Estratégia eleitoral: o sim e o não


jmmcc,

José Sócrates não é apenas um político profissional. Aqui entre nós, nem sequer poderia sê-lo, se tivesse feito Politologia na convenientemente extinta Universidade Independente. Adiante. O certo é que ele conseguiu reunir as tropas socialistas em plena campanha. Soares-pai, Soares-filho, Manuel Alegre – todos se têm unido e dado a cara pela vitória eleitoral, mesmo quem era suposto ficar a ver. Tal como governou como quis e soube com a sua maioria absoluta, gerou em torno de si as condições para sair vitorioso. Se não o conseguir, é por demérito próprio, mas não é por falta de esforço.                        

Manuela Ferreira Leite não é uma política profissional. Não é sequer amadora: não é política e pronto. Por ela e pelos seus lugares-tenentes conseguiu destroçar as tropas e mantê-las à distância em plena campanha. Até agora, a única aparição dos que vivem fora do círculo foi claramente cirúrgica: Marcelo Rebelo de Sousa apareceu em Coimbra porque nunca resiste a desenhar cenários, mas não deixa de ser o ex-líder social-democrata que não aqueceu a cadeira e nunca foi a eleições. Se não atingirem a vitória, podem todos eles limpar as mãos à parede com a estratégia divisionista que escolheram.                   

D. Branca Ferreira Leite


jmmcc,

Em pleno zapping, passo pela SIC e apanho já em andamento uma série de pessoas conhecidas a opinar sobre a presença de políticos de primeiro plano (não sei se temos políticos de primeiro plano, mas adiante) no programa do Gato Fedorento. De repente, dou com um que diz ter ficado especialmente surpreendido com Manuela Ferreira Leite, pelo sentido de humor que revelou e… pelo «imediatismo» com que reagiu às perguntas.

Lembrei-me das consecutivas brancas da líder laranja naquele programa e parei para pensar. Mas logo concluí que foi verdade: o prolongado silêncio de cada branca foi sempre imediatamente a seguir a cada pergunta.

TGV: vamos ser sérios?


jmmcc,

Está provadíssimo que Manuela Ferreira Leite tem imensa dificuldade, no que toca a fazer-se entender. Ora porque as ideias lhe saem atabalhoadas, ora porque as palavras se soltam entarameladas, ora porque as ironias lhe escapam sem graça, o certo é que abundam as intervenções infelizes. O que permite uma utilização ora escusadamente abusiva, ora intencionalmente distorcida, por parte dos adversários.

Como Pacheco Pereira e outros conselheiros-gurus (?) parece que não andam a ajudar muito, vou ensaiar aqui a recolocação nos trilhos de um assunto que me interessa especialmente: o TGV. Mas aviso já que só o faço porque:

– o PSD e a sua líder não me pagam e esta ajudinha não terá continuidade;

– não sou advogado de defesa de um nem de outra, que nem sabem que estou a dar-lhes uma mãozinha;

– mantenho todas as reservas que já aqui trouxe mais do que uma vez sobre o TGV (v. «Qual TGV, qual quê!?»);

– não estou necessariamente de acordo com a actual posição do PSD e da sua líder sobre o TGV;

– fico estarrecido com a facilidade que algumas máquinas de propaganda profissionais revelam no aproveitamento de declarações pouco ou nada felizes através de interpretações pouco ou nada sérias.

Posto isto, vamos ao assunto, para ver se nos entendemos e deixamos de ser enrolados.

Com um discurso mais claro ou menos claro, Manuela Ferreira Leite disse que Espanha era parte interessada na criação da alta velocidade ferroviária em Portugal. Foi isto que ela disse, porque eu ouvi. E mais disse que achava que Portugal não está (pelo menos, por agora) em condições de pôr o projecto a andar, face ao agravamento inerente da nossa dívida externa.

Resumida e bem situada (creio eu) essa posição, independentemente do que cada um pensa sobre isso, não vejo qualquer motivo para o chinfrim que vai por aí. Porque:

– toda a gente sabe que os espanhóis estão interessados no nosso TGV com ligações à fronteira comum, por causa dos fundos europeus disponíveis para o efeito (e não só);

– é razoável alterar decisões, se as condições reais o aconselharem ou forem alteradas no tempo.

Quem ainda insiste na falta de coerência implícita a este último ponto pode estar a ser sério (eu próprio fico na retranca). Mas também há quem o use para agitar as hostes e manter o sururu na agenda, o que já não é sério. José Sócrates e os seus seguidores sabem bem do que estou a falar, porque:

– a promessa de não subir os impostos não foi cumprida;

– a promessa de referendar o tratado europeu não foi cumprida;

– a promessa de fazer crescer a economia não foi cumprida;

– a promessa de criar 150 mil novos postos de trabalho não foi cumprida;

– a promessa de controlar as contas públicas não foi cumprida;

– a promessa de encarar os "estudos de viabilidade" do TGV não foi cumprida;

– a promessa de regularizar a situação dos que trabalham para o Estado em regime precário irregular não foi cumprida;

– etc. (não fui exaustivo).

É grave? Há quem diga que sim. Pode ser. Não sei. Quero crer que o rol de promessas que Sócrates não cumpriu tem uma justificação séria: as condições reais não o aconselharam ou foram alteradas no tempo. Não? Se estiver enganado, peço desculpa.

Dez erros de Manuela Ferreira Leite


Pedro Correia,

  

1. Apresentou-se aos portugueses com um programa vago, impreciso e tardio.

2. Suprimiu das listas eleitorais vários militantes destacados que se opuseram a ela no congresso do PSD, nomeadamente Pedro Passos Coelho, o segundo mais votado nessa reunião magna do partido.

3. Permitiu a inclusão, em lugares elegíveis por Lisboa, de dois sociais-democratas que estão a ser alvos de processos-crime – António Preto e Helena Lopes da Costa – comprometendo assim a imagem de seriedade com que se apresentou aos portugueses.

4. Em vez de alargar o discurso ao centro-esquerda, como fizeram Francisco Sá Carneiro em 1979 e Aníbal Cavaco Silva em 1985, enquistou-o à direita, dando assim a imagem do PSD como um partido conservador.

5. Prejudicou o diálogo pós-eleitoral com o CDS, eventual futuro parceiro de coligação, ao incluir na quarta posição por Lisboa Maria José Nogueira Pinto, que há poucos anos disputou com Paulo Portas a liderança do CDS.

6. Revelou uma preocupante falta de autoridade política ao ser confrontada com as críticas do candidato autárquico Francisco Moita Flores, que apesar de encabeçar a lista do PSD a uma das principais câmaras do país vota PS nas legislativas.

7. Deixou consolidar a ideia, verdadeira ou falsa, de que é comandada politicamente pelo Presidente da República, seu amigo de longa data e de quem foi chefe de gabinete no Ministério das Finanças.

8. Geriu com uma inacreditável falta de tacto político as relações com Alberto João Jardim: depois de uma ausência de última hora da festa do Chão da Lagoa, passeou-se com ele na pré-campanha numa viatura oficial e validou os comportamentos autocráticos do líder madeirense, desqualificando assim os seus próprios esforços para contestar a ‘asfixia democrática’ no continente.

9. Apresentou-se muito mal preparada nos debates televisivos, dando sempre a ideia que nem se deu ao trabalho de ler as propostas eleitorais dos outros partidos e mostrando-se imprecisa sobre o próprio programa eleitoral do PSD (na avaliação dos juízes, por exemplo).

10. Confundiu IRS com IRC num desses debates, prejudicando assim um dos seus melhores trunfos eleitorais – a capacidade técnica, no domínio das finanças.

A morbidez volta a rondar


jmmcc,

Depois daquele que mata o pai e a mãe só para dizer que é órfão e depois do senhor que daqui a dez anos já não estará cá, chegou a vez da morte por afogamento a 14 metros ou a 13 metros e meio de profundidade. À escolha desde ontem.

Isto não é um discurso – é um velório. Isto não é um partido – é um túmulo. Isto não é um programa – é um obituário. Isto não é uma candidatura – é um necrotério. Isto não é uma campanha eleitoral – é um cortejo fúnebre. Isto não é uma eleição – é um enterro.

Legislativas (33)


Pedro Correia,

 

DEBATE MANUELA FERREIRA LEITE-JOSÉ SÓCRATES

 

José Sócrates deve enviar um enorme ramo de flores a Manuela Ferreira Leite. Tem um excelente motivo para isso: a líder do PSD acaba de fazer desviar alguns milhares de votos para o PS nas legislativas do dia 27. A sua prestação, no frente-a-frente com o líder socialista, foi a mais fraca que protagonizou nesta série de debates: hoje, na RTP, Ferreira Leite foi derrotada por um Sócrates em boa forma. O primeiro-ministro limitou-se a repetir com ela a táctica que já empregara no frente-a-frente com Francisco Louçã, há quatro dias: consultou o programa eleitoral da sua antagonista e durante mais de uma hora transformou-o em arma de arremesso, condicionando todo o curso do debate. A líder dos sociais-democratas, a quem caberia a ofensiva enquanto dirigente do principal partido da oposição, passou o tempo a tentar justificar omissões e contradições do seu programa em vez de fazer a análise minuciosa de mais de quatro anos de uma governação falhada.

"Quem está a ser julgado é o engenheiro Sócrates, que foi primeiro-ministro nestes quatro anos e meio" , desabafou Ferreira Leite já na recta final do debate, reconhecendo implicitamente que estava a perder em toda a linha. Era tarde para inflectir o rumo: mal preparada, sem dar mostras de ter lido sequer o programa eleitoral do PS, a antiga ministra das Finanças parecia uma caloira em dia de exame perante um Sócrates que por vezes sorria, quase incrédulo, perante a inconsistência da sua adversária. "Desculpe, mas não percebo os seus argumentos", disse mais de uma vez. Os espectadores também não percebiam.

Eu, pelo menos, não percebi esta Manuela Ferreira Leite sempre remetida à defesa procurando justificar durante longos minutos os pecados governativos do Governo PSD em vez de dissecar os pecados governativos do actual Governo PS. Não disse uma palavra sobre a TVI, mal aludiu ao drama social do desemprego e só criticou a guerra movida pelo Executivo aos professores nos minutos finais por insistência da moderadora, Clara de Sousa. Passou demasiado tempo a dar explicações a Sócrates sobre as suas próprias contradições na questão do TGV (que hoje contesta mas defendia em 2003, quando estava no Governo), dos impostos (hoje é contra o IMI e o PEC, impostos que criou quando foi ministra das Finanças) ou das SCUT (que já lhe mereceram críticas frontais mas que hoje tolera sem uma palavra de contestação no seu programa).

O líder socialista mostrou-se mais delicado com a líder do PSD do que com qualquer dos seus adversários nos restantes debates: não é impunemente que se defronta uma senhora. Mas foi igual a si próprio nas doses torrenciais de propaganda e na descomunal imodéstia que todos lhe reconhecemos: "Fiz sempre aquilo que devia, correspondendo aos interesses dos portugueses"; "Fizemos as reformas que era necessário fazer"; "Orgulho-me de ter contribuído para a qualidade da democracia"; "Nestes quatro anos, o Serviço Nacional de Saúde melhorou."

A melhor linha argumentativa, do ponto de vista da oposição, acabou por ser enunciada por Clara de Sousa. Ao lembrar, numa pergunta ao primeiro-ministro, que a maioria absoluta socialista "aumentou os impostos directos, aumentou os impostos indirectos e reduziu as deduções fiscais" aos portugueses desde Março de 2005, contrariando uma das mais emblemáticas promessas eleitorais do PS. Se Manuela Ferreira Leite tivesse maior capacidade política, bastar-lhe-ia ter  olhado de frente a câmara, como se dirigisse a cada um dos portugueses, e repetido a pergunta que Ronald Reagan fez a Jimmy Carter no debate televisivo que decidiu a eleição presidencial norte-americana de 1980: "Acham que vivemos melhor ou pior que há quatro anos?"

Da resposta que cada eleitor der a esta pergunta dependerá o sentido do seu voto.

Legislativas (31)


Pedro Correia,

  

DEBATE MANUELA FERREIRA LEITE-PAULO PORTAS

 

Basta por vezes uma só frase para decidir um debate. Paulo Portas proferiu-a esta noite, no frente-a-frente com Manuela Ferreira Leite na RTP. "Experimente um dia ser oposição na Madeira", disse o líder do CDS à sua interlocutora. A social-democrata, que tanto tem clamado contra a "asfixia democrática", ficou sem resposta. Para quem tivesse dúvidas, o vencedor deste debate estava encontrado. Portas contrapôs à ‘política de verdade’ do PSD a necessidade de "falar claro" nesta campanha legislativa. E ficou evidente que existem dois projectos distintos à direita do PS: democratas-cristãos e sociais-democratas distinguem-se na política fiscal, no discurso ‘securitário’ que serve de bandeira a Portas e nas questões sociais, com o CDS a pretender desviar 25 por cento das verbas do rendimento social de reinserção para aumentar pensões, proposta que mereceu a pronta rejeição de Ferreira Leite: "Seria incapaz de fazer um discurso como o de Paulo Portas. Não é correcto pormos um estigma nas pessoas que recebem esse rendimento. Todas as generalizações são perigosas."

Outra diferença substancial: Portas falou abundantemente do seu programa. Quer mais mil polícias nas ruas, julgamentos em 48 horas de delinquentes capturados em flagrante delito, melhorar o subsídio de desemprego a jovens e casais desempregados. Do programa do PSD, ficámos a saber pouco ou quase nada. Além disso, tal como tinha acontecido nos debates contra Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, Manuela não deu sinais de ter lido uma só linha das propostas eleitorais do seu antagonista. Resta saber se por sobranceria ou por simples desinteresse.

Mas foi a propósito da Madeira que as águas verdadeiramente se separaram. Manuela Ferreira Leite insurge-se contra a ‘asfixia democrática’ do PS no continente enquanto olha para a Madeira como um vasto oceano de liberdade. "Um debate destes não seria possível na Madeira. Nunca houve. E Alberto João Jardim só vai uma vez por ano à Assembleia Legislativa Regional", sublinhou Portas, acrescentando: "Para se ter legitimidade há que ser coerente."

Se Judite Sousa, a moderadora, quisesse ter feito hoje mais uma das suas "perguntas giras" bem poderia ser esta: como conseguirão os líderes do PSD e do CDS entender-se? Deste debate, que foi vivo e com momentos estimulantes, ficou a sensação de que será muito difícil vermos alguma vez Manuela e Portas trabalharem num programa comum de Governo. E não se julgue que só existe a Madeira a separá-los.

Legislativas (30)


Pedro Correia,

 

 

DEBATE MANUELA FERREIRA LEITE-JERÓNIMO DE SOUSA

 

Este foi, de longe, o debate televisivo mais entediante da pré-campanha. Com um claro vencedor que não estava lá: José Sócrates. Manuela Ferreira Leite e Jerónimo de Sousa demonstraram esta noite, na TVI, que conseguem ser excelentes soporíferos, muito recomendáveis a quem sofre de insónias. Sócrates venceu porque estes seus dois antagonistas praticamente se esqueceram de fazer críticas ao Governo enquanto iam debitando propostas eleitorais em tom sofrível. A líder do PSD, agora preocupada em não perder eleitorado à esquerda, assegura que não tem "nenhuma proposta de tirar direitos aos trabalhadores".  Jerónimo, piscando um olho aos sociais-democratas, confessa não ter vislumbrado nenhuma ‘asfixia democrática’ na sua recente deslocação ao Funchal, frase logo aproveitada pela antiga ministra das Finanças: "Vamos à Madeira e, como disse o senhor deputado, não há lá nenhum sintoma de falta de liberdade."

Conclusão óbvia: depois de Sócrates, Jardim foi o segundo grande vencedor deste debate.

Jerónimo, além de ter ido à Madeira, parece ter feito também uma viagem no tempo, regressando à Inglaterra da Revolução Industrial: "A luta de classes é uma grande questão da sociedade." Marx haveria de gostar de ouvir este seu contemporâneo.

Manuela, por sua vez, esqueceu-se da obsessão pelo défice que marcou o seu mandato como titular pelas Finanças. "O equilíbrio das contas públicas já não é prioridade", declarou espantosamente a líder social-democrata, defendendo a redução da taxa social única. O ex-Presidente da República Jorge Sampaio, que garantia existir vida para além do défice quando o PSD era governo, haveria de gostar de ouvir esta recém-convertida à sua tese que também já foi entusiasta do TVG mas agora prefere o "investimento público de proximidade", seja lá o que isso for.

A dada altura, pareciam ambos concorrentes a um concurso de lugares-comuns. Manuela: "A responsabilidade social das empresas tem de estar sempre presente." Jerónimo: "Os juízes são órgãos de soberania." Manuela: "A justiça é um dos pilares da nossa democracia." Jerónimo: "O povo português, se há coisa de que gosta, é da liberdade."

Conversa mole, que quase nem parecia de dois dirigentes da oposição. Ferreira Leite só revelou uma ligeira vantagem em relação a Jerónimo: soube olhá-lo de frente. O líder comunista ainda não aprendeu que nestes debates deve levantar a cabeça, olhar quase nada para os papéis e encarar sem complexos os seus interlocutores. Pela quarta vez em seis dias demonstrou que tem uma enorme dificuldade em proceder assim. O que diria Marx disto?

Legislativas (27)


Pedro Correia,

  

DEBATE MANUELA FERREIRA LEITE-FRANCISCO LOUÇÃ

 

O jogo das expectativas também conta para a avaliação das prestações dos políticos nos debates. Manuela Ferreira Leite beneficiou de algum modo desse factor no frente-a-frente que hoje a opôs a Francisco Louçã na TVI. As expectativas gerais, para o desempenho desta estreante em debates, eram mais baixas. Daí talvez a sensação de que a líder do PSD não tenha estado tão mal como alguns previam. Feito este intróito, há que dizer que algumas das suas fragilidades ficaram bem patentes esta noite. Dou apenas um exemplo: enquanto o seu antagonista, provando que tinha feito o trabalho de casa, conhecia bem o programa eleitoral social-democrata, ela jamais demonstrou ter lido uma só linha do programa bloquista. O que, aliás, proporcionou a Louçã uma das frases da noite: "Está a fugir do seu programa como o diabo da cruz". Dir-se-á que é uma questão de pormenor. Não é, para quem ambiciona ter responsabilidades governativas.

Ferreira Leite, acossada por Louçã, jogou demasiado à defesa, gastando preciosos minutos a tentar desfazer imputações do líder do Bloco. "Nunca pus em causa o Serviço Nacional de Saúde"; "Nunca quis privatizar a segurança social"; "Nunca defendi que devem ser despedidos 150 mil funcionários públicos". Na segurança social, terá surpreendido alguns ao elogiar a reforma feita pelo Governo socialista, que "resolveu o problema iminente da ruptura" do sistema.

Num confronto entre economistas, ficaram evidentes as diferenças entre um PSD que quer diminuir o peso do Estado na sociedade e um BE assumidamente estatizante. "Estamos a empobrecer por causa de um sistema económico que não está a gerar riqueza", disse Ferreira Leite. "Não faz nenhum sentido, de certeza absoluta, privatizar bens essenciais", afirmou Louçã. Neste capítulo, a líder do PSD marcou pontos ao evocar as 300 mil pequenas e médias empresas portuguesas, nas quais "assenta o essencial do nosso sistema produtivo". Mas o bloquista foi mais convincente na questão do desemprego ao lembrar os cerca de cem mil desempregados que não constam das estatísticas oficiais por terem desistido de bater à porta dos inúteis centros de emprego.

É cada vez mais óbvio que o BE está a disputar ao PCP protagonismo nas questões laborais. Mas os célebres temas ‘fracturantes’ permanecem no discurso bloquista. E aqui foram mais evidentes que nunca as divergências entre os dois políticos. O estatista Louçã, nestas matérias, advoga o Estado mínimo, com frases grandilonquentes como esta: "O Estado não dita o amor de uma pessoa." Já Ferreira Leite assume posições mais próximas da direita conservadora do que da social-democracia clássica. Maria José Nogueira Pinto, candidata número 4 do PSD por Lisboa, certamente aplaude a sua recusa categórica em legalizar os casamentos homossexuais. Mas tenho dúvidas se muitos eleitores do centro, de cujo voto Ferreira Leite tanto necessitará no dia 27, se revêem neste discurso. Coube-lhe aqui, de qualquer modo, a sua melhor tirada neste frente-a-frente: "Eu defendo o casamento mas não imponho o casamento. Francisco Louçã não defende o casamento, mas impõe o casamento."

Dito isto, há um lapso que a presidente do PSD tem de corrigir com urgência: a sua tendência em ‘privatizar’ o programa social-democrata. Esta noite ouvimo-la falar várias vezes no "meu [seu] programa", referindo-se às propostas eleitorais do partido. Ora, salvo melhor opinião, o programa não é dela: é do PSD. E, até prova em contrário, ela não se confunde com o partido. Embora alguns dos seus acólitos por vezes pareçam esquecer-se disso.

Legislativas (13)


Pedro Correia,

 

 

QUANDO A MÁ MOEDA EXPULSA A BOA MOEDA

 

Ao escolher António Preto e Helena Lopes da Costa para lugares elegíveis na lista de Lisboa, erro político de palmatória, Manuela Ferreira Leite não se limitou a fornecer de bandeja aos seus adversários um pretexto para atacarem incessantemente o PSD durante toda a campanha eleitoral que aí vem: destruiu também uma pedra basilar na doutrina do partido, estabelecida durante o mandato de Marques Mendes. À luz desse princípio, Isaltino Morais e Valentim Loureiro deixaram de ser candidatos autárquicos sociais-democratas. Inversamente, quem candidata Preto – acusado em processo-crime por fraude fiscal qualificada e falsificação de documentos, já com julgamento marcado – também pode candidatar Isaltino. Rasgada a doutrina, esquecidos os princípios, percebe-se mal por que motivo Ferreira Leite não aplicou em Oeiras o que estabeleceu em Lisboa. Quem faz campanha com o homem da mala ao lado, também aceitaria andar na rua com Isaltino. E ainda ganhava uma câmara municipal como prémio.

 

ADENDA: Manuela Ferreira Leite conseguiu mais uma proeza: nem Francisco Moita Flores – cabeça de lista dos sociais-democratas em Santarém nas autárquicas – votará PSD nas legislativas. Será que a direcção do partido mantém a confiança neste candidato ou vai fingir que nada está a ocorrer em Santarém?

Passoscoelhistas ao ataque


Pedro Correia,

 

Henrique Freitas decidiu abandonar as listas eleitorais do PSD e bater com a porta. Deve ser um perigoso passoscoelhista.

Marcelo Rebelo de Sousa considerou as listas eleitorais apresentadas por Manuela Ferreira Leite uma "inesperada desilusão". Deve ser um perigoso passoscoelhista.

Jorge Neto, que apoiou Manuela Ferreira Leite no congresso de 2008, não tem dúvidas: "Estas escolhas fracturaram e dividiram o partido de uma forma grave." Deve ser um perigoso passoscoelhista.

Carlos Carreiras denuncia a "lógica tribal" na formação das listas e avisa: "O PSD pode ter perdido as legislativas." Deve ser um perigoso passoscoelhista.

Marques Mendes acha "uma vergonha" que políticos acusados ou pronunciados em processos-crime sejam candidatos a eleições. Deve ser um perigoso passoscoelhista.

Paula Teixeira da Cruz lamenta o recuo imposto por Ferreira Leite e a falta de renovação das listas. Deve ser uma perigosa passoscoelhista.

Azevedo Soares, ex-vice-presidente do PSD, deixa claro: a actual presidente do partido "não tem estatura para ser líder" e "mais uma vez demonstrou a sua incompetência política". Deve ser um perigoso passoscoelhista.

Rui Ramos escreve, categórico: "No PSD, ‘renovar’ é hoje sinónimo de desenterrar múmias no cemitério dos seus governos passados. O PSD tornou-se um partido fechado à sociedade – o contrário do partido de Sá Carneiro." Deve ser um perigoso passoscoelhista.

João Miguel Tavares, sempre sem papas na língua, acentua: "Sou eleitor em Lisboa, e por mais respeito que tenha pelo princípio da inocência não vou correr o risco de ser um voto meu a sentar o rabiosque do senhor António Preto no Parlamento." Deve ser um perigoso passoscoelhista.

Mário Crespo, sabiamente, reduz tudo a uma palavra: "comediantes". Deve ser um perigoso passoscoelhista.

Legislativas (11)


Pedro Correia,

FALTA DE MEMÓRIA E FALTA DE VERGONHA

 

Alberto João Jardim apoia a lista de candidatos a deputados aprovada pelo Conselho Nacional do PSD e manifestou a sua solidariedade a Manuela Ferreira Leite. O mesmo Jardim que em Janeiro deste ano apontava a porta da demissão à líder do PSD se não conseguisse derrotar José Sócrates nas legislativas. E que nessa mesma altura afirmava alto e bom som que os sociais-democratas não deviam "jogar para empatar, mas para ganhar". Não sei que pressões poderão ser maiores que estas: por muito menos, Pedro Passos Coelho foi acusado de conspirar contra Ferreira Leite.

Alberto João Jardim aplaude agora as escolhas da líder, que acaba de confirmá-lo como cabeça de lista (fictício) pela Madeira. O mesmo Jardim que em Abril de 2008, enquanto apoiava Pedro Santana Lopes para presidente do PSD, salientava que Ferreira Leite “faria um grande serviço ao partido não se candidatando”. E porquê? Porque não teria "hipóteses de ganhar 2009”.

"De todas as candidaturas a que não apoio é a de Manuela Ferreira Leite. Estou claramente contra", afirmou Jardim em Abril do ano passado. Foi apenas há 16 meses mas parece ter sido há décadas, tanta é a falta de memória de uns e a falta de vergonha de outros. Em Lisboa e no Funchal.

Tudo pela derrota?


jmmcc,

Não é fácil conseguir uma boa derrota. Especialmente quando o principal adversário está desacreditado. Claro que há umas medidas capazes de gerar danos eficazes. Destroçar tropas, por exemplo, ajuda imenso a perder a batalha seguinte. Com uma vantagem possível: a soldadesca que resta de um exército esfrangalhado é sempre muito fiel à voz de comando. O problema é que o comandante não costuma ter tempo para contar quantos ficaram. Porquê? Por também ser considerado despojo de guerra.

Legislativas (10)


Pedro Correia,

 

 

EXÍMIA A DERROTAR AS DISTRITAIS

 

Fiel ao seu estilo, entrou muda e saiu calada do Conselho Nacional do partido: nem uma palavrinha aos jornalistas. Os seus acólitos haviam prometido nos jornais uma profunda renovação nas listas eleitorais. Lá dentro, ela agiu como se fosse dona do partido, confrontando as estruturas distritais. Varreu da lista de Vila Real um companheiro que se atreveu a concorrer contra ela no congresso. Impôs para número quatro em Lisboa uma democrata-cristã que apoia na corrida à câmara da capital um socialista contra o candidato do partido – por acaso outro que se atreveu a concorrer contra ela no congresso. Designou imperialmente para Castelo Branco o candidato derrotado às eleições regionais dos Açores que nas anteriores legislativas foi cabeça de lista (também derrotado) por Portalegre. Impôs para Faro um constitucionalista que nada tem a ver com o Algarve. Afastou de Santarém um ex-secretário-geral do partido que cometeu o pecado de apoiar no congresso um dos companheiros que ousou enfrentá-la. Destacou para Setúbal o antigo candidato derrotado à Câmara de Lisboa, responsável pelo pior resultado de sempre do partido na capital. Mandou avançar para Braga um dos eurodeputados cessantes que menos trabalharam na última legislatura do Parlamento Europeu. E escolheu para o Porto um dos cinco deputados que mais faltaram na anterior legislatura da Assembleia da República.

Contrariando o que um anterior presidente do partido sabiamente recomendou, a proposta do líder distrital e o que o mais elementar bom senso aconselharia, fez incluir na lista de Lisboa dois candidatos que são arguidos em processos-crime. Num dos casos por fraude e falsificação, noutro por abuso de poder.

Mostrou-se exímia a enfrentar os companheiros ao impor listas eleitorais que mostram um partido mais tenso, mais fechado, mais crispado, mais distante da sociedade civil. Levou a melhor nesta sua emocionante refrega contra as distritais: conseguiu ver as listas aprovadas por 59 votos a favor, apenas 37 contra e cinco abstenções.

É uma política brilhante – deve estar a pensar neste momento o seu principal adversário.

O dilema


oanonimoanonimo,

Dou já como adquirido que José Sócrates vai perder as eleições. A coisa é assim: houve um tempo em que o homem podia fazer coisas tolas, que os tolos perdoavam. Mas, a partir de certa altura, o homem até pode fazer coisas boas, mas já ninguém está para o aturar. Cansou. O homem de plástico cansou. Logo, a partir de agora, o que deve preocupar Manuela Ferreira Leite não é saber como chegar ao poder – é saber o que fazer com ele. Sabe? Alguém sabe?

Legislativas (6)


Pedro Correia,

 

PSD: A RENOVAÇÃO QUE FALTA

 

Manuela Ferreira Leite deverá convidar Pedro Passos Coelho, seu adversário interno, a integrar as listas do PSD para a Assembleia da República. Tem o meu aplauso: é um gesto de abrangência política que convém saudar, por muito que isso exaspere alguns dos seus conselheiros, mais apostados na fractura interna enquanto convivem amenamente com adversários do partido fora e dentro dos estúdios televisivos. Mas a presidente do PSD, se quer renovar as listas de candidatos sociais-democratas, pode desde já excluir aqueles que não cumpriram os seus mais elementares deveres parlamentares na legislatura que agora termina, tornando-se os campeões das faltas no hemiciclo de São Bento. E cito cinco nomes: Carlos Páscoa Gonçalves, José Cesário, Virgílio Costa, Mário David e Aguiar Branco.

A renovação deve começar por aqui.

AJJ, déspota coerente, quer o exclusivo do poder totalitário,


André Couto,

ou dito de outra forma quer ser representante único de uma certa forma de exercer a democracia em Portugal. Como pessoa frontal que é, valha-lhe isso, veio hoje a terreiro dizer que quer proibir o comunismo na Constituição da República Portuguesa, esperando para isso contar com o apoio da direcção de Manuela Ferreira Leite. Parece-me justo. Manuela Ferreira Leite deixou bem claro há meses que também partilha daquela forma de viver a democracia, pelo que o apoio são favas contadas. Não percebo o embaraço do PSD, pensei que a reacção fosse fácil e linear.

 

 

(também no CC)