A deliberação da ERC sobre o caso Relvas


Rui Rocha,

Li na íntegra as 48 páginas da deliberação da ERC relativa ao caso das pressões do ministro Relvas sobre o Público e a sua ex-jornalista. Como se sabe, esta deu como não provada a existência de uma ameaça de blackout generalizado do governo ao jornal e de divulgação de aspectos da vida privada de Mª. José Oliveira. É uma decisão previsível. Esta afirmação, ao contrário do que possa parecer, não encerra nenhum juízo de valor sobre a (im)parcialidade da ERC na apreciação desta situação. Sublinho que à desejável isenção deste órgão não ajudam afirmações sobre a gravata do ministro Relvas ou as relações pessoais de amizade de, pelo menos, um dos membros da ERC com o mesmo. Repito, todavia, que não é disso que se trata quando afirmo que a decisão era previsível. Digo-o apenas porque se tratava, como desde o princípio se viu, de uma situação em que se confrontavam duas versões contraditórias dos acontecimentos, apresentada uma por Leonete Botelho e outra pelo ministro. Ora, não existindo qualquer presunção legítima que aponte para a maior credibilidade de uma ou de outra (ao contrário do que defende Arons de Carvalho na sua declaração de voto), não era de esperar que se chegasse a outra conclusão que não fosse a de se considerarem não provadas as acusações (o que não quer dizer que os factos não tenham acorrido). Assim, e sendo este o fundamento principal da deliberação, o sentido desta afigura-se inatacável. Não deixarei entretanto de fazer um reparo a um argumento secundário também invocado: o de o próprio Público ter considerado que as pretensas pressões  não tinham natureza inaceitável. Noto que, estando em causa a liberdade de imprensa e sendo esta um bem público, nunca a apreciação que o jornal fizesse poderia tomar-se como critério definitivo. Feito este reparo, devo ainda dizer que o juízo de censura, é certo que inconsequente, que a ERC formula à actuação do ministro é, em função dos factos provados (irritação, nomeadamente, mas não mais do que isso), o mais longe que podia ir. Perante a deliberação, as questões de fundo permanecem. São elas a da prova das pressões, a da actuação do ministro no caso Secretas/Silva Carvalho, sobre a qual também me pronunciei oportunamente e a da utilidade da própria ERC. Tal como se esperava, a deliberação não resolveu nenhuma delas.

Rajoy tem a barba a arder


Rui Rocha,

 

Os tempos que correm exigem líderes políticos de barba rija. Depois de sofrer Zapatero, a Espanha precisava de um. Tudo indica que não teve sorte. Rajoy tem barba, é certo. Mas falta-lhe o resto. E sobra-lhe também tudo o que não devia ter numa situação destas: impreparação, falta de convicção, dependêcia de clientelas políticas, ausência de sentido de realidade e péssima comunicação. Há pouco mais de uma semana, forçado pela opinião pública espanhola a dar a cara, e antes de se dirigir à Polónia para assisitir a ao jogo da selecção, declarou que o resgate (lamento D. Mariano, mas é o que é) era muy bueno para Espanha. Olé, torero! Hoje, refere que o resgate ((lamento D. Mariano, mas é o que é) é tremendamente dañino por ser contabilizado para efeitos do défice das contas públicas. Por isso, D. Mariano está neste momento a tentar renegociar um resgate (lamento D. Mariano… pois) que, na sua versão, nunca aconteceu. Entretanto, os juros da dívida espanhola teimam em ultrapassar a barreira dos 7% que, aprendemos com o saudoso Teixeira dos Santos, marca o limiar da insustentabilidade. É bom que Rajoy ponha as barbas de molho. Até porque já todos percebemos que elas estão a arder.

Gostamos de te ver feliz, Ronaldo


Rui Rocha,

Um jogo perfeito. Os holandeses marcaram primeiro. E nós sabemos como é preciso que nos espicacem para darmos o nosso melhor. Depois, um Ronaldo soberbo. Um Nani desequilibrador. Um Pepe sempre ao melhor nível. Moutinho imperial com Meireles no meio campo e Veloso pendular. Coentrão sempre impecável. Houve de tudo e do melhor. Até uma assistência para golo de João Pereira. Hélder Postiga cumpriu. Até na previsível saída aos 65 minutos. Faltou o terceiro golo a Ronaldo e um para Nani? Não faz mal. Ficam para os quartos de final. No fim, depois de uma exibição monumental, quase que jurava que vi Paulo Bento sorrir. Quanto aos críticos de Ronaldo, que Cri Cri tiquem agora.

Eleições na Grécia: primeiras impressões


Rui Rocha,

As urnas já fecharam na Grécia. As sondagens à saída das assembleias de voto apontam para empate técnico. O acto eleitoral decoreu sem incidentes graves. Registaram-se, todavia, o lançamento de duas granadas não detonadas contra as instalações de um grupo de comunicação e o ataque a uma assembleia de votos por encapuçados. A diferença entre os partidos mais votados, Syriza e Nova Democracia (não necessariamente por esta ordem), poderá ser inferior a 0,5%, o que corresponderá a, aproximadamente, 35.000 votos. Provavelmente só depois da contagem efectiva existirão certezas. O partido vencedor deverá ter cerca de 130 deputados. O PASOK, terceira força mais votada, com 10 a 15%, poderá ter papel decisivo na formação de uma maioria (aparentemente mais viável se a ND vencer). A Aurora Dourada, de extrema-direita, poderá ter sido o 5º ou 6º partido mais votado, mantendo a % obtida em Maio ou diminuindo ligeiramente. Todavia, foi a 3ª formação política mais votada entre os jovens. Merkel atrasou a partida para a cimeira do G-20 face à incerteza dos resultados.

 

Actualização às 18h45: a 2ª ronda de sondagens atribui vantagem tangencial à ND. Os deputados da ND e do PASOK poderão ser suficientes para, só por si, assegurar uma maioria parlamentar (previsão de 159 mandatos, são necessários 151).

 

Actualização às 19h25: projecção oficial de mandatos do Ministério do Interior da Grécia – ND 128; Syriza 72; PASOK 33; Gregos Independentes 20; Aurora Dourada 18; Esquerda Democrática 17; KKE 12.

A Grécia sobrevive no Euro


Rui Rocha,

 

Que os gregos são maus gestores, pouco produtivos, falhos de eficiência? Não em matéria de bola. Na verdade, não deve haver por aí outra selecção que, de tão pouco futebol, faça tão extraordinários resultados. A selecção grega, no passado com Rehagel, agora com Fernando Santos, não herdou o ideal de vida bela e feliz da antiga Atenas. Não encontraremos em Karagounis, em Katsouranis ou nos seus companheiros preocupações de estética futebolística ou de sensibilidade no trato de bola. Dir-se-ia, em contrapartida, que são descendentes directos dos velhos espartanos e que foram submetidos aos mesmos princípios de educação que estes defendiam. E que tinham como objectivo último desenvolver soldados exemplares em termos de combatividade e bravura. Sem heróis que se destaquem do conjunto porque heróis são todos. A selecção grega é, por ironia do destino, o exemplo acabado de que, em futebol, a austeridade funciona. E que, ao contrário de originar espirais recessivas, pode revelar-se extremamente expansionista. O PIB do futebol grego, medido em títulos e qualificações, é altíssimo nos últimos anos. Sobretudo se tivermos em conta a escassez de matéria prima com talento. A selecção grega faz mais com o menos que obriga os adversários, muitos deles com grandes orçamentos, investimentos e estímulos, a jogar. Portugal em 2004 e a Rússia em 2012 que o digam.

Com David Silva, o tiki-taka rumo à tiki-tura


Rui Rocha,

O tiki-taka, mais do que futebol, é bola. E há equipas de futebol que detestam a bola. Maltratam-na. Dão-lhe pontapés. Algumas até aliviam. A bola é tormento. Quando a afastam, suspiram de alívio. Não se pode jogar tiki-taka sem amor, posse, partilha e saudade. Da bola. Quem tiki-taka quer bola. E quando passa, tem sempre esperança de a reaver. O tiki-taka é um jogo de crianças que adquiriu maturidade. Que percebeu que pode ser gratificante dar e receber. O tiki-taka nunca foi uma táctica (a tiki-táktica). Mais do que a disposição da equipa no campo, o que importa é a posição dos jogadores em relação à bola. Em busca da proximidade, do contacto, de um afago. E é provável que o  tiki-taka, na versão mais pura, não possa funcionar como estratégia (a tiki-tégia). Para ser uma estratégia futebolística, teria de ter a intencionalidade do golo. Ora, a consequência do golo é a perda de posse de bola. Uma contradição com a essência do tiki-taka. Digo que o destino do tiki-taka é tornar-se uma manifestação cultural. A tiki-tura. Com uma estética. A tiki-tética. Os jogos serão manifestos. Ou instalações. Os campeonatos de tiki-taka disputar-se-ão em Florença, na Piazza del Duomo. Os jogadores equiparão com os trajes de luzes do toureio. Os relatos trocarão a ansiedade pelo temple e pela pausa. As transmissões televisivas não irão bem com cerveja e tremoços. E serão instalados écrans gigantes na Ópera de Viena. Podem não ter percebido, mas Silva deu um passo decisivo nesse sentido no jogo da Espanha contra a Irlanda. Até agora, o tiki-taka sempre fora mais tiki do que taka. Muito tiki-tiki no meio-campo. Mas, perto da baliza, remate, pontapé ou cabeçada. Com Silva, descobrimos a dimensão ataka do tiki-taka. Quando dominou a bola, mais do que isso, parou o tempo. E não procurou, como se faz no futebol, descolocar os adversários. Pelo contrário, com o fio do tempo suspenso, indicou-lhes, com uma finta de corpo, o ponto exacto do espaço em que se deviam colocar. Depois, não rematou. Passou para as redes. No passo seguinte da evolução, um avançado fará uma tabela com o poste da baliza adeversária, prescindindo do golo em nome da perpetuação da posse de bola. Nesse dia, o tiki-taka autonomizar-se-á do futebol. Não será modalidade olímpica. Mas poderá ganhar um Prémio Nobel ou a Palma de Ouro em Cannes.

 

Guia prático das eleições na Grécia


Rui Rocha,

 

(tirado daqui; a ilustração é do ekhatimerini)

 

Key dates and times

The election will take place on Sunday, June 17. Polls open at 5 a.m. GMT and close at 5 p.m. GMT. The so-called exit polls, i.e. estimates of the vote outcome based on a random sample of voters collected as they exit the polling stations, are released immediately after 5 p.m GMT (1 p.m. ET). Votes start being counted as polls close, but the process normally goes on until the early hours of the next morning. Due to the fragmentation of the popular vote in these elections, results in some areas could be too close to call, warranting waiting for final results to come in from the Interior Ministry.

Voting method

Something important is very different from the May 6 election. The Greek constitution says that if elections are held within 18 months of the previous ones, the voting method changes. Voters this time around will not be able to pick candidates from their party of choice by putting a cross next to their names. Instead, they will only vote for their party of choice. The parties have allocated the places to their candidates hierarchically, putting the candidates they prefer at the top of their so-called “list”. The candidates elected from each party will be determined as a function of what share of the vote their party gets, in the order they were ranked by their leaders. Ballots where voters have put a cross next to candidates’ names will be considered invalid.

Parties

Twenty-one parties parties are competing in these elections. On May 6, the figure was 32. The most recent polls suggest that seven parties will elect deputies. Indeed, seven parties made it in the short-lived parliament after the May 6 election. In the past, a five-party parliament has been the norm. The latest polls show that the conservative New Democracy and radical left Syriza are at dead heat. Neither was seen as likely to get an outright majority.

Getting elected

The threshold a party has to cross to enter parliament is 3% of the popular vote. The electoral system is a so-called “reinforced proportional representation” system. The “reinforced” bit means that the party with the most votes automatically gets a bonus of 50 seats. The 50-seat bonus makes it easier to form a single-party government. In practical terms, the party with the most votes needs to get between 36.4% and 42.69% of the popular vote to control an absolute majority in parliament on its own. But, as the Interior Ministry circular points out, the actual threshold depends “both on the number of parties that manage to enter Parliament (the valid vote percentage required for a single party government becomes higher if the number of parties surpassing the 3% threshold increases) as well as the vote tally of the parties that do not enter Parliament (in which case a single-party government is easier achieved).” For example, in an eight-party Parliament, the leading party would need to secure about 40.4% of the popular vote.

Forming a government

This is where the plot thickens. If a single party can form a majority government, the process is fairly straightforward. As the circular explains, “As soon as the Speaker of Parliament announces the formal results to the President of the Republic, the latter… appoints the government… as well as the Prime Minister who is the leader of the Party with the absolute majority of seats in Parliament.” Based on the latest polling figures, however, it seems unlikely that a single party will have a sufficient majority. In that case, the president (a ceremonial figure) gives the leader of the party with the most votes three days to form a coalition government with another party or parties. If that fails, the leader of the second-largest party receives the same mandate, also with a three-day deadline. After that, the mandate goes to the third-largest party. If none of the three is able to form a coalition government, the president calls the leaders of all the parties in parliament together for one last stab at a cross-party coalition. But if that fails too, the president and the party leaders are tasked with cobbling together a caretaker government that will lead the country to fresh elections. If the party leaders can’t even agree on a caretaker prime minister (this has happened once before, in 1989) the president appoints the chief justice of either Greece’s Supreme Administrative Court, the Supreme Court, or the Court of Audits, to take the reins and lead the country to elections. The circular points out that: “in the course of the Third Hellenic Republic, the only instance of such a government was that headed by the President of the Supreme Court, Mr. Grivas, which succeeded the coalition government formed by the New Democracy and the Left Coalition parties (Tzanetakis Government), and was followed by the cross-party Government (Ikoumeniki) of Zolotas.”

Other interesting facts

Greek law imposes a blackout period for public opinion polls starting two weeks before the election. The last polls were released on June 1. Voting in Greece is mandatory, according to the constitution, although sanctions are no longer imposed on those who abstain.