Legislativas (33)


Pedro Correia,

 

DEBATE MANUELA FERREIRA LEITE-JOSÉ SÓCRATES

 

José Sócrates deve enviar um enorme ramo de flores a Manuela Ferreira Leite. Tem um excelente motivo para isso: a líder do PSD acaba de fazer desviar alguns milhares de votos para o PS nas legislativas do dia 27. A sua prestação, no frente-a-frente com o líder socialista, foi a mais fraca que protagonizou nesta série de debates: hoje, na RTP, Ferreira Leite foi derrotada por um Sócrates em boa forma. O primeiro-ministro limitou-se a repetir com ela a táctica que já empregara no frente-a-frente com Francisco Louçã, há quatro dias: consultou o programa eleitoral da sua antagonista e durante mais de uma hora transformou-o em arma de arremesso, condicionando todo o curso do debate. A líder dos sociais-democratas, a quem caberia a ofensiva enquanto dirigente do principal partido da oposição, passou o tempo a tentar justificar omissões e contradições do seu programa em vez de fazer a análise minuciosa de mais de quatro anos de uma governação falhada.

"Quem está a ser julgado é o engenheiro Sócrates, que foi primeiro-ministro nestes quatro anos e meio" , desabafou Ferreira Leite já na recta final do debate, reconhecendo implicitamente que estava a perder em toda a linha. Era tarde para inflectir o rumo: mal preparada, sem dar mostras de ter lido sequer o programa eleitoral do PS, a antiga ministra das Finanças parecia uma caloira em dia de exame perante um Sócrates que por vezes sorria, quase incrédulo, perante a inconsistência da sua adversária. "Desculpe, mas não percebo os seus argumentos", disse mais de uma vez. Os espectadores também não percebiam.

Eu, pelo menos, não percebi esta Manuela Ferreira Leite sempre remetida à defesa procurando justificar durante longos minutos os pecados governativos do Governo PSD em vez de dissecar os pecados governativos do actual Governo PS. Não disse uma palavra sobre a TVI, mal aludiu ao drama social do desemprego e só criticou a guerra movida pelo Executivo aos professores nos minutos finais por insistência da moderadora, Clara de Sousa. Passou demasiado tempo a dar explicações a Sócrates sobre as suas próprias contradições na questão do TGV (que hoje contesta mas defendia em 2003, quando estava no Governo), dos impostos (hoje é contra o IMI e o PEC, impostos que criou quando foi ministra das Finanças) ou das SCUT (que já lhe mereceram críticas frontais mas que hoje tolera sem uma palavra de contestação no seu programa).

O líder socialista mostrou-se mais delicado com a líder do PSD do que com qualquer dos seus adversários nos restantes debates: não é impunemente que se defronta uma senhora. Mas foi igual a si próprio nas doses torrenciais de propaganda e na descomunal imodéstia que todos lhe reconhecemos: "Fiz sempre aquilo que devia, correspondendo aos interesses dos portugueses"; "Fizemos as reformas que era necessário fazer"; "Orgulho-me de ter contribuído para a qualidade da democracia"; "Nestes quatro anos, o Serviço Nacional de Saúde melhorou."

A melhor linha argumentativa, do ponto de vista da oposição, acabou por ser enunciada por Clara de Sousa. Ao lembrar, numa pergunta ao primeiro-ministro, que a maioria absoluta socialista "aumentou os impostos directos, aumentou os impostos indirectos e reduziu as deduções fiscais" aos portugueses desde Março de 2005, contrariando uma das mais emblemáticas promessas eleitorais do PS. Se Manuela Ferreira Leite tivesse maior capacidade política, bastar-lhe-ia ter  olhado de frente a câmara, como se dirigisse a cada um dos portugueses, e repetido a pergunta que Ronald Reagan fez a Jimmy Carter no debate televisivo que decidiu a eleição presidencial norte-americana de 1980: "Acham que vivemos melhor ou pior que há quatro anos?"

Da resposta que cada eleitor der a esta pergunta dependerá o sentido do seu voto.

56 comentários em “Legislativas (33)”

  1. Caro Pedro Correia, a pergunta que deixa no fim para aferir os 4 anos de Sócrates é altamente manipuladora e varre para debaixo do tapete todos os comportamentos errados que nos trouxeram esta crise económica. Comportamentos errados cujos maiores representantes em Portugal são o PSD e PS, com destaque para o PSD.
    No meio do debate não sei o que achar: se é incompetência de MFL em não conseguir liderar um debate eleitoral contra o primeiro-ministro em funções, ou se o não discutir os 4 anos de sócrates é estratégia para não dar palco a sócrates para apresentar obra feita. Estes foram uns 4 anos longos e porventura MFL tem medo que os portugueses recordem o que foram os 4 anos de sócrates.
    Mas o que verdadeiramente me chocou neste debate foi uma frase de MFL no final do debate – aquela frase nunca devia ter sido dita. Nem pensada.

    1. Francisco:

      1. Concordo consigo. Aquela frase de MFL não deveria ter sido dita. Nem sequer pensada. Curiosamente, não a tenho visto transcrita nos excertos televisivos do debate: quem e porquê a deixou de fora, como se jamais tivesse existido?

      2. Discordo de si. A pergunta “Estamos melhor ou pior do que há quatro anos” deve ser feita sempre pelos eleitores, em jeito de balanço para avaliar uma maioria política. Qualquer maioria política. Há outras questões a ter em conta. Mas esta pesa sempre.

  2. Se Sócrates se preocupou em ser delicado e cavalheiro, já MFL , prevalecendo-se da sua condição de senhora idosa, mostrou a sua faceta rasteira e de mau gosto atroz com a tirada de fino recorte “o senhor é capaz de matar o pai e a mãe para depois dizer que é órfão “. Sem mais comentários…

    1. Delicado??Apenas tentou enrolar os Portugueses mais uma vez, recusando a falar do presente.
      Actividades de enriquecimento no primeiro ciclo??? Dá vontade de rir, quando penso que essas passaram a sr a prioridade do governo, passando para segundo plano, as aulas lectivas.

  3. Diga-se o que se disser a senhora deve ser uma avozinha muito estremosa e dedicada que até a faz ir a Londres por causa do novo rebento de família nascido lá.Aqui é tudo uma piolheira até os grandes serem donos da saúde como ela apregoa.
    Falta de vergonha não é defeito é vício.

          1. ha que deixar passar a onda LPM… so revela que os estragos na imagem de Socrates foram grandes ! ficou claro que ele é um trafulha…

    1. “Incompreensivelmente” parece que os comentadeiros do Blasfémias estão em transumância para este blog.
      Que ” tric ” é que lhes deu?

  4. Não sei se as pessoas votarão respondendo à tua pergunta final. Algumas sim, claro. Outras colocarão a pergunta em termos de futuro: entre JS e MFL qual me dá mais garantias de ter uma vida melhor? Daí a abstenção…

    1. Paulo, parece-me que as pessoas farão sempre um balanço comparativo entre o início e o fim da legislatura. Estas legislativas, segundo creio, serão menos bipolarizadas que quaisquer outras desde 1985. Portanto, a outra pergunta também inevitável não é tanto que partido terá a escassa maioria que as urnas ditarem mas que partidos poderão ditar a futura correlação de forças – e isto não abrange apenas os dois maiores partidos, abrange os cinco.

  5. Mesmo que Sócrates tenha estado muito seguro e documentado e Ferreira Leite tenha balanceado várias vezes não houve, na minha opinião, ganhador e mantém-se o empate. E se o empate se mantém, a resposta está na abstenção e no Bloco, ganhando o PS

    1. Cara GJ: dos dez debates, a meu ver, só um terminou empatado. O debate Louçã-Portas. Para mim foi o melhor.
      Portas venceu três. Contra Sócrates, Jerónimo e Manuela.
      Sócrates venceu três. Contra Jerónimo, Louçã e Manuela.
      Louçã venceu dois. Contra Jerónimo e Manuela.
      Manuela venceu um. Contra Jerónimo.
      Jerónimo não venceu nenhum.

      (e com isto ajudou-me a escrever um postal. A publicar daqui a umas horas)

  6. Em termos futebolísticos diria que não houve surpresa, mas a vitória foi mais folgada do que seria de esperar. Sócrates esteve a grande altura mas, em termos práticos, isso pouco significará. Não acredito que estes debates contribuam para mudar o sentido de voto de muitos eleitores.
    Basta ler as opiniões do Jamais, para perceber que as pessoas são incapazes de uma análise isenta.É risível ler os argumentos que invocam para defender que Sócrates foi esmagado!
    A frase de MFL ” Faz-me lembrar aquele fulano que mata o pai e a mãe para epois dizer que é orfão”, define o estatuto moral, a ética e o carácter de MFL. No Jamais e blogs afins as pessoas gostam. Mas não é só por ali, já que a única coisa em que os portugueses reconhecem vantagem de MFL em relação a Sócrates é o seu carácter. Neste debate, viu-se o carácter de MFL. Tenho pena é de viver num país com gente assim, mas isso é outra coisa…
    Clara de Sousa esteve mais uma vez impecável e foi a melhor dos três.
    Se votasse num dos partidos do Centrão, hoje tinha decidido o sentido do meu voto. Até porque o argumento de que hoje estamos piores do que há 4 anos me parece muito redutor e assentar numa premissa errada. Não é por aí que eu critico Sócrates. Há muitas razões válidas para o fazer. MFL não soube explorar, porque já elogiou muito Sócrates, antes de ser presidente do PSD e agora as suas críticas soam a falso.

    1. MFL elogiou hoje rasgadamente a reforma da segurança social do Governo, na linha do que fez noutras ocasiões. E Sócrates não se esqueceu de lembrar os elogios feitos pela actual líder do PSD, (antes de ascender à presidência do partido) à ministra da Educação e ao seu contestadíssimo modelo de avaliação dos professores. A frase da ex-ministra das Finanças que citas – e já mencionada por alguns dos nossos leitores – é de um mau gosto atroz. Só vejo mais alguém, da classe política portuguesa, capaz de utilizá-la: Alberto João Jardim.

    2. ” É risível ler os argumentos que invocam para defender que Sócrates foi esmagado!”.

      Se for ao blog do João Gonçalves declara-se como seguro ser José Sócrates um perdedor. Enfim, os suspeitos do costume…

    3. Carlos, a frase que menciona e que também ficou para início do meu post no blog representa uma gargalhada ao PSD. Não foi dito por acaso e por isso o impacto que teve em si e em mim fez-se sentir. O perfil de MFL é aquele, houve outros momentos idênticos e que não podem ser ditos se se pretende ganhar eleições. Agora, eu penso que o PSD quase que gostaria de dar a vitória a Sócrates para poder correr com ela. Quanto ao debate em termos esclarecedores não o considerei nem quente nem frio, daí ter considerado um empate. Não acredito que vá contribuir para a decisão do dia 27.

  7. eu acho que o sinhor ingenheiro sócrates ganhou o debate.

    e, como o sinhor gorjão e o sinhor pedro correia, voto sócrates.

  8. Onde passou esse debate? Eu vi o que deu no Sic. Onde o Senhor ” Engenheiro” Sócrates deixou os portugueses mais assustados com o que pode vir aí, se chegar a ganhar!

    a Drª Manuela Ferreira Leite, podia ter atacado mais, e até mesmo perder a compostura, para o dito ” Engenheiro” era pouco.

    1. Eu posso responder a essa questão: eu vivo melhor do que há quatro anos. Muito melhor. E sou apenas um quadro de uma empresa privada, de uma área tecnológica. Empresas que muito beneficiaram deste governo.

  9. Sim, é óbvio para qualquer um.

    Socrátes venceu em toda a linha. Demonstrou à saciedade (se isso fosse necessário) a total falta de senso político de Ferreira Leite. Mas, será isso suficiente, no próximo 27?

    Não leve a mal, Pedro, mas eu espero, com um optimismo temperado, que tal de facto suceda. Ferreira Leite, em definitivo, não conta com o meu voto.

  10. Sou mãe de um menino de 8 anos, que frequenta uma escola pública. Meus caros senhores /as deviam ver a aberração do horário, por causa das apregoadas actividades( inglês, música, etc)

  11. Perdão pai, fui influenciado pela minha esposa, que se encontra aqui ao lado, à beira de um ataque de nervos, só por ter estado a ouvir o dito ” engenheiro”

    Eu bem a mandei para a cama, que ganhava mais com isso…

  12. Se vivemos pior ou melhor do que há 4 anos???

    Claro que pior, sem sombra de dúvida!!! Basta ir para a rua ouvir a opinião dos Portugueses.

  13. Sobre…

    Tantas ambições falhadas
    e promessas delirantes,
    foram anos de trapalhadas
    e políticas descolorantes.

    Tem sido falso o activismo
    de propaganda falaciosa,
    esta falta de objectivismo
    deixa a economia ciciosa.

    É tremenda a vacuidade
    da panaceia socialista,
    trucidando a sociedade
    pela sua marca irrealista.

  14. Foi um debate muito esclarecedor. Com uma excelente moderadora, que soube fazer perguntas difíceis (infelizmente, nem todas tiveram resposta…) Sócrates só ganhou porque Ferreira Leite não tem ideias para o país, foi incoerente e marcou vários golos na própria baliza, ao desvalorizar o papel do parlamento (gravíssimo!) ou quando veio com a história do TGV e os espanhóis (sem classificação!)

  15. Eu acho que MFL só bateu Sócrates num aspecto: a idade. E a idade é tramada, não perdoa.

  16. Estranho ninguém referir o q a Dra Mauela disse já depois de terminado o debate. Confrontada com a durabilidade de um governo minoritário ela não disse q ” se pode governar sem leis” . isto é, se a instabilidade vem do parlamento, ela dispensá-lo-à.

    Ouvi bem ???

    1. Vimos debates diferentes, Maresia. O debate que eu vi não pode ser o que viu a Cleópatra, em que aos dois minutos já a senhora “ganhava por 1-0”. Naquele que eu vi, a pessoa em causa arrastava-se penosamente em campo como a selecção nacional da era Queiroz…

  17. Totalmente expectável o debate.
    Mas numa coisa não estou de acordo consigo, Pedro Correia: um frente-a-frente político é, sim, como um combate num ringue. A diferença essencial é que no debate não existe KO, por mais vezes que se vá ao tapete.
    Ora, ontem cheguei a duvidar da impossibilidade do knock-out nos debates eleitorais, tantas foram as vezes em que a líder do PSD foi ao tapete, levantando-se quase nos dez segundos ou sendo salva pelo gongo. O gongo isto é, por Clara de Sousa, meramente fazendo o seu trabalho e passando ao assunto seguinte, entalando (e bem) o primeiro-ministro muito mais do que qualquer ataque da adversária.
    Chaves da tareia:
    1 – O currículo governativo de Manuela Ferreira Leite, parte dele suficientemente recente (Finanças no executivo Barroso do país-que-está-de-tanga) para estar ainda bem presente na memória de grande parte do eleitorado.
    2 – Consequência inexorável da primeira chave, MFL passou todo o debate a defender-se, como se fosse ela, e não ele, uma primeira-ministra a defender a sua governação dos últimos quatro anos. Hilariante a história do TGV e do “diga lá aos seus camaradas espanhóis que parem de fazer manifs (??) contra mim e pressionar-me, que eu não gosto”.
    3 – O currículo partidário de MFL, isto é, as estrondosas contradições entre o que defendia antes de ser líder do PSD (“Vá, Sócrates, malha nos professores em que eu não malhei o suficiente, que tu afinal és mais de direita do que eu, filho. Dá-lhes!) e aquilo que passou a defender depois de ser líder do PSD (“Tadinhos dos professores, não se pode fazer uma reforma contra eles, tem de se negociar”).
    4 – O vácuo diletante e chico-esperto do programa eleitoral do PSD. Manuela Ferreira Leite chegou a meter dó na questão do Serviço Nacional de Saúde e respectiva autoria fundacional, ao ponto de evocar como grande contributo laranja para o referido SNS Leonor Beleza… Leonor Beleza?!?
    5 – Dizer que MFL tem domínio insuficiente da retórica é um fabuloso understatement. O que MFL tem é uma (in)capacidade expressiva na sua própria língua equivalente à do inglês técnico do Sócrates.
    6 – Na frase indubitavelmente genuína da sua prestação – atirada já para o fim do debate como toalha ao chão do ringue – MFL disse aquilo que não me lembro de ter ouvido Basílio dizer a Soares em 91: que o Sócrates tem carácter não só de homicida, mas de parricida, e parricida por motivos fúteis. Elegante.
    7 – Last but by all means not least, por tudo o que referi acima, a fácil desmontagem da “política de verdade” de MFL. Isto é, o desmoronar da sua “imarca de magem” (MFL dixit). Uma desconstrução facilmente alcançada com uma dose mínima de “política a sério”.

    Agora, o que o debate teve de realmente extraordinário foi o que se lê hoje sobre ele. No “Público”, dizem “desenganem-se” se pensam que alguém ganhou o debate, e por adiante noutros jornais. Estupidificou tudo? Nem tudo, como se vê neste post.

    PS – Nunca votei nem nunca votarei no Sócrates nem na Ferreira Leite.

    1. «Numa coisa não estou de acordo». Quando eu conseguir ler tudo, talvez lhe dê toda a razão. Mas, para já, peço-lhe só uma ajuda: qual é essa coisa a que se refere, afinal?

      (Estou a brincar, meu caro.)

  18. Caro João Carvalho, o desacordo é descrito nas poucas primeiras linhas. Como teve ocasião de reparar, não se refere a algo que o Pedro Correia tenha escrito no post inicial, mas sim ao que ele escreveu num posterior comentário, a seguir transcrito.
    «De Pedro Correia a 12 de Setembro de 2009 às 23:57
    Sócrates ‘esmagado’ não é linguagem de analista: é linguagem de wrestler. De alguém que vê a política como um ringue.»
    Concedo-lhe que o PC censura a analogia entre política e ringue. Conceda-me que eu tenha alargado a analogia, colocando “frente-a-frente político” no lugar de “a política”.
    Por que raio é que isso me passou pela cabeça? Se calhar vi algum combate de boxe na Eurosport, ou o DVD do Rocky Balboa. (Estou a brincar, claro).

    1. Ainda bem que conseguimos brincar.
      Longe de mim querer dizer que o seu comentário era muito extenso. Mas era. Hehe…
      Aqui entre nós, tem a vantagem de ser longo sem ser maçador. Entre outras coisas boas, de resto.
      Abraço.

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