O problema de António Costa e, em geral, dos partidos da esquerda bem comportadinha relaciona-se com duas questões fundamentais. Por um lado, a orientação política dominante na Europa, de que a chamada austeridade é o corolário, deslocou-se para a direita. Por outro, a crise dos últimos anos destruiu boa parte da classe média. Ora, para ser uma verdadeira alternativa a uma política mais encostada à direita não basta um discurso de proclamações bem intencionadas à esquerda e uma prática de conformismo com a situação actual. Quanto mais extremado à direita for o status quo, mais apelativas se tornam propostas mais radicais à esquerda. Para além disso, a erosão da classe média e o empobrecimento de muitos dos que a integravam reforça este efeito. Tal como o PODEMOS percebeu em Espanha, estão abertas as portas a um discurso de combate contra a casta. E a casta integra todos aqueles que, de alguma forma, possam ser considerados favorecidos, quer porque estiveram no poder, quer porque beneficiaram dele. Isto é, de repente os partidos que falam para o centro, para os moderados, para os conformados, para os razoavelmente satisfeitos, para a classe média, falam e não encontram lá ninguém. O debate político torna-se assim extremado entre propostas mais à direita e alternativas muito mais à esquerda do que aquelas que vinham monopolizando o poder. A realidade evolui rapidamente de uma situação em que o mainstream estava ao centro para uma outra em que temos dois streams mais afastados entre si e de sinal verdadeiramente antagónico. É como se, num jogo de futebol, de repente desaparecesse o meio-campo e a bola circulasse sempre entre a defesa e os avançados. Bem pode António Costa, depois do entusiasmo inical com a vitória do Syriza, vir afirmar que tira das eleições gregas uma única conclusão: o PS não é o PASOK. É apenas o início de um caminho. Mais à frente, Costa tirará uma única conclusão das eleições em Espanha: o PS não é o PSOE. E, com um bocado de jeito, ainda um pouco mais adiante, é possível que tire ainda mais uma conclusão única: o PS não é o PS francês. Mas mais tarde ou mais cedo acabará por perceber que é o próprio chão que lhe está a fugir debaixo dos pés.