Dez notas sobre as eleições gregas


Rui Rocha,

  1. É aconselhável controlar os níveis de ansiedade. O mais certo é que após as eleições fiquem muitas questões por esclarecer que só se irão clarificando com o decorrer das semanas e, eventualmente, dos meses. No limite, as eleições podem revelar-se inúteis se não for possível encontrar uma maioria política ou consensos que permitam formar um governo. A mesma paciência será necessária para acompanhar prováveis e sucessivas rondas de negociação entre o novo governo e as entidades internacionais.
  2. Uma saída da Grécia do Euro terá sempre custos mais elevados para todas as partes do que as alternativas. Os credores internacionais, com a Alemanha à cabeça, sofreriam perdas elevadas. Mas será sempre um problema enorme para a Grécia. A consequência imediata seria mais recessão, desemprego e menor receita fiscal, impondo aos gregos um novo e significativo esforço de ajustamento. Para além do mais, a Grécia é beneficiária de transferências líquidas do orçamento comunitário que ficariam de imediato comprometidas.
  3. Não chegámos aqui por acaso. Desde o princípio, o que esteve em causa foi a intenção determinada de não admitir o moral hazard que decorreria de uma solução que aparentasse transferir para os credores internacionais e parceiros da UE os custos do desastre grego. Desenganem-se, portanto, aqueles que pensam que uma eventual vitória do Syriza fará alterar esta visão do problema. São possíveis, pela via negocial, soluções que permitam às duas partes salvar a face. Outras, de que decorra um aliviar significativo das imposições de ajustamento aos gregos ou que impliquem um capitular da posição da Alemanha estão fora de causa. Qualquer alteração mais ou menos substancial de orientação far-se-á sempre no quadro global, como acontece com as iniciativas do BCE, e nunca na relação directa com a Grécia.
  4. Mais. Ainda que se considerasse que a política adequada para um país periférico na situação da Grécia seria a redução da dívida e a adopção de uma política de investimento público, nunca a Alemanha aceitaria que esta fosse desenhada num contexto de imposição por um governo liderado pelo Syriza. À doutrina do moral hazard junta-se agora a necessidade germânica de não permitir que o exemplo de uma eventual posição de força grega potencie o desenvolvimento de fenómenos como o Podemos.
  5. A dívida da Grécia é provavelmente sustentável uma vez que o factor determinante é a taxa de juro, não o volume. A dívida grega, depois de sucessivas operações de reestruturação, e tendo em conta o contexto favorável, tem hoje taxas de juro francamente baixas e maturidades longas. Neste cenário, dificilmente a Grécia encontrará argumentos para forçar um perdão significativo da dívida. Uma estratégia negocial adequada poderá todavia permitir obter (ainda) melhores condições em termos de taxas de juro ou de maturidades.
  6. A evolução favorável das taxas de juro e um contexto global mais desanuviado, com a queda do preço do petróleo, poderão permitir algum desagravamento fiscal e um estímulo económico que permitirá recuperar algum emprego. Este efeito, se for acompanhado da já referida renegociação dos termos do serviço da dívida, poderão ser os suficientes para que um eventual governo do Syriza, sem impôr a sua agenda mais radical, apareça aos olhos da opinião pública como factor de melhoria da situação grega.
  7. Uma via complementar para estabelecer uma negociação mais equilibrada do ponto de vista grego seria a da promover alguma forma de indexação dos empréstimos à evolução do produto interno bruto, sempre no quadro de uma solução que garantisse a adopção de reformas estruturais que serão sempre exigidas pelos credores como contrapartidas.
  8. Mesmo os que acreditam que é possível impor uma linha política mais radical na vertente externa e que esta seria a mais adequada para a situação grega (perdão de dívida, financiamento para plano de investimento público), uma eventual insistência do Syriza na adopção de um programa estatizante e de planeamento central conduziria a Grécia à cristalização de novas linhas de rigidez estrutural que reforçariam a falta de competividade da economia. Isto é, se o teste da realidade será fundamental na vertente externa, não será menos decisivo ao nível da gestão interna das políticas económicas. Num cenário de negociação de soluções, as veleidades a este nível cedo se perderão pela imposição de garantias de concretização de reformas estruturais potenciadoras dos mecanismos de mercado.
  9. No pressuposto de que as partes envolvidas seguirão alguma racionalidade, por muito que isso fosse interessante do ponto de vista da análise e experimentação, não são de esperar situações de ruptura ou decisões irreversíveis. Teremos impasses, dúvidas, angústias e tensão. A corda esticará até onde não existir o risco de partir e o princípio da realidade imporá soluções a propósito das quais nenhuma das partes possa aparecer como irremediavelmente derrotada. O segredo reside na gestão de expectativas. Mas tudo isto parte do pressuposto de racionalidade. A este propósito são muito reveladoras as notícias sobre as receitas dos impostos gregos das últimas semanas. Na expectativa de uma vitória do Syriza, os contribuintes gregos deixaram de cumprir as obrigações fiscais de forma maciça. Correm igualmente notícias sobre um bank run com algum significado. A tentação de forçar argumentos negociais na vertente externa por parte de um governo do Syriza pode, paradoxalmente, fazer ruir o que resta da Grécia em virtude de movimentos irracionais desencadeados a partir de dentro.
  10. Perante todos os perigos e fantasmas que foram agitados a propósito do voto no Syriza, a decisão do povo grego é obviamente soberana. E, se essa for no sentido de dar a vitória a Tsipras é mais do que compreensível. Anos e anos de um sistema político corrupto e imoral, liderado em alternativa pelo PASOK e pela NOVA DEMOCRACIA dificilmente poderiam, na verdade, ter levado a outra coisa. 

Desnorte e hipocrisia


Rui Rocha,

Pelo visto, um gajo com 16 anos foi detido em França sob a acusação de defender o terrorismo. O delito que cometeu foi a publicação no Facebook do cartoon que podemos ver à direita. É preciso ser claro. O pior que pode acontecer na sequência da carnificina de Paris é trilhar de forma acéfala um caminho de restrição das liberdades. O lugar dos criminosos é na prisão. O dos idiotas, insensíveis, desbocados, escabrosos, blasfemos ou javardos, só por o serem, e por muito que o sejam, não.

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Uma espécie de Joana Vasconcelos do azulejo das salas de banho


Rui Rocha,

Apesar de ter afirmado, por diversas ocasiões, que o apartamento em questão pertencia ao amigo de infância, José Sócrates e Sofia Fava terão tido uma palavra determinante na remodelação da obra. Sócrates terá decidido, entre outras coisas, o tipo de azulejos que deviam ser usados na remodelação do apartamento, garante o mesmo jornal, que escreve sobre o luxo do mesmo apartamento.

 

Confrontado pelo juiz Carlos Alexandre com estas informações, José Sócrates terá dito apenas que aceitou ajudar o amigo a decorar o apartamento porque tinha “melhor gosto”.

 

Não sei o que vos parece. Mas afigura-se-me uma versão dos factos absolutamente credível. Aliás, quem tiver um bocadinho de memória não terá dificuldade em confirmar quer a questão do bom gosto, quer o valor estético-decorativo dos azulejos que estarão em causa:

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A Paixão segundo Francisco


Rui Rocha,

Naquele tempo, enquanto os soldados romanos o crucificavam, Jesus olhou os Céus e disse:

Pai, perdoa-lhes; pois não sabem o que fazem.

Mas logo ali continuou:

Agora, em verdade Te digo; se estes cabrões dos romanos abrirem o bico para dizer uma palavra que seja sobre minha Mãe, estrelinha que os guie, que deslargo-me da cruz e acerto-lhes um arraial de porrada naquelas trombas que ainda ficam todos roídinhos de saudades do Obelix.

 

(Os mais atentos constatarão que o post é repetido. Pois é. O ponto é que o Papa Francisco também veio dizer outra vez o que já antes tinha dito. Apesar de alguns lhe chamarem esclarecimento. Na verdade, nem sequer é bem a mesma coisa. É pior. Porque na versão inicial sempre estava em causa, em sentido figurado, a senhora sua mãe. E agora, se virmos bem, o que está em causa é uma formulação geral dirigida a qualquer tipo de sátira ou provocação. Perante a carnificina de inocentes, o Papa, em lugar de dedicar o seu tempo e o seu verbo a condenar radicalmente a bárbarie, prefere teorizar sobre a liberdade de expressão. Este relativismo moral de quem professa a crença no absoluto é francamente inadmissível. A insistência na ideia de provocação, num contexto destes é, ela sim, uma verdadeira blasfémia contra o valor sagrado da vida humana. Que cresce com a reiteração intencional do que já tinha sido dito. Perante inocentes trucidados, o Papa opta pela via corporativa de defesa do edifício intocável das religiões e investe na elaboração de uma tese que, queira ou não, acaba sempre na cedência à ideia da responsabilidade da vítima. Perante a bárbarie só pode existir condenação sem mas nem meios mas. Se virmos bem, a repetição do post é coisa bem pouca perante uma posição que é, falando sem rodeios, uma vergonha).

Ah meu bastardo, quem te desse uma parede áspera para coçares os cotovelos


Rui Rocha,

Passaram mais de dois mil anos sobre o nascimento de Cristo do qual bebemos a mensagem e o legado. E mais de 300 sobre a aurora do pensamento iluminista. Escreveram-se bibliotecas inteiras de filosofia moral. Fomos desenterrar os clássicos gregos e romanos para refundar o pensamento humanista. Proclamaram-se milhares de juras de fidelidade ao princípio irrenunciável da liberdade de expressão. E a cada volta do discurso os nossos ouvidos rejubilaram. Invocámos Voltaire e imaginámo-nos, tu, eu, cada um de nós, a morrer de peito aberto pelo direito de alguém dizer tudo aquilo com que não concordávamos. Erradicámos o crime de blasfémia do nosso ordenamento jurídico. Abominámos a condenação por delito de opinião. Viamo-nos assim. Puros, inteiros, justos, livres, airosos, tolerantes, conciliadores, modernos, arejados. Até ao dia em que o Figo ousou afirmar que jogou com outros melhores que o Messi (com essa podemos nós bem, que se lixe o piolho) e que o nosso, o nosso sim, Cristiano Rónaldo. A lata do sacana peseteiro e trânsfuga. Com uma só afirmação, um lampejo de sinceridade, trouxe-nos de volta àquilo que sempre fomos:  umas bestas incorrigíveis, uns fanáticos irreversíveis. Incapazes de perdoar aos que não se conformam com as nossas mais extraviadas crenças. Sim, porque quem não sente, não é filho de boa gente.

Se a virmos em sentido inverso


Rui Rocha,

A história de Sócrates é a saga de um político que saiu da prisão, pegou num país em ruínas, aumentou os funcionários públicos, promoveu um ambicioso programa de obras públicas e acabou por ser deposto numa espécie de golpe de estado constitucional promovido por Jorge Sampaio na sequência do qual Santana Lopes viria a assumir funções de primeiro-ministro.

A boa-aventurança


Rui Rocha,

Bom dia, senhor Terrorista. Espero que esteja tudo bem consigo, senhor Terrorista. Se me permite, senhor Terrorista, apresento-me. Sou agente das forças especiais francesas e estou aqui para o prender, senhor Terrorista. Mas não se enerve, senhor Terrorista. Estou certo que o senhor Terrorista tem imensas atenuantes que justificam ou até legitimam o incómodo que provocou aos caricaturistas do Charlie que acabou de despachar. Assim sendo, senhor Terrorista, não se importaria, gentilmente, de me entregar a sua arma? Ai, senhor Terrorista, que palavras tão feias que acabou de dizer. Ai, senhor Terrorista, não dispare assim a Kalashnikov que ainda acaba por me acertar. Olhe, ó senhor Terrorista, fazemos assim: eu tenho mesmo de disparar, mas vou fazer mira para a janela e o senhor Terrorista põe-se do lado da porta para eu não o atingir. E o senhor Terrorista pode continuar a disparar contra mim sem se magoar. Está bem, senhor Terrorista?

 

Ou, dito de outro modo, a desejável intervenção policial, segundo São Boaventura:

A resposta francesa ao ataque mostra que a normalidade constitucional democrática está suspensa e que um estado de sítio não declarado está em vigor, que os criminosos deste tipo, em vez de presos e julgados, devem ser abatidos, que este facto não representa aparentemente nenhuma contradição com os valores ocidentais

O Passos ainda vai ter de engolir a salsicha educativa


Rui Rocha,

A Oxford University Press, uma das maiores editoras do mundo, começou a avisar os autores de livros escolares para banirem a palavra “porco” ou qualquer referência ao animal. O objetivo é não ofender judeus e muçulmanos, já que para ambas as religiões o porco é considerado um animal impuro.

Mais um que mordeu o isco


Rui Rocha,

Pois é. Quando se admite que o terrorismo é desencadeado como resposta a uma provocação, em lugar de nos concentrarmos na condenação radical do acto, denunciando o seu desvalor absoluto e intrínseco, acabamos enredados numa discussão sobre a liberdade de expressão e os seus limites. Que desemboca sempre na racionalização do que não tem racionalidade possível e, nos piores casos, em atenuar a gravidade da agressão. Desta vez, quem se estatelou foi o Papa Francisco:

“Temos a obrigação de falar abertamente, de ter esta liberdade, mas sem ofender. É verdade que não se pode reagir violentamente, mas se Gasbarri [Alberto Gasbarri, responsável pelas viagens internacionais do papa], grande amigo, diz uma palavra feia sobre minha mãe, pode esperar um murro. É normal!”

A armadilha


Rui Rocha,

Se pensarmos bem, é provável que tenhamos caído (quase) todos numa monumental armadilha. Chocados, voluntariosos, acabámos a contrapor a valentia dos caricaturistas do Charlie Hebdo à cobardia dos terroristas. Isto é, condenámos a carnificina, mas deixámos que a discussão orbitasse em torno de uma resposta (brutal e intolerável, é certo) a uma provocação. Mas isto implica admitir uma racionalização do comportamento terrorista a partir da conduta da vítima. Da mesma forma que o juiz num processo de violação racionaliza a agressão no momento em que refere que a agredida se vestia de forma provocante. A racionalização opera, num caso e no outro, e ainda que a condenação do comportamento se mantenha sem contemplações, como uma cedência à narrativa do agressor. A verdade, todavia, é que ninguém viola alguém por causa de uma minissaia. Da mesma forma que os terroristas não matam em resposta a provocações. Os que morreram no 11 de Setembro, ou em Londres e Madrid, não tinham provocado ninguém. Dizer que o ataque aconteceu porque foram publicadas as caricaturas implica reconhecer que os agressores teriam vivido pacatos e serenos se o Charlie Hebdo não as tivesse publicado. E isso vale por desenhar, pelo medo, uma mordaça na boca de cada um de nós. Mas o certo é que aqueles ou outros teriam sido atacados, mais tarde ou mais cedo, independentemente de desenharem ou não. Terror é terror e para um terrorista todos os alvos são legítimos. Que o digam os muçulmanos que são vítimas, diariamente, dos mais abjectos comportamentos. Terroristas e violadores não precisam de um motivo. Precisam apenas de um pretexto.

Pensamento da semana


Rui Rocha,

Há uma acusação implícita no pensamento que sublinha os perigos da propagação do sentimento islamofóbico na comunidade na sequência dos actos terroristas dos últimos dias. Para os defensores desta tese, as comunidades atingidas passarão de forma acéfala a ver todos os muçulmanos como uma massa indistinta que ameaça a sociedade. Não percebem que estão eles próprios a ver essas comunidades, de forma acéfala, como uma massa indistinta que passará a odiar todos os muçulmanos.