Bernie


odiplomata,

Bernie Sanders é um fenómeno político espectacular. Não tanto pelos resultados que tem alcançado nas primárias do Partido Democrata (embora de digno registo, tendo em conta a poderosa máquina de Hillary Clinton), mas sobretudo pela onda de entusiasmo que criou numa parte considerável do eleitorado norte-americano. Seria (tal como foi) impensável para qualquer analista ou comentador, até há poucos meses, que uma personalidade como o senador de Vermont pudesse sequer ser considerado um actor para ser levado a sério à escala nacional, atendendo àquilo que ele é e à forma como se apresentou aos americanos. No sistema político americano, políticos como Sanders, conotados com um proibitivo socialismo “vermelho”, muito para lá da esquerda do Partido Democrata, foram sempre vistos como autênticos “párias”, aos quais estava interdito qualquer acesso aos grandes palcos das disputas da política nacional. A verdade é que, tradicionalmente, a América sempre tolerou mais os políticos de correntes à direita do GOP do que à esquerda do Partido Democrata. Não importa agora aqui estudar o porquê dessa realidade, mas a questão central é que o sistema político dos Estados Unidos teve sempre mais espaço para a projecção nacional de figuras como Joe McCarthy, Sarah Palin ou Ted Cruz. Efectivamente, olhando para as décadas a seguir ao pós-II GM, pode-se constatar que Sanders é, porventura, o político (talvez o único) assumido de esquerda e socialista que mais projecção nacional conseguiu. 

 

A ascensão de Sanders ao estrelato nacional e a sua penetração nos “hearts and minds” de muitos americanos há de ser, a seu tempo, um “case study” e que, em parte, poderá ser explicado pelo distanciamento temporal ao fim da Guerra Fria e do fantasma “comunista”, se tivermos em conta que muito do eleitorado que aquele candidato tem cativado é jovem. Além disso, como ainda há dias uma jovem apoiante de Sanders dizia na CNN, aquilo que para muitos americanos é visto como extrema esquerda, na Europa é considerado apenas de centro-esquerda, ou seja, mainstream, e daí não vir mal ao mundo. E é precisamente esta leitura que muitos jovens eleitores norte-americanos começam a fazer, alguns sem qualquer memória da ameaça “vermelha” e libertos dos preconceitos e medos da Guerra Fria. Para muitos destes jovens, inclusive, os despojos do comunismo fazem hoje parte de uma cultura pop muito apreciada. 

 

Dificilmente Sanders retirará a nomeação a Hillary, mas de todo este processo é sem dúvida ele quem mais personifica o “tempo novo” na política americana. Apesar dos seus 74 anos, encontrou um novo filão de eleitorado, com muitos jovens, que viram no seu discurso uma esperança e uma alternativa. De certa maneira, encontra-se aqui algum paralelismo com o que aconteceu com Barack Obama nas primárias de 2008 e, curiosamente, também contra a poderosa máquina de Hillary. 

0 comentários em “Bernie”

  1. Mais um sinal de esperança do fim deste mundo cão, que é o liberalismo selvagem que nos consome.
    João de Brito

  2. Parece que o que escapa aos “milenials” que adoram os Trumps e os Sanders da vida é que na Europa de esquerda que eles olham ao longe, ou alias de centro-esquerda da Europa, a tal do “free healthcare” e afins, não há espaço para o isolacionismo e o dedo apontado às corporações como faz Sanders e Trump.
    A Europa é próspera graças ao livre comércio. Isto só para começar a separar águas.

    O fenómeno Trump Sanders, é comum em muitos lados deste mundo, a geração milenial não lida bem com a realidade, quer à viva força fechar a janela, respostas imediatas, políticos “reais”, políticas “reais”. Portanto quem prometer mais coisas, ganha. Quem prometer ser “contra”, ganha, nem que seja um velho que sempre viveu do sistema e da suposta “luta”, e de um louro desbocado da reality TV.

  3. Case study? É simples.

    A esquerda americana foi para as Universidade e Jornalismo. Desligou-se das fábricas e dedicou-se ao proselitismo quase a 100%. A construir cultura e foi bem sucedida.

    Mas isso não é nada de novo passa-se o mesmo em Portugal um pouco por todo o Ocidente depois da queda do Comunismo a Leste. O Bloco é um produto do jornalismo de “referência” totalmente nas mãos de marxistas e da Universidade.
    O Labour de Corbyn é um produto do The Guardian, BBC, etc.
    O Partido Democrata é um partido baseado na exploração de classes raciais, sexuais e será cada vez mais marxista. Mais tarde ou mais cedo entrará em conflito aberto com a sua ala limusine. Tudo o que se passa nas Universidades americanas vai explodir cá fora.

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