10 por todos


Rui Rocha,

 

Jogar com um falso ponta-de-lança não é o mesmo que jogar com um ponta-de-lança falso. Um falso 9  não é um ponta-de-lança, é certo. Mas é, veja-se o caso de Fabregas na selecção de Espanha, outra coisa qualquer. Extremo, armador de jogo, trinco, o que quiserem. É um pouco como ter 5 euros e escolher entre comprar laranjas ou maçãs. A opção é discutível. Em qualquer caso, de uma maneira ou de outra, há sempre o que comer. Isto é, o falso 9 não joga na posição de ponta-de-lança. Mas joga. Ainda que noutra posição. E por isso a equipa apresenta-se, efectivamente, com 11 jogadores. No caso do ponta-de-lança falso a coisa é diferente. O 9 falso joga realmente no lugar de ponta-de-lança. Só que, realisticamente, não joga nada. Apostar no 9 falso é como ter os mesmos 5 euros disponíveis e não comprar laranjas, nem maçãs. Nem nada. Pior do que isso, é deitá-los fora atirando-os para dentro de campo. Isto é, a opção pelo falso 9 não é uma fórmula matematicamente errada. Embora possa estar, ou não, futebolisticamente equivocada. Já no caso do ponta-de-lança falso, o 9 vale matematicamente 0. Nessa situação, a nulidade matemática resulta irremediavelmente em erro futebolístico. Jogar com um 9 falso equivale, na verdade, a jogar apenas com 10.  É verdade que Pedro Abrunhosa não sabe cantar. É, se quisermos, o equivalente musical do falso ponta-de-lança. Joga com o 9 do vocalista nas costas mas, não fazendo aquilo que alguém naquela posição deve fazer, faz outras coisas. Fala, sussurra, declama, proclama. Abre outras linhas de passe e, no final, pelo menos para alguns, aquilo resulta. Bem diferente seria ter um cantor calado. O problema com a nossa selecção não é, por isso, de táctica. É de matemática. Não faz qualquer sentido insistir em jogar com um ponta-de-lança falso quando podíamos, pelo menos, experimentar jogar com um falso ponta-de-lança. Nada, nem sequer o memorando da troika, impõe esta espiral recessiva de transformarmos, ainda antes de entrarmos em campo, os 11 a que temos direito nos 10 que temos visto. É que, ao contrário de Pedro Abrunhosa, Postiga nem sequer esperneia. A responsabilidade, é claro, não é dele. É de quem não o deixa sair de cima.

Obter um resgate e perder a face


Rui Rocha,

A Espanha passou anos a negar a realidade. A última crise mediática ficou associada a uma certa caçada a elefantes africanos. Mas o verdadeiro problema do país está relacionado com os elefantes brancos. O estouro da bolha do imobiliário, anunciado há muitas luas e sempre escondido debaixo do tapete,  lançou tijolos em todas as direcções. O edifício da banca foi, naturalmente, dos mais atingidos. Mas, o buraco de cerca de 40.000 milhões de euros diagnosticado pelo FMI só se tornou impossível de tapar sem ajuda externa porque o país perdeu a sua credibilidade. Esse é o resultado da promiscuidade entre interesses políticos e económicos, da falta de transparência e da alucinação dos governantes que pintaram os tais elefantes em tons de rosa. Neste contexto, Rajoy deu ao mundo um exemplo perfeito de uma gestão ruinosa da comunicação. Depois de embater com a realidade, o poder político espanhol dedicou-se a negar o resgate. Por esta hora, já terão sido esgotados todos os eufemismos e designações alternativas. Plano de ajuda, linha de crédito, financiamento, prémio de gestão eficiente da crise, sagrado maná, na semântica de Rajoy tudo se pode chamar aos 100.000 milhões de euros disponibilizados à banca. Desde que não se utilize a palavra resgate. Depois, no momento em que o seu país desceu, objectivamente, à 2ª divisão europeia (a liga dos resgatados), o primeiro-ministro preparava-se para ir ver a bola (literalmente) sem dar a cara pelas explicações devidas aos espanhóis. Perante a pressão da opinião pública, acabou por fazer uma intervenção horas antes de assistir, na Polónia, ao jogo entre a Espanha e a Itália. Ora, tudo isto são péssimos indicadores, no que diz respeito à atitude e às prioridades, quando a questão fundamental é a da credibilidade. O resgate resolve temporariamente o problema da liquidez. Em contrapartida, nada adianta ao da solvabilidade. Para este é necessário reformar a economia, o Estado e a forma de fazer política. Para isso, diriam nuestros hermanos, hay que tener pelotas. Daquelas que não andam por aí aos pontapés nos estádios do Euro. Se Rajoy não perceber isto, se persistir em esconder-se da realidade, atrás da semântica e do eufemismo, não há quem possa resgatar a sua face. E a cara de Rajoy é, goste-se ou não, a imagem de Espanha.

 

Leitão, substantivo masculino


Rui Rocha,

 

Sempre fui sensível ao humor canalha. Aquele que, com a boca na botija, permite ao seu autor sair por cima. Se o humor canalha tivesse uma nacionalidade, havia de ser argentino. E se quiséssemos um exemplo, aí teríamos o de Maradona. A mão da infracção tornou-a Dieguito, à custa dos ingleses, estes habituados a outras variantes de humor, na mão de Deus. Com a língua do Diabo. Que, como se sabe, é tendeiro. É também essa que falam os mânfios de certas zonas do Porto, habituados a controlar ali entre a Ribeira e os relógios desviados da Rua do Loureiro. Foi da lábia destes que me recordei quando ouvi Manuel Leitão afirmar, a propósito do Guia de que é editor e em que aparece na capa a inscrição “Rio és um FDP”, que Rio “é um substantivo próprio que significa um curso de água e o resto são três iniciais, um verbo e um artigo”. É, agora que se sabe que tal inscrição nunca existiu no local e que foi colocada na edição em causa deliberadamente, uma excelente tirada. Sobretudo se tivermos em conta que, em bom português, leitão é porco. Dos pequeninos.

Euro 2012 – as imagens (2)


Rui Rocha,

Uma casa de apostas decidiu colocar uma estátua gigante do seleccionador inglês Roy Hodgson (Roy o Redentor) na costa de Dover. De acordo com as explicações apresentadas,  os promotores da iniciativa consideram que a equipa inglesa só conseguirá ganhar a competição se houver intervenção do além. Inspiraram-se por isso no Brasil que, desde que o Cristo Redentor foi inaugurado no Rio de Janeiro, tem conseguido bons resultados e exibições nas competições internacionais. Adicionalmente, diz-se que nos dias sem nuvens a estátua poderá ser vista de França, intimidando assim os gauleses que integram, com os ingleses, o Grupo D do Europeu.

A repetição das eleições na Grécia já valeu a pena


Rui Rocha,

Depois deste episódio, ocorrido hoje durante um debate televisivo, em que o porta-voz do partido Aurora Dourada Ilias Kasidiaris ataca duas candidatas a deputadas por partidos de esquerda,  e de muitos outros que o antecederam, nenhum eleitor grego poderá dizer que vota no partido nazi enganado. Na sequência do grave incidente, o Procurador emitiu mandato de detenção de Kasidiaris. Este, aliás, será julgado na próxima segunda-feira por cumplicidade no espancamento de uma jovem em 2007 (é acusado de conduzir a viatura que transportava os agressores).  Não tenho dúvida que o partido, que conseguiu um resultado de 7% nas anteriores eleições, será severamente penalizado no próximo acto eleitoral. Nenhum castigo nas urnas pecará por excessivo. E o lugar das bestas é dentro de uma jaula.

 

Um mecanismo para responder ao desemprego


Rui Rocha,

Leio que Passos Coelho, a propósito da divulgação das conclusões de novo exame da Troika à execução do plano de resgate, declarou que se ficou de encontrar um mecanismo que responda ao desemprego. Parece-me bem. E não quero tirar ao primeiro-ministro o entusiasmo, aliás evidente nas suas palavras, de descobrir pelos seus próprios meios a solução para um problema que tem merecido de todo o seu governo, quando menos, várias manifestações públicas de compreensão e de apoio. Em todo o caso, não vá Passos Coelho estar assoberbado com outras solicitações, atrevo-me a deixar aqui uma sugestão. No fundo, trata-se de algo que responde à tensão, pressupõe uma estrutura de suporte, funciona como alavanca, tem em conta a gravidade e pode proporcionar algum impulso aos desempregados. Nada de muito novo, na verdade. Aliás, foram os gregos que, vendo-se em grandes dificuldades,  desenvolveram o primeiro mecanismo do género. Chama-se catapulta. Com alguma perícia e um bocado de sorte, os desempregados são projectados para lá da fronteira e, se tudo correr pelo melhor, nem sequer fazem ricochete. Em homenagem ao ministro Álvaro, proponho desde já que lhe chamemos Coisapulta.

O medo global


Rui Rocha,

“(…)

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.

Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho.

Quem não tem medo da fome, tem medo da comida.

Os automibilistas têm medo de caminhar e os peões têm medo de ser atropelados.

A democracia tem medo de recordar e a linguagem medo de dizer.

Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras.

É o tempo do medo.

Medo da mulher da violência do homem e medo do homem da mulher sem medo.

Medo dos ladrões, medo da polícia.

Medo da porta sem fechadura, do tempo sem relógios, da criança sem televisão, da noite sem comprimidos para dormir e medo do dia sem comprimidos para despertar.

Medo da multidão, medo da solidão, medo do que foi e do que pode ser, medo de morrer, medo de viver…”

 

Eduardo Galeano, El miedo global (tradução livre).