Hallelujah!


Rui Rocha,

De facto, já ninguém suportava os comentadores de futebol, as reportagens dos bastidores de selecção, as conferências de imprensa dignas da descendência, por linha directa, de Monsieur de La Palisse e as notas biográficas sobre a adolescência dos jogadores nascidos na freguesia vilacondense das Caxinas. Menos mal que agora, com a eliminação do Euro 2012, podemos voltar a nossa atenção para notáveis momentos televisivos como as Manhãs da Júlia, o Prós & Contras, os debates entre o Alfredo Barroso e o Ângelo Correia ou as análises políticas do Pacheco Pereira, do António Costa e do painel residente do Eixo do Mal.  

O jogo da morte


Rui Rocha,

 

9 de Agosto de 1942. Kiev, depois de anos de submissão à chibata de Stalin, fora ocupada pelas botas nazis. Alexei Klimenko estava sentado no balneário. Ao seu lado, Trusevich sacudia a poeira da camisola de guarda-redes. Em frente, Goncharenko apertava lentamente os cordões gastos das chuteiras. Quando o oficial das SS entrou, fazendo soar os tacões nos ladrilhos, o pensamento de Klimenko voou para muito longe dali. Para os tempos em que jogava no Dínamo. Nos últimos dias, a memória era o seu único refúgio. Habituara-se a encadear os factos a uma velocidade vertiginosa. Um segundo de ausência do presente valia-lhe por meia vida. Meia vida vale muito quando o presente não vale nada. Recordou a chegada dos alemães à cidade. As atrocidades que presenciara. O campeonato de futebol promovido pelos nazis para iludir a crescente hostilidade da população. A fome. As vitórias fáceis contra as outras equipas locais. A humilhação. O baile de bola contra os húngaros. A vergonha. O jogo fatal de 17 de Julho contra a PGS, uma equipa de militares alemães que a sua, o FC Start, devia ter perdido. E que ganhou. A raiva. O jogo de 6 de Agosto contra a Flaklef, composta por pilotos da Luftwaffe. Que a sua equipa devia ter perdido. E que ganhou. O medo. O agendamento de nova partida contra a Flaklef para esse dia 9 de Agosto. O cansaço. A visita do outro oficial das SS ao balneário antes deste jogo começar. E a advertência de que deviam perfilar-se perante o público, fazer a saudação nazi e gritar Heil Hitler. E perder. As pernas a tremer. Os braços esticados antes de pousarem sobre o peito. O grito de Fizkulthura que saiu, em desafio, da garganta de Trusevich, entrou pelos seus ouvidos e saiu pela sua boca e pela de todos os outros. A dor. Nas pernas, nos braços, na cabeça. Dos pontapés e cotoveladas dos alemães a que o árbitro fechava os olhos. E a que não deviam responder. E a que responderam. Com três golos contra um. Agora, no presente que não valia nada, o oficial das SS aproveitava o intervalo para os ameaçar. Se teimassem em derrotar a Flaklef, o seu destino estava traçado. Klimenko voltou ao campo. As pernas tremiam-lhe de atrocidades, de fome, de vergonha, de raiva, de cansaço. Já só ouvia o grito de Trusevich que, sem saber como, saíra da sua própria boca.  O FC Start marcou mais duas vezes. Tantas como a Flaklef. Quando faltavam alguns minutos para o fim do jogo, Klimenko fintou o guarda-redes alemão. Correu para a baliza deserta. Parou a bola sobre a linha de golo. Virou as costas às redes e chutou-a de novo para o meio-campo. Nesse momento, os olhos de Klimenko viram simultaneamente o presente e o futuro. A humilhação dos alemães e a derrota da propaganda nazi aos seus pés. E os interrogatórios da Gestapo, a tortura, os fuzilamentos ou o campo de concentração que se seguiriam para si e para os seus colegas de equipa. Ninguém dirá que chorou. Porque nesse preciso momento começou a cair sobre o Estádio Zenit uma chuva mansa que lhe lavou as lágrimas.

 

* Escrito a partir de factos reais que podem ler-se, aqui, aqui ou aqui. Ou no livro de Andy Dougan.  Fotografia retirada daqui. Os jogos de vida, como aquele que hoje tem lugar em Donetsk, a umas centenas de quilómetros de Kiev, devem festejar-se independentemente do resultado. Os jogos de morte são bem outra coisa.                    

Em vésperas de duelo ibérico, escolha a Padeira da Bancarrota


Rui Rocha,

Sim. Temos Ronaldo, Nani, Pepe e os outros todos. Incluindo nestes, aqui a pedido expresso de A Bola, o Nélson Oliveira. Todavia, sinto que nos falta qualquer coisa. E não, não me refiro ao Postiga. Não quero com isto diminuir o valor dos bravos rapazes que enfrentarão a armada espanhola, também dita invencível. Recorde-se, a propósito ou não, que disseram exactamente o mesmo da frota organizada por Felipe II  (para nós o primeiro e a contragosto) e da bolha do imobiliário. E foi o que se viu.  Da mesma maneira, longe de mim a intenção de apoucar a mestria táctica de Paulo Bento. A que chamam também rei do losango. Não se trata disso, claro. Mas, em 14 de Agosto de 1385 também tínhamos o Mestre de Avis, D. Nuno Álvares Pereira e uma táctica imbatível. A do quadrado. Sendo que este, se virmos bem, mais não é do que um losango que não pretende fazer-se passar por papagaio de papel. É certo que já então (isto é, em 1385) nuestros hermanos tentaram pôr em prática o famoso tiki-ataka, tendo sido repelidos pela Ala dos Namorados que aplicou no campo de batalha todos os seus vastos conhecimentos em matéria de triqui-triqui. Aqui chegados, dois ou três leitores perguntarão se será então isso que nos falta, referindo-se, claro, à garbosa Ala dos Namorados ou ao próprio triqui-triqui. Digo que não. Não faltam nas filas da selecção rapazes namoradeiros e nas bancadas uma nutrida ala composta pelas suas namoradas. O que nos falta, em verdade vos digo, é uma padeira. Afirmo-o, naturalmente, influenciado pela história. E também pelo facto ter ouvido uma intervenção da Ana Gomes há menos de 10 minutos. Daí o desafio que lanço de elegermos juntos a nova padeira. Não a de Aljubarrota, mas a da Bancarrota. Que ostentará, e a isto chama-se modernidade, uma vuvuzela ali onde a Brites segurava uma pá. Para além da referida Ana Gomes, sugiro ainda a Heloísa Apolónia (caso em que a vuvuzela poderá dispensar-se). Mas, naturalmente, estou muito interessado em registar as vossas escolhas sendo que nada tenho a opor, até porque em matéria de concursos de emprego não podemos discriminar, a que o papel de padeira possa caber a um padeiro.

Um nome para a selecção


Rui Rocha,

 

A selecção portuguesa já merece um nome. O problema é encontrá-lo. Podíamos ser Os Magricelas, atendendo ao tempo de crise. Mas parece que alguém já registou coisa parecida. Por outro lado, a designação não fica bem a uma equipa que tem como titular o Miguel Veloso. Os Patrícios seria uma homenagem ao guarda-redes. Mais uma vez alguém chegou primeiro. Já vi sugerir Os Relvas. Bem visto. Mas tenho alergia a gramíneas. E temo que os rapazes se sentissem pressionados. O upgrade para Os Coelhos também não entusiasma. Relativamente à alternativa Os Cavacos estamos conversados. Os Ronaldos não me parece bem. Por um lado, remete para o imaginário dos trios mexicanos dos anos 40. E para viagens no tempo já nos basta o penteado do Ronaldo. Por outro lado, destacaria um único jogador, o que seria injusto para os outros. O mesmo pecado poderia ser identificado se optássemos por Os Cristianos. Para além disso, ia jurar que esse é o nome de uma trupe de trapezistas de circo (não, Manuel José, ninguém te chamou). E, embora esta solução pudesse ser apoiada pela Igreja Católica, com excepção de D. Januário, o que diriam os mouros? Claro, podíamos tentar Os Críticos, numa genial fusão das letras iniciais do primeiro nome do Ronaldo com as finais da designação da doença de que padece o Carlos Queiroz. O problema é que já vai fora de tempo: Os Artríticos andam muito calados. Já Os Resgatados viria a propósito. A equipa pareceu moribunda antes de se lançar na senda das vitórias. Todavia, não é diferenciador. Neste Euro, não faltam os que já foram ou ainda vão ser. Os Austeros seria pretensioso. Vai-se a ver e o governo ainda não cortou quase nada nas gorduras do Estado. Os Contribuintes seria adequado, como sabemos. Não creio, em todo o caso, que seja momento para recordar coisas tristes. Pela mesma razão, excluo Os Bentos. Só poderia ser considerado se um dia destes o homem se risse. E não é previsível que tal aconteça mesmo que Portugal ganhe a final por goleada. Como se vê, não é fácil. Tudo somado, estou capaz de propor Os Coisos. É actual, presta homenagem ao Álvaro e, com a mesma cajadada, atinjo o Coelho. Aguardo, todavia, as vossas sugestões. 

Rapazes, deixem lá a coisa da humildade que, para hoje, contra os checos, é mais isto


Rui Rocha,

 

Quando diriges a proa visionária a uma estrela e estendes a asa para essa excelência inalcançável, no afã da perfeição e rebelde contra a mediocridade, levas em ti o recurso misterioso de um Ideal. É fogo sagrado, capaz de temperar-te para grandes feitos. Cuida-o; se o deixares apagar não se reacenderá jamais. E se ele morre em ti, ficas inerte: fria bazófia humana. Só vives por essa partícula de sonho que se sobrepõe à realidade. Ela é a lis do teu brasão, o penacho do teu temperamento.

 

José Ingenieros,  “El Hombre Mediocre” (tradução livre).