Passaram mais de dois mil anos sobre o nascimento de Cristo do qual bebemos a mensagem e o legado. E mais de 300 sobre a aurora do pensamento iluminista. Escreveram-se bibliotecas inteiras de filosofia moral. Fomos desenterrar os clássicos gregos e romanos para refundar o pensamento humanista. Proclamaram-se milhares de juras de fidelidade ao princípio irrenunciável da liberdade de expressão. E a cada volta do discurso os nossos ouvidos rejubilaram. Invocámos Voltaire e imaginámo-nos, tu, eu, cada um de nós, a morrer de peito aberto pelo direito de alguém dizer tudo aquilo com que não concordávamos. Erradicámos o crime de blasfémia do nosso ordenamento jurídico. Abominámos a condenação por delito de opinião. Viamo-nos assim. Puros, inteiros, justos, livres, airosos, tolerantes, conciliadores, modernos, arejados. Até ao dia em que o Figo ousou afirmar que jogou com outros melhores que o Messi (com essa podemos nós bem, que se lixe o piolho) e que o nosso, o nosso sim, Cristiano Rónaldo. A lata do sacana peseteiro e trânsfuga. Com uma só afirmação, um lampejo de sinceridade, trouxe-nos de volta àquilo que sempre fomos: umas bestas incorrigíveis, uns fanáticos irreversíveis. Incapazes de perdoar aos que não se conformam com as nossas mais extraviadas crenças. Sim, porque quem não sente, não é filho de boa gente.
Ah meu bastardo, quem te desse uma parede áspera para coçares os cotovelos
Rui Rocha,

Somos? Fomos?
Fale por si.
O outro cagava-se para o segredo de justiça.
Eu para vedetinhas que nunca teriam o meu voto, nem um nem outro.
Ah, olha, coincidem ser dois ex-calimeros. Prontos!
Para (de)mo(n)strar como é grande, o CR7 havia mas era de engatar uma sueca, agora que se desirinou.
O que queria? Já se pode desancar nos políticos, na religião, na família, alguma coisa havia que restar sagrada e tabu. Intocável: O futebol e os homossexuais. E agora experimente falar mal do fado e do cante alentejano e das festas minhotas…
Descansemos:
– “CR7 tá protegido do Olho Grande”…
Com as figas certas, não entram figos, nem granadas.
Mermão,
desculpe mas anda um pouco confuso em matéria de religião. O direito à blasfémia só pode existir num crente. Os ateus ou agnósticos, honrados e não fundamentalistas, lavam suas mãos a isso. Foi o que Pilatos fez.
Jesus não foi crucificado por ter dado um pontapé nos tomates aos tipos, isto era legítimo. Ele correu com os vendilhões do Templo à chicotada.
Ele foi crucificado por blasfémia. Mas a blasfémia é pertença de inteligentes e não de ofensivos.
Jesus disse: “perdoa-lhes Pai, porque eles não SABEM o que fazem”, só os ignorantes merecem ser perdoados. Os que agem em perfeita consciência sujeitam-se ao efeito boomerang.
Cristo andou à chicotada porque era um desadaptado. Uma vítima do capitalismo selvagem que obrigou os pais a recolherem-se num estábulo para que ele nascesse. Aquilo traumatizou-o.
Nem pense nisso, xico. Estavam lá o burro e a vaquinha e mais três sábios com ouro, incenso e mirra. E o pai era carpinteiro, liberal, o que lhe conferia um estatuto social importante. O facto de Jesus ter nascido numa gruta ou estábulo deveu-se à falta de empreendedorismo naquela região. O pessoal não investia em instalações hoteleiras.
Quanto à chicotada, xico, isso não tem que ver com desadaptação. Foi o sistema financeiro da época, os agiotas e controladores dos mercados, que pretenderam transformar o Templo no banco central. Esta manipulação dos valores substantivos de uma sociedade fez com que a história acabasse em maus lençóis. O mesmo está a acontecer hoje.
O xico tem de dar umas voltitas pela história para que ela não ande mal contada.