Como os tudólogos do Chiado são incapazes de perceber o mundo


Pedro Correia,

democrats[1].gif

 

Confesso: é penoso assistir a “noites eleitorais” dominadas por tudólogos que nada percebem sobre coisa nenhuma mas são capazes de perorar horas a fio sobre não importa o quê. Voltou a acontecer nesta longa emissão televisiva em que se sucediam as mais assombrosas declarações de ignorância sobre a vida real dos Estados Unidos proferidas por gente que observa o mundo pelo buraco da fechadura do eixo Chiado-Príncipe Real.

Com honrosas excepções (das quais destaco Miguel Monjardino e Nuno Rogeiro), nesta longa noite americana, que foi a do naufrágio eleitoral do Partido Democrata, assistimos ao triunfo da ignorância, incapaz de perceber as causas políticas e sociológicas da vitória de Donald Trump e do esmagador domínio do Partido Republicano – que venceu as eleições para a Casa Branca, para o Senado, para a Câmara dos Representantes, para a maioria dos parlamentos estaduais e para a maioria dos governadores que foram a votos.

Sucediam-se banalidades na pantalha. “Os Estados Unidos são um país muito grande”, balbuciava Fulano, preenchendo tempo de antena antes da contagem dos votos. “Normalmente as sondagens nos EUA não falham”, alvitrava Beltrano enquanto os boletins eram contabilizados. “O partido que neste momento tem mais problemas é o Republicano”, asseverava Magano, recém-aterrado de Marte. “Ninguém estava à espera que uma coisa destas acontecesse”, escandalizava-se Sicrano após o apuramento dos resultados, passando um atestado de incompetência a si próprio.

Para cúmulo, foram buscar um “especialista em sondagens” que, incapaz de acertar na maioria das pesquisas de opinião que tem feito em Portugal, surgiu nos ecrãs como putativo connaisseur da sociologia eleitoral norte-americana. Tinha o currículo adequado para falhar. E falhou mesmo: pouco depois da meia-noite apresentava ao País um mapa com os Estados do  Michigan, da  Pensilvânia e do  Wisconsin pintados de azul – a cor do Partido Democrata. Infelizmente para ele, a realidade encarregou-se de o desmentir.

Nada a que não esteja habituado.

Do mal o menos: sobre a Virgínia esta sumidade não se pronunciou. “Só conhecendo a Virgínia bem, que eu sinceramente não conheço”, justificou-se. Como se conhecesse algum dos outros 49 Estados norte-americanos.

Hillary Clinton, claro, foi a grande derrotada da noite eleitoral. Mas não está só: tem a companhia destes tudólogos. São em número cada vez maior: mal cabem na bolha do Chiado onde se imaginam a recriar o mundo.

Barulho


Diogo Novo,

Logo nas primeiras linhas de Ravelstein, Saul Bellow escreve que é “curioso que os beneméritos da sociedade sejam pessoas divertidas. Pelo menos na América é com frequência este o caso. Quem quiser governar o país tem também que o entreter”.
Vista a campanha dos dois principais candidatos, os beneméritos estão em parte incerta, gente divertida também não se viu (a inimputabilidade, por um lado, e o cinismo sem sinal de projecto político, por outro, não divertem), e seja qual for o resultado duvido que haja entretenimento de qualidade. Estas eleições são de tal forma atípicas e decepcionantes que nem o maior escritor americano do pós-guerra equacionou uma coisa assim.

Reflexão sobre as eleições presidenciais dos EUA


joaomsandre,

Hoje milhões de americanos (correcção: noter-americanos; nova correcção: estado-unidenses) irão às urnas. Cerca de 40 milhões já o terão feito por recurso ao voto antecipado. Se há democracias maiores, esta é a mais importante do mundo e mesmo quem não gosta do país terá dificuldades em o negar.

 

Na escolha do próximo presidente há 6 candidatos possíveis, 4 com visibilidade nacional mas só 2 têm reais possibilidades de vencer. Pessoalmente não subscrevo a tese do voto útil, especialmente num país como os EUA. Mesmo que um voto mais de acordo com a consciência e ideologia de cada um (em Gary Johnson para os Libertários ou Jill Stein para os Verdes, por exemplo) leve à eleição de alguém de quem não se goste, o país tem fundações democráticas sólidas que evitariam que uma presidência, independentemente da figura, acabasse num desastre consumado. Se o voto útil acontecer, deve ser porque o medo da eleição de alguém não desejado se sobrepõe às preferências individuais.

 

Não vou escrever muito sobre Donald Trump. A sua personalidade pública (aquela que podemos ver) é a de um ignorante, misógeno, xenófobo, racista, brutamontes, mitómano, egomaníaco e narcisista (estas duas também parecem fazer parte da sua faceta privada). Isso, por si só, é suficiente para o desqualificar de qualquer presidência.

 

Falar em Hillary Rodham Clinton é questionar a razão para o ódio que lhe é dirigido. Parece em parte provir da sua ambição, mas faz sentido perguntar se a de outros homens teria sido questionada. A sua parte na reforma (falhada) do sistema de saúde aquando da presidência de Bill Clinton também parece contribuir. Igualmente o seu muito criticável hábito de secretismo (que levou ao caso dos e-mails em servidores privados) a torna alvo de desconfiança. Não ajuda que seja uma mulher que não gere empatia, sendo mais cerebral e fria que aquilo que se esperaria. Contudo, nada que não se veja noutros políticos.

 

Este ódio que ela gera à direita é ainda mais estranho pelo simples facto de ela ser, mesmo dentro do panorama político americano, tudo menos uma esquerdista (os americanos preferem o irónico “liberal”). Na política americana ela deveria ser colocada no centro, com alguns pontos mais à esquerda mas nunca por muito. Na Europa ela seria colocada firmemente no território da democracia-cristã, num centro-direita claro.

 

Como seria a sua política como presidente? Provavelmente aborrecidamente sólida. O seu currículo como secretária de estado ou senadora indica que é conhecedora dos dossiers mas prefere avanços feitos por pequenos passos, sólidos mas sem aventuras. Também tem hábito de conseguir obter colaborações com republicanos, mesmo alguns que eram visceralmente contra ela. Não parece guardar (muitos) rancores e engole por vezes o orgulho para atingir os seus objectivos.

 

É vista pela esquerda como demasiado próxima aos grandes grupos empresariais. Isto é um facto. As suas presenças no circuito de discursos nos EUA trouxe-lhe uma fortuna agradável e forte proximidade a CEOs e outras figuras do mundo empresarial e financeiro dos EUA. No entanto isso deveria ser uma vantagem. Tais personalidades conseguem ter sempre acesso a qualquer presidente: os montantes que controlam ou influenciam, directa ou indirectamente, garante-o. Ter na presidência alguém que conhecem e com quem conversaram no passado garante um diálogo mais certo que aquele que Bernie Sanders (por exemplo) conseguiria. Isso poderá permitir mudanças a leis ou reformas que de outra forma veriam a oposição dessas pessoas.

 

A forma como Clinton aceitou incorporar propostas de Sanders também poderá jogar a seu favor na presidência. Pode lançar para a arena propostas mais à esquerda do que desejaria para, após a sua rejeição, propôr alternativas que incialmente preferiria. Sendo Clinton uma política orientada para procurar consenso, isso ajudá-la-ia imenso.

 

O principal obstáculo será sempre um congresso (e talvez um senado) controlado pelos republicanos. Isso em si não é mau. O sistema de checks and balances dos EUA procura precisamente esses equilíbrios entre os vários órgãos executivos (se bem que ter ambas as câmaras a operem-se-lhe pode ser demais). O obstáculo é que muitos republicanos começam a ver o valor de optar por uma política de terra queimada e de ataque ao sistema político de Washington, sem permitir a mais simples sombra de compromisso. Isso poderá levá-los a rejeitar toda e qualquer proposta de uma presidente Clinton, mesmo que vá de encontro aos seus interesses e ideias. No entanto, mais uma vez, a alternativa seria pior.

 

Do lado democrata, a alternativa era Bernie Sanders, alguém de quem eu estaria mais próximo ideologicamente. Num cenário europeu Sanders estaria talvez no centro esquerda (depende do país: nos países escandinavos até poderia assemelhar-se por vezes a um centrista). Só que nos EUA ele está tão à esquerda que teria oposição não apenas dos republicanos (mesmos em recorrerem a intransigências) mas também de muitos democratas. Tivesse ele sido escolhido como candidato democrata contra Trump e o cenário seria o de um frente a frente entre um futuro de parálise e outro de incompetência.

 

Penso que os americanos/norte-americanos/estado-unidenses acabarão por escolher Clinton. Escolher Trump será um desastre não por si mesmo (os checks and balances manter-se-iam) mas porque muitos representantes republicanos sentiriam a necessidade de o apoiar, quanto mais não seja para aproveitarem a onda. A escolha de Clinton é pouco apelativa pelo que promete, mas é sólida e basta em si mesma pelo aspecto transformativo que possui (a eleição da primeira mulher presidente após a eleição do primeiro presidente negro). É aborrecida mas isso não é necessariamente mau. No entanto, se finda a contagem Trump acabar na Casa Branca (e deitar fora os outros retratos presidenciais para os substituir pelo seu próprio), a culpa será em grande parte do próprio Partido Democrata.

 

PS: sobre a rejeição da esquerda a Hillary Clinton e os comentários de Slavoj Žižek, basta ler este comentário de Alexandra Lucas Coelho. Não subscrevo a sua visão de Clinton (embora não tenha o seu conhecimento específico), mas a sua análise é claríssima.

Making America great again


Sérgio de Almeida Correia,

CoverStory-Blitt-Miss-Congeniality-879x1200-147516

O meu amigo R.M. (espero que ele não se zangue por eu citá-lo aqui) lembrou-se de que em tempos tivemos o New Deal, de Roosevelt. Depois chegou o “Yes, we can”, de Obama. E a seguir veio “Grab them by the pussy, Making America Great Again”, de Trump.

Por este andar, digo eu, lá para Novembro (se não for já para semana), somos capazes de vir a ter o “We got him by the balls”, de Hillary Clinton.

Uma espécie de casa dos segredos


Sérgio de Almeida Correia,

la-1469050568-snap-photo.jpeg

Primeiro saiu o malfadado artigo da New Yorker que deixou o vendedor de banha da cobra a espumar, a que logo se seguiram as ameaças. Depois veio aquele discurso na Convenção Republicana da barbie Trump que deu origem ao hilariante comunicado de Meredith McIver. Ficámos então a saber que não só houve plágio, o que até aí todos negaram, como lá bem no fundo aquela tropa de matronas, agentes imobiliários e pregadores é admiradora dos democratas. É claro que aquilo não é o Watergate, mas como escreve Ryan Lizza, estes episódios esclarecem muita coisa. Quem não esteve pelos ajustes foi Ted Cruz. E o caso não é para menos, porque com um circo na estrada onde não falta rapaziada como Chris Cox, estou convencido de que Hillary Clinton só não vencerá folgadamente se der uma conferência de imprensa em topless. Oxalá que ninguém se lembre de lhe propôr isso. Para pior já basta assim.  

Bernie


odiplomata,

Bernie Sanders é um fenómeno político espectacular. Não tanto pelos resultados que tem alcançado nas primárias do Partido Democrata (embora de digno registo, tendo em conta a poderosa máquina de Hillary Clinton), mas sobretudo pela onda de entusiasmo que criou numa parte considerável do eleitorado norte-americano. Seria (tal como foi) impensável para qualquer analista ou comentador, até há poucos meses, que uma personalidade como o senador de Vermont pudesse sequer ser considerado um actor para ser levado a sério à escala nacional, atendendo àquilo que ele é e à forma como se apresentou aos americanos. No sistema político americano, políticos como Sanders, conotados com um proibitivo socialismo “vermelho”, muito para lá da esquerda do Partido Democrata, foram sempre vistos como autênticos “párias”, aos quais estava interdito qualquer acesso aos grandes palcos das disputas da política nacional. A verdade é que, tradicionalmente, a América sempre tolerou mais os políticos de correntes à direita do GOP do que à esquerda do Partido Democrata. Não importa agora aqui estudar o porquê dessa realidade, mas a questão central é que o sistema político dos Estados Unidos teve sempre mais espaço para a projecção nacional de figuras como Joe McCarthy, Sarah Palin ou Ted Cruz. Efectivamente, olhando para as décadas a seguir ao pós-II GM, pode-se constatar que Sanders é, porventura, o político (talvez o único) assumido de esquerda e socialista que mais projecção nacional conseguiu. 

 

A ascensão de Sanders ao estrelato nacional e a sua penetração nos “hearts and minds” de muitos americanos há de ser, a seu tempo, um “case study” e que, em parte, poderá ser explicado pelo distanciamento temporal ao fim da Guerra Fria e do fantasma “comunista”, se tivermos em conta que muito do eleitorado que aquele candidato tem cativado é jovem. Além disso, como ainda há dias uma jovem apoiante de Sanders dizia na CNN, aquilo que para muitos americanos é visto como extrema esquerda, na Europa é considerado apenas de centro-esquerda, ou seja, mainstream, e daí não vir mal ao mundo. E é precisamente esta leitura que muitos jovens eleitores norte-americanos começam a fazer, alguns sem qualquer memória da ameaça “vermelha” e libertos dos preconceitos e medos da Guerra Fria. Para muitos destes jovens, inclusive, os despojos do comunismo fazem hoje parte de uma cultura pop muito apreciada. 

 

Dificilmente Sanders retirará a nomeação a Hillary, mas de todo este processo é sem dúvida ele quem mais personifica o “tempo novo” na política americana. Apesar dos seus 74 anos, encontrou um novo filão de eleitorado, com muitos jovens, que viram no seu discurso uma esperança e uma alternativa. De certa maneira, encontra-se aqui algum paralelismo com o que aconteceu com Barack Obama nas primárias de 2008 e, curiosamente, também contra a poderosa máquina de Hillary. 

Na América


fiodeprumo,

Hillary.jpeg

Depois da “Super Tuesday” tudo começa a ficar mais claro no que ao resultado final das eleições primárias norte-americanas diz respeito.

No campo democrata, creio que Hillary parece imbatível e que Sanders, tido como da ala dos candidatos mais liberais, irá perder. A vida da provável candidata democrática não será contudo fácil, dada a excessiva exposição política que Clinton lhe trouxe.

Mas se o voto negro e o de algumas minorias estiver garantido, é muito possível que a vejamos no lugar que antes foi do marido. O que fazer a este, em caso de vitória, é que me parece uma questão importante, a menos que a Casa Branca deixe de ter mulheres…

Trump, por seu lado, provou que dificilmente alguém o superará no campo republicano. Cruz e Rubio podem arrumar as botas, porque o tempo deles já foi.

O que irão os republicanos fazer com uma candidatura que não corresponde à imagem real do partido? Esta é a outra pergunta que não pode deixar de ser posta…

Parece assim que Hillary, face a Trump, terá a vida facilitada em Novembro. Mas a América, de quem os europeus tanto gostam, às vezes traz tristes surpresas.

Esperemos que não, porque, confesso, há muito tempo que espero que Hillary seja colocada no lugar que, do meu ponto de vista, lhe compete de direito!

Eleições Intercalares nos EUA – cinco notas


josegomesandre,

1. Foram ontem escolhidos os 435 membros da Câmara dos Representantes, 36 lugares no Senado e vários Governadores. Os Republicanos venceram em toda a linha, conquistando o Senado e uma claríssima maioria na câmara baixa. Não podemos falar em surpresa. As intercalares são habitualmente “eleições de protesto”, que penalizam o Partido afecto à Presidência, e estas não foram excepção. Acresce que a maioria das disputas mais renhidas decorreu em Estados conservadores e que muitos dos Democratas agora em risco beneficiaram do “efeito Obama” em 2008 para conseguirem uma então improvável vitória.

 

2. Porém, a amplitude da vitória Republicana foi assinalável, implicando um reforço na Câmara dos Representantes (o mais elevado desde a 2ª Guerra Mundial) e triunfos em Estados tendencialmente Democratas (Governadores em Maryland, Massachusetts, Illinois; Senadores no Colorado), que mostram não apenas uma renovada confiança do eleitorado no GOP, como a manifestação de claro repúdio pelos Democratas, que dominam a Casa Branca desde 2008 e o Congresso desde 2006. Com efeito, apesar dos dados económicos mais recentes serem animadores, o eleitorado norte-americano confessa-se globalmente desiludido com o Presidente Obama e não hesitou em “puni-lo”, mesmo que indirectamente.

  

3. Importa, contudo, ser prudente na análise do que estes resultados possam significar para as Presidenciais de 2016, completamente diferentes na sua natureza e nos níveis de participação (muito superiores às intercalares, onde votam sobretudo os eleitores mais “indefectíveis”). Basta recordar que George Bush triunfou em 2000, apesar da vitória Democrata em 1998, e que o extraordinário resultado Republicano em 2010 não impediu também a reeleição de Obama em 2012. 

 

4. Ainda assim, a vitória Republicana não deixará de ter importantes consequências. O Congresso tem enorme relevância no sistema político norte-americano, cabendo-lhe preponderância quer na agenda doméstica (sobretudo em questões orçamentais), quer na definição da política externa (onde a anuência do Senado é determinante), ou ainda na composição da estrutura administrativa e judicial dos EUA. Apesar dos “acordos de fundo” em matéria de política externa permitirem adivinhar linhas de continuidade, é de esperar que a nova maioria Republicana pressione o Presidente Obama a adoptar algumas das suas reivindicações (nomeadamente um endurecimento da posição norte-americana em casos delicados como o conflito russo-ucraniano, a guerra na Síria ou a ameaça do “Estado Islâmico”). Também em matéria de política interna, os Republicanos terão oportunidade para condicionar a Administração em temas como a imigração, a política energética e ambiental, e até a implementação do “Obamacare”.

 

5. Para Obama, este é mais um desafio de monta. Por um lado, corre o risco de ver enfraquecida a sua posição, estando obrigado a estabelecer entendimentos com os seus rivais políticos. Por outro, quererá certamente evitar ficar refém da maioria Republicana, que poderá efectivamente bloquear a fase terminal do seu mandato caso o Presidente se recuse a encetar novos compromissos. Quando aos Republicanos, têm uma oportunidade de ouro para avançar com a sua própria agenda (todavia sempre condicionada ao veto presidencial), reforçando a sua imagem como Partido credível e alternativa viável para a Casa Branca – a batalha realmente decisiva na política americana, marcada para Novembro de 2016.

 

Eleições EUA – notas finais


josegomesandre,

1. Obama venceu com margem confortável no Colégio Eleitoral (332-206) e com ligeira vantagem no voto popular (cerca de 3%). Dois factores contribuíram decisivamente para a vitória. Primeiro, uma extraordinária mobilização do eleitorado Democrata que, mesmo desiludido, acorreu às urnas em proporção praticamente idêntica a 2008: jovens, mulheres e minorias étnicas foram autenticamente “empurrados” pela máquina Democrata. Uma boa organização no terreno é hoje cada vez mais indispensável e os estrategas Democratas só podem estar de parabéns. Em segundo lugar, a campanha acertou em cheio na mensagem: ao mesmo tempo que justificava as insuficiências do primeiro mandato (ligando-o à excepcionalidade da crise económica e financeira mundial), Obama conseguiu projectar uma imagem de futuro, centrando-se mais nos “próximos 4 anos” do que numa defesa do seu mandato. Excelente decisão.

 

2. A América está a mudar. Se 2008 tinha sido uma eleição histórica, pela eleição de um negro para a Presidência, 2012 não lhe fica atrás, trazendo a primeira lésbica assumida para o Senado (Tammy Baldwin), votações favoráveis ao casamento homossexual em quatro Estados e a legalização da marijuana para efeitos recreativos (!) no Colorado e em Washington. O eleitorado urbano e liberal está em crescimento, a diversidade étnica é cada vez maior e os “valores tradicionais” parecem estar a diminuir em importância e em influência geográfica. Que não se assustem os mais conservadores: os EUA sempre tiveram uma enorme capacidade para se reinventarem, preservando ao mesmo tempo os seus princípios fundamentais.

 

3. Por falar em reinvenção, o Partido Republicano necessita de se reorganizar, tornando-se apelativo para novos segmentos essenciais do eleitorado (o caso mais óbvio são os hispânicos). A ala radical do Partido, mesmo minoritária, tem contaminado o núcleo do GOP com uma ideologia sectária e ultra-conservadora, que entusiasma a base, mas não ganha eleições. O discurso anti-ciência, a mistura de religião e política, o radicalismo no tema do aborto e a xenofobia latente têm ganho protagonismo entre os Republicanos, mas são amplamente rejeitados pelo eleitorado. O “establishment” necessita de se distanciar destes sectores radicais, sob pena da “marca Republicana” se tornar tóxica num futuro próximo.

 

4. São variados os desafios que esperam Obama. Crise económica, reforma da saúde, ambiente, nova política energética – a nível interno. Instabilidade no Médio Oriente, relações difíceis com a Rússia e a China, a contenção do Irão – a nível internacional. São temas complexos, que, na maioria dos casos, o Presidente terá de negociar com uma Câmara dos Representantes dominada pelos Republicanos. A tarefa mais dura? Lidar com o maior desafio que assola o Ocidente: preservar a estrutura fundamental do “Estado Social”, num quadro económico e demográfico mundial que não permite aos países desenvolvidos manter os mesmos níveis de despesa pública até aqui praticados.

 

5. Um dos maiores vencedores deste processo eleitoral foi a abordagem científica ao fenómeno político. Os estudos econométricos e as sondagens (e os agregadores de sondagens) retrataram com grande fidelidade a evolução e o desfecho da corrida, pese embora terem sido continuamente desvalorizados pelos “opinion-makers”. Estes (como Dick Morris ou George Will) preferiram basear-se em “feelings” e bitaites infundados (o termo português é “lançar postas de pescada”), mas saíram completamente derrotados face ao rigor e à objectividade do esforço de Nate Silver e Sam Wang, entre outros. Tenho a secreta esperança de que, mais tarde ou mais cedo, os “tudólogos” serão dispensados pela opinião pública e pela própria comunicação social, e substituídos por gente menos mediática, mas seguramente muito mais séria e informada.

Thumbs up & thumbs down


enlil,

Claes Oldenburg, “Floor burger”, 1962

 

Perderam:

Kansas City Chiefs, Samuel Adams, NASCAR, Geraldo Rivera, Target. E ainda: Union Boat Club, Ivy League, Boston Brahmins, John Birch Society, Goldman Sachs.

Venceram:

White Sox, Hollywood, George Soros, Alinea, Chevrolet, Jon Stewart, Facebook, National Parks Conservation Association, Starbucks, Gap.

A primeira tarefa de Obama


Rui Rocha,

Concluído o acto eleitoral, esgota-se o tempo dos campos opostos, das soluções que se excluem, das costas voltadas entre os partidários de causas diferentes. Reeleito, tem agora Obama a responsabilidade de fazer um esforço sério para unir a nação e tornar-se efectivamente o Presidente não só dos que o apoiaram, como Cristiano Ronaldo, mas também de todos os outros portugueses.

Ironias da memória


José Maria Gui Pimentel,

Embora não seja a minha primeira memória política, aquela longa madrugada de novembro de 2000 é, espantosamente, a minha primeira memória de uma noite eleitoral (não me recordo das eleições legislativas de 1999). Com 12 anos e o rádio ligado na TSF às 2h da madrugada, segui entusiasmado o desenrolar daquela que, ademais, ficou para a história como uma das mais frenéticas noites eleitorais, com a contenda entre Bush e Gore a terminar com resultado indeterminado. Pergunto-me o que me terá feito trocar o sono, ou um entretenimento mais convencional, por horas de comentários em relação a umas eleições de que eu pouco percebia e que diziam respeito a um país que não era o meu, mas a verdade é que aquilo me entusiasmou brutalmente. Desde então, tenho seguido as noites eleitorais americanas com o mesmo entusiasmo, pelo que representam, pelas suas características decididamente curiosas para um europeu e, não o escondo, por aquele cheiro a noite de Oscars, que faz daquela mais do que uma noite normal. Hoje, infelizmente, não vou conseguir ficar até ao fim.

Liberta o pundit que há em ti


Rui Rocha,

 

 Partilha connosco as tuas previsões para as eleições americanas relativamente aos seguintes dados:

 

– Composição do colégio eleitoral (total de 538 eleitores: cfr. distribuição na imagem que compara a contribuição de cada Estado em 2012 – censo de 2010 – com a das duas eleições anteriores – censo de 2000): Obama X / Romney Y

– Percentagem do voto popular: Obama X% / Romney Y%.

 

O leitor que se aproximar mais dos resultados finais terá direito a um post do José Gomes André com a análise dos resultados eleitorais (espero). Como não somos de criar divisões, todos os outros também.

 

(as previsões dos pundits, politólogos e analistas encartados podem ver-se aqui).

Obama vs. Romney: as previsões


Rui Rocha,

Nate Silver, FiveThirtyEight:Obama 303, Romney 235. 

Sam Wang, Princeton Election Consortium: Obama 303, Romney 235. 

Drew Linzer, Emory University: Obama 326, Romney 212

Michael Barone, The Examiner: Romney 315, Obama 223. 

Ezra Klein, The Washington Post: Obama 290, Romney 248. 

Larry Sabato, UVA Center for Politics: Obama 290, Romney 248. 

Josh Putnam, Davidson College: Obama 332, Romney 206. 

Jay Cost, Weekly Standard: Romney victory. 

Philip Klein, The Examiner: Obama 277, Romney 261. 

Ross Douthat, New York Times: Obama 271, Romney 267. 

Simon Jackman, Stanford University: Obama 332, Romney 206. 

Kenneth Bickers, University of Colorado and Kevin Berry, CU-Denver: Romney 330, Obama 208. 

Jamelle Bouie, The American Prospect: Obama 303, Romney 235. 

George Will, The Washington Post: Romney 321, Obama 217. 

Ben Domenech, The Transom: Romney 278, Obama 260. 

Markos Moulitsas: Obama 332, Romney 206. 

Karl Rove: Romney 285, Obama 253. 

Xu Cheng, Moodys’ Analytics: Obama 303, Romney 235. 

James Pethokoukis: Romney 301, Obama 227. 

Joe Trippi, Democratic consultant, Obama 303, Romney 235. 

Dick Morris, FoxNews: Romney 325, Obama 213. 

Jim Cramer, CNBC: Obama 440, Romney 98. 

Dean Chambers, UnskewedPolls.com: Romney 275, Obama 263. 

Cristiano Ronaldo, Real Madrid e Selecção de Portugal (futebol): Obama.

 

Previsões para todos os gostos. Estas, com excepção da última, foram recolhidas aqui. No fim, ganha o Obama.

Planos para a madrugada


josegomesandre,

Hoje à noite – e só para quem esteja interessado nas eleições americanas – emissão especial na TVI24, a partir da meia-noite. Vou andar por lá a comentar, movido a café forte, suspeito, com outros companheiros de americanofilia e com créditos blogosféricos e internáuticos, como o Tiago Moreira de Sá, Filipe Caetano e Nuno Gouveia, entre outros. A emissão será conduzida por José Alberto Carvalho e João Maia Abreu. Até logo!

Obama em luta contra a tradição


Pedro Correia,

 

As tradições valem o que valem. Mas se revelam uma tendência consistente devem ser levadas em consideração. Das 15 últimas eleições presidenciais norte-americanas, realizadas desde 1952, 80% dos candidatos do Partido Republicano eram ou seriam ocupantes da Casa Branca. Esta percentagem é muito inferior entre os candidatos do Partido Democrata, que não chegam a metade.

No campo republicano, os candidatos ao longo destas seis décadas foram Dwight Eisenhower (1952, 1956), Richard Nixon (1960, 1968, 1972), Barry Goldwater (1964), Gerald Ford (1976), Ronald Reagan (1980, 1984), George Bush (1988, 1992), Robert Dole (1996), George W. Bush (2000, 2004) e John McCain (2008). Apenas Goldwater, Dole e McCain – o republicano derrotado na anterior corrida presidencial – não chegaram à Casa Branca.

Entre os candidatos democratas, o número dos que ficaram pelo caminho, marcados pelo insucesso, é consideravelmente maior. Quem foram eles? Adlai Stevenson (1952, 1956), Hubert Humphrey (1968), George McGovern (1972), Walter Mondale (1984), Michael Dukakis (1988), Al Gore (2000) e John Kerry (2004). Destino diferente dos cinco vencedores pelo Partido Democrata neste mesmo período: John Kennedy (1960), Lyndon Johnson (1964), Jimmy Carter (1976), Bill Clinton (1992, 1996) e Barack Obama (2008).

Se vencer o escrutínio de amanhã, o actual inquilino da Casa Branca será apenas o segundo democrata em 68 anos, após Clinton, a bisar com êxito nas urnas. Enquanto os republicanos fizeram eleger duas vezes Eisenhower, Nixon (embora derrotado por Kennedy em 1960), Reagan e Bush júnior.

Daqui a pouco mais de 24 horas saberemos.

 

Na foto, quatro presidentes dos EUA: Eisenhower, Kennedy, Johnson e Nixon (1961)

 

As eleições mais interessantes do mundo.


Luís Menezes Leitão,

 

Tive a sorte de por razões profissionais ter tido que me deslocar a Washington por duas vezes na altura das eleições presidenciais: em 2000 e em 2008. Da eleição de 2008 recordo apenas a esperada vitória de Obama e o seu memorável discurso em Chicago, quando combinou o slogan de Martin Luther King, “We shall overcome“, com o seu próprio: “Yes, we can“. Lamentavelmente o Obama de 2012 está muito longe de ter a frescura e o brilho de 2008, tanto assim que tem precisado de se apoiar em Bill Clinton, seguramente a grande figura desta campanha.

 

Memorável foi no entanto assistir à renhida eleição de 2000 entre George W. Bush e Al Gore. Desde o início que se sabia que o vencedor do voto popular poderia não ganhar o colégio eleitoral e que tudo se iria decidir na Florida: “It’s Florida, Florida, and Florida“. Os republicanos apostavam claramente em que iriam vencer nesse Estado, devido ao facto de o Governador ser irmão do candidato: “De que serve ter um irmão Governador, se ele não for capaz de nos assegurar os votos do seu Estado?”. Já os democratas achavam que a Flórida não lhes escaparia, devido à elevada percentagem de pensionistas que residia no Estado.

 

Na própria noite eleitoral, visitámos o estado-maior democrata reunido no Edifício Watergate. Quando lá chegámos, o ambiente era tétrico. Bush já tinha assegurados 57 votos no colégio e Gore apenas 3. Mas nesse momento as televisões anunciam que Gore tinha vencido na Florida, somando os 25 votos desse Estado. A multidão irrompe em aplausos frenéticos e a nossa delegação foi jantar, estando plenamemente convencidos da vitória de Gore.

 

Mais tarde, quando ligo a televisão, verifico que afinal a Flórida permanecia indecisa: too close to call. Aliás o mesmo sucedia com uma série de outros Estados, sendo essa a frase mais repetida durante toda a noite. A certa altura o locutor recomendou aos espectadores que acordassem as crianças que a noite era histórica. Curiosamente havia pessoas a telefonar para os estúdios, que não percebiam o sistema eleitoral, e perguntavam como é que Gore, que tinha um avanço de 500.000 votos no voto popular, podia afinal não ser eleito por causa dos Estados. A resposta do locutor foi lapidar: “We are the United States of America. We are not the United Citizens of America“. A Fox a certa altura anuncia a vitória de Bush na Flórida, com um avanço de 20.000 votos, declarando consequentemente a sua vitória no colégio eleitoral, o que leva Gore a telefonar a Bush a assumir a derrota. Mas ao fim da noite os 20.000 votos estavam reduzidos a pouco mais de 200, o que levou Gore a retirar a sua assunção de derrota. E chegou-se ao fim da noite sem se saber quem era o novo presidente. Um jornal publicou em letras gordas “Bush wins” mas no dia seguinte o título já era “Not yet“.

 

É muito curioso um sistema eleitoral em que a eleição é travada em meia dúzia de Estados decisivos. Houve quem dissesse que o mundo todo deveria votar nas eleições dos Estados Unidos, uma vez que a mesma vai afectar a todos. Mas os próprios americanos devem pensar que todos os americanos também deveriam poder votar na Florida ou no Ohio, os Estados onde no fundo se vai decidir a eleição.