Pum, pum, pum


Rui Rocha,

 

O leitor ouviu o título deste post? Foram foguetes. Viu o postal que o ilustra? É muito bonito, não foi? Agora que já se animou com as emoções patrocinadas por Jardim & Companhia de Irresponsabilidade Ilimitada, vamos a números, se não se importa. Os proveitos do alojamento turístico ascenderam na Madeira a 250 milhões de euros em 2009 e a 227 milhões de euros em 2010. Todavia, como aqui se vê, a soma dos proveitos dos meses de Dezembro e de Janeiro dificilmente ultrapassa os 30 milhões de euros. Aqui chegados, uma pergunta: que percentagem dos turistas que visitam a Madeira entre Dezembro e Janeiro continuaria a fazê-lo se não existisse animação ou se esta fosse mais contida? Não sei, confesso. Mas, sei uma coisa. Os proveitos do mês de Novembro de 2010, em que não existiu Natal, Réveillon ou Carnaval, foram superiores a 14 milhões de euros. Isto é, Novembro de 2010, sem nenhuma âncora, gerou mais proveito do que Janeiro ou Dezembro do mesmo ano (cada um deles vale cerca de 14 milhões). Assim, é de admitir que a decisão de visitar a Madeira no final do ano seja ditada, tal como acontece em Novembro, por muitos outros motivos de interesse. E que a animação seja, só por si, pouco relevante. Todavia, aceitemos o cenário (muito pouco provável face aos dados de Novembro) de essa animação ser a razão directa e única de 30% dos proveitos dos meses de Dezembro e Janeiro. Teríamos pois proveitos de cerca de 10 milhões de euros exclusivamente justificados pelo foguetório e actividades conexas. Ora, o custo total do investimento do Governo Regional da Madeira em animação, iluminações e fogo-de-artifício pode ascender a 5 milhões de euros. Isto é, 50% dos proveitos do alojamento turístico a que daria origem (no tal cenário muito pouco provável). Faça agora o leitor a sua análise. Entretanto, não deixarei de submeter outro número à sua consideração. Em Dezembro e Janeiro de 2010, entraram na Madeira, no total, cerca de 93 mil hóspedes. Os 5 milhões investidos em animação poderiam ser convertidos num vale de 50€, oferecido pelo Governo Regional a cada um deles, para gastar em actividades de diversão na ilha. Pergunto-me o que os deixaria mais satisfeitos e o que estimularia mais a economia local… Enfim, independentemente dos exemplos, o que pretendo é apresentar números que apoiem a reflexão. Não o ocuparei nesta tarde soalheira com minudências como o papel das instituições públicas na economia, a teoria e prática dos ajustes directos ou a sensatez nos gastos públicos (do género será que 1 ou 2 milhões não fariam o mesmo efeito?). Entretanto, se a sua opção for pelo foguetório, desejo-lhe bom proveito.

12 comentários em “Pum, pum, pum”

  1. Se o fogo de artifício é importante para a receita – eu acredito que é – os paquetes estão atracados na Madeira porque há festa. Quem a deveria pagar seria as associações de hoteleiros e comerciantes. Não o Estado que está em tudo.

    Uma melhor estatística seria ver as receitas desses dias e não a mensal.

    1. Pois seria, Lucky. Mas, eu não a encontrei. Quanto ao papel do Estado e das associações hoteleiras, adverti no post que não ia maçar ninguém com esses aspectos.

  2. Não que haja vida para além do défice (está exuberantemente demonstrado que não há!) mas, os olhos também comem, ó se comem, e de que maneira!
    A fria aritmética dos números e estatísticas fiduciárias não contempla, no caso das festas do Funchal, esse estremecimento fílmico da iluminação natalícia e do fogo de artifício do fim de ano. O “reveillon” na Madeira é um “must” apenas e porque existe essa exuberância de côr e luz. Comuniquem previamente às agências de viagens a ausência do espectáculo e esperem sentados que apareçam os paquetes pejados de turistas, à parte as reservas hoteleiras.
    Chegados aqui: poderia e deveria ser diferenbte em época de crise?
    Poder podia mas, não era, ostensivamente a mesma coisa.

    1. Muito bem, Ana. Mas, aí temos de nos aborrecer com aquelas coisas como os ajustes directos, a comparticipação exigível ao sector público e ao privado e outras questões do género… 3 milhões de euros de fogo-de-artíficio a dividir por 200 hoteis dá 15.000€. Se juntarmos os restaurantes e o comércio, dá muito menos a cada um. É o Governo Regional que deve pagar a totalidade (com impostos, claro)? Deve apenas comparticipar? Não deve pagar nada? Ainda bem que sé me vinculei a não o fazer no post e não nos comentários.

      1. Perorava eu nos domínios etéreos do sonho e da fantasia.Portanto, não há argumentação que lhe valha, nem a si nem a ninguém!
        Esgueiro-me, entretanto, de mansinho, não vá dar-me para consultar o anuário financeiro da Madeira e descobrir na conta-corente do governo regional uma rubrica atinente a rendas, bordados e epifanias. como a que sugere o opinador aí abaixo.
        Já agora será que a bocarra do Rock – Rochedo era para o Rocha?
        Deixem passar o bailinho da Madeira….

  3. Hmmmm … hmmmm ….
    Lamento vir aqui desacreditar as contas orçamentais expostas e por conseguinte as conclusões a que se chegou através delas.
    Aquilo que está programado para o final do ano na Madeira, vai muito para lá do fogo de artifício e do habitual arraial para chamar à ilha os turistas endinheirados.
    Para o final deste ano e após reunião em Belém cum sua ecelência , Alberto, comprometeu-se a endireitar a coisa… que é como quem diz… a atirar com terra para dentro do buraco.
    E na verdade, o Sr. Alberto teve uma ideia genial para o conseguir.
    E de onde lhe sobreveio esse rasgo de inesperada inteligência, perguntai-vos, atónitos e já salivantes por uma revelação bombástica.
    Pois o plano nasceu numa tarde de ócio da passada semana, quando o Sr. Alberto se encontrava descontraidamente a assistir no sofá da sala, ao vídeo passado e repassado “O Rochedo” – The Rock”, com o Nicolau das Gaiolas e o Xona nos Cantos.
    Foi então que o Sr. Alberto deu um valente estaladão na testa, que fez o charuto saltar-lhe dos beiços e aterrar aos pés da menina’Ângela , começando de imediato a queimar o pêlo do persa… genuíno.
    É isso! gritou o autarca-presidente , esfusiante , braços abertos, grossas gotas de suor a escorrer-lhe pela barbela, enquanto se dirigia a passos largos até à varanda, de onde se avista o Atlântico em toda a sua magnificência.
    É issssso !!! repetiu, enquanto a menin’Ângela muito afogueada chamava a empregada de dentro – Acode-me Ótílía cu senhore tássapassar .
    Alguns minutos depois, o Sr. Alberto voltou para dentro, sentou-se no sofá e declarou solenemente à menin’Ângela … -Neste rebeilon , a MadÊra vai passar a chamar-se; The Rock!
    Ainda de olhos esbugalhados e atarantada, a menin’Ângela atreveu-se tímidamente perguntar: – Tem calma Alberto, tu vê bem filho, olha cus Maderenses não estão habituados a essas medernices, ê achiu quera melhor manteres o corridinho e o Toni Carrêras… rock nã me cheira… só se for a garotada que ache mais piada.
    NãÊ nada disso Ângela, ripostou-lhe o “iluminado”. Vou mandar cercar a MadÊra com rede metálica electrificada e na nôte de 31 para 1, no meio do foguetaxo, dos arraiais e das ponchas, mando alevantar as redes e anuncio aos turistas que estão todos sequestrados, só os dêxo sair depois de contribuirem com o suficiente para tapar o buraco.
    Qué que me dizes, minha flôrzinha da madêra?!

    1. Hmmm…hmmm. Eu é que lamento não ter percebido o alcance e a genialidade da coisa. Bem haja, Bartolomeu (embora já não haja muita coisa para haver) por nos vir aqui iluminar. Sem recorrer a fogo-de-artifício.

  4. Que susto! Quando ouvi “pum, pum, pum”, julguei que se tratava de um atentado ao príncipe Alberto da Madeira! Afinal, não, o atentado é – mais uma vez – ele próprio. Não há iluminação nem fogo de artifício, por mais fortes que sejam, que acordem este homem para a realidade!
    ‘Não acordem o rato adormecido’, que a realidade virtual, numa ilha de fantasia é tão boooa!….

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