Um homem mata a mulher, de quem estava separado, e uma amiga dela, suicidando-se a seguir. Escassas semanas depois, a tragédia repete-se – com outro assassino e outras vítimas.
Aconteceu há três anos em Portugal. Mas podia ter sido ontem.
Não tardaram na altura os depoimentos televisivos a desresponsabilizar os actos criminosos. Há sempre teses socialmente correctas para justificar os actos mais repugnantes.
Um canal generalista abordou o assunto, com a seguinte legenda em letras maiúsculas: “Crise e problemas financeiros explicam depressão social”. Enquanto a voz da jornalista procurava configurar a situação desta forma: “Um futuro sem esperança para um presente em crise”.
Os crimes concretos, com vítimas concretas, diluem-se nesta amálgama de frases destinadas a “explicar” a inadmissível violência homicida por factores sociais e até políticos. E nestas ocasiões nunca faltam psiquiatras a conferir um atestado de respeitável validade à tese implícita de que o gatilho é premido pela “sociedade” e não pelos assassinos.
“Numa sociedade deprimida há uma grande falta de esperança, as pessoas não têm perspectiva de futuro. Esta desesperança pode levar algumas pessoas a atentar contra si e contra outros”, explicava um psi.
“As situações de crise, com desemprego e endividamento, são fundamentais na saúde mental dos portugueses”, justificava outro.
A voz da jornalista insistia: “O consumo de antidepressivos aumentou, os casos de depressão também.”
Pasmo com tudo isto – incluindo a sugestão de relação directa entre o consumo de antidepressivos e a morte de mulheres às mãos de maridos e companheiros. Pasmo com a pseudo-modernidade a pretender “contextualizar” os mais bárbaros atavismos com palavras de compreensiva condescendência. Pasmo com este cíclico jogo de passa-culpas dotado de um pretenso aval científico.
Como se os algozes fossem vítimas e estas, para merecerem um mínimo de respeito público, tivessem de ser assassinadas segunda vez.

![Shadow-People[1].jpg Shadow-People[1].jpg](http://0.fotos.web.sapo.io/i/Be408d8c5/19556725_izYs0.jpeg)
Ignorar a vítima, desresponsabilizar o autor e culpar a sociedade. Nada disso é novo entre nós. Não tanto ao nível popular, onde é até bem comum berrar propósitos de apriorístico linchamento e “justiça” popular à porta de tribunais e carros celulares (sobretudo com câmaras de TV por perto), mas por parte das alegadas cabeças pensantes.
Agora que miraculosamente, em Portugal e num punhado de meses, tudo parece correr pelo melhor, do desemprego não se fala, dos tão invocados sonhos e legítimos direitos espezinhados nada se diz, do retrocesso civilizacional nem uma palavra, das famílias lançadas numa pobreza sem esperança nada consta, dir-se-á que nada se pode apontar à sociedade. Sociedade finalmente resgatada e olhando um radioso futuro, mesmo que visto por um túnel inaugurado na presença e glória de quem se sabe.
Vamos ver em que bases assentará doravante o argumentário politicamente correcto. Antevejo que a acção do anterior governo ainda venha a ser longamente invocada. Costas largas, enfim.
Costa
Faz-me impressão a crescente tentação de diluir distâncias e hierarquias entre o bem e o mal. Como se fossem farinha do mesmo saco. Daí decorre parte do discurso jornalístico dominante, que cai com demasiada frequência no relativismo moral. Quando a culpa dos mais repugnantes crimes pode ser atribuída a causas “sociais”, a responsabilidade individual dos criminosos é de imediato atenuada ou mesmo dissolvida nessa imensa nebulosa. Sem nunca faltarem as abalizada opiniões de um psiquiatra de turno e de um sociólogo de pacotilha, prontas a aliviar qualquer consciência mais pesada.
Não estará a confundir tentativas de explicar um ato que não parece racional com tentativas do desculpabilizar?
Na sua perspetiva estamos condenados a nunca diminuir o número de casos de assassínios.
A única razão para existirem assassínios é os assassinos serem degenerados (e não estou a dizer que não são) e o ambiente envolvente não pode ser analisado porque isso seria desculpar os degenerados.
Como não existe um “degenerador”, a única coisa que se pode tentar alterar é o meio envolvente. Mas como tentar perceber qual o seu meio envolvente é errado, porque é desculpar os assassinos, tudo o que podemos fazer é prender os homicidas e recolher os corpos.
É uma maneira muito fatalista de ver a sociedade.
O raciocínio rousseauniano leva muitos a concluir que só a sociedade degenera os indivíduos, que são naturalmente bons. E o raciocínio brechtiano induz-nos a pensar que as cheias dos rios devem-se apenas às margens que os comprimem. 33470.html
Daí à existência de colégios de psiquiatras prontos a considerar inimputáveis monstros de rosto humano que cometeram dezenas de homicídios vai um curto passo.
Também escrevi sobre isso aqui:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/42
Os raciocínios que levam à desculpabilização da sociedade levam a considerar que toda a ação ou análise é inútil porque o mundo está dividido em bons e maus. Nós fazemos parte dos bons e castigamos os maus que são criminosos – fica tudo resolvido. Com a vantagem que os maus têm medo do castigo e assim não repetem o crime.
Infelizmente não é tão simples. Grande parte destes casos são assassínios seguidos de suicídio, ou o culpado entrega-se de livre vontade. Não é portanto o medo de represálias que os vai travar.
Talvez não fosse má ideia tentar perceber o que levou a estes atos. Claro que isso implica que é possível que o mundo não seja formado por bons imaculados e maus cheios de nódoas. Se calhar até temos parte da responsabilidade sem o sabermos.
Mas assumir responsabilidades, mesmo involuntárias, implica coragem e introspeção, mais vale dizer que a culpa é dos maus muito maus e ficarmo-nos por aqui.
Os raciocínios que levam à desculpabilização do criminoso, lançando o anátema para as causas “sociais”, estão cheios de preconceitos ocultos por cortinas de palavras. Porque deles se infere que os pobres, os marginalizados, os deprimidos são mais propensos à barbárie.
Não é assim. Não pode ser assim. O bem e o mal existem. E são transversais à sociedade. O troglodita norueguês que assassinou dezenas de estudantes num campo de férias também seria pobre e marginalizado e deprimido?
Se as culpas são individuais tal não permite a politização da sociedade.
É preciso que não sejam. É preciso que as culpas sejam do sistema capitalista.
E no entanto o livre arbítrio existe. Para o bem e para o mal.
Irrelevante. O jornalismo é a alavanca para a politização de tudo.
E deixo-lhe uma pérola da BBC Radio
Questão do dia: 29201629585616896
https://twitter.com/BBCR4Sunday/status/7
“should Muslim women be allowed to travel more than 48 miles from home without a chaperone? “
Não haverá uma intenção irónica nessa pergunta?
Não.
Então dá mesmo que pensar.
Os conservadores gostam de falar em crises de valores, de como a prevalência da violência, do sexo e da devassidão em geral nos media e na cultura popular promovem uma degradação da condição humana.
Mas sempre que um progressista sugere que há factores sociais em acção em episódios que se repetem, sugerindo um padrão, Ai! que estamos a desculpabilizar os culpados.
Um homem é o homem e as suas circunstâncias. Enquanto sociedade temos de olhar para as circunstâncias, é sobre elas que nos cabe refletir e agir quando possível.
Caro L. Rodrigues, julgo que estas questões são demasiado complexas para serem debatidas com base no binómio “conservadores” / “progressistas” – rótulos aliás redutores, como todos os rótulos. Eu não consigo desgraduar a concreta responsabilidade individual em função de abstractas culpas colectivas, sendo-me indiferente o rótulo que entendam colar-me em função disso.
P. S. – A minha outra resposta visava outro comentário, entretanto apagado por lapso.
A minha posição é que não deixa de haver responsabilidade individual, pela qual os criminosos serão sempre julgados.
Mal comparado, se não tivéssemos limites de velocidade nas estradas, podiamos refugiar-nos no argumento de que a culpa dos acidentes estaria na maldade/incúria dos condutores que os causavam. Ou podemos dizer que são as pessoas que matam, e não as armas de fogo.
Mas enquanto sociedade podemos impor limites de velocidade. E podemos não ter armas à venda nos supermercados.
Todos temos a capacidade de fazer o bem e o mal. A nossa tendência para um ou outro é ditada em parte pela personalidade, e em parte pelos estímulos e incentivos que recebemos de fora.
Enquanto sociedade é nesta segunda parte que cabe agir.
Fica aqui uma referência sobre uma reflexão com bases científicas sobre a questão do impacto das condições económicas sobre os valores de uma comunidade:
https://en.wikipedia.org/wiki/When_Work_ Disappears
Pois, cá está.
E eu, conservador impenitente, coisa que há-de ser – essa sim – merecedora de viva censura social e severa punição legal, fico sem saber o que é “refletir”. Mero lapsus calami?
Costa
Refletir, para si, pode ser fletir segunda vez. Acho que ninguém se importa.
Nem mesmo com esse significado. Nem mesmo…
Costa
Sem pretender entrar na análise teórica da coisa, nem de propósito, ontem à noite, vi, salvo o erro no canal Cinemundo, o filme “Assalto a Wall Street”:
– Às vezes, não há mesmo outras saídas!
Por mais que nos custe.
João de Brito
Creio que pouco ou nada isso terá a ver com os casos que me suscitaram este texto. Um homem matar a mulher e uma amiga desta. E poucos dias depois ter ocorrido uma situação idêntica.
Não foi em Wall Street. Nem num filme.
Há muitos exemplos concretos que parecem querer introduzir uns tons mais do que po preto e branco, na sua argumentação: os atentados no Paquistão… os atentados no Molembeck, arredores de Paris; as bolsas de miséria e os indices de habitantes presos ou com problemas na justiça. Não acredito que os “malandros” tenham sido seleccionados a nascença para viverem todos ali.
É preciso ter cuidado com essas associações entre a pobreza e o crime. Algo nos autorizará a concluir que os pobres têm mais tendência do que os ricos para se tornarem assassinos?
O homem é um predador como todos os animais carnívoros o são. A diferença está na escolha. Os animais matam para satisfazer a necessidade mais básica de todas: a alimentação que lhes assegura a sobrevivência. O homem que assassina sem necessidade nem por instinto, o homem que pode escolher porque carrega consigo a inteligência e o conhecimento adquiridos através de milénios de civilização, não é um produto da sociedade nem das vicissitudes e agruras da vida. Mata, porque quer, porque escolheu matar. Deixou outras razões sobreporem-se à própria razão. Tantos milhares de milhões que passaram centos de mortes em vida e até sem escolha escolheram bem…
A loucura não justifica a inimputabilidade das acções.
Sendo todos nós os loucos que seguramente somos, temos a responsabilidade de deixar galopar a nossa loucura com rédea curta, senão afinal os ditos selvagens somos nós.
Excelente frase, Dulce: devemos “galopar a nossa loucura com rédea curta”. O problema central relaciona-se com a natureza humana: milénios de civilização, séculos de civilidade, não eliminam a pegada genética que nos foi transmitida pelos nossos antepassados cavernícolas – em muitos casos apenas a disfarçam ou a atenuam. Se a cultura bastasse como resposta, nunca Auschwitz teria existido na pátria de Goethe, Schiller e Hegel.