A democracia directa, quando nasce, é para todos?


Rui Rocha,

E o que diriam todos aqueles que se entusiasmam com a jogada política brilhante de Papandreou e com os benefícios da democracia directa e de devolver ao povo grego a decisão sobre o resgate se, tomemos uma hipótese meramente académica, Merkel tivesse decidido convocar um referendo para ouvir a opinião dos alemães sobre o bailout da Grécia?

Papandreou, quixote ou pixote?


Rui Rocha,

O leitor interessa-se pela crise da Zona Euro. Apesar de as televisões lhe pregarem com sete horas diárias de caso Duarte Lima, em directo, lá no fundo parece-lhe que uma partezinha do seu futuro poderá depender do desfecho da coisa. Neste momento, depois de ler atentamente as análises e os comentários que incendeiam os meios de comunicação social e a blogosfera, o seu coração balança. O sacana do grego, o Papanicolau ou lá o que é, será um fraco, um louco ou um político brilhante? Pois tenho algo de muito importante a comunicar-lhe. Cabe-lhe a si decidir. Se o leitor se entusiasma com histórias de cavalaria, se é sensível à imagem de um político montado num Rocinante ou ao holograma de um povo nobre que se revolta galhardamente contra o jugo insuportável do invasor, a sua escolha está feita. Falta-lhe apenas substituir o poster do Che Guevara, amarelecido pelo tempo, que tem na sua sala logo por cima do aparador, pela fotografia actual e reluzente de George Papandreou. É certo que este último não tem barba, mas em contrapartida não lhe falta bigode. Todavia, caro leitor, há por aí muito maluquinho ocioso que gosta de medir o valor dos actos pelos resultados que estes podem provocar. Coisas. Existe no mundo de tudo e até há espaço, imagine-se, para os publicitários que fazem os anúncios da Depuralina. Ora, resultados, dizíamos. Pois muito bem. Imaginemos então que o referendo se realiza e que o povo grego diz que sim: “eh pá, de facto pensámos bem e queremos continuar a ser esmagados pelas forças opressoras da alta finança e dos burocratas de Bruxelas”. O que é que mudou? Exacto, o cavaleiro Papandreou terá lavado as mãozinhas na imaculada pia da democracia directa. A nobre Grécia, essa continuará a ser um país ocupado em permanência pela Troika, perdendo o seu estatuto de Estado soberano. Mas, coloquemos agora o cenário oposto. Os gregos espetam os seus narizes aduncos em direcção ao Monte Olimpo e respondem: “na, na, na, estamos fartinhos de ser humilhados pelos esbirros desta parceria europeia!”. A consequência evidente de tal decisão será o fim do plano de assistência. A saída da Zona Euro. A falta de financiamento total da economia grega. E todos os efeitos de uma bancarrota redentora: uma velha moeda novinha em folha (ah, que saudades do dracma), um ajustamento brutal, uma desvalorização vertiginosa e os salários e as poupanças a perderem metade do seu valor, tudo isto perante o olhar sereno de Papandreou, o oficial cavalheiro. Isto é, medindo a decisão do Primeiro-Ministro grego pelos resultados a que pode conduzir, a fotografia que o leitor colocará na sala será a de um político que se apresentará de bigode e capote. Este último estará, todavia, completamente seco. Papandreou ter-lhe-á sacudido a água até à última gota. No final, como lhe dizia, o leitor é que sabe. E eu nada tenho, nada mesmo, contra aqueles que se entusiasmam com histórias de cavalaria. Ponto é que estejam dispostos a pagar o preço do livro.

Vidas ligadas às máquinas (2)


Rui Rocha,

Estamos em 13 de Março de 2003. Recebes-me à porta da nossa casa: olá, amor. Chego tão encolhido que podia aconchegar-me para sempre nas tuas palavras. Em fundo, ouve-se um jingle do Canal Panda. O Dinis interroga a televisão. Está à espera de um episódio dos Três Moscãoteiros. Ainda bem. Hei-de chorar um pouco mais tarde, quando os meus olhos encontrarem os dele. Correu bem o teu dia, perguntas-me. Eu quero tanto responder-te que sim. As vitórias gritam-se. Com as derrocadas, vai melhor um murmúrio: a empresa parou. Queres salvar-nos. Nos últimos anos, o tempo foi um círculo que uniu sempre as paragens e os recomeços. Outra vez? Hoje é diferente. Foi a última vez. Há um e agora que se desenha nos teus lábios. Sem respostas, abafo-o num beijo. A tua boca é vida e eu acabei de chegar do meu próprio naufrágio. Os nossos olhos abrem-se já em além do beijo. O Dinis canta e dança. O a-mor da Ju-li-e-ta é o Dar-ta-cãaaao. Sorrio. Talvez seja possível reconquistar o mundo com uma espada de madeira partida e um velho cavalo cansado. Afago-te a barriga. A Leonor vai nascer em Setembro. Entretanto, o Dinis já me viu. Abraça-me e canta-me os parabéns. Rebento em lágrimas no dia em que faço 33 anos.  

Greece is done, I sink


Rui Rocha,

A noite de 31 de Outubro é o momento certo para destapar o medo e a angústia. O Primeiro-Ministro grego decidiu dar um contributo decisivo para que o Halloween de 2011 se possa tornar inesquecível. A intenção de convocar um referendo sobre o plano da UE aprovado na semana passada tem vários ângulos de análise.

 

Do ponto de vista da política interna grega, o referendo é a outra face da moeda de um Primeiro-Ministro politicamente esgotado. Papandreou sente-se incapaz de conduzir o país pelo caminho apontado por Merkel e Sarkozy. E, também não tem força para desviar os parceiros europeus para outras soluções (se é que elas existem). Aliás, a posição de absoluta fragilidade do Primeiro-Ministro grego e da Grécia resulta bem evidente das circunstâncias do próprio referendo. Na verdade, se o referendo avançar, os gregos serão colocados perante uma não-alternativa. Terão que escolher entre um default com todas as letras e um default a que chamaram outra coisa (a solução proposta pela UE). Por isso, o referendo em causa não resolve nenhum dos problemas gregos e tem como única consequência permitir a Papandreou lavar as mãos da solução.

 

Do ponto de vista da União Europeia e da Zona Euro, o referendo grego constitui um golpe brutal. Desde logo, a aparente desorientação que se apossou dos líderes europeus revela que esta não foi uma decisão concertada com Atenas. Depois, as últimas sondagens revelam que a maioria dos gregos está contra o plano da UE. Se esta tendência se confirmar no referendo, a Grécia, sem assistência da UE e do FMI, não terá recursos para pagar as suas dívidas. O default negociado de 50% tornar-se-á um incumprimento de 100%. Os bancos europeus perderão a totalidade do investimento em obrigações gregas. A saída da Grécia da Zona Euro será praticamente inevitável. A confiança dos investidores será gravemente afectada e países como a Alemanha, a Holanda ou a Áustria serão confrontados com a decisão do mata-mata: deve o BCE abandonar a sua neutralidade e inundar os mercados com a emissão maciça de moeda? Provavelmente a resposta será negativa. Os alemães sabem que a hiperinflação tem um potencial destruidor muito maior do que qualquer recessão. Tal resposta implicará, também, o fim do Euro.

 

Existem, é claro, outras alternativas. Mas, o caminho que descrevi é o único que tem o patrocínio da lógica mais elementar. Não deixa de ser irónico que a Grécia, berço da nossa civilização, tenha agora na mão o detonador que pode fazer implodir o braço mais avançado da construção europeia. Para já, a noite das bruxas de 31 de Outubro de 2011 continua a produzir vítimas no day after. Os mercados afogam-se no vermelho. E não é ketchup. É sangue. Se o leitor aprecia histórias de terror, está no sítio certo. Tenha medo, tenha muito medo. Se a lógica se impuser, ninguém ficará incólume. Para Portugal será um desastre.

A vida é isto e o caminho faz-se caminhando


Rui Rocha,

Concedo. Não abandonámos ainda os domínios da realpolitik em matéria de diplomacia económica. Aí temos a deslocação de Paulo Portas à Venezuela de Chávez para o provar. Mas, alguma coisa já mudou. Está para nascer o primeiro que possa acusar o Governo actual de manter relações políticas ou comerciais com Khadafi.

7.000 milhões de oportunidades


Rui Rocha,

 

O número, redondo e esmagador, aí está. A ONU declarou o dia 31 de Outubro de 2011 como data oficial em que a humanidade passa a contar com 7.000 milhões de seres vivos. Trata-se, como é óbvio, de uma proclamação simbólica. Em rigor, não é possível saber o momento exacto em que a barreira é ultrapassada. O certo é que fizemos um longo caminho. No tempo em que Jesus Cristo viveu seríamos 300 milhões. Em 1927, 2.000 milhões. No ano 2000 éramos mais de 5.000 milhões. A ONU encara a situação como uma oportunidade. A mensagem fundamental é a de que o mundo ainda não é demasiado estreito se os caminhos que forem escolhidos não conduzirem ao abismo. Todavia, este é também o momento em que importa ter presente alguns dados inquietantes. A criança 7.000 milhões tem uma elevadíssima probabilidade de ser pobre. Na verdade, cerca de 3.500 milhões de pessoas vivem com o equivalente a 1,76€ por dia (um maço de tabaco custa o dobro num quiosque perto de si). De acordo com a Unicef, a fome é a principal causa de morte infantil. Morrem de fome 22.000 crianças por dia. No próximo minuto, morrerão 15. Uma morrerá a cada 4 segundos. Estima-se que 1.000 milhões de seres humanos nunca aprenderão a ler e a escrever. Tudo isto são dados estatísticos. A realidade diz que, nos dias que correm, nascer no Corno de África é praticamente uma sentença de morte. Nascer-se mulher em muitas partes do mundo implica ainda uma probabilidade bem maior de condenação à iliteracia. Nos países desenvolvidos nascer negro ainda não é o mesmo que nascer branco. Falta, porventura, um movimento OWS (Occupy the World Streets) que pressione, como aqui explica Gonzalo Fanjul,  um novo equilíbrio na afectação de recursos naturais,  a iniciativa política e a imaginação que permitam responder às seguintes questões:

– investimento maciço em saúde e educação básicas (o orçamento para educação de todas as crianças do mundo representava, no ano 2000, 1% do investimento total em armamento);

– concretização do direito universal à agua potável;

– investimento na micro-agricultura em África;

– estratégia global para responder à dependência das energias fósseis;

– definição de políticas de migração mais flexíveis.

Tudo isto pressupõe que a lógica puramente nacionalista ceda um pouco perante uma indispensável abordagem humanista. O futuro é ainda uma folha em branco. As opções políticas globais condicionarão as cores com que se pintará o mapa-mundi da sustentabilidade.

 

* na foto, Danica, a menina 7.000 milhões, nascida nas Filipinas. Vai receber uma bolsa de estudo e os pais terão apoio para abrir uma loja.

Cosmelogias


Rui Rocha,

  

Cosme passava as tardes de Domingo em profunda reflexão. Deitado no sofá, tomava-se de angústias. Sentia-se paralisado pela evidência da finitude da vida. Ah, dessem-lhe agora a imortalidade e ele bem saberia como aproveitar o tempo.

Os alemães, esses incompetentes


Rui Rocha,

 

Isto é muito revoltante. O que nós já tivemos de aturar aos alemães. Tremo de raiva só de imaginar as insinuaçõezinhas que fizeram sobre as nossas contas públicas. Enfureço-me com a visão de cabeças loiras a abanarem em sinal de desaprovação quando o nosso Sócrates lhes explicava um ou outro problema de somenos importância. E o que terão dito do pobre Jardim, meu Deus. Ainda esta semana, Frau Rotweiler Merkel afirmou que Portugal está fest entschlossen. Fest entschlossen! Mas quem é que a senhora julga que é para nos insultar desta maneira, ahn? E agora, depois de tanta sobranceria, descobre-se um desvio colossal na dívida da Alemanha. São 55,5 mil milhões de euros, senhores. Ahahahah, isto é que é um buraco. Escusam de vir com conversa fiada, a coisa da Deutsche Technologie e não sei que mais. Sempre quero ver como vão sair desta. E, como não sou de rancores, se precisarem de ajuda, que digam. Temos por cá um especialista em contas públicas que quase não suporta faltas de rigor e pode dar uma ajuda.

Michael Moore, o homem que doou mil perus


Rui Rocha,

 

O mundo organiza-se a partir do princípio da simplicidade. E os instrumentos que permitem concretizar a simplicidade são uma classificação bipolar e um lápis. O lápis serve-nos para desenhar um risco. A classificação  bipolar serve para situar a realidade face ao risco que desenhámos. Bom e mau, esquerda e direita, branco e negro, norte e sul, pobre e rico e tantos outros pares que nos são úteis na nossa relação com o mundo. Ora, o movimento Ocuppy Wall Street utiliza também este método de abordagem. O lápis do OWS desenhou a fronteira: 99% de um lado, 1% do outro. Simples, não é? É. Depois, é só distribuir os americanos pelo lado do risco que lhe corresponde. Simples, não é? É. E assim se fez. Michael Moore, o conhecido documentarista, colocou-se, naturalmente, do lado bom do risco. O dos 99%. Simples, não é? É. Pois, e participou nas manifestações e tudo. Então a história acaba aqui. Grato pela V/ atenção. Aum… o quê? O Michael Moore tem rendimentos e património que o colocam do lado do risco que corresponde ao grupo do 1%? A sério? Ah, negou que assim fosse. Então está tudo bem. Aum… o quê? Ah, acabou por admitir. Pois, pois, pois. E os seus rendimentos colocam-no no grupo restrito dos 10% mais ricos dentro da malta do 1%? Bem, bem, bem. Ah, mas já fez um post a explicar tudo que até já foi traduzido no Esquerda.net? Então, tudo está bem quando acaba bem, não? Ufa! Óptimo. Já agora, vamos só ver o que ele diz. Ah! Vendeu à Warner Bros. os direitos de distribuição de um filme por 3 milhões de dólares. Boa camarada. E o que fez com o dinheiro? Muito bem. Pagou impostos, pagou dívidas, criou uma fundação, deu algumas prendas a familiares e amigos, fez ofertas meritórias, comprou uma moto e um apartamento em Manhattan… Espera, isto parece uma fábula do capitalismo, caramba, cruzes credo. Não? Ah, pois. Também doou mil perus no dia de Acção de Graças. Pronto, assim já fica tudo muito mais claro. Jamais um capitalista faria uma doação de mil perus. E, embora o post de Michael Moore não esclareça, é certinho que, a partir daí, fez exactamente o mesmo sempre que recebeu dinheiro pelos seus direitos de autor (que são, como se sabe, uma genial invenção socialista). Claro, claro, claro. Pois, enfim, não sei camaradas. Mas, confesso que, apesar de tudo, estava muito mais entusiasmado quando comecei a escrever o post. Parecia-me tudo tão simples. Mesmo com a coisa dos mil perus, confesso que isto já não me parece tão claro como fazer um risco no chão e colocar as pessoas de um lado ou do outro. Bom, mesmo bom, era que o Michael Moore fosse realmente pobre. Ou, quando muito, remediado.

Um murro no estômago


Rui Rocha,

 

Rentes de Carvalho (no Tempo Contado)

E você, prefere empobrecer em 12 ou em 14 prestações por ano?


Rui Rocha,

Se um dia um desconhecido pretender cortar-lhe o salário, temporariamente ou de forma definitiva (hipótese meramente académica, claro), pelo valor correspondente aos subsídios de Natal e de férias, prefere não o receber em:

 

a) 12 prestações;

b) 14 prestações;

c) é igual, porra, estou bem lixado de uma forma ou de outra.

 

Responda de forma honesta pois, ao que parece, o presente e o futuro de Portugal dependem desta importantíssima questão.

Nuvens negras


Rui Rocha,

Vou pôr o lixo no contentor que fica ao fundo da rua. Desvio-me do vira-lata do costume. Parou de chover por um momento. Acelero o passo porque o céu escuro promete mais um aguaceiro. Perdido nos meus pensamentos, tropeço na conversa. Terá uns cinquenta anos. Está ao telemóvel e começa a elevar a voz:

 

Sabes, vou-te dizer uma coisa… viste aquele queijo? Foi praticamente isso e pão que comi toda a semana. Tu não fazes ideia do que é ter uma vida confortável e perder tudo de repente. Hoje pedi ajuda à minha mãe. Vamos ver até quando…

 

Regresso a casa com as pernas muito pesadas. Não sei se há quem nos possa proteger do que aí vem.