O estranho caso dos pensionistas gregos que desaparecem aos milhares ou morrem como tordos


Rui Rocha,

Os insuportáveis alemães mostraram-se muito chocados quando descobriram que os gregos pediam a reforma relativamente cedo. Todavia, esqueceram-se nessa avaliação apressada de procurar explicações para o fenómeno. Condenaram a situação, exigiram alterações legislativas (o topete da Merkel, han?) e pronto, foram beber cerveja para a Oktober Fest. É claro que uma análise atenta permitiria certamente encontrar excelentes razões para a situação. Quais? Pois, não sei. Os alemães que as procurassem, não? Ou pensam que é só exportar produtos germânicos para a Grécia sem fazer nenhum? Uma coisa é certa. Não é possível pedir aos gregos que as procurem porque eles ou estão reformados e já não podem trabalhar em projectos desses ou estão demasiado ocupados a consumir os produtos alemães e a gastar o dinheiro dos empréstimos que os credores os coagiram a aceitar. Bom, tudo isto vem a propósito de um novo e surpreendente fenómeno detectado recentemente a propósito dos pensionistas gregos. Pelo visto, não só os descendentes de Sócrates (não, não me refiro ao futebolista) são compelidos a abandonar precocemente a actividade laboral como, depois de reformados, desaparecem aos milhares e morrem aos magotes. Impressionante, não? É verdade. Imagine-se que o fundo de pensões IKA, responsável pelo pagamento das reformas da maior parte dos trabalhadores gregos, decidiu realizar um censo entre os seus beneficiários. Cá para nós, dá-lhes para cada uma. Se pagassem as pensõezinhas e pronto… Enfim, gostam de complicar o que é fácil e depois queixam-se que os desastres sucedem. Foi o caso. Em cinco meses de censo, foram declaradas mais 34.000 mortes de pensionistas gregos do que em igual período do ano anterior. Uma mortandade. Uma carnificina. Uma chacina. Causas? Não é difícil de adivinhar. Os pensionistas ficaram muito angustiados com os exigentes requisitos da prova de vida (basicamente tinham que mostrar que estavam vivos) e não conseguiram. Que descansem em paz. Mas, a tragédia não fica por aqui. Há mais 32.000 pensionistas que continuam desaparecidos. Ou seja, uns morreram de susto. Os outros assustaram-se e perderam-se. Temo mesmo que a esmagadora maioria nunca venha a ser encontrada. E, perante tudo isto, o que fazem os alemães? Apoiam nas missões de resgate e salvamento? Não, limitam-se a impor a sua moral calvinista. Até nisso estão profundamente errados. Todos sabemos que a única moral que leva a algum lado é a do Calvin do Hobbes.

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