Quando a carnificina do Charlie Hebdo já não for mais do que uma vaga memória, há uma questão que importará resolver. Há lugar, ou não, para a blasfémia numa sociedade civilizada? É, ou não, desejável que a crítica, a oposição, a discussão de ideias, se faça de forma polida, sem intenção ou necessidade de ofender as opiniões e os credos dos demais? A minha liberdade acaba, ou não, quando começa a liberdade do outro? De momento, é tudo muito claro. Somos ou dizemos (quase) todos que somos “Charlie”. A blasfémia proclama-se, de forma mais ou menos autêntica, como direito irrenunciável. Mas depois, quando o distanciamento trouxer outra calma, em que ficamos? De momento, à falta de uma visão mais lúcida dos acontecimentos e de uma reflexão mais abrangente, há uma linha que me parece clara. Sempre que uma acção blasfema ou uma prática ofensiva tiverem a ameaça ou a concretização da morte ou de qualquer tipo de violência por parte de poderes ou grupos mais ou menos organizados como reacção provável ou real, precisaremos sempre de mais e mais blasfémia. Cada nova ofensa constitui, nesse caso, a ampliação do espaço de liberdade.
Blasfémia e liberdade
Rui Rocha,







