Trade-off, Otelo


Rui Rocha,

O Senhor Otelo Saraiva de Carvalho criticou os militares por estes terem prevista uma manifestação para os próximos dias e, de passagem, afirmou que “ultrapassados os limites, devem fazer uma operação militar e derrubar o Governo“ sendo que, na sua faiscante e explosiva opinião, “Portugal está a atingir esse limite”.

 

Para que a memória não esqueça, recupero a partir do Díário de Notícias o fio de acontecimentos dramáticos da democracia portuguesa e reproduzo o registo das principais datas da história das Forças Populares 25 de Abril (FP-25):

28 de Março de 1980–  Cria-se a Força de Unidade Popular (FUP), organização política de extrema esquerda que viria mais tarde a ser associada às FP-25, consideradas como o braço armado deste partido; 20 de Abril de 1980– FP-25 anunciam o seu surgimento com a publicação do “Manifesto ao Povo Trabalhador”,  que é distribuído por todo o país numa aparatosa operação de rebentamento de petardos; No manifesto as FP afirmam que o seu surgimento acontece para “o derrube do regime, instauração da ditadura do proletariado, criação do Exército Popular e implantação do socialismo”; 5 de Maio de 1980– Primeira acção violenta da organização, em que é assassinado o soldado da GNR Henrique Hipólito, em Meirinhos, Mogadouro, num assalto às agências do Banco Totta e Açores e da Caixa de Crédito e Providência, no Cacém; 13 de Maio de 1980– Assassínio de Agostinho Ferreira, comandante do posto da GNR de Alcoutim; 6 de Dezembro de 1982– Assassínio de Diamantino Bernardo Monteiro Pereira, administrador da Fábrica de Loiças de Sacavém, em Almada; 7 de Fevereiro de 1984– Uma das maiores e mais  emblemáticas “operações de recuperação de fundos” da organização.  Assalto a um veículo de uma empresa de segurança que transportava 108 000 contos (538 701,70 euros); 30 de Abril de 1984–  Morte de um bebé de quatro meses num atentado à bomba na casa da sua família em São Mansos, Évora; 19 de Junho de 1984– Início do desmantelamento das FP-25 com a Operação Orion, coordenada entre a PJ, PSP e GNR. No centro desta operação esteve a rusga efectuada à sede da FUP e posterior ilegalização do partido; 20 de Junho de 1984–  Prisão de Otelo Saraiva de Carvalho; 21 de Setembro de 1985– Evasão de nove membros das FP-25 do Estabelecimento Prisional de Lisboa; 7 de Outubro de 1985– Começa o julgamento das FP-25; 15 de Fevereiro de 1986– Assassínio do Director geral dos Serviços Prisionais Gaspar Castelo-Branco, à porta de sua casa, em Lisboa; 20 de Maio de 1987– Condenação de Otelo Saraiva de Carvalho a 15 anos de prisão pelo crime de terrorismo; 16 de Agosto de 1987– Último assassinato das FP-25. O agente da PJ Álvaro Militão é morto durante uma perseguição a três elementos da organização, em Lisboa; 17 de Maio de 1989– Libertação de Otelo Saraiva de Carvalho; 1 de Março de 1996– Assembleia da República aprova amnistia para os elementos presos das Forças Populares 25 de Abril; 6 de Março de 1996– Mário Soares, então Presidente da República, promulga a lei 9/96, que amnistia as “infracções de motivação política cometidas entre 27 de Julho e 21 de Junho de 1991; 9 de Julho de 2003– Prescreve o processo dos chamados crimes de sangue, no qual quase todos os réus foram absolvidos e dois arrependidos condenados, porque o Ministério Público deixa expirar o prazo para recorrer da sentença para o Supremo Tribunal de Justiça; Junho de 2004 – O então Procurador geral da República, Souto Moura, aplica uma pena disciplinar de advertência ao magistrado Gomes Pereira, a quem estava atribuído, na Relação, o processo FP-25. O magistrado apresenta recurso.

 

Em 2009, o Senhor Otelo Saraiva de Carvalho foi abrangido pelo regime previsto na lei de reconstituição de carreiras e foi promovido a coronel, recebendo uma indemnização de perto de 50.000€, e reclassificado num salário de cerca de 3.500€ por mês. Reformado, recebe a pensão correspondente do estado português.

 

As palavras de Otelo merecem uma resposta. A minha, como cidadão, é mandá-lo com todas as letras para um sítio que rima com Carvalho. A das associações representativas dos militares começa a ser dada. Falta agora a das instituições a quem cabe, em primeira linha, preservar o estado de direito. Isto dito, resta-me apenas explicar o título do post. Embora me apetecesse muito e fosse esse o termo adequado, a minha educação não me permite colocar no DELITO um texto começado por fuck off.

Berlusconi, as frases


Rui Rocha,

 

“A vida na Itália é a de um país rico: o consumo não diminuiu, é difícil encontrar lugares nos aviões, os nossos restaurantes estão cheios”.

 

“Gorda mal f…”, sobre Angela Merkel.

 

“Vou-me embora deste país (Itália) de merda”.

 

“Registei bunga bunga como marca para poder utilizá-la em todas as regiões de Itália”.

 

“É melhor gostar de raparigas bonitas do que ser gay”.

 

“As mulheres fazem fila para casar comigo. Sou uma lenda”.

 

“Sou, sem dúvida, a pessoa mais perseguida na história do mundo e na história do Homem”.

 

“Eles deviam encarar isto como um camping de fim-de-semana”, durante uma visita aos desalojados depois do terramoto de Abbruzo.

 

“A esquerda não tem bom gosto em geral, e também no que diz respeito a mulheres”.

 

“O Obama é bonito, jovem e bronzeado”.

 

“Eu sou o Jesus Cristo da política. Sou uma vítima paciente, aguento todos, sacrifico-me por todos”.

 

“Apenas Napoleão fez mais do que eu. Mas, sou certamente mais alto”.

 

“Obrigado, caro padre Massimiliano. Tentarei não o decepcionar e prometo-lhe dois meses e meio de completa abstinência sexual até 9 de Abril.”

 

“Tive de usar todas as minhas tácticas de playboy para a convencer”, referindo-se à Presidente da Finlândia.

 

“A Itália é um grande país para se investir. Hoje, temos menos comunistas. Além disso, temos lindas secretárias, raparigas soberbas”.

 

“Mussolini nunca matou ninguém. Mussolini enviou as pessoas de férias  para o exílio. Sim, Mussolini era benigno”.

 

“Mr. Schulz, eu sei que há na Itália um homem a produzir um filme sobre os campos de concentração nazis. Gostaria de o sugerir para o papel de Kapo. O senhor seria perfeito”, dirigindo-se ao deputado ao Parlamento Europeu Martin Schulz.

 

“Um cidadão é igual a outro (aos olhos da lei), mas talvez este seja um pouco mais igual do que os outros, dado que 50% dos italianos lhe deram a responsabilidade de governar o país”.

Burlesconis e Patusconis


Rui Rocha,

Silvio Berlusconi terá direito à sua página na história da Itália. Se o relato for justo, dirá dele que foi o empresário que arruinou o país enquanto aumentou sem cessar a sua fortuna e o seu poder pessoal. Esse que foi construído a partir do domínio dos meios de comunicação social, do magnetismo populista, da telegenia (dizem, vá lá saber-se…) e da informação privilegiada que detinha sobre os seus aliados e opositores que são, no fundo, tão corruptos e devassos como ele.

 

Em termos pessoais, atrás de Berlusconi é ainda possível ver um rasto de centenas de delitos que prescreveram ou passaram em claro, de julgamentos que nunca se realizaram ou que terminaram no meio de suspeitas mais do que fundadas de corrupção de testemunhas e juízes ou de leis alteradas no momento certo e à medida. Em termos globais, o seu contributo para o país que dirigiu foi uma política económica desastrada, uma dívida astronómica e, como não podia deixar de ser, um clima propício ao enraizamento da corrupção, da evasão fiscal, do clientelismo e das fidelidades ditadas pelas piores razões.

 

Apesar de cair nos paralelismos com personalidades históricas ser tentador (César, Nero, Mussolini ou padrinhos mafiosos), deve reconhecer-se que Berlusconi é um exemplar único e incomparável. Bobo, louco, exibicionista, sórdido, manipulador, incompetente, intriguista, ávido de poder, tudo isto são qualificativos que lhe assentam bem, mas que não descrevem integralmente a sua característica essencial de homem sem qualidades.

 

É este homem e a sua circunstância (permanência no poder, ou na sua órbita, ao longo de 20 anos) que deveriam merecer a nossa profunda reflexão. Outros preferirão salientar o funcionamento anti-democrático dos mercados ou do directório franco-alemão que sobrepõem a sua agenda ao resultado dos actos eleitorais de países soberanos e ao funcionamento das suas instituições. É uma questão pertinente. Mas, antes dessa, parece-me fundamental perceber como foi possível que democracias ditas avançadas tenham dado origem a lideranças como as de Sócrates, Jardim, Zapatero, Karamanlis, Papandreou e Berlusconi que levaram os seus povos a situações ruinosas e a uma degradação da vida pública e dos fundamentos do estado social. Não adianta reclamar das disfunções na vertente externa quando a nossa própria casa está a afundar-se às mãos de Burlesconis e Patusconis.

No lugar dos gregos


Rui Rocha,

A propósito deste post e deste, o Sérgio Lavos convida-me e ao Pedro Correia a lermos umas cartas trocadas entre um alemão e um grego em que estes discutem as dívidas e queixas mútuas dos respectivos países. É um exercício que faço com gosto. Mas, antes de mais, é importante esclarecer que a discussão só tem interesse se admitirmos que ela tem um fundo ético. Não me revejo naqueles que defendem que a política e a ética são como a água e o vinho: não se misturam. Aliás, a própria ideia de Estado Social tem um acentuada dimensão ética, estando fortemente ancorada em valores como a solidariedade e a coesão. Aqui chegados, importa realçar que o que está em causa nos referidos posts é um juízo sobre uma realidade que o Sérgio Lavos não questiona. Um comportamento abusivo, reiterado, maciço, profundamente lesivo de um vasto conjunto de cidadãos gregos relativamente a uma instituição fundamental como é a Segurança Social. Estamos a falar de factos. Como são factos a sucessão de desastres morais, éticos e de gestão da política grega. Aí temos, para quem quiser ver, o documentário Debtocracy que constitui uma interessante descrição do comportamento do poder político nos últimos 40 anos (deixando claro que o que ali está presente é uma visão de sentido único que não partilho integralmente nem no diagnóstico, nem nas soluções). O que nos leva ainda a uma conclusão: o Estado Social, na Grécia, não é mais do que um expediente utilizado pelos políticos para calar os cidadãos e utilizado por certos cidadãos como desculpa para absolver os políticos. O Estado promete o que não tem e dá a quem não deve dar, comprando o silêncio e o compromisso daqueles que furam o sistema como podem, recebendo, em prejuízo de outros, aquilo a que não têm direito. Não estamos a falar das ineficiências próprias e típicas de qualquer sistema. A dívida colossal da Grécia aí está.  A total falsificação das contas públicas gregas na adesão ao Euro, a mistificação levada a cabo pelo Partido da Nova Democracia (de direita) relativamente aos défices até 2009 aí estão. Os números da arrecadação fiscal são totalmente anormais, deixando claro que a evasão fiscal é uma prática instituída. Os estudos sobre a sustentabilidade da Segurança Social aí estão também. Neste, bem recente, a Grécia aparece em último lugar entre 44 países, situação que compromete gravemente o futuro dos gregos. Acredito que há uma enorme maioria de gregos decente e honesta cujo esforço está a ser completamente minado pela matilha que saqueia o Estado grego e os seus recursos em proveito próprio. Ponho-me no lugar deles. Estaria, naturalmente, muito preocupado com a necessidade de equilíbrio e justiça nas relações políticas e económicas com a Alemanha e com a UE, exigindo a afirmação integral dos direitos gregos. Todavia, muito antes disso, exigiria ao meu país, às suas instituições, aos seus políticos e aos cidadãos no seu conjunto um comportamento decente e orientado pelo bem comum e pelo interesse da nação. Instituições fortes, políticos credíveis e cidadãos exigentes são condições indispensáveis à afirmação de um país na cena internacional. É isso que tem faltado à Grécia e, em certa medida e para o que nos interessa, a Portugal. E é essa a brecha por onde também se esvai a viabilidade do Estado Social.

Antes robalos que roubá-los


Rui Rocha,

Foi em Setembro que se conheceram. Ela, pudica, trazia a face oculta. Eles eram duas crianças a viver esperanças, a saber sorrir. Ela tinha cabelos louros, ele tinha tesouros para repartir. Ele lá lhe disse, a medo: “O meu nome é Armando e o teu qual é?” Ela corou um pouquinho e respondeu baixinho: “Sou a Cinderela”. Estavam 40 graus à sombra na Caparica. Para lá da mata havia uma sucata. Mas, ali da praia não se via pois estava tapada pelos Penedos. Assim ficaram, de mão dada, a ouvir o mar. “Escutas”, Cinderela, perguntou  Armando. “Escuto, Armando”. Emocionado, ele entoou uma canção que o primo José, emigrado em Paris, lhe ensinara ao telefone: “ Onira ou tu vudrá, can tu vudrá,  Então semera em cordas, lorca lamor sera mor, Tute lavi sera paralela à catamaran, Aos colores denanananam“. Ela, que sabia francês, disse-lhe que queria ir a Porto Côvo. Uns olhares envergonhados e são namorados sem ninguém pensar. Foram juntos ainda um outro dia, como por magia, no autocarro, em pé. Se fossem vê-los, à tardinha, saberiam que Cinderela teve apetite. Havia um pessegueiro na ilha, plantado por um vizir de Odemira, que estava carregado de pêssegos. Mas, a ilha agora pertencia ao Godinho. “Antes robalos que roubá-los”, empertigou-se Armando. Assim disse e assim fez. Foi-se ao mar com uma Vara, uns quantos trouxe e assim os assaram, na praia, ao pôr-do-sol. O tempo foi passando. Armando construiu uma cabana junto à praia. Pediu um crédito à Caixa e outro ao BCP. Mas, para lhe dar consistência, também utilizou cimento. Mais tarde, nasceu uma criança. Chamou-se o médico parteiro, Dr.  Pinto Monteiro. A criança era loura e ele separou-a da mãe com a sua própria tesoura. Cinderela prendeu-se de angústias e hesitou na escolha do nome. Armando, impaciente, tomou o assunto em mãos: “decidiremos até que o Sol se ponha”. Chamaram-lhe Noronha. E o padrinho foi o Marinho. Fez-se uma festança em casa de um bom amigo que também deu o vinho. Infelizmente, não era grande coisa. Alguns dos presentes ouviram mesmo Armando queixar-se ao anfitrião: “C’ amargo, Correia”. Os anos passaram e a vida separou-os. Foi em Novembro que Cinderela partiu. Levava nos olhos as chuvas de Março. E nas mãos um mês frio de Janeiro. Armando lembra-se que ela lhe disse que o corpo dele tremia. E ele queria ser forte.  Respondeu que tinha frio. Falou-lhe do vento norte da ria de Aveiro. Como ele tremia, meu Deus. Amou Cinderela como nunca amou ninguém. Foi louco? Não sei, talvez! Mas por pouco, muito pouco, ele voltaria a ser louco e amá-la-ia outra vez. Sim, ele sabe que tudo são recordações. Sim, ele sabe que é triste viver de ilusões. Mas, ela foi a mais bela história de amor que um dia lhe aconteceu. Agora, dizem-lhe velhos amigos, o melhor seria mesmo destruir essas escutas recordações para acabar com o sofrimento de vez.

Hoje fiz uma maldade


Rui Rocha,

A discussão dos últimos dias tem girado em torno da situação da Grécia. Muitos defendem que os planos de resgate constituem uma humilhação para os gregos, quando não o aproveitamento de circunstâncias históricas ou a evidência de uma total falta de solidariedade.

 

Publiquei hoje este post em que utilizei a argumentação destes últimos, mas em que substituí a Alemanha por Portugal e a Grécia pela Madeira. O que estava em causa era a disponibilidade dos contribuintes do centro para suportarem um esforço adicional em nome da solidariedade com a periferia. O objectivo era evidenciar a existência de double standards relativamente à questão em causa. Penso que será uma experiência interessante dar uma vista de olhos à respectiva caixa de comentários.

 

Nota: agradeço a todos os que comentaram, pedindo-lhes desculpa por os ter feito participar no exercício de forma involuntária. Eu próprio corri riscos com o post em causa (nomeadamente o de ser considerado pouco coerente face às posições que tenho defendido em relação à Grécia). Tomei, por isso, as minhas cautelas. Uns minutos antes de ter publicado o post a que me refiro (aí está o Google Reader que não me deixa mentir), publiquei este outro, com data de Sábado, em que deixei claras as minhas intenções.

Este é o momento de sermos solidários com a Madeira


Rui Rocha,

No meio da turbulência dos dias que correm, há uma questão que ficou algo esquecida. Refiro-me à Madeira e à dívida daquela região autónoma. Certo. O desequilíbrio das contas madeirenses deve-se, em boa parte, à gestão de Jardim. Mas, o povo madeirense não tem culpa. A imposição de um plano de austeridade agressivo mataria qualquer possibilidade de desenvolvimento local, lançando os madeirenses para uma penúria prolongada. Por outro lado, a própria Madeira sente os efeitos da dívida soberana. A política expansionista de Jardim acaba por ser vítima de um contexto internacional desfavorável e da crise das dívidas soberanas. É certo que a ocultação deliberada dos  dados das contas regionais deve ser criticada. Mas, não parece razoável que sejam os madeirenses a pagar pelos erros da sua liderança política. Este não é o tempo de discutir culpas, é o momento de encontrar soluções políticas que não podem passar pela humilhação dos madeirenses. Importa respeitar a sua autonomia e as suas recentes escolhas eleitorais e criar um caminho de dignidade que permita um saneamento sustentável das contas regionais. Estou convencido de que um perdão substancial da dívida regional e a aprovação de um plano prolongado no tempo que permitisse a regularização confortável do remanescente seria a solução razoável.É claro que isso implicaria um sacrifício adicional para os cidadãos do continente que veriam os seus impostos ainda mais aumentados e/ou os salários dos funcionários públicos ainda mais reduzidos. Mas, é nos tempos de crise que a verdadeira solidariedade deve ser testada e posta em prática.

Papadeu


Rui Rocha,

 

O até hoje primeiro-ministro grego e Antonio Samaras, líder do principal partido da oposição (Nova Democracia), chegaram finalmente a acordo para a formação de um novo governo na Grécia. Trata-se de um executivo de transição que tem como única missão assegurar a concretização do plano de resgate negociado com a UE na última semana de Outubro e a posterior realização de eleições. Trata-se de uma derrota em toda a linha de George Papandreou que se viu obrigado a aceitar a condição essencial para que o acordo se concretizasse: o seu próprio abandono das funções de primeiro-ministro. Para além disso, a sua decisão irreflectida e temerária de anunciar a convocação de um referendo, que alguns chegaram a considerar uma magistral jogada política, esgotou a paciência dos parceiros europeus. Agora, estes não se coíbem de se pronunciar publicamente sobre assuntos internos da política grega. A jogada de Papandreou, ao contrário de permitir à Grécia encontrar um caminho mais airoso para enfrentar a crise que atravessa, veio acentuar a profunda degradação do país, a sua absoluta dependência da boa vontade dos credores e a consequente perda de soberania com a correspondente humilhação. Mais, a solução política desesperada a que deu origem é, ela própria, muito periclitante. Por um lado, o entendimento obtido esgota-se na operacionalização do novo plano de resgate. O eventual objectivo de promover um governo de salvação que pudesse garantir coesão política perante a emergência nacional não foi alcançado. Uma solução mais estável, aliás bastante improvável, só será possível na sequência de novo e próximo acto eleitoral, com toda a turbulência política que essa situação provoca. Por outro lado, os partidos mais radicais recusaram-se a integrar o governo de transição e já deixaram bem claro que a sua acção política será desenvolvida com o povo o que significa, em grego escorreito, que se fará na rua. Por ultimo, o único e inconfessado objectivo de Papandreou quando anunciou a intenção de convocar o referendo, o alijamento da responsabilidade política e o prolongamento da sua própria permanência no poder, fracassou de forma estrepitosa. Uma coisa é fazer bluff quando o jogo não é grande coisa. Outra, bem diferente, é fazê-lo quando já não se tem cartas na mão.

Quando Vítor não é o princípio de Vitória


Rui Rocha,

Vítor Pereira não será, sequer, o principal culpado. Não lhe cabe qualquer responsabilidade na ausência de soluções para substituir Falcão. O descontentamento e a desmotivação de jogadores que pretendiam sair e acabaram por ficar não foi ele que o provocou. E também não foi ele que se deixou surpreender sem plano B adequado para substituir André Villas-Boas. Mas, também é verdade que a falta de chama e de entusiasmo do futebol do Porto são a sua cara. O treinador do Porto só fala grosso nas conferências de imprensa das vésperas dos jogos. E, mesmo aí, o seu discurso é forçado e não entusiasma ninguém. Em todo o caso, é o seu destino que está praticamente traçado. Os jogadores são activos da SAD. Responsabilizá-los é promover a sua desvalorização e os tempos não estão para isso. Pinto da Costa, esse é intocável. Numa altura em que jogadores e adeptos já não escondem o seu descontentamento, o Porto quer tranquilidade. E, no futebol nacional, tranquilidade rima com risco ao meio. O tempo de Vítor Pereira esgotar-se-á em 15 de Novembro se Portugal não ultrapassar a eliminatória com a Bósnia-Herzegovina. Caso tal não aconteça, a sua eventual permanência dever-se-á não tanto aos seus méritos, mas sobretudo à falta de alternativas que Pinto da Costa possa considerar credíveis.  

O estranho caso dos pensionistas gregos que desaparecem aos milhares ou morrem como tordos


Rui Rocha,

Os insuportáveis alemães mostraram-se muito chocados quando descobriram que os gregos pediam a reforma relativamente cedo. Todavia, esqueceram-se nessa avaliação apressada de procurar explicações para o fenómeno. Condenaram a situação, exigiram alterações legislativas (o topete da Merkel, han?) e pronto, foram beber cerveja para a Oktober Fest. É claro que uma análise atenta permitiria certamente encontrar excelentes razões para a situação. Quais? Pois, não sei. Os alemães que as procurassem, não? Ou pensam que é só exportar produtos germânicos para a Grécia sem fazer nenhum? Uma coisa é certa. Não é possível pedir aos gregos que as procurem porque eles ou estão reformados e já não podem trabalhar em projectos desses ou estão demasiado ocupados a consumir os produtos alemães e a gastar o dinheiro dos empréstimos que os credores os coagiram a aceitar. Bom, tudo isto vem a propósito de um novo e surpreendente fenómeno detectado recentemente a propósito dos pensionistas gregos. Pelo visto, não só os descendentes de Sócrates (não, não me refiro ao futebolista) são compelidos a abandonar precocemente a actividade laboral como, depois de reformados, desaparecem aos milhares e morrem aos magotes. Impressionante, não? É verdade. Imagine-se que o fundo de pensões IKA, responsável pelo pagamento das reformas da maior parte dos trabalhadores gregos, decidiu realizar um censo entre os seus beneficiários. Cá para nós, dá-lhes para cada uma. Se pagassem as pensõezinhas e pronto… Enfim, gostam de complicar o que é fácil e depois queixam-se que os desastres sucedem. Foi o caso. Em cinco meses de censo, foram declaradas mais 34.000 mortes de pensionistas gregos do que em igual período do ano anterior. Uma mortandade. Uma carnificina. Uma chacina. Causas? Não é difícil de adivinhar. Os pensionistas ficaram muito angustiados com os exigentes requisitos da prova de vida (basicamente tinham que mostrar que estavam vivos) e não conseguiram. Que descansem em paz. Mas, a tragédia não fica por aqui. Há mais 32.000 pensionistas que continuam desaparecidos. Ou seja, uns morreram de susto. Os outros assustaram-se e perderam-se. Temo mesmo que a esmagadora maioria nunca venha a ser encontrada. E, perante tudo isto, o que fazem os alemães? Apoiam nas missões de resgate e salvamento? Não, limitam-se a impor a sua moral calvinista. Até nisso estão profundamente errados. Todos sabemos que a única moral que leva a algum lado é a do Calvin do Hobbes.

Mamma mia!


Rui Rocha,

 

Pelo visto, o Ministro das Finanças de Itália, Giulio Tremonti, interpelou hoje Sílvio Berlusconi nos seguintes termos, quando ambos se encontravam em Cannes, na cimeira do G20:

“O que te digo é que na segunda-feira os mercados serão um desastre se tu continuares em funções. Porque o problema, para a Europa e para os mercados, podes muito bem ser tu”.

Entretanto, os juros da dívida italiana a três anos aproximam-se já dos fatídicos 7% (é sempre bom recordar a saudosa e  invulgar sagacidade de Teixeira dos Santos) e, num sinal de total confiança na gestão das contas públicas italianas, ficou hoje decidido que a aplicação das medidas de austeridade será supervisionada pelo FMI e pela UE.

 

Todavia, Sílvio Berlusconi continua a dar sinais de enorme lucidez. Perante as visões catastrofistas, declarou que não há crise em Itália: “os restaurantes estão cheios e não há lugares nos aviões“.

 

Mais, revelando total confiança no poder de compra dos italianos e dos demais cidadãos deste mundo, Il Cavaliere agendou para 22 de Novembro o lançamento do seu novo disco, Vero Amore, com canções românticas e imagens sugestivas. Digo que é coisa para acalmar os mercados.

 

Como se vê, o mundo continua a girar. Berlusconi, Zapatero, Sócrates, Jardim, Papandreou e o partido grego da Nova Democracia tratam da sua parte e no final do dia a irresponsável é a Merkel.

O Orçamento do PS


Rui Rocha,

O Orçamento de Estado para 2012 não é um documento corrente. O aumento significativo da carga fiscal ou a suspensão dos subsídios de Natal e de férias da função pública e dos pensionistas são medidas com profundas implicações na vida dos portugueses. Daí que, em rigor, só existam duas posições possíveis perante as propostas ali previstas: estar contra ou estar a favor. A neutralidade não é viável face à  excepcionalidade do documento. Assim, a abstenção na votação na generalidade anunciada por António José Seguro só pode ter uma interpretação: apesar de toda a argumentação de circunstância (as medidas vão além do memorando da Troika ou há margem para reter apenas um dos subsídios), o PS aprova as medidas ali inscritas e vincula-se a elas. O Orçamento de Estado para 2012, tal como o Memorando da Troika, é também o Orçamento do PS. Neste contexto, a partir da sua aprovação, o papel de António José Seguro como líder da oposição não poderá ser o de questionar as medidas previstas. Pelo contrário, e por muito que isso lhe cause desconforto, terá de ser o de exigir a sua correcta e integral execução.

A tragicomédia grega em 5 passos e algumas conclusões


Rui Rocha,

Os passos:

– 27 de Outubro de 2011: “Este é um novo dia para a Grécia” (George Papandreou, a propósito do novo plano de resgate para a Grécia).

– 31 de Outubro: “Decidi convocar um referendo sobre o plano de resgate” (George Papandreou).

– 2 de Novembro: “Jogada política genial de Papandreou” (Manuel Maria Carrilho).

– 2 de Novembro: “A Grécia cumpre ou sai. Fica suspensa a transferência de fundos prevista no plano de resgate.” (Merkel & Sarkozy).

– 3 de Novembro: “O referendo nunca foi um fim em si mesmo” (George Papandreou).

 

As conclusões:

a) Nunca esteve em causa a devolução da soberania ao povo. O referendo foi usado por Papandreou como arma política de recurso face à fragilidade da sua própria situação pessoal. A consulta do povo foi um joguete arremessado de forma oportunística.

b) A Grécia sai ainda mais enfraquecida de um braço de ferro suicida e extemporâneo. O bluff não pegou.

c) A opção política de Atenas continua a ser a submissão à Troika e à agenda do resgate, com toda a perda de soberania que esta implica, eventualmente agravada por uma maior desconfiança dos parceiros europeus perante os factos dos últimos dias. A alternativa seria ainda mais dolorosa.

d) A situação política da Grécia permanece extremamente confusa e periclitante, perante um Primeiro-Ministro fragilizado, uma oposição comprometida com os erros do passado e a necessidade de clarificação da solução que se seguirá: governo de salvação nacional ou, mais provável,  governo transitório, eventualmente com novo Primeiro-Ministro, com mandato estrito de aprovação dos termos do plano de resgate e convocação de novas eleições.

e) O Ministro das Finanças Venizelos assume preponderância política. A sua posição contrária ao referendo prevaleceu. Papandreou é o grande derrotado.

e) A trapalhada política provocada por Papandreou e os avanços e recuos relativamente à questão do referendo representam um combustível adicional derramado sobre o barril de pólvora político e social da Grécia. A rua terá dificuldade em aceitar que lhe retirem um referendo que foi prometido como forma de devolver a soberania ao povo.

f) A Grécia sobreviverá na Zona Euro, eventualmente, por mais um tempo, até se consumar a sua derrocada. A crise aberta por Papandreou obrigou os líderes europeus a considerarem essa hipótese como real. É possível que, devidamente ponderada, não lhes tenha parecido tão má como isso.