A noite de 31 de Outubro é o momento certo para destapar o medo e a angústia. O Primeiro-Ministro grego decidiu dar um contributo decisivo para que o Halloween de 2011 se possa tornar inesquecível. A intenção de convocar um referendo sobre o plano da UE aprovado na semana passada tem vários ângulos de análise.
Do ponto de vista da política interna grega, o referendo é a outra face da moeda de um Primeiro-Ministro politicamente esgotado. Papandreou sente-se incapaz de conduzir o país pelo caminho apontado por Merkel e Sarkozy. E, também não tem força para desviar os parceiros europeus para outras soluções (se é que elas existem). Aliás, a posição de absoluta fragilidade do Primeiro-Ministro grego e da Grécia resulta bem evidente das circunstâncias do próprio referendo. Na verdade, se o referendo avançar, os gregos serão colocados perante uma não-alternativa. Terão que escolher entre um default com todas as letras e um default a que chamaram outra coisa (a solução proposta pela UE). Por isso, o referendo em causa não resolve nenhum dos problemas gregos e tem como única consequência permitir a Papandreou lavar as mãos da solução.
Do ponto de vista da União Europeia e da Zona Euro, o referendo grego constitui um golpe brutal. Desde logo, a aparente desorientação que se apossou dos líderes europeus revela que esta não foi uma decisão concertada com Atenas. Depois, as últimas sondagens revelam que a maioria dos gregos está contra o plano da UE. Se esta tendência se confirmar no referendo, a Grécia, sem assistência da UE e do FMI, não terá recursos para pagar as suas dívidas. O default negociado de 50% tornar-se-á um incumprimento de 100%. Os bancos europeus perderão a totalidade do investimento em obrigações gregas. A saída da Grécia da Zona Euro será praticamente inevitável. A confiança dos investidores será gravemente afectada e países como a Alemanha, a Holanda ou a Áustria serão confrontados com a decisão do mata-mata: deve o BCE abandonar a sua neutralidade e inundar os mercados com a emissão maciça de moeda? Provavelmente a resposta será negativa. Os alemães sabem que a hiperinflação tem um potencial destruidor muito maior do que qualquer recessão. Tal resposta implicará, também, o fim do Euro.
Existem, é claro, outras alternativas. Mas, o caminho que descrevi é o único que tem o patrocínio da lógica mais elementar. Não deixa de ser irónico que a Grécia, berço da nossa civilização, tenha agora na mão o detonador que pode fazer implodir o braço mais avançado da construção europeia. Para já, a noite das bruxas de 31 de Outubro de 2011 continua a produzir vítimas no day after. Os mercados afogam-se no vermelho. E não é ketchup. É sangue. Se o leitor aprecia histórias de terror, está no sítio certo. Tenha medo, tenha muito medo. Se a lógica se impuser, ninguém ficará incólume. Para Portugal será um desastre.

I sink we sink two.
U2…
Europe is sinking. Parabéns pela análise, Rui: melhor que um editorial da Economist.
Senti necessidade de procurar informação, pensar e escrever sobre o assunto porque não encontrei nos meios de comunicação social qualquer análise que me satisfezesse. Provavelmente é culpa minha, Pedro.
Dâmocles resolveu cortar o fio? Muito apropriado.
Indeed.
meu deus, meu deus, um fiel seguidor do “profeta de um portugal desprezado” aka “profeta de um portugal secreto” (assim baptizado pelo hraposo) aka “rentes de carvalho”, a falar (e, sacrilégio! escrever) em halôiins??
estamos, definitivamente, perdidos!!
(não estamos nada. só os seguidores do profeta).
Pois, pois. Depois falamos.
Parabéns pela análise, Rui. Infelizmente acho que não estás a ser pessimista. Com isto Papandreou deu provas da mais vergonhosa cobardia.
Exactamente, Teresa. Entretanto, espero estar muito enganado. Em todo o caso, mesmo que se resolva, a situação criada já tem consequências.
Nos próximos tempos, refiro-me em termos de semanas, Portugal terá um problema muito sério para resolver, além do Orçamento do Estado. Para mim, esse problema é muito mais sério do que este último, e refiro-me concretamente ao sistema financeiro/bancário nacional, em avançado estado de decomposição. Há quem afirme que os bancos estão a “desconto”, isto é, cotados na bolsa muito abaixo do valor real (em cerca de 60%), segundo modelos de análise que, na minha opinião, não consideram convenientemente factores conjunturais da actualidade, nomeadamente a crise das dívidas públicas (a grega, em particular). Erro crasso… A falta de liquidez é tão evidente como a aldrabice dos testes de stress divulgados no início deste verão. Aliás, a aldrabice tornou-se normal para as altas entidades políticas e financeiras europeias, com o BCE num dos lugares cimeiros, claro. No meio deste turbilhão, a própria sobrevivência do euro é questionável, a curto prazo.
Depois de anos empanturrados em lucros porno-financeiros e todo um conjunto de práticas eticamente discutíveis (e muitas claramente abusivas como demonstram alguns factos da semana passada: a decisão dos tribunais portugueses contra o Millenium bcp nos arredondamentos do crédito à habitação; a multa de 5 milhões de euros ao BES pelo regulador norte-americano SEC), a banca está a colher as tempestades de ventos que andou a semear. Os banqueiros multiplicam-se em brados ridículos. A prepotência tolda-lhes a razão ao não reconhecerem os erros acumulados, ano após ano, e a respectiva ganância é por demais obscena.
Há umas semanas, escrevi que a reestruturação da banca nacional (entenda-se, concentração) é inevitável. Para já, aposto na dupla BCP+BPI. Com estes acontecimentos, reforço esta percepção da seguinte forma: além de mais inevitável, é urgente.
Moral da história:
Entretanto, a economia britânica cresce mais do que o esperado. Por que será?!
O seu comentário é um post, Gonçalo.
“o caminho que descrevi é o único que tem o patrocínio da lógica mais elementar”
Esta frase peca por falta de modéstia, digamos assim…
Concorda, portanto, Luís. Se houver referendo e se ganhar o não, a coisa vai pelo cano.
Irá pelo cano de qualquer forma.
Como professora de Inglês tenho feito mts vezes este trocadilho nas aulas. 🙂 Funny and, sadly, true.
É, Aefectivamente. Nestas circunstâncias, deixa-nos um sabor amargo na boca.
E substituíram as chefias militares.
Isto está bonito.
Os acontecimentos dos últimos dias e esta troca de chefias militares revelam que algo de muito grave se está a passar na Grécia, Isabel.