Os socialistas bem comportados entre a espada e a parede


Rui Rocha,

O problema de António Costa e, em geral, dos partidos da esquerda bem comportadinha relaciona-se com duas questões fundamentais. Por um lado, a orientação política dominante na Europa, de que a chamada austeridade é o corolário, deslocou-se para a direita. Por outro, a crise dos últimos anos destruiu boa parte da classe média. Ora, para ser uma verdadeira alternativa a uma política mais encostada à direita não basta um discurso de proclamações bem intencionadas à esquerda e uma prática de conformismo com a situação actual. Quanto mais extremado à direita for o status quo, mais apelativas se tornam propostas mais radicais à esquerda. Para além disso, a erosão da classe média e o empobrecimento de muitos dos que a integravam reforça este efeito. Tal como o PODEMOS percebeu em Espanha, estão abertas as portas a um discurso de combate contra a casta. E a casta integra todos aqueles que, de alguma forma, possam ser considerados favorecidos, quer porque estiveram no poder, quer porque beneficiaram dele. Isto é, de repente os partidos que falam para o centro, para os moderados, para os conformados, para os razoavelmente satisfeitos, para a classe média, falam e não encontram lá ninguém. O debate político torna-se assim extremado entre propostas mais à direita e alternativas muito mais à esquerda do que aquelas que vinham monopolizando o poder. A realidade evolui rapidamente de uma situação em que o mainstream estava ao centro para uma outra em que temos dois streams mais afastados entre si e de sinal verdadeiramente antagónico. É como se, num jogo de futebol, de repente desaparecesse o meio-campo e a bola circulasse sempre entre a defesa e os avançados. Bem pode António Costa, depois do entusiasmo inical com a vitória do Syriza, vir afirmar que tira das eleições gregas uma única conclusão: o PS não é o PASOK. É apenas o início de um caminho. Mais à frente, Costa tirará uma única conclusão das eleições em Espanha: o PS não é o PSOE. E, com um bocado de jeito, ainda um pouco mais adiante, é possível que tire ainda mais uma conclusão única: o PS não é o PS francês. Mas mais tarde ou mais cedo acabará por perceber que é o próprio chão que lhe está a fugir debaixo dos pés. 

 

0 comentários em “Os socialistas bem comportados entre a espada e a parede”

  1. Também está muito bem esgalhado, mermão. O alvo já não é no mesmo sítio. Quem quiser lançar setas vai ter de encontrar a destreza e lucidez para saber onde as fixar.

    Curiosamente, por palavras diferentes, fiz uma reflexão nesta linha em um de seus últimos posts e noutros mais relativamente ao esmagamento, e também empobrecimento, da classe média.

  2. Tudo certo: o Costa é apenas mais manhoso que Seguro e chega a provocar saudades dele, coisa que julguei impossível. Causa-me no entanto alguma estranheza que, seja Verão ou Inverno, faça frio ou calor, seja ou não altura de festas e “pontes”, em todo e qualquer fim-de-semana entre em Portugal uma multidão de espanhóis. Não me parece que venham à boleia nem que andem cá a contar as “pesetas”. Se não são classe média e têm assim tantas razões de queixa, pois que lhes faça bom proveito arriscarem no Podemos, se essa for a sua opção. Estão fartos de corrupção e de escândalos? Nesse ponto, têm razão. Mas desconfio que irão experimentar pior.

  3. Os exemplos de que a Brigada das Colheres se a volta do tacho público ganhou vida autonoma e por vezes defende mais a papa da sua colher que o bem publico será bem espalhado por todos os quadrantes. Quem souber apresentar propostas que tenham a narrativa mais consistente vai tirar ganhos significativos eleitorais. Fantasias syrisicas penso que não, porque o PREC ainda está na memoria de muitos e o PCP ainda atrai muitos. E. caviar defende com muito afinco mas a experiencia mostra que não há almoços gratis e ninguem se esqueceu após o PREC quem pagou a conta por tres vezes já.

  4. Kosta não se compara, é pior.
    Será pior em tudo, e francamente se for para mudar para pior, é melhor deixar como está.
    Pelo menos, sempre temos o PS no seu lugar – a fazer de conta que é de esquerda.

    Convém notar que, apesar de estar instalado um regime imperialista despótico, não foi ao jeito de Orwell – essa seria a linha soviética, seguiu mais o esquema de Huxley – a linha americana, das ilusões de Oz.
    Por isso, as aparências contam, e temos que saber jogar com elas.

    O PS deveria seguir o caminho do PASOK, e é isso que todos receiam.

  5. «Um dos advogados de José Sócrates, Pedro Delille, explicou ao Público que já entregou “uma intimação no tribunal para o director da cadeia revogar a ordem de retirada das botas ou para se abster de a executar”. Segundo o causídico, as autoridades prisionais fundamentam-se no regulamento que proíbe “calçado militar e capuzes”. Sucede que as botas em questão são, garante o dr. Delille, mais comparáveis a “botins” ou, visto que “forradas por dentro”, talvez entrem na delicada categoria das “pantufas”, sobre a qual o regulamento, que se limita a permitir “sapatos desportivos e chinelos”, é aparentemente omisso.
    Logo que acabe de imaginar o aspecto de umas pantufas forradas por fora, Portugal em peso suspenderá a respiração a fim de acompanhar esta batalha. Para o dr. Delille, tudo isto decorre de uma “discriminação negativa em relação” ao seu cliente. Decerto a exacta discriminação que obriga o ex-governante a aturar o dr. Soares mesmo fora dos dias de visita.
    Por mim, declaro-me solidário com José Sócrates. Frequentei a recruta militar na zona de Évora e tive problemas ainda piores com um par de botas, no caso por só me permitirem calçar aquela porcaria. Infelizmente nem os meus advogados foram eficazes nem o país marchou em benefício dos meus pés cansados. E ninguém me ofereceu merchandising do Benfica.»

    Gargalhadas ficadas a dever a Alberto Gonçalves (DN)

  6. Excepto a conclusão sobre o PS, muito pobre.

    Os problemas já vêm de há mais de 40 anos. Chama-se Populismo Socialista(seja socialismo de direita ou de esquerda):
    Oferecer-se e prometer coisas insustentáveis.
    Algo que não se pode cumprir para sempre.

    Por isso se foi ao crédito: para estender a ficção mais uns anos .

    Mas isso não é o âmago, o âmago é o entendimento que as pessoas fazem da realidade. E como os jornais e jornalistas são antros do marxismo, os resultados estão à vista.

    É significativa a luta constante dos educados nas Universidades contra a Matemática.

    Esta palhaçada é apenas temporária, quando começarem a faltar produtos nas prateleiras devido aos Podemos e Syrizas e escorraçarem os mais competentes de um país é que vai ser bonito- com a demografia a apertar.

    O que interessará é quem vai apanhar a fruta madura dos eleitores após a destruição marxista. Se ainda houver eleitores.

      1. Todos os jornais usam os valores marxistas:
        Para começar tudo é política, tudo deve ser controlado pela política.
        A favor de mais impostos e mais controlo sobre a vida dos outros.
        A necessidade de ter o dinheiro dos outros faz com que a culpa seja determinada sem julgamento. Listas de “devedores” ao fisco passaram sem condenação.
        Desigualdade, discriminação, pobreza – se interessarem à causa são valores a serem colocados todos os dias nas capas.

  7. (…) António Costa vai continuar como presidente da Câmara Municipal de Lisboa até as eleições e só sairá quando (e se) ganhar as legislativas e for nomeado primeiro-ministro. A garantia foi dada pelo vice-presidente da autarquia, Fernando Medina, que em entrevista ao Económico assegurou que o trabalho de Costa na câmara e no PS é conciliável.
    “Costa só deixará de ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa quando for nomeado primeiro-ministro”, disse Fernando Medina (…)

    (…) Em Junho 2011, António Costa declarou ser impossível acumular o cargo de secretário-geral do PS com a presidência da Câmara de Lisboa. “Não é possível acumular a liderança do PS e a presidência da Câmara Municipal de Lisboa. O PS precisa de um secretário-geral a tempo inteiro e o município de Lisboa de um presidente com dedicação exclusiva” (…)

    == dos media ==

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