Por favor, senhores jornalistas


Rui Rocha,

Quando se cruzarem com o Dr. Costa, agora já refeito dos guinchinhos adolescentes que a vitória do Syriza lhe arrancou, ouçam-no com toda a atenção enquanto afirma que a austeridade está a matar a Europa. Mas depois, quando puderem parar de tomar notas nos caderninhos, perguntem ao referido Dr. Costa, se não vos der muito incómodo, qual a sua opinião, se tiver uma, sobre o facto extraordinário de, nos países onde a chamada austeridade tem provocado consequências mais gravosas, as principais vítimas do processo serem os partidos socialistas. Isto é, a parentela política do Dr. Costa. Se quiserem dar como exemplo o PASOK na Grécia e socorrer-se duma sondagenzinha para ajudar a contextualizar a situação em Espanha, podem utilizar os resultados que se seguem. Pode ser? Obrigado, senhores jornalistas.

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A longa marcha de Varoufakis


Rui Rocha,

Decorrida uma semana sobre a tomada de posse do novo governo da Grécia, Yanis Varoufakis, o mediático ministro das finanças helénico, parece começar a empreender um conjunto de siginificativas reformas. Reformas da sua posição inicial entenda-se.

 

Perdão da dívida? Pois parece que já não:

Attempting to sound an emollient note, Mr Varoufakis told the Financial Times the government would no longer call for a headline write-off of Greece’s €315bn foreign debt. Rather it would request a “menu of debt swaps” to ease the burden, including two types of new bonds.

 

Programa de emergência social? Hmm, talvez já não seja uma prioridade:

Mr Varoufakis said the government would maintain a primary budget surplus — after interest payments — of 1 to 1.5 per cent of gross domestic product, even if this meant Syriza, the leftwing party that dominates the ruling coalition, would not fulfil all the public spending promises on which it was elected.

 

Alinhamento da posição grega com os interesses da Rússia? Não necessariamente:

“So, clearly, the issue was not whether our new government agrees or not with fresh sanctions on Russia. The issue is whether our view can be taken for granted without even being told of what it is!”

 

Varoufakis parece assim ter já iniciado a sua própria longa marcha. Tudo indica que se trata, mais rigorosamente,  de uma longa marcha-atrás.

Passado Presente (CDIV)


Rui Rocha,

Enchem [os portugueses] os bornais de dinheiro, à custa de Angola, comem à custa da Alemanha. Sobrevivem à miséria, usando como último refúgio a antiga “jóia da coroa”, feliz expressão do capitão de Abril Pezarat Correia. Mas na hora da verdade, conspiram e ofendem angolanos e alemães, usando a sua máquina mediática.
Jornal de Angola, 12 de Novembro de 2012 (via)

Os socialistas bem comportados entre a espada e a parede


Rui Rocha,

O problema de António Costa e, em geral, dos partidos da esquerda bem comportadinha relaciona-se com duas questões fundamentais. Por um lado, a orientação política dominante na Europa, de que a chamada austeridade é o corolário, deslocou-se para a direita. Por outro, a crise dos últimos anos destruiu boa parte da classe média. Ora, para ser uma verdadeira alternativa a uma política mais encostada à direita não basta um discurso de proclamações bem intencionadas à esquerda e uma prática de conformismo com a situação actual. Quanto mais extremado à direita for o status quo, mais apelativas se tornam propostas mais radicais à esquerda. Para além disso, a erosão da classe média e o empobrecimento de muitos dos que a integravam reforça este efeito. Tal como o PODEMOS percebeu em Espanha, estão abertas as portas a um discurso de combate contra a casta. E a casta integra todos aqueles que, de alguma forma, possam ser considerados favorecidos, quer porque estiveram no poder, quer porque beneficiaram dele. Isto é, de repente os partidos que falam para o centro, para os moderados, para os conformados, para os razoavelmente satisfeitos, para a classe média, falam e não encontram lá ninguém. O debate político torna-se assim extremado entre propostas mais à direita e alternativas muito mais à esquerda do que aquelas que vinham monopolizando o poder. A realidade evolui rapidamente de uma situação em que o mainstream estava ao centro para uma outra em que temos dois streams mais afastados entre si e de sinal verdadeiramente antagónico. É como se, num jogo de futebol, de repente desaparecesse o meio-campo e a bola circulasse sempre entre a defesa e os avançados. Bem pode António Costa, depois do entusiasmo inical com a vitória do Syriza, vir afirmar que tira das eleições gregas uma única conclusão: o PS não é o PASOK. É apenas o início de um caminho. Mais à frente, Costa tirará uma única conclusão das eleições em Espanha: o PS não é o PSOE. E, com um bocado de jeito, ainda um pouco mais adiante, é possível que tire ainda mais uma conclusão única: o PS não é o PS francês. Mas mais tarde ou mais cedo acabará por perceber que é o próprio chão que lhe está a fugir debaixo dos pés. 

 

O primeiro muro derrubado pelo Syriza


Rui Rocha,

O primeiro muro derrubado pelo Syriza não é, ao contrário do que dizem, o da austeridade. Esse é um jogo de tabuleiro em que se estão ainda a fazer os movimentos iniciais. Mas, entretanto, está aberta uma brecha de significativa dimensão na paz podre do rame-rame político. Independentemente das consequências das medidas aprovadas pelo governo de Tsipras, há um facto incontornável: estão a ser cumpridos na frente interna os aspectos essenciais do programa apresentado a sufrágio. Não há muitos por aí que possam orgulhar-se de tal coisa. O curioso é que este primeiro impacto provoca danos sobretudo à esquerda. Não propriamente à direita, uma vez que a distância do discurso esbate a viabilidade da comparação. Nem, naturalmente, às áreas da esquerda que genuinamente assumem uma agenda próxima da defendida pelo Syriza. Mas, claramente, naquela zona da esquerda povoada por passageiros de circunstância que tentaram aproveitar de forma oportunista a onda Syriza. O problema para estes é que fica cada vez mais evidente que, apesar das proclamações de circunstância e da tralha demagógica em que se vão entretendo, jamais seriam capazes de concretizar decisões como as que o novo governo grego aprovou nos últimos dias. Não faltará por aí quem vá tentar passar entre os pingos da chuva nos próximos dias.

Por favor, senhores jornalistas


Rui Rocha,

Se num dos próximos dias se cruzarem, por acaso, com Antonis Kostas, secretário-geral do Partido Socialista, em vez de se ficarem por tomar notas nos caderninhos daquilo que o personagem se lembrar de dizer, e tendo em conta o entusiasmo com que recebeu a eleição do Syriza, façam também alguma (todas não que podem tomar-lhe o gosto de exercer a profissão como deve ser), das seguintes perguntas:

  • quando o PS for governo, Antonis Kostas vai aumentar o salário mínimo para 750€?
  • quando o PS for governo, Antonis Kostas vai aprovar a distribuição de energia eléctrica gratuita a 300.000 portugueses carenciados?
  • quando o PS for governo, Antonis Kostas vai abolir as taxas moderadoras do acesso a consultas do Sistema Nacional de Saúde?
  • quando o PS for governo, Antonis Kostas vai concretizar algum programa de readmissão de funcionários públicos? Em caso afirmativo, em que moldes?

É que eu gosto de ir planeando o meu voto com alguma antecedência e preciso de saber se o entusiasmo é genuíno ou se é só o mais velhaco oportunismo. Pode ser? Obrigado.

Os resultados da PACC e as medidas que se impõem


Rui Rocha,

Os resultados da Prova de Conhecimentos e Competências aplicada aos candidatos a professores não podem deixar-nos indiferentes. Para lá de toda a discussão mais ou menos demagógica sobre a sua existência, as evidências forçam todos os interessados no processo educativo (em rigor somos todos) a desenterrar a cabeça da areia. Não é por não se querer ver que a realidade se torna diferente. O facto é que existem muitos (serão sempre demasiados) que estão ou pretendem estar a exercer funções docentes sem a mínima preparação pedagógica e científica para o fazer. E recorde-se que a prova em causa avalia apenas a chamada componente comum. Os resultados serão ainda mais devastadores no dia em que a parte científica também estiver em causa. Perante as evidências, é preciso dar agora mais dois passos:

 

  • aplicar uma prova a todos os candidatos a professores e aos que já exercem a função (sim, estou a falar dos docentes do quadro);
  • rever de alto a baixo e sem contemplações o sistema universitário de formação de professores.

 

Em matéria de educação pública os interesses determinante devem ser os da formação dos alunos. Os desejos corporativos não podem impor-se sobre e apesar daqueles.

 

Nota complementar: se bem interpreto, a minha posição conta com o inesperado apoio da Fenprof para quem os “chumbos” não provam que estes professores sejam piores que outros. Parece-me provável, de facto, que existam outros iguais já a leccionar. Também esses devem ser avaliados.