«Apanhar os miúdos na escola às 19h00 parece uma coisa a raiar a negligência por aqui. Vivo em Copenhaga, correndo o risco de não acreditarem aqui vai… posso ver a agenda de qualquer pessoa na minha empresa, e as pessoas com miúdos pequenos marcam algures entre as 15h00 e as 17h00 “pick up John”. Depois passam tempo com os miúdos, deitam-nos, e trabalham mais uma horita em casa à noite.
Como é que uma malta que sai do trabalho às 16h00 tem um PIB n vezes maior que os portugueses? E ainda brincam com os miúdos todos os dias… Deve ser magia.»
Do nosso leitor José Oliveira. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

O caro Pedro que está por aí, tente percebê-lo e diga-nos. Por mim, parece-me que é uma questão, antes de mais, histórico-cultural; os dinamarqueses dispõem, a muito, de tecnologia avançada e multifacetada, na área alimentar, pescas, transporte marítimo, construção naval, etc, e indústria, virada para o mercado global, e ainda de recursos energéticos consideráveis. É uma questão de atitude, disciplina, visão, trabalho. Nós até somos capazes de fazer quase tudo o que eles fazem, mas…faltam-nos, salvo honrosas excepções, aqueles requisitos. Trata-se pois de economia de alto valor acrescentado com acompanhamento permanente do mercado e do cliente. Pode até trabalhar-se muitíssimo, mas se for em sectores de baixo valor e/sem eficiência…nada feito. Algumas empresas de top mundial do “meu sector” são dinamarquesas. Podem os vokings trabalhar pouco…, mas trabalham bem! É esta a razão. Julgo porém, o caro Pedro poderá confirmar, ou não, que a sociedade dinamarquesa não estigmatiza as pessoas em função do seu estatuto profissional ou social, antes, respeita a natureza intrínseca de cada um. E aqui radica a essência do progresso social; aquele elemento estruturante sem o qual nenhum progresso interessa. Por cá é i inverso que acontece; Portugal, historicamente, é um país de capelinhas, onde os instalados se apressam sob os mais variados pretextos de impedir que os neófitos lhes façam sombra. E é esta a razão profunda do nosso atraso. Afinal, a Santa Inquisição só foi extinta há escassos 170 anos – 1821. Foi extinta a instituição…mas ficou a cultura persecutória e punitiva que anda por aí, um pouco por toda a parte, sempre em nome de um mundo perfeito, propósito aliás de todos os grandes líderes da história, desde Alexandre a Hitler, passando por Napeleão, Mao e Estaline.
Foi extinta a Santa Inquisição, desapareceram os Jesuítas, mas ficou a Maçonaria a substituir. Não se preocupe, que há sempre quem esteja disposto a usar tribunais para intimidar as pessoas. Pode também aí colocar a Carbonária, que era o braço armado da Maçonaria, e que depois renasceu para fazer o PCP.
O problema histórico-cultural é simples:
– Como era possível fazer o que quer que fosse, se o barco-a-vapor apresentado por Blasco de Garay a Carlos V, em 1543, foi “esquecido” até reaparecer como invenção no séc. XIX, atribuída a Fulton.
– Ou que o projecto de balão a gás de Bartolomeu de Gusmão fosse arrumado… porque a apresentação oficial de balões foi marcada para 15 de Outubro de 1783, num festival organizado por um francês – Reveillon. Sim, para alguns isto foi uma festa.
Agora veja lá outra coincidência – milénios com os pés presos ao chão, e em França aparecem logo os Montgolfier e Rosier com balões diferentes, prontos a descolar no mesmo dia! – No entanto, não tenhamos ilusões o rei não perdeu logo a cabeça, só deixou que a corda do balão de Rosier fosse solta mais de um mês depois. Depois, o rei acabou mesmo por perder a cabeça, na guilhotina.
Estes são apenas dois, dos inúmeros exemplos que se conhecem, de como é fácil pegar em invenções ou descobertas alheias e fazer delas nossas.
Basta ser filho e não ser enteado.
Depois é fácil.
Afinal, por que razão é preciso trabalhar muito, se a ideia é ficar com o trabalho dos outros?
Esses sim, é que precisam de trabalhar, ora essa!
Um bom comentário. E eu gostaria de apontar algumas razões para ser assim.
Em Portugal usa-se o discurso que é necessário trabalhar MUITO, e faz-se muita coisa mal sem respeitar o trabalho que se desenvolve. Na Dinamarca trabalha-se BEM e respeita-se ainda mais o trabalho por todos executado. E trabalha-se o que é necessário trabalhar.
E por isto é fácil subsidiar-se a energia que se consome em casa, é fácil ir a um hospital sem necessitar de olhar para carteira, é fácil usar bicicletas e transportes públicos, é fácil ser aceite, ainda que se possua uma licenciatura, na execução de qualquer função, porque qualquer função é nobre e aceite, e PAGA-SE. Ainda que se valorize o ensino e a aprendizagem.
Em Portugal chama-se trabalho de equipa a quem diz yes boss ( e aqui incluem-se todos os outros que parecem ser mais que bosses), sendo o boss o único que pensa. Noutros quadrantes pensam todos e escolhem todos em equipa. Em Portugal age-se pensando por todos e regulando ao interesse destes a vida de todos.
Sim, há excepções, mas estas não podem servir de argumento. Há uma revolução que carece ser feita, mudar as mentalidades.
Esse é o tipo de organização empresarial moderno, o sinergético, que permite contrariar o ciclo de vida empresarial tradicional e que consiste na motivação integração do contributo de todos desde a base, na eficiência operacional e estratégica. Assim, todos pensam a empresa e aportam o seu conhecimento e experiência. Por cá, decidiu-se provocar a “eutanásia” empresarial através da indução de dificuldades administrativas e financeiras, na suposição de que as mais fracas morrerão, deixando espaço para outras mais eficientes e com maior intensidade de capital. Uma tristeza!, leia-se o “Reformar Sem Medo” do Álvaro e confirme-se a tragédia económica portuguesa que consiste no “terrorismo” burocrático do Estado.
Não é magia, é a realidade. Os povos, cá de baixo, pensam ser impossível porque lhes metem na cabeça que isso não pode ser. É que aí a corrupção é mínima e os governos, governam para os dinamarqueses, enquanto cá para baixo, os governos governam para os grandes grupos económicos e a corrupção mina tudo e todos. Também não nos podemos esquecer que a nossa justiça não funciona e é caríssima para um país onde o salário mínimo é 500€.
Essa Justiça é a negação de si própria, constituindo um dos grandes equívocos das sociedades europeias, para não dizer ocidentais; só os ricos e os pobres lhe têm acesso, devido ao elevado custo. Por outro lado a sua crescentemente inacessível complexidade, traduz-se no desconhecimento efetivo da lei pelos cidadãos, que, assim, ficam vulneráveis perante as autoridades, enquanto fautores involuntários permanentes de qualquer tipo de ilícito. E isto mina a confiança entre governados e governantes, que é o elemento agregador das sociedades livres.
A.J. S ( não, não é o Seguro) diria que a coisa se compreendia muito bem : a Dinamarca é habitada por dinamarqueses e Portugal…não.
No livrinho ” O que é Cultura” , na entrevista a Leonor Curado, o Prof.Saraiva explica bem o que pensa sobre este (recorrente) tema.
Não foi Camus que falou das “injustiças do clima”?…
Pessoalmente, estou farto destas dúvidas metódicas destes estrangeirados. Cheira-me mais a gabarolice do que a uma indagação honesta sobre maneiras de estar.
Tem que ver com o objectivo de uma cultura:
Em Portugal
Universidade – Não é para aprender, é para mudar de classe social.
Trabalho – Sítio onde recebemos dinheiro. Até se inventou palavra mais apropriada : Emprego.
Socialismo – Viver do cartão de crédito.
Ficou bem patente esta cultura das aparências quando os idiotas do Governo aboliram vários feriados.
Não entendem que Portugal não precisa de trabalhar mais, precisa de trabalhar melhor.
Isso vai mudar naturalmente — e só a crise resolve. O trabalho obsoleto (o que consome horas inesgotáveis e produz pouco) é o fundamento desta crise: o aparelho republicano/socialista/democrata-cristão criou todo este mundo que está agora a desaparecer. O custo dessa mudança traduz-se inevitavelmente em desemprego, pobreza, desespero e morte. O que devia ter sido feito não foi: fechar 3/4 da função públcia, recuperar a agricultura e investir em novas industrias de suporte tecnológico e passarmos de um país de serviços e de “formadores” (que não produz um cêntimo de riqueza) a um país com uma base industrial que seja pelo menos capaz de alimentar-se e suportar a segurança social , cujo financiamento será o dobro ou o triplo daqui a 20 anos. Era investir agora para colher daqui a 10 para não morrermos todos daqui a 20.
Mas primeiro é preciso sanear do Estado dos negócios parasitários das telecomunicações, televisões, obras públicas e futebol e toda essa corja nojenta que nos trouxe à situação presente com a cumplicidade de todos aqueles que actuam na praça pública com permanente delírio socialista e mentiras e falta de visão.
Esqueceu-se da globalização. Neste momento, competir, com países de mão de obra barata” escravatura” é um bocado impossível. Provavelmente, primeiro que tudo, é repensar esta globalização, em que as empresas, fogem para países onde a escravatura abunda e como consequência, o trabalho por aqui vai escasseando.
Mas nós precisamos da globalização porque com o sistema elitista de ensino que possuímos (doutoral, sem dissiminação do conhecimento técnico pela população) nunca existiria iniciativa privada: a qual, a salvarmos-mo-nos, é a única saída para o gigantesco número de desempregados com qualificações obsoletas como os cursos de ciências humanas (o maior logro em que embarcaram os nossos estadistas nos ultimos 20 anos). Um logro de esquerda.
Não tem mesmo a noção de quanto a globalização traz riqueza a Portugal. Quer destruir todo o trabalho tecnológico em Portugal?
E é impressionante como os portugueses se fiam nos seus jornalistas. Aqui existe a união Salazarista-Marxista e pensam – ou querem que se pense- que o mundo nunca muda.
Ou seja nunca entenderam o Capitalismo.
As coisas mudam. E mudam rápido.
Em Shangai os ordenados médios já são maiores que em Lisboa.
Neste momento o Exército do Vietname – sim aquele Vietname que tal como todos os Comunismos se transforma em Fascismo com Estrela Vermelha pois precisa de empresas para prosperar- tem dificuldades em reter soldados qualificados porque as empresas já pagam muito melhor que o Estado.
Finalmente a parte ética:
Quem é você para dizer com quem outros portugueses devem comercializar?
Meu caro, alguém que conhece de muito perto o assunto. Se pensar um bocadinho, só um pouquinho, vai ver quantas empresas portuguesas estão deslocadas para onde a mão de obra é escravizada, enquanto aqui, não há trabalho. Tem de ler com atenção que é coisa que não faz. Eu não estou contra a globalização, escrevi que se tem de repensar esta globalização que tem pontos que têm de ser revistos.
Caro Pedro Correia,
Obrigado pela distinção de comentário da semana, onde posso levantar o prémio?
Já agora acrescento mais umas linhas. A Dinamarca é um pequeno país com uma economia muito aberta, com empresas que produzem produtos de alto valor acrescentado no mercado mundial (farmacêuticas, shipping, design, luxo, engenharia etc). Um país com 5 milhões de habitantes que tem dezenas de empresas globais, líderes nas suas áreas de negócio. Tem também um modelo de social democracia onde quem precisa é apoiado, onde os estudantes têm bolsas e não propinas, onde as pessoas dão prioridade à família e tempos livres, onde se trabalha muito menos horas que em Portugal.
Portugal evoluiu imenso nos últimos 40 anos, fez um progresso extraordinário. Agora só falta dar um salto de competitividade.
Para dar um exemplo simples, o tipo sentado ao meu lado no trabalho é um “industrial PhD”, ou seja, está a fazer um PhD na empresa para estudar uma coisa que pretendemos optimizar. Alguém a trabalhar em Portugal pode dar um exemplo semelhante?
Lembro-me do Prof. Miranda dizer que é inconstitucional dar aulas em inglês em Portugal, pois bem, na Universidade Técnica da Dinamarca 100% das aulas de Mestrado são em Inglês… E os dinamarqueses têm muito mais manifestações de patriotismo que os portugueses, até os bolos de anos vêm com bandeira da Dinamarca pendurada. Mas sabem bem que é com o Mundo que têm de fazer negócios, não é com os 5 milhões de conterrâneos.
Não escrevo mais, que tenho exemplos para 10E6 caracteres e fico chato de ler.
Meu caro, apetecia-me eleger as suas palavras, pela segunda semana consecutiva, para Comentário da Semana. Agradeço-lhe o retrato que aqui nos trouxe do seu país de acolhimento, que por estes dias temos visto com muito interesse através da série ‘Borgen’ (que eu também sigo diariamente) e espero que o seu “prémio” seja continuar a ver motivos de interesse para frequentar aqui o DELITO.
Um forte abraço – e vamos comunicando, nem que seja por esta via.
P. S. – Acompanho-o na crítica que aqui deixa ao meu ex-professor Jorge Miranda, grande especialista em Direito Constitucional mas que vê a lei fundamental como um objecto imutável enquanto a sociedade vai mudando – e de que maneira…
Sim senhor, ir buscar os miúdos mais cedo é óptimo e aconselhável. Mas eu não gostaria de viver num país em que todas as crianças se chamam John.