A Espanha passou anos a negar a realidade. A última crise mediática ficou associada a uma certa caçada a elefantes africanos. Mas o verdadeiro problema do país está relacionado com os elefantes brancos. O estouro da bolha do imobiliário, anunciado há muitas luas e sempre escondido debaixo do tapete, lançou tijolos em todas as direcções. O edifício da banca foi, naturalmente, dos mais atingidos. Mas, o buraco de cerca de 40.000 milhões de euros diagnosticado pelo FMI só se tornou impossível de tapar sem ajuda externa porque o país perdeu a sua credibilidade. Esse é o resultado da promiscuidade entre interesses políticos e económicos, da falta de transparência e da alucinação dos governantes que pintaram os tais elefantes em tons de rosa. Neste contexto, Rajoy deu ao mundo um exemplo perfeito de uma gestão ruinosa da comunicação. Depois de embater com a realidade, o poder político espanhol dedicou-se a negar o resgate. Por esta hora, já terão sido esgotados todos os eufemismos e designações alternativas. Plano de ajuda, linha de crédito, financiamento, prémio de gestão eficiente da crise, sagrado maná, na semântica de Rajoy tudo se pode chamar aos 100.000 milhões de euros disponibilizados à banca. Desde que não se utilize a palavra resgate. Depois, no momento em que o seu país desceu, objectivamente, à 2ª divisão europeia (a liga dos resgatados), o primeiro-ministro preparava-se para ir ver a bola (literalmente) sem dar a cara pelas explicações devidas aos espanhóis. Perante a pressão da opinião pública, acabou por fazer uma intervenção horas antes de assistir, na Polónia, ao jogo entre a Espanha e a Itália. Ora, tudo isto são péssimos indicadores, no que diz respeito à atitude e às prioridades, quando a questão fundamental é a da credibilidade. O resgate resolve temporariamente o problema da liquidez. Em contrapartida, nada adianta ao da solvabilidade. Para este é necessário reformar a economia, o Estado e a forma de fazer política. Para isso, diriam nuestros hermanos, hay que tener pelotas. Daquelas que não andam por aí aos pontapés nos estádios do Euro. Se Rajoy não perceber isto, se persistir em esconder-se da realidade, atrás da semântica e do eufemismo, não há quem possa resgatar a sua face. E a cara de Rajoy é, goste-se ou não, a imagem de Espanha.

Se há criatura difícil de compreender é um espanhol, aquele orgulho é algo inexplicável; só mesmo eles para conseguirem a proeza de pedirem 100 mil milhões de peito inchado como se tivessem sido oferecidos… Mas é precisamente essa faceta do espanhol que faz com que consigam, por vezes, levar a água ao seu moinho com muito mais facilidade que nós. ews/idESMAE84U08Q20120531).
Acredite nisto que lhe digo pois privo com eles praticamente desde que nasci (contingências de nascer na raia) e trabalhei por lá cinco anos.
No entanto desenganem-se aqueles que acreditam que a economia deles tem robustez para sair rapidamente desta crise, aquilo é um gigante com pés de barro. A titulo de exemplo posso referir que nos anos em que lá trabalhei, cerca de dois terço dos serviços efectuados pela empresa (transportes internacionais) eram mercadorias para o sector da construção. Dois terços! Para vermos um esboço do buraco constate-se como a maior empresa espanhola, Grupo ACS (de Florentino Peres, o Sr. Real Madrid) tem os seus maiores activos no sector da construção e um dívida liquida de 8 mil milhões de euros! (http://es.reuters.com/article/businessN
Aqui há 5/6 anos atrás começámos nós a diversificar mercados e apostar na internacionalização ao passo que nuestros hermanos continuavam alegremente a incentivar o consumo interno como forma de crescimento. Aí está o resultado e isto é anda só o princípio. Como eles tanto gostam de dizer: “España me mata!”. Esperemos que não…
É todo uma economia orientada para o ladrillo. Vai ser preciso uma reconversão brutal…
Mas ouvi no outro dia Rajoy a gabar que a Espanha hoje já é quase excedentária no seu comércio externo, tal como, aliás, Portugal.
Ou seja, o défice no comércio externo espanhol já terá desaparecido. A orientação da economia espanhola para o consumo interno já terá desaparecido.
Hmmm.
Ora que grande novidade. Pudera! Com a quantidade de betão despejado não devem precisar de construir durante uma década… Sabia que no ano passado Espanha já tinha 18 milhões de casas vazias? (http://www.arrenta.es/docs/ElMundo_18_0 3_2011.pdf)
Com 20% do PIB a depender da construção e com tanta casa em excesso é normal que o consumo interno diminua.
Vejo pela tua descrição que Rajoy foi displicente, sofista, mundano. Comportou-se, enfim, como um banana. Mas sinto que há uma diferença radical no modo como países como a Irlanda e Portugal reagiram à crise e temem as consequências de desiquíbrios financeiros, e países como a Grécia, a Espanha ou a França (Não estou a acompanhar a situação da Itália, nem conheço bem os dotes de Monti). Estes últimos três países parecem ter um ego demasiado grande para cair, enquanto nós e os Irlandeses somos mais comedidos. O problema aqui é se a coisa rebenta, em qualquer um destes três, o caldo ainda a ferver verte para o nosso lado. Só espero que a senhora Merkel dê uns valentes berros para os espanhóis, gregos e franceses “baixem a bolinha”, pois vejo aqui uma evidente situação de “moral hazard”.
O problema é, também, que continuamos com políticos pré-euro, habituados a desvalorizações cambiais para resolver os desastres que provocam, numa altura em que já não há moeda própria.
Sim e que não têm a noção que várias coisas mudaram:
-Demografia.
-Dívida – ter défice com 40% de dívida publica não é o mesmo que ter défice com 120% de dívida publica.
Não perceberam que estoiraram com o cartão de crédito.
-Crescimento do fácil baseado em construção civil já acabou.
Pois é.
Rui Rocha,
A tendência de Espanha é vir a deparar-se com uma situação ainda mais grave, cuja dimensão é imprevisível.
A ‘Zonaeuro’, promotora de desigualdades de terapia a países com patologias idênticas, também é cúmplice de Rajoy. A Irlanda recorreu a uma “ajuda” de 85 mil milhões, valor abaixo do pedido por Espanha, para o mesmo fim; no entanto, ficou sujeita a austero programa da ‘troika’.
A coroar o comportamento esquivo e grosseiro, Rajoy não prescindir de um jogo de futebol lá bem longe, na Polónia, é autêntica afronta.Sobretudo em relação aos quase 5 milhões de espanhóis desempregados e muitos, muitos outros a viver em penosas situações.
No hay un poco de vergüenza!
É o que me parece, Carlos.
Rui,
1.- A Espanha agigantou-se desde meados da década de 80.
2.- E na década de 90 teve a miragem de conseguir o estatuto de uma França ou de uma Inglaterra.
3.- Os últimos 10 anos teve os problemas que temos também: regionalização despesista, falta de verdade na politica. Acresce que a especulação bancária lá é um problema muito sério que assustará qualquer financeiro da Ásia, felizmente fomos mais disciplinados por cá (os nossos banqueiros tão difamados pela pacovice reinante).
4.- O trambolhão espanhol é latente, a sociedade civil espanhola engrandecida sob mitos derivados de outrora não ficará sossegada: as massas são famintas quando o Poder Engrandecido lhes dá corda. A tourada não tardará…
Não tenho nada de substancial a opor à sua análise, MS.