso a vitória previsível de António Costa no PS, bem como a sua facilidade de entendimento com outros pensamentos, prevejo que o próximo governo será uma coligação (no governo ou apenas no nº de deputados) entre o PS de A.Costa e o que sair do Livre ou da Política XXI e não só.

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