Junk food


Rui Rocha,

Marco António Costa está a braços com acusações de diversa natureza. Algumas delas, encontram-se sob investigação do Ministério Público e, relativamente a estas é necessário dar tempo ao tempo da Justiça antes de formular um julgamento político. Mas, relativamente a factos de outra natureza, há já indícios mais do que suficientes para avaliar politicamente a sua conduta. A gestão da Câmara de Gaia, na qual esteve directamente envolvido, assumindo responsabilidades de co-autoria moral e material de quantos desvarios ali se praticaram, com evidência do mais despudorado desprezo pelo interesse público e pela sustentabilidade das contas municipais, deveria ser objecto de estudo para exemplo de práticas que deveríamos ver erradicadas definitivamente da gestão da coisa pública. Mas a leitura política da condução dos assuntos de Gaia perpetrada por Marco António Costa e companhia não pode limitar-se à sua pessoa isolada. Marco António Costa tem funções relevantíssimas no PSD e é um compagnon de route de Passos Coelho. Desse PSD e desse Passos Coelho que são responsáveis por quatro anos de medidas gravosas para a generalidade dos portugueses que foram vendidas como contrapartida da governação irresponsável de José Sócrates. Pois bem. Se é verdade que as opções políticas do governo de Passos Coelho eram numa apreciação global inevitáveis, discutindo-se apenas a sua calibração e critério de aplicação, há todavia uma matéria em que o país não estava condicionado pelas imposições da Troika. Na verdade, no que respeita à seriedade, nada nos obrigava nem obriga a ser menos exigentes. Pelo contrário. Em momentos em que são impostos sacrifícios generalizados à população, é obrigatório que os que exercem o poder assumam um comportamento exemplar e uma prática e um discurso absolutamente coerentes. Ora, não é sério um partido apresentar o rigor nas contas públicas como bandeira, carregando entretanto sobre a sociedade com um brutal aumento da carga fiscal, enquanto mantém como número 2 alguém responsável por uma gestão desbragada. Pedro Passos Coelho apresentou-se aos eleitores com o desígnio de cortar gorduras. É portanto politicamente inaceitável que mantenha o famoso Big MAC a seu lado. No que me diz respeito, pelo menos, há já muito tempo que enjoei de junk food.

Uma de espiões


Rui Rocha,

Quatro espiões, um francês, um alemão, um italiano e um português foram capturados. Os captores levam o francês para interrogatório, atam-lhe as mãos a uma cadeira e ao fim de duas horas de tortura ele acaba por lhes dar todas as informações que pretendiam. A seguir, levam o alemão para interrogatório, atam-lhe as mãos a uma cadeira e ao fim de quatro horas de tortura ele acaba por falar. Por último, levam o italiano. Atam-lhe as mãos a uma cadeira e passam mais de vinte e quatro horas sem lhe conseguirem arrancar uma palavra. Os captores acabam por desistir e por o levar novamente para junto dos outros. O francês e o alemão ficam extremamente impressionados com a resistência do italiano e perguntam-lhe como é que conseguiu resisitir sem falar. O italiano responde: eu bem queria, mas não conseguia mexer as mãos! Entretanto o português, bem, o português não chegou a ser interrogado. Descoseu-se logo que lhe abriram uma conta de e-mail.

E é que um tipo já não sabe no que pode acreditar


Rui Rocha,

Afinal, a estória absolutamente verosímil do alemão que serrou os bens ao meio depois do divórcio era falsa. Pelo visto, o produto da venda feita no eBay será agora encaminhado para fins de beneficência. Em contrapartida, ainda não foi desmentida a perturbadora notícia que atribui a autoria de um livro a Miguel Relvas.

Da relevância das coisas


Rui Rocha,

Vamos lá ver. A questão essencial não é saber se o juiz que queria libertar Sócrates é, ou  não, um jurista de gabarito. O que é verdadeiramente surpreendente é que a sua posição, a única que contra a corrente, depois de dezenas de decisões de diferentes magistrados sobre recursos, habeas corpus, reavaliação de medidas de coacção e sabe Deus que mais, reconhece fundamento às pretensões do antigo primeiro-ministro,  seja aquela que recolhe relevantíssimo destaque individual nos meios de comunicação social.

Os trabalhos de Costa


Rui Rocha,

Quando afastou Seguro, António Costa tinha quatro questões essenciais para resolver. As duas primeiras diziam respeito a condicionantes específicas do contexto político interno do PS: posicionamento a assumir relativamente à última experiência governativa socialista e  necessidade de renovação geracional do partido. A terceira e a quarta implicavam a definição de uma visão estratégica no que diz respeito a dois aspectos dominantes e transversais introduzidos na discussão política dos últimos anos: austeridade e regeneração do poder. Na prática, a afirmação de uma liderança credível dependia da capacidade de Costa de assumir uma posição clara relativamente a José Sócrates e à facção que lhe continua fiel no PS, de promover internamente novos quadros e figuras socialistas, e de esclarecer sem lugar para dúvidas o seu entendimento sobre as propostas políticas do SYRIZA (porta-estandarte da luta contra a austeridade) e do PODEMOS (protagonista à esquerda do discurso contra a casta). Pois bem. Ao longo dos meses em que exerceu a liderança do PS, António Costa não conseguiu distanciar-se de Sócrates e dos desmandos da sua governação, não soube confinar a facção socrática dentro do partido, escolheu velhas figuras do PS como Ferro Rodrigues para cargos relevantíssimos de representação institucional, ziguezagueou a propósito do SYRIZA acabando por, ao que parece, estacionar numa espécie de austeridade mitigada (um socialismo de gravatinha e bem-comportado por oposição ao estilo radical de Tsipras e Varoufakis) e alinhou claramente com o PSOE, isto é, com a casta que o PODEMOS diz combater. Com esta gestão, Costa hipotecou as suas hipóteses junto do eleitorado moderado, ainda queimado pela governação de Sócrates, desbaratou o capital político que lhe podia trazer uma renovação geracional que é impossível de concretizar às costas dos Ferros Rodrigues socialistas, desiludiu potenciais eleitores da franja mais à esquerda não assumindo nenhuma das duas propostas políticas que podiam trazê-los para a órbita do PS. E, se atentarmos bem, não é só a aliança à direita que apresenta uma inesperada resiliência face a todas as dificuldades que o país atravessou. À esquerda, o Bloco parece ter encontrado, agora, um novo fôlego (sobe de 4% para 8% na sondagem da Católica ontem divulgada). A reflexão que Costa tem a fazer não é, portanto, sobre o valor que podem ter as sondagens. É, sobretudo, a de saber se, pelo que fez até ao momento, merece mais do que as intenções de voto que estas lhe atribuem. 

Tarolas


Rui Rocha,

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Trambiqueiros, ressabiados, trânsfugas, demagogos, pataratas e motoqueiros. Estes são os líderes e pensadores que fizeram tremelicar os coraçõezinhos da esquerda portuguesa nos últimos 5 anos. Depois queixem-se se andarem a ensaiar a Grândola durante mais uns anos:

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A guerra do pastel


Rui Rocha,

Certo. Esta coisa de misturar pastel de bacalhau e queijo da serra não lembra ao estado islâmico, como referiu, numa podenderada e razoável intervenção, a Sodona Maria de Lourdes Modesto. Nestas coisas, devemos adoptar uma posição de radical recusa de todas as miscelâneas.  Aliás, o bacalhau, a batata e a salsa podem ser encontrados na natureza, numa combinação harmoniosa, sem qualquer tipo de intervenção humana. Abundam em Portugal, como se sabe, as pascalhoeiras, as frondosas árvores de onde se colhem os pastéis de bacalhau.