As primeiras consequências do manifesto de Mário Soares


Rui Rocha,

 

Senhor Dr. Mário Soares,

 

Li com emoção o manifesto que subscreveu e que hoje foi divulgado. Reconheço nele o cunho inconfundível do grande democrata e do homem de visão com quem tenho tido a honra de partilhar, a partir da minha modesta condição, momentos bons e horas difíceis (atrasos, delongas e desencontros fazem parte, como sabe, do nosso dia-a-dia). Tocado pelo pungente apelo ali lançado, é com enorme alegria que lhe comunico que decidi seguir a sua voz. Chama-me a rua, desafia-me o combate. Quero lutar contra os mercados, ali onde eles estiverem. Anseio por banhar-me na Fontana di Trevi ou por fincar os meus pés na Praça Syntagma, sempre em protesto contra a tomada do poder pelos tecnocratas. Sonho com a praça Tahrir e com a rua egípcia. Aliás, permita-me que realce a genialidade do manifesto na parte em que compara, em legitimidade, o protesto contra os ditadores árabes com aquele que agora convoca para as quelhas e travessas desta nossa democracia. Sei, entretanto, que dificilmente o passo pode ser maior do que a perna. O palco desta luta para a qual o manifesto me despertou é o mundo, mas a minha carteira não me permite ir muito para lá de Santos-o-Velho. Por isso, e para já, conformo-me. Manifestarei esta indignação que me sufoca, esta raiva que me cresce nos dentes (sim, eu também gosto muito dos artigos do Senhor Dr. Nicolau Santos e aproveito sempre a hora de almoço do Senhor Dr. Mário Soares para ler o Caderno de Economia do Expresso), aderindo à greve geral de amanhã. Sei, Senhor Dr. Mário Soares, que esta decisão lhe causará algum transtorno. Não desconheço que o Senhor Dr. tinha a consulta do calista agendada para o próprio dia 24. No entanto, confio que o grande democrata e estadista saberá compreender que há momentos em que é mais importante seguir os ventos da história do que prover às necessidades das unhas encravadas. Não me despeço sem, se me permite, o abraçar calorosamente, dizendo-lhe que nos sinto agora muito mais próximos em valores e em ideais.

 

Atenciosamente, subscrevo-me José Albano (o seu motorista).

What´s in a name, indeed


Rui Rocha,

 

Tranquada Gomes e Coito Pita são dois ilustres advogados madeirenses. Para além disso, nas horas vagas, são também deputados na Assembleia Legislativa Regional da Madeira, integrando ambos a bancada do PSD. A Tranquada Gomes coube, por exemplo, a defesa da proposta que permitirá que o voto de um deputado possa valer pelo universo do grupo parlamentar. Coube a Tranquada, mas podia ter cabido a Coito Pita pois que este, estou certo, asseguraria a missão com desempenho equivalente. Para este tipo de assuntos, tanto vale e vale tanto falar de Coito, como de Pita ou de Tranquada. No final de contas, é sempre a democracia que fica fodida.

Do direito à greve


Rui Rocha,

 

Há assuntos sobre os quais devíamos conseguir entendermo-nos em definitivo para não sermos obrigados a repetir argumentos estafados sempre que a situação se repete. As greves provocam incómodos e, em geral, revelam-se inúteis. Tudo certo. Mas, nada incomoda mais do que os comentários que procuram sublinhar o incómodo e a inutilidade das greves. Estas são um direito que tem como único critério a vontade dos trabalhadores. É assim que as devemos encarar. Numa sociedade adulta, respeita-se sem adversativas o direito à greve e o correspondente direito à não greve. Depois, fazem greve os que entendem fazer, sofrem-nas os que devem sofrer e tiram-se as conclusões pertinentes. São os custos de viver em sociedade. Convenhamos, há por aí outros bem piores. Nunca fiz greve, nem tenciono fazer nos próximos tempos. Mas, no dia em que decidir fazer, não aceitarei que condicionem o meu direito a partir de um critério de utilidade ou do incómodo que pode causar. Da mesma maneira, não aceito que esse seja o critério a aplicar aos que entendem fazer greve no presente. Se virmos bem, muitas vezes as próprias eleições não servem para grande coisa e implicam custos elevados. Todavia, não tenciono prescindir do direito de votar por tais motivos, ainda que um dia, a propósito de um acto eleitoral concreto, decida abster-me. Aliás, numa análise de âmbito mais amplo sobre o mundo do trabalho, não me parece que o incumprimento das obrigações se situe, sobretudo, do lado dos trabalhadores. Mas, nos casos em que tal possa acontecer, é precisamente no campo da violação das obrigações, e não no da limitação explícita ou implícita do direito à greve, que se deve actuar. Num momento em que vivemos perdidos no relativismo, é importante valorizar a existência de direitos inquestionáveis, ainda que discordemos do momento, da forma ou das razões de quem os exerce. Até porque, mais cedo ou mais tarde, é muito possível que tenhamos necessidade de os exercer também. E é bom que, nessa altura, os encontremos ainda assim. Intocáveis e imunes a critérios de conveniência arbitrados por terceiros.  

Pum, pum, pum


Rui Rocha,

 

O leitor ouviu o título deste post? Foram foguetes. Viu o postal que o ilustra? É muito bonito, não foi? Agora que já se animou com as emoções patrocinadas por Jardim & Companhia de Irresponsabilidade Ilimitada, vamos a números, se não se importa. Os proveitos do alojamento turístico ascenderam na Madeira a 250 milhões de euros em 2009 e a 227 milhões de euros em 2010. Todavia, como aqui se vê, a soma dos proveitos dos meses de Dezembro e de Janeiro dificilmente ultrapassa os 30 milhões de euros. Aqui chegados, uma pergunta: que percentagem dos turistas que visitam a Madeira entre Dezembro e Janeiro continuaria a fazê-lo se não existisse animação ou se esta fosse mais contida? Não sei, confesso. Mas, sei uma coisa. Os proveitos do mês de Novembro de 2010, em que não existiu Natal, Réveillon ou Carnaval, foram superiores a 14 milhões de euros. Isto é, Novembro de 2010, sem nenhuma âncora, gerou mais proveito do que Janeiro ou Dezembro do mesmo ano (cada um deles vale cerca de 14 milhões). Assim, é de admitir que a decisão de visitar a Madeira no final do ano seja ditada, tal como acontece em Novembro, por muitos outros motivos de interesse. E que a animação seja, só por si, pouco relevante. Todavia, aceitemos o cenário (muito pouco provável face aos dados de Novembro) de essa animação ser a razão directa e única de 30% dos proveitos dos meses de Dezembro e Janeiro. Teríamos pois proveitos de cerca de 10 milhões de euros exclusivamente justificados pelo foguetório e actividades conexas. Ora, o custo total do investimento do Governo Regional da Madeira em animação, iluminações e fogo-de-artifício pode ascender a 5 milhões de euros. Isto é, 50% dos proveitos do alojamento turístico a que daria origem (no tal cenário muito pouco provável). Faça agora o leitor a sua análise. Entretanto, não deixarei de submeter outro número à sua consideração. Em Dezembro e Janeiro de 2010, entraram na Madeira, no total, cerca de 93 mil hóspedes. Os 5 milhões investidos em animação poderiam ser convertidos num vale de 50€, oferecido pelo Governo Regional a cada um deles, para gastar em actividades de diversão na ilha. Pergunto-me o que os deixaria mais satisfeitos e o que estimularia mais a economia local… Enfim, independentemente dos exemplos, o que pretendo é apresentar números que apoiem a reflexão. Não o ocuparei nesta tarde soalheira com minudências como o papel das instituições públicas na economia, a teoria e prática dos ajustes directos ou a sensatez nos gastos públicos (do género será que 1 ou 2 milhões não fariam o mesmo efeito?). Entretanto, se a sua opção for pelo foguetório, desejo-lhe bom proveito.

Parem a montanha-russa


Rui Rocha,

A redução dos salários ocupou o espaço mediático e os fóruns de discussão nos últimos dias. Recordo, a este propósito:

  • a questão das folgas orçamentais suscitada pelo PS para defender a possibilidade de salvar um dos subsídios da função pública e dos pensionistas;

  • a resposta errática do Governo, ora admitindo a discussão, ora fechando a porta à viabilidade de alteração do orçamento nessa matéria;

  • a sugestão, de sentido dúbio, dos elementos da Troika relativamente à necessidade de estender ao sector privado os cortes previstos para os funcionários públicos;

  • a revisão das tabelas da função pública lançada para o debate por algum membro do Governo e já arrefecida por outros.

Ora, o que todos os políticos e técnicos responsáveis deviam perceber, representem eles instituições nacionais ou internacionais, é que estamos a falar de assuntos extremamente melindrosos e que provocam consequências graves e profundas na vida das pessoas. Por isso, exige-se a todos (isto é, em primeira linha ao Governo e também à oposição que quer ser credível e aos representantes da Troika) sensatez, contenção e sentido de responsabilidade. Corte-se no que tiver de ser cortado, na estrita medida do necessário. Discutam-se as opções com rigor e seriedade. Todavia, tenha-se também presente que é inadmissível que o debate seja intoxicado, numa matéria tão sensível, com demagogia, oportunismo ou inépcia técnica e comunicacional. Não há modos agradáveis de abordar más notícias. Mas, para que não se prolongue a tortura emocional dos reais ou presumíveis afectados,  é obrigatório encontrar formas correctas, claras e concisas de o fazer.

Rubalcaba tinha razão


Rui Rocha,

 

O candidato derrotado do PSOE nas eleições legislativas ontem realizadas em Espanha, Alfredo Pérez Rubalcaba, defendeu há uns tempos, ainda na qualidade de ministro do governo de Zapatero, a proibição de ultrapassar os 110.

 

A história encarregou-se de demonstrar que estava carregadinho de razão: com 110 deputados, socialistas têm o pior resultado de sempre em legislativas.

As eleições em que a Espanha ganhou ainda antes de votar


Rui Rocha,

 

Realizam-se hoje eleições legislativas em Espanha. A escolha daqueles que irão assumir o destino das nações em nome do povo, através do voto, é sempre um momento de celebração nas democracias representativas, ainda que o contexto interno e internacional apresentem mais motivos de preocupação do que razões para sorrir. Mas, estas eleições apresentam ainda dois motivos adicionais que justificam o regozijo dos democratas. Antes de mais, e fundamentalmente, importa registar que são as primeiras que se realizam depois da queda da ditadura franquista que decorrem sem a sombra do terrorismo da ETA. Por uma vez, o medo e o sangue não mancharam o exercício do debate democrático nem condicionaram a escolha livre dos cidadãos. Por outro lado, as eleições de hoje marcam também o ocaso de uma certa visão, dita socialista, de gestão do espaço público. O socialismo de Zapatero reclamou para si uma visão progressista da sociedade, estruturada a partir de 3 ideias fundamentais: a permanência de alguns dogmas do imaginário de esquerda tomados exclusivamente pelo seu valor facial, um discurso efusivo, sentimental e exacerbadamente optimista e uma fundamentação ética que nunca encontrou raiz mais profunda do que a que resulta da dimensão inatacável das boas intenções. Em rigor, e por isso mesmo, trata-se de uma proposta política que, como defende Santiago Gonzalez em Lagrimas Socialdemocratas, não esconde a pobreza da sua sustentação intelectual e em que a argumentação e a crítica foram sempre abafadas pelo foguetório. Descascado da capa espessa do marketing político, o socialismo de Zapatero revelou-se nas suas componentes estruturais: o betão a qualquer preço, as teias de interesses e o conluio entre clientelas e interesses públicos e privados, o crédito e o endividamento desbragados e o sucesso tão rápido quanto insustentável. Tudo aquilo que os espanhóis resumem com uma palavra: despilfarro. O seu legado mais grave é, todavia, um golpe profundo na viabilidade da coesão e do estado social. Esse mesmo que, vezes sem conta e com assinalável falta de pudor ou, quando menos, com total imprevidência, invocou reiteradamente e em vão. Que o digam os mais de 5 milhões de desempregados espanhóis. Uma herança brutal que Zapatero, eleito pela primeira vez em 14 de Março de 2004, deixa como marca mais visível dos seus mandatos.

Em Coimbra, sem encanto, na hora da despedida


Rui Rocha,

 

Há várias pontas por onde seria possível pegar para descrever mais uma exibição desoladora do Porto. Poderia referir-se, é claro, uma primeira parte em que a equipa não fez um remate. Ou resumir a coisa a partir da evidência de desastre que se concretiza em sofrer 3 golos em 45 minutos. Viria também a propósito falar da planificação medíocre da época, do fosso que existe entre o maior investimento de sempre e o pior futebol do século, ou da incapacidade de Vítor Pereira para, sequer, motivar um exército de formigas ainda que dispusesse de uma tonelada de açúcar. Tudo isso seria verdade, tão verdade como dizer que o lado da defesa do Porto meteu mais água do que aquela que passou no leito do Mondego no Inverno passado, que Hulk mudou para muito pior (e não me refiro à cor do cabelo) ou que a equipa revela menos intensidade do que a corrente eléctrica do Estádio Axa de Braga em dia de jogo com o Benfica. Mas, pensando bem, de que serve lembrar tudo isto e o resto todo se é o próprio treinador portista quem afirma que não encontra explicações e que não há ponta por onde pegar? No fundo, não é no discurso de Vítor Pereira que vale a pena determo-nos. Ali ao seu lado, Pedro Emanuel resumiu a noite em cinco palavras: o jogo não teve história. E a história, embora não seja grande coisa, é precisamente o único lugar que Vítor Pereira pode ainda ocupar no Futebol Clube do Porto.

Não vai ainda, seu Jorge (ou os próximos episódios da crise do euro)


Rui Rocha,

O Luís Jorge, aqui mais abaixo, inquieta-se com o fim do euro. O Jaa é uma alma solícita onde as houver. Por isso, recomenda-lhe que: a) troque euros por reais; b) arranje um emprego no Brasil; c) vá quanto antes para o país irmão. Parece-me uma decisão apressada. Na verdade, é fundamental termos presente que a crise está a ser gerida pela Senhora Merkel. A Senhora Merkel é uma política. Alguns (pouquíssimos) políticos são estadistas. Outros (ainda menos) têm coração. A nenhum falta uma agenda. A da Senhora Merkel só tem, por esta altura, uma data assinalada. A do dia em que irá a eleições. Por isso, importa perceber o que os alemães querem e o que não querem. E eles querem paz e prosperidade (ai os sacanas). Por isso mesmo, não querem o estouro do euro. Mas, e isto é realmente importante, também não querem  que os seus impostos sejam utilizados para cobrir o endividamento irresponsável e o descontrolo orçamental dos gregos e de outros troianos. Estes calvinistas são dados a coisas que não se passam em outras latitudes (veja-se o caso dos portugueses continentais que estão mortinhos por ajudar a Madeira). Ora, no curto prazo, só há uma forma de evitar o estouro do euro: injecção maciça de liquidez nos mercados através do BCE (directamente ou às três tabelas, com o FMI pelo meio). Merkel pode correr e saltar mas, mais cedo do que tarde, os juros da dívida de Itália e de Espanha obrigá-la-ão a aceitar esse cenário. Enganam-se, todavia, aqueles que pensam que isso aliviará a austeridade nos países em dificuldades. Pelo contrário. Do ponto de vista do interesse de Merkel (e é só esse que importa) será necessário garantir ao eleitor alemão que os estarolas pagarão a sua parte do preço. Não é por acaso que os tecnocratas subiram ao poder em Itália e na Grécia. Assim, o BCE só inundará o mercado depois de estarem garantidas medidas que Merkel possa apresentar aos seus eleitores como contrapartida. Curiosamente, tais medidas são também do interesse dos países em dificuldades. Para se manterem no euro, as condições são essas. Se saírem do euro, só conseguirão evitar uma catástrofe se tiverem contas públicas equilibradas e concretizarem reformas estruturais que implicam maior flexibilidade da economia e redução da dimensão do Estado. Quando o BCE ligar as máquinas, presumivelmente até ao final do ano (reparem que não digo “se”), os mercados acalmarão, o euro tenderá a valorizar-se (ver aqui a justificação para o aparente paradoxo) e as bolsas subirão. Será um período de bonança relativa. Nesse período, o Luís Jorge deve manter as poupanças em euros e investir em acções. Se Israel não atacar o Irão, digo que pode obter valorizações superiores a 20% em dois ou três meses. Note-se que esta será uma solução meramente transitória. A sobrevivência do euro depende de alterações estruturais. Passados três meses constatar-se-á que a integração fiscal é praticamente impossível, pelo menos para uma parte dos países da Zona Euro (vocês fazem ideia de quais são) e a situação tornar-se-á explosiva. Antes que tal aconteça, com os bolsos cheios de euros devido às mais-valias oportunamente realizadas nos mercados, o Luís Jorge deverá seguir os sábios conselhos do Jaa. Estaremos então (há mesmo fulanos com sorte) por alturas do Carnaval.

Liga dos Impunes (actualização)


Rui Rocha,

 

Duarte Lima 1 x Fátima Felgueiras 0

Isaltino Morais 1 x Armando Vara 0

Armando Vara 0 x Dias Loureiro 0

Isaltino Morais 1 x Duarte Lima 1

Dias Loureiro 0 x Fátima Felgueiras 0

Fátima Felgueiras 0 x Isaltino Morais 1

Duarte Lima 1 x Armando Vara 0

Armando Vara 0 x  Fátima Felgueiras 0

Dias Loureiro 0 x Duarte Lima 1

Isaltino Morais 1 x Dias Loureiro 0

 

Duarte Lima e Isaltino Morais seguem isolados na liderança com 1 (um) dia de detenção. O Presidente da Liga, Valentim Loureiro, declara-se, num primeiro balanço,  muito satisfeito com o espírito competitivo e o fair-play demonstrados por todos os participantes na prova.

A terrível redução dos salários no sector privado


Rui Rocha,

O dia amanheceu com um novo foco de intensidade dramática. Diz-se que a Troika quer impor a redução dos salários do sector privado. Por esta hora, os jornais, as rádios e as televisões já entrevistaram milhões de especialistas. O dono do café onde tomei um galão e meia torrada apresentou-se hoje aos clientes de barba feita e roupa lavada. Confidenciou-me que existem boas razões para acreditar que também ele será ouvido ainda hoje sobre este tema. Afinal de contas, já não falta ouvir mais ninguém. Todavia, convém reflectir um pouco antes de arrancarmos os poucos cabelos que nos restam. Desde logo, quem ler o relatório de acompanhamento publicado e ouvir as intervenções dos elementos da Troika com atenção, poderá chegar à conclusão de que não se trata de uma imposição, mas de uma previsão. Face à retracção do consumo e à redução dos salários da função pública, nada mais natural do que um reajustamento mecânico dos salários no sector privado, sobretudo nos sectores que dependem do mercado interno. A estrutura remuneratória da generalidade das empresas privadas já integra hoje uma parte variável indexada aos resultados. Se a empresa ganhar menos, os trabalhadores levam menos para casa. Se a empresa perder, os trabalhadores vão para casa. Depois, mesmo que se venha a concluir que a imposição virá, com a indispensável alteração legislativa, convém não esquecer alguns pontos. A essa redução nominal seguir-se-ão ajustamentos de diversa natureza. As empresas saudáveis não deixarão de compensar os seus trabalhadores (os que merecerem) com outras remunerações complementares. As que enfrentarem dificuldades verão na medida um balão de oxigénio. Se ficarem por aí e não se reinventarem, acabarão por fechar apenas um pouco mais tarde. Ou seja, no sector privado, a vida continuará como antes. Com sucessos, fracassos, injustiças, entradas, saídas, prémios, promoções, mais ou menos remuneração em função dos resultados individuais e das vitórias ou derrotas das empresas, despedimentos colectivos, falências, salários em atraso ou desemprego. Trata-se de ganhar, perder e voltar a tentar. Por isso, que não doa a cabeça a todos quantos estão muito preocupados com as possíveis dentadas da Troika na carne dos trabalhadores do sector privado. Estes já vivem há muito tempo no espaço e no tempo da realidade. Como diria o outro, é a vidinha.

O realismo mágico na obra de Carlos Zorrinho


Rui Rocha,

Para lá das versões e interpretações jornalísticas, as intervenções dos representantes da troika em discurso directo (podem consultar-se no Económico) e o relatório de acompanhamento hoje publicado salientam os seguintes pontos essenciais:

  • a execução do orçamento de 2011 enfrentou dificuldades inesperadas e o cumprimento do objectivo orçamental só será possível com medidas extraordinárias (integração dos fundos de pensões da banca) devido a derrapagens na despesa e à insuficiência de medidas correctivas;
  • não há folgas no orçamento de 2012;
  • o corte nominal dos salários da função pública (por via dos subsídios) é uma medida adequada e o sector privado deve seguir-lhe o exemplo (seguirá, certamente);
  • o país tem funcionários públicos a mais;
  • em 2012 é necessário concretizar medidas de natureza estrutural, ao nível da despesa pública, e sobretudo nas administrações locais e regionais e no sector empresarial do estado, sendo o enquadramento da situação da Madeira uma oportunidade para dar um sinal claro de que não serão tolerados comportamentos erráticos e irresponsáveis;
  • a recapitalização da banca deve respeitar os interesses dos contribuintes, a estabilidade do sistema e as normas da União Europeia;
  • é necessário aprofundar a reforma do mercado laboral e assegurar condições efectivas de concorrência, eliminando práticas de distorção no sector energético e nas profissões reguladas.

Ou seja, a mensagem é clara no sentido de aprofundar o movimento de imersão na realidade nua e crua. Todavia, perante isto, Carlos Zorrinho diz que ouviu isto. Se esta tendência se mantiver, é lícito concluir que o PS abandonou os princípios fundamentais da Galamba School of Economics para aderir, definitivamente, à escola do realismo mágico.

 

O homem e a sua (no caso, a minha) circunstância


Rui Rocha,

 

Ultrapassei os 40 anos de idade sem grandes danos visíveis. Um poucochinho menos de olhos. Um nadinha mais de barriga. As orelhas são o que sempre foram. O nariz tem a amolgadela que ficou daquela épica final do basquete escolar em que fiz 3 pontos com o septo nasal. A somar a isso, uma cicatriz muito disfarçada (embora o ortopedista sul-americano que fez a sutura tenha realizado um esforço sério no sentido de deixar  uma marca para toda a vida) e que foi provocada pelo embate de uma tábua na cabeça, em pleno AKI, num raríssimo episódio em que me preparava para cometer bricolage. É certo que análises realizadas após 15 anos de irresponsabilidade indicam um problemazinho nos triglicerídeos. Mas, não é um desvio colossal! Os sacanas ainda não foram promovidos a tetraglicerídeos ou reclassificados em colesterol. No ácido úrico é que já não há folga nem almofada. Não posso continuar a acumular picanha, mexilhões, alheira de caça (não, Armando, ninguém te chamou) e espinafres. Nesse caso, tanto pior para a sopa de espinafres. É uma decisão dura, mas não há alternativa. Daqui a 15 anos, quando fizer análises outra vez, os benefícios desta medida brutal serão evidentes. Assim sendo, com o cabelo rigorosamente da cor que o ADN lhe deu, e embora a estatística não apoiasse essa tese, nada impedia que este cidadão continuasse a aspirar à imortalidade. Desde que, naturalmente, fosse possível resistir à tentação da bricolage. E à sopa de espinafres. Dah, imortalidade…, atira-me o leitor. Pois digo-lhe que já me aconteceram coisas que, vistas daqui, parecem bem mais improváveis. Ou existirão muitos que, na mesma vida, tenham levado com uma tábua na cabeça em pleno AKI e marcado 3 pontos com o septo nasal? Ah pois é! Subitamente, todavia, a harmonia foi definitivamente abalada quando, numa operação rotineira de lavagem de mãos, encarei o espelho e, oh tragédia!, oh desgraça!, oh memorando da troika na parte que diz respeito à Banca!, o vi ali, mesmo por cima da orelha esquerda. O primeiro cabelo branco! O impulso foi, naturalmente, para o arrancar sem piedade. Mas, já na iminência do gesto irreflectido, a vastíssima experiência de vida  aconselhou um período de reflexão: “calma, não viste já tantos ministros da economia declararem, num momento de vertigem, o fim da crise, comprometendo assim toda a escassíssima credibilidade que lhes restava? Sim! E não ouviste já dizer, num cabeleireiro, que quando se arranca um cabelo branco nascem logo milhares? Pois ouvi”. Foi deste diálogo interior que nasceu o pensamento estratégico e o plano de acção com base científica. Se Portugal ganhar à Bósnia, arranco o sacana. Caso contrário, ele fica. É bem sabido que um mal nunca vem só e não posso correr o risco de acordar amanhã com a selecção fora do Euro de dois mil e coiso e com a cabeça tão branca como a do Avô Cantigas. É certo que, se a coisa correr mal, será necessário tomar medidas adicionais. Sobre este ponto, mantenho uma certa reserva. Levantarei apenas a ponta do véu (sim, entretanto comprei um véu, não vá o diabo tecê-las) para dizer que ali o Hulk foi a fonte de inspiração da solução que congeminei e que espero, a bem do futebol nacional, não ter de pôr em prática. E é assim que me encontra, leitor. Angustiado, é certo, mas também muito determinado. Entretanto, não há texto profundo, como é o caso deste, que não deva concluir-se com uma citação de Ortega Y Cassette. Pois aqui estou, homem, com a minha circunstância. No caso concreto, esta tem todo o insustentável peso de um cabelo branco.