Vou pôr o lixo no contentor que fica ao fundo da rua. Desvio-me do vira-lata do costume. Parou de chover por um momento. Acelero o passo porque o céu escuro promete mais um aguaceiro. Perdido nos meus pensamentos, tropeço na conversa. Terá uns cinquenta anos. Está ao telemóvel e começa a elevar a voz:
Sabes, vou-te dizer uma coisa… viste aquele queijo? Foi praticamente isso e pão que comi toda a semana. Tu não fazes ideia do que é ter uma vida confortável e perder tudo de repente. Hoje pedi ajuda à minha mãe. Vamos ver até quando…
Regresso a casa com as pernas muito pesadas. Não sei se há quem nos possa proteger do que aí vem.

Lembro-me de ler qualquer coisa semelhante (ainda mais dramática, aliás, porque para aquelas bandas não há rede de segurança nenhuma, nem sequer esburacada como a nossa), há já muitos meses se é que não foram anos numa caixa de comentários de um grande blog económico americano.
A tempestade está agora a chegar a nós. Quem nos proteja, penso que não há. Mas talvez consigamos proteger-nos uns aos outros. Mais ou menos.
Não vai ser bonito, Isabel.
Meus pais criticaram a minha decisão quando decidi emigrar há 4 anos atrás. Hoje elogiam e desejam que tudo me corra pelo melhor por aqui… Sinto-me afortunado e ao mesmo tempo com a alma pesada, e triste, muito triste, pelo que ouço e vejo do meu país.
Fez bem, André Miguel. Aos que cá ficarmos resta-nos empobrecer.
Mas nunca perder a esperança, Rui!
Já passámos por muitas dificuldades e vencemos, desta vez não será diferente. Portugal é grande.
Sim, tenho esperança que os meus filhos, daqui por uns dez anos, quando forem para o mercado de trabalho, encontrarão um país melhor. Se for assim, valerá a pena.
O País não são números.
O País são os idosos que merecem um fim de vida digno.
O País são as crianças que merecem ter um futuro e poder ter esperança de o alcançar.
O País são as pessoas do nosso Povo, com todas as suas limitações mas todas as Lusas qualidades.
O País, senhores governantes, somos todos nós.
Quando foi que nos esquecemos de governar para as pessoas?
Vejam lá se entendem isto:
O objectivo de um Governo é criar as melhores condições de vida para os cidadãos de um país.
Quais são os desejos de um Povo? (infantilmente explicado)
– ter um emprego que lhe permita condições financeiras dignas e um tecto
– ter um bom sistema de saúde onde se possa cuidar
– ter um sistema de justiça rápido e justo
– ter um sistema de educação onde possa confiar os filhos
– ter serviços públicos eficazes
– ter um sistema cultural bem cuidado que conserve a identidade nacional
– ter governantes que zelem por estes interesses e não sejam corruptos
Senhores Governantes, parece-lhes que fazem alguma coisa disto?
Acham que o Povo se interessa pela dívida, pelo défice, pela balança comercial e pelo raio que os parta a todos?
Conseguem enfim perceber porque o Povo está divorciado da política e não confia naqueles que são eleitos para os representar?
A vossa actuação política está dissociada do objectivo de vida do vosso Povo.
Vocês não estão a governar para fazer cumprir as expectativas da sociedade que representam.
Governam para defender os objectivos de quem?
É tão difícil de entender?!
Ou são incompetentes ou têm uma agenda própria.
Já agora, choca-me que nos dias que correm apresentem todos os sacrifícios como inevitabilidades.
Ou passamos fome ou o País fica sem dinheiro.
Se eu sempre paguei os meus impostos como raio não têm dinheiro?
E se o gastaram mal gasto… de quem é a culpa, caramba?!
A questão é que o dinheiro acabou-se, AF. Encontrar os culpados? Sim, para nos sentirmos redimidos. Mas, isso não nos põe dinheiro no bolso. É inevitável recuar vários passos para, se correr bem, um dia darmos um ou dois à frente. Falta-nos o que nos sobra em estradas, rotundas e estádios de futebol. E, como diz ali o António, em muitas mordomias completamente injustificadas.
“É inevitável recuar vários passos para, se correr bem, um dia darmos um ou dois à frente.”
Ou… dar dois passos para a esquerda e seguir outro paradigma. Sim, iríamos passar dificuldades e o diabo a sete. Dificuldade por dificuldade que seja por algo que não esteja gasto, roto e apodrecido.
Mas é só a minha opinião. Obrigado por não ma amputar.
Um abraço.
Nem sei já o que lhe diga, AF. Sei que passa da meia-noite e que os homens não choram. E que a mim, de momento, me apetece chorar.
Pobres, nós?! Na SIC Notícias está a falar o economista Campos e Cunha, reformado do Banco de Portugal com sete mil euros mês e ainda na casa do cinquenta, e apenas após meia dúzia de anos num cargo lá. E há pouco falava Mira Amaral já não me lembro em que canal (perto de 18 mil euros mês, também na casa do cinquenta, por cerca de dois anos num cargo, imagine-se). Um tema comum nos discursos: os sacrifícios. Não tenho notícias de que o país vá deixar de lhes pagar.
Isto é uma merda, António.
Eu ouvi… e, ainda, teve o desplante de dizer:
-“A minha mulher também está em casa com 2/3 do vencimento… é engenheira…” (excedentária do funcionalismo)
É de arrepiar!!!!
Só não chora quem não tem coração, Amendes.
Tomei a liberdade de citar no meu blog – embora em rigor não seja uma citação, porque não havia neste post uma palavra para cortar.
Isto assusta-me. Verdadeiramente. Quanto a esses comentadores… É meter um tecto máximo de 3 salários mínimos nas reformas. Não sei quanto é que uma medida destas representaria… E um tecto de 3 salários médios para os salários dos políticos.
Obrigado pelo destaque, André. Subscrevo também o que ali disse. Quem conduziu o país até esta situação tem um nome: pulhas.
Não, Rui. Desta vez não estou de acordo contigo. Depois de ultrapassar não sei quantas firewalls e proxys consigo responder-te. São 00h45. Isto bateu no fundo? Ainda não. Vai bater? Vamos ver. Wait and see. Há que imaginar então mais do que se imaginou nos anos de 1960 e tentar uma cena nova – como se diz agora. Olha: estou desempregado e tenho três filhos licenciados. E sabes o que estão a fazer? Como não têm emprego andam à procura de bolsas. E quando não têm bolsas vendem legumes no mercado de biolegumes na feira de Cascais. Não estão bem? Nem casados, porque não podem? Claro que não. Mas num destes dias um deles foi para a Roménia promover as sementes de Figueiró dos Vinhos, ou lá o que é que ele foi fazer, sei lá. Caminham. E com isso abrem caminhos. Raios, Rui! Mais: e riem-se! O nosso problema – do pessoal dos anos de 1960 – é que se instalou num mundo imaginado. Ora bem: ele não existe. Mas há que fazê-lo. A partir de onde? Do fracasso, Rui. Do fracasso.
Só tu para me dares a volta à neura a esta hora, Fernando. Sigamos então o voo das aves.
Sigamos então, DO e amigo. Não há muito por onde escolher entre a sacanagem.
Abraço, Fernando.
Também não sei, mas acredito. Acredito, se calhar ingenuamente, que o nosso tecido social tem mais alguma fibra, que aquele das sociedades mais urbanas. Que as ligações familiares significam um bocado mais aqui, que noutros sítios. E que por muito mal que as coisas corram, há sempre alguém a dar uma mão. Acho que apesar de estarmos (quase) todos em modo “salve-se quem puder”, ainda nos resta um bocado de humanidade, de solidariedade “onde comem dois comem três”
Vi nos EUA, um país bem mais individualista que o nosso, casos de pessoas que ofereceram um quarto de sua casa a vizinhos que ficaram sem casa…
Por muito que me desagrade dizer isto, há a Igreja, que no meio de toda a hipocrisia envolvida, ainda contribui…
Li no outro dia que é como se estivéssemos a regredir no tempo… É mesmo.
Sim, Cenas. Vamos todos ter que nos revisitar. Termos menos vai obrigar-nos a ser mais.
A propósito…
http://photoblog.msnbc.msn.com/_news/201 1/10/27/8508421-in-tough-times-finding-a-w ay-to-help-others-in-need
Tão simples e tão incómodo!
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