A final dos dois candidatos socialistas


Rui Rocha,

Com tanto alarido sobre a final dos dois Papas, esquecemos que a de hoje é também a final dos dois candidatos socialistas. E, ao contrário de Bergoglio e Ratzinger que adoptam uma certa neutralidade, aquele porque não quer utilizar o canal de comunicação privilegiado que terá com Deus para inclinar o relvado a favor da Argentina e este por só encontrar estremecimento de fé se o ludopédio se jogasse de cilício, é claro que os dois Antónios têm posição clara sobre a partida. Para Tó Zé, o cenário ideal seria aquele em que a Alemanha prescindisse da sua vitória egoísta e austeritária para deixar ganhar a Argentina das bancarrotas. Já para Tó Costa, se lhe perguntássemos, ganhariam as duas selecções. Porque só vamos lá com crescimento. E com riqueza. E com desenvolvimento. E com livros do Paulo Coelho. Para tudo e para todos. Como é óbvio, os dois Antónios estão completamente alheados da realidade. 

Delitos poéticos (12)


Rui Rocha,

LOS NADIES

 

Sueñan las pulgas con comprarse un perro y sueñan los nadies con salir de pobres, que algún mágico  llueva de pronto la buena suerte, que llueva a cántaros la buena suerte; pero la buena suerte no llueve ayer, ni hoy, ni mañana, ni nunca. Ni en lloviznita cae del  la buena suerte, por mucho que los nadies la llamen, aunque les pique la  izquierda, o se levanten con el derecho, o empiecen el año cambiando de escoba.

Los nadie: los  de nadie, los dueños de nada.
Los nadie: los ningunos, los ninguneados, corriendo la liebre, muriendo la , jodidos, rejodidos.
Que no son, aunque sean.
Que no hablan idiomas, sino dialectos.
Que no profesan religiones, sino supersticiones.
Que no hacen arte, sino artesanía.
Que no practican cultura, sino folklore.
Que no son seres humanos, sino recursos humanos.
Que no tienen cara, sino brazos.
Que no tienen nombre, sino número.
Que no figuran en la historia universal, sino en la crónica roja de la prensa local.

Los nadies, que cuestan menos que la bala que los mata.

 

Eduardo Galeano

 

Daniel Rodrigues, vencedor da secção Daily Life do World Press Photo 2013

Pântano portubes


Rui Rocha,

 

Ó bes salgado, quanto do teu sal 
São lágrimas de Portugal! 
Por te mantermos, quantas mães choraram, 
Quantos filhos em vão rezaram! 
Quantas noivas encolheram os pés
Para ficares com o nosso, ó bes! 

Os caceteiros


Rui Rocha,

Lata. É preciso lata para pedir a punição de Zuñiga pela lesão de Neymar. Não que a entrada não fosse dura. Que não merecesse punição disciplinar. Mas que dizer então das sucessivas entradas de David Luís. E do verdadeiro show de porrada de Fernandinho sobre James Rodriguez sem que o cartão amarelo tivesse saltado do bolso do árbitro. Sejamos francos. Os jogadores brasileiros podiam ter incendiado uma aldeia que o juiz espanhol continuaria impávido e sereno. Castigar Zuñiga esquecendo tudo o mais que se passou em campo constituiria agora uma espantosa inversão da realidade, num Mundial em que tudo parece devidamente alinhado para que a canarinha chegue à final.

David Luís chama a atenção de Fernandinho: James ainda está vivo

E depois de darmos as mãos até podemos formar uma roda


Rui Rocha,

Os engraçadinhos de turno atiraram-se a Costa por este ter defendido o fim da divisão entre as ilhas e o continente. Ora, sendo este um projecto difícil, não é, convenhamos, impossível de concretizar. Eu próprio vi há um par de dias um mestre do kung fu caminhar 10 metros sobre as àguas. Que a distância entre a Ponta de Sagres e a Ilha do Corvo é superior a 10 metros? Muito certo. Mas Costa é socialista. E o mestre do kung fu não. Entendidos? Adiante. O problema fundamental é que a piadinha fácil sobre este desígnio de Costa afastou as atenções de outro facto muito relevante da mesma intervenção. Costa apresentou a sua primeira medida concreta para regenerar Portugal. A proposta de Costa tem a simplicidade de tudo o que é genial. Não se trata de renegociar a dívida, reestruturar o aparelho de estado ou construir aeroportos. É, afinal de contas, algo muito evidente. Embora nenhum de nós tenha tido a capacidade de perceber, antes de Costa, que tínhamos a solução ao nosso alcance. O que nós temos de fazer, míopes e desatentos compatriotas, continentais ou adjacentes, é darmos as mãos. Não faltarão, naturalmente, cínicos com vontade de desatar a força com que entrelaçaremos os nossos dedos. Mas, depois de vermos a luz na sua flagrante e singela intensidade, nada já nos poderá deter. Darmos as mãos, claro, é uma proposta ainda relativamente vaga. Mas só por si, marca uma reviravolta política. Passos Coelho queria que emigrássemos. Costa quer-nos aqui, cada um de nós à distância de um braço do português mais próximo. Precisamos, claro, que Costa nos diga mais. Durante quanto tempo teremos de estar de mãos dadas? Um lustro, uma década, um século? Não caíremos na tentação de iniciar a cadeia no Terreiro do Paço, contribuindo involuntariamente para desertificar o interior, uma vez que não ha portugueses que cheguem para darmos as mãos até Torre de Moncorvo? Nesse épico cordão de solidariedade, nessa metáfora palpável da nossa união, poderá o Dr. Ricardo Salgado ocupar uma posição com vista para o Restelo, mas de costas voltadas para o Dr. Ricciardi? Será permitido ao Dr. César das Neves retirar a mão da cadeia periodicamente para ajustar o cilício? Poderá o Prof. Freitas do Amaral mudar regularmente de posição? E o Dr. Rui Tavares ficará à esquerda do elemento mais à direita do PS ou à direita de quem desce? O Dr. Relvas pode estudar enquanto estiver de mãos dadas? Se por azar ou punição divina me calhar ficar ao lado do Sérgio Godinho e este começar a cantar posso trocar com o Dr. Marinho Pinto? Se o Dr. Alfredo Barroso tentar abandonar o cordão em bicos de pés podemos obrigá-lo a ficar? Se a Maria Teixeira Alves ficar no meio de dois homosexuais pode escrever um post? Se estivermos todos de mãos dadas, quem é que tuíta? São dúvidas pertinentes. Angústias que só uma liderança esclarecida será capaz de dissipar. Mas, de momento, fica uma certeza reforçada pela convicção de vinte e cinco, digo, vinte e quatro fundadores do PS: Seguro é um palerma e Costa um líder extraordinário. Capice?

Chega de manobras de diversão


Rui Rocha,

Crise. Crise no país. Insustentabilidade da dívida. Querelas constitucionais. Portas que abandona. Ou não. O BES que implode. O PS que se desagrega. E um par de botas. Pois já basta. Podem utilizar todos os subterfúgios e cortinas de fumo de que se lembrarem. Mas nada, nada, nadinha, será suficiente para nos desviar a atenção do essencial. Hoje jogam-se os quartos-de-final do Mundial e Portugal não está lá. Querem-nos entretidos com questões laterais mas só se cobrem de ridículo. Cambada.