Egipto: o que escreve Vargas Llosa


Pedro Correia,

 

 

Uma pequena multidão de comentadores domésticos continua a dirigir farpas aos movimentos pró-democracia nos países árabes, chorando a queda dos ditadores Ben Ali e Mubarak. Neste desfile, Alberto Gonçalves não podia faltar à chamada. Lá vem ele, no DN, juntar-se ao coro: “Após a queda de Mubarak, as odes dos jornalistas à alegria do povo e as invectivas aos ‘cínicos’ que não a partilham resultam de óptimas intenções, mas de péssima memória. A História recente ensina que a felicidade de certos transtornados religiosos tem um preço: a nossa.”

Extraordinário: assume-se a defesa póstuma da ditadura para lançar um vigoroso anátema sobre a democracia que ainda nem começou a ser construída. Como se o mundo árabe sofresse de um atavismo genético que o torna incapaz de conviver ad seculum seculorum com estados de direito e o respeito escrupuloso dos direitos humanos. Nessa convicção, Gonçalves vergasta os repórteres que têm relatado o que testemunham no Egipto: “Se calhar, os jornalistas confundem o seu ofício com a repetição de clichés, na convicção um bocadinho infantil de que qualquer protesto público contra uma ditadura acarinha valores opostos aos ditatoriais.”

Não sei se entre esses jornalistas que tanto enojam o colunista do DN se inclui John Simpson, o prestigiado editor de assuntos internacionais da BBC, que escreve do Cairo sem a menor dúvida: “A deposição do presidente Hosni Mubarak é tão significativa como o colapso do bloco soviético na Europa de Leste em 1989.” Um cliché, diria certamente Alberto Gonçalves, talvez saudoso daqueles tranquilos tempos em que o Muro de Berlim se erguia como fronteira natural à expansão da democracia. E o que dirá este sociólogo do mais recente artigo de Mario Vargas Llosa publicado no El País, precisamente sobre os ventos da liberdade que percorrem o Magrebe e o Médio Oriente? “O Ocidente liberal e democrático deveria celebrar este facto como uma extraordinária confirmação da vigência universal dos valores que representa a cultura da liberdade e dirigir todo o seu apoio aos povos árabes neste momento da sua luta contra os tiranos»,  sublinha o Nobel da Literatura-2010.

Felizmente Simpson e Vargas Llosa têm vistas menos curtas do que a agremiação de admiradores portugueses de Mubarak. Como nada acontece por acaso, é precisamente do Irão que nos chegam hoje notícias de corajosos levantamentos populares contra a ditadura, na linha das impressionantes manifestações de Junho de 2009. É óbvio o efeito de contágio dos acontecimentos da Tunísia e do Egipto. Perante tanta “agitação”, os cínicos de serviço por cá, tal como os aiatolas por lá, devem estremecer de horror.

 

Imagem: manifestação contra a ditadura iraniana

“Os inteligentes inúteis”


Pedro Correia,

O Henrique Burnay acerta em cheio (via 31 da Armada):

«Desde que Mubarak caiu, alguma direita exibe uma pose altiva e ilustrada para explicar que derrubar regimes ditatoriais e moderados, correndo o risco de fazer subir ao poder facínoras tresloucados e fundamentalistas, como no Irão, pode não ser uma óptima ideia e motivo de regozijo. Tem razão, esta direita. Mas é uma razão inútil. Achar que todas as revoluções são iguais, que não se passaram  mais de trinta anos, que só há ditadores amigos ou fundamentalistas islâmicos, é deixar o terreno da democracia e da liberdade nas mãos da esquerda.  Inclusive da que acha que a Irmandade Muçulmana é moderada. A democracia para ser possível precisa de aliados. Coisa mais útil do que a pose de quem acha que mais ninguém leu História.»

Os talibãs e os comboios


jmmcc,

«Os talibãs afegãos acreditam que o governo no Afeganistão, apoiado por Washington, será o próximo a ser derrubado pelo povo, depois da queda do presidente egípcio Hosni Mubarak.» Se isto não for um problema de tradução, os talibãs estão para o Afeganistão como o TGV está para Portugal: às segundas, quartas e sextas avançam; às terças, quintas e sábados recuam. Mas todos sabem que o caso culminará numa terça, numa quinta ou num sábado.

Que horror, o povo nas ruas


Pedro Correia,

 

 

Uma revolta popular pacífica, ordeira, participadíssima, onde as únicas bandeiras são as nacionais, deita abaixo uma tirania. Sem necessidade de intervenção dos marines norte-americanos, sem líderes “carismáticos”, sem partidos ou igrejas a “organizar” as multidões.

Devia ser motivo de congratulação em todo o mundo democrático. Mas não é. Em redutos de opinião, bem entrincheirados nas suas certezas graníticas, analistas derramam por jornais e blogues o seu imenso desdém pela página histórica que acaba de se virar no Cairo. Como se os egípcios, com os seus cinco mil anos de civilização, não estivessem minimamente preparados para a democracia e precisassem para o efeito do aval das ilustres bempensâncias cá do sítio.

Fernando Martins n’ O Cachimbo de Magritte, apressa-se a enumerar um inevitável cortejo de desgraças: «Certamente provocará contra-revolução, guerra contra inimigos internos e externos, terror e caos económico e social.» Verdadeiramente estarrecedor. «Quem acredita que o Egipto teve o seu ’25 de Abril’ deve preparar-se para um PREC islamita triunfal», exclama, na mesma linha, João Pereira Coutinho no Correio da Manhã. Como antes dele fez Vasco Graça Moura, ao escrever no DN sem dúvidas de qualquer espécie: «Está na cara que [as coisas] vão correr mal, mesmo muito mal.» E hoje Vasco Pulido Valente, bem ao seu estilo, proclama no Público: «Presumindo a mais do que provável (se não inevitável) interferência do Irão, como imaginar que se resolveria fosse o que fosse com eleições? O único resultado seria quase com certeza o alargamento e o reforço da ‘Irmandade Muçulmana’». Suprema heresia, optar por eleições…

Leio estas opiniões e parece que estou a escutar Glenn Beck, na Fox News, com as suas «tiradas histéricas» (a definição é dos Los Angeles Times) contra o “avanço do extremismo islâmico” que só ele, dotado de vistas mais apuradas do que o comum dos mortais, consegue descortinar.

Ah, como tudo soa bem melhor quando a “democracia” é imposta pelos fuzis do Pentágono e os ditadores, em vez de caírem por determinação do povo, cedem o poder por pressão dos tanques.

Teerão sem motivos para sorrir


Pedro Correia,

 

 

Por estes dias, algumas Cassandras de turno têm atrasado o calendário 32 anos para apontarem um dedo cheio de suspeições ao movimento popular egípcio. Lembrando que a chamada revolução islâmica que derrubou o xá do Irão em 1979 também prometia muito mas terminou da pior maneira, com a instalação de uma ditadura ainda mais feroz. Por que motivo nenhum outro exemplo de uma revolução falhada é invocado por estes dias? Talvez porque não haja mais nenhum para mostrar. Nos últimos 40 anos, dezenas de ditaduras deram lugar a sistemas democráticos nos mais diversos pontos do planeta – de Portugal às Filipinas, da Polónia a Moçambique, da Rússia ao Brasil – sem que nenhum vaticínio catastrofista se concretizasse. Caiu o Muro de Berlim, foi desmantelado o apartheid na África do Sul, as tiranias de caserna foram substituídas por estados de direito na América Latina, Timor-Leste alcançou enfim a liberdade. Sem convulsões, sem retrocessos históricos, sem o cumprimento das habituais promessas negras dos profetas da desgraça. No Irão, de resto, a clique teocrática não tem motivos para se congratular com as manifestações no Egipto, um país onde 20 milhões de pessoas – cerca de um quarto da população – utilizam regularmente a Internet. No Cairo, por estes dias, foi possível ver muçulmanos e cristãos orar em conjunto. Ali não se queimou uma só bandeira americana nem se gritaram palavras de ódio contra Israel.
O fracasso da “revolução islâmica”, há 32 anos, serve aliás de aviso e de vacina a novos movimentos destinados a destituir ditaduras: podem não saber ao certo por onde vão nem para onde vão, mas todos sabem que não irão por aí.

 

Publicado no DN

A revolução do Egipto: derrubar um ditador e várias ideias feitas


Rui Rocha,

Em 11 de Fevereiro de 2011, não foi só um ditador que caiu. Várias ideias feitas foram também derrubadas. Entre estas destaco as seguintes: a) a democracia no médio oriente e nos países islâmicos impõe-se com a guerra: esta foi a linha de Bush e teve o seu tubo de ensaio no Iraque. Aqui, a ineficácia dos tanques para impor a paz. No Egipto, como na Tunísia, uma revolução pacífica a impor-se aos tanques de guerra; b) as revoluções são protagonizadas por líderes carismáticos: procurou-se em vão, nas ruas do Cairo, um sósia de Nasser. Em cada esquina, apenas um rosto anónimo, um protagonista tão improvável como o vendedor de fruta que se imolou pelo fogo em Tunis c) em países islâmicos, as revoluções são todas uma réplica da que ocorreu no Irão em 1979: até ver, nada mais falso. O único ponto real de contacto até à data é que o Irão e o Egipto eram governados por ditadores (Pahlevi e Mubarak). Tudo o mais tem decorrido de forma radicalmente distinta. O paralelo, se precisamos de algum, está em Berlim, em 1989  d) as novas tecnologias são o gatilho da revolução: não é tanto assim. Têm, é claro, muitíssima importância. Mas, não é possível esquecer o papel determinante de um meio de comunicação tradicional (a televisão) e de um canal (a Al Jazeera). Basta olhar para as imagens do Cairo para perceber que a maioria das pessoas que se manifestaram foram convocadas pela televisão e não pelo twitter e pelo facebook. O resultado final foi determinado pela confluência de ferramentas mediáticas e sociais (que potenciaram o efeito) e, sobretudo, pela justiça da mensagem. Quando os meios e a mensagem são poderosos o efeito é fortíssimo, mas não é infalível. Aí está a revolução verde no Irão a demonstrá-lo; e) as movimentações populares nos países islâmicos, e já agora, em outras paragens, devem ser analisadas a partir de uma posição de determinismo cultural: os cidadãos egípcios deram uma demonstração de civismo e de elevação. Aos ataques dos partidários de Mubarak (quem não recorda ainda a invasão da praça por jagunços montados em cavalos e camelos?) os manifestantes responderam de forma pacífica. À indiferença e hesitação do ocidente opuseram a paz (alguém viu bandeiras americanas queimadas?). Quando alguns gritaram ‘Le Islam’, a massa respondeu ‘La Nation’. Os democratas egípcios resistiram à tentação de lavar com sangue o sangue derramado. Pessoalmente, não sinto outra coisa que não seja humildade e gratidão face à lição que nos deram; f) a narrativa dos movimentos sociais deve ser sempre feita na óptica dos poderes: chegou a ser ridícula a análise táctica da revolução do Egipto feita por muitos comentadores encartados. O detalhe das solidariedades entre americanos e os seus parceiros, o papel de Israel, o perigo islâmico e ainda um par de botas. Entretanto, na rua, pessoas de carne e osso tinham medo, fome e sofrimento para gritar. A narrativa dos que são ninguém, sobrepôs-se, por uma vez e até ver, ao argumento escrito nos corredores diplomáticos. 

Dirão alguns que falta ainda o mais difícil. Mas, creio que esta será mais uma ideia feita que vai ser derrubada. Quem conheceu o Egipto de Mubarak sabe que se tratava de um país anormal. Em qualquer lugar, uma presença militar ostensiva e maciça. Neste cenário, perante um ditador empedernido, o mais difícil foi enfrentar o medo na primeira manifestação (em 25 de Janeiro) e em todos os dias e noites que se seguiram. Nesse momento, o desfecho mais previsível apontava para o massacre, para a detenção e para a tortura de quantos ousaram levantar-se contra o tirano. O caminho espinhoso que se segue não tem comparação com o gesto de oferecer o peito à infinita  probabilidade de receber uma bala.

À ida


Ana Vidal,

Tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de construir. Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar; tempo de chorar e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las; tempo de abraçar e tempo de afastar. Há tempo de procurar e tempo de perder; tempo de economizar e tempo de desperdiçar; tempo de rasgar e tempo de remendar; tempo de ficar calado e tempo de falar. Há tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz.

Eclesiastes 3, 1-8.

     

    À ida, espero que Mubarak perceba finalmente que não é possível enganar todos durante todo o tempo, como pretendia o patético canto do cisne que foi o seu último discurso. Ou, melhor dizendo, a sua última manhosa canção do bandido. O Egipto acordou, e num despertar como este não há recuo nem operação cosmética que satisfaça um povo. Se o povo egípcio não está maduro para uma democracia ao fim de  quase cinco mil anos, quando estará? Esta hora é de celebração, de emoção, de alegria. Porque para tudo tem de haver um tempo. Os profetas da desgraça, geralmente sentados nos seus confortáveis sofás ocidentais, parecem não querer perceber esta simples  e eterna premissa: mesmo que os piores perigos se  venham a confirmar, mesmo que este povo tenha ainda de sofrer outras opressões, mesmo que esses perigos signifiquem uma ameaça para o resto do mundo, o curso da História é imparável e faz-se de momentos destes. De grandes ou pequenos avanços, de erros corrigidos, dolorosos quase sempre. Quem teimou durante três semanas ao relento, paciente e pacificamente, até conseguir o que queria, também saberá fazê-lo de novo se preciso for. O que for soará. O que foi, para já, é uma lição para todos nós. Como dizia aqui o nosso Rui, citando António Machado, o caminho faz-se ao andar.

    “The Egypt’s ousted leader Mubarak may be richer than Bill Gates”


    jmmcc,

     

    There are no Mubaraks on the Forbes list of the world’s richest people, but there sure ought to be.

    The mounting pressure from 18 days of historic protests finally drove Egyptian President Hosni Mubarak from office, after three decades as his nation’s iron-fisted ruler. But over that time, Mubarak amassed a fortune that should finance a pretty comfortable retirement. The British Guardian newspaper cites Middle Eastern sources placing the wealth of Mubarak and his family at somewhere between $40 billion and $70 billion. That’s a pretty good pension for government work. The world’s richest man – Mexican business magnate Carlos Slim – is worth about $54 billion, by comparison. Bill Gates is close behind, with a net worth of about $53 billion.

    Mubarak, of course, was a military man, not a businessman. But running a country with a suspended constitution for 30 years generates certain perks, and Mubarak was in a position to take a slice of virtually every significant business deal in the country, from development projects throughout the Nile basin to transit projects on the Suez Canal, which is a conduit for about 4 percent of the world’s oil shipments. “There was no accountability, no need for transparency,” says Prof. Amaney Jamal of Princeton University. “He was able to reach into the economic sphere and benefit from monopolies, bribery fees, red-tape fees, and nepotism. It was guaranteed profit.” (…)

    U.S.NEWS /  / Yahoo Finance

    11 de Fevereiro de 2011


    Pedro Correia,

      

    «There are very few moments in our lives where we have the privilege to witness history taking place. This is one of those moments. This is one of those times. The people of Egypt have spoken, their voices have been heard, and Egypt will never be the same.

    By stepping down, President Mubarak responded to the Egyptian people’s hunger for change. But this is not the end of Egypt’s transition. It’s a beginning. I’m sure there will be difficult days ahead, and many questions remain unanswered. But I am confident that the people of Egypt can find the answers, and do so peacefully, constructively, and in the spirit of unity that has defined these last few weeks. For Egyptians have made it clear that nothing less than genuine democracy will carry the day.»

    Barack Obama, esta noite, reagindo à queda de Mubarak

    A Invencível Armada


    lauraramos,

    Em três dias, no Egipto, o facebook juntou 400 000 usuários apostados na sublevação contra Mubarak.

    Chamam-lhe agora Sawrabook, o livro da revolução.

    Num país onde a rede ‘Al Jazeera’ ainda não chegara e a televisão do estado exibia velhos filmes a preto e branco, foi obra.

    Às armas, e ao alcance de um teclado.

     

    Este (também) já não prende mais ninguém


    Rui Rocha,

     

    Hosni Mubarak nasceu em 1928 em Kufr el-Musailaha, uma aldeia situada no delta do Nilo. Filho de modestos agricultores, fez carreira no exército. Formou-se como piloto militar na ex-URSS e o seu desempenho na Guerra de Yom Kippur valeu-lhe o posto de Chefe da Força Aérea. Em 1975, Anuar el Sadat nomeou-o Vice-Presidente. Seis anos mais tarde, assumiu a Presidência na sequência do assassinato de Sadat. Assinou os acordos de Camp David, optando por um claro alinhamento com os EUA e foi, aos poucos, contornando o isolamento inicial que tal posição lhe valeu no mundo árabe. A sua permanência no poder ao longo de cerca de 30 anos resultou de sucessivos plebiscitos, apesar de ter prometido por várias vezes promover a realização de eleições livres. Durante as três décadas em que exerceu o poder montou um Estado totalitário, corrupto e militarizado. Mais de 50 milhões de egípcios nunca conheceram outro Presidente. E, de acordo com os planos de Mubarak, esperariam mais alguns anos até conhecer o próximo, o seu filho Gamal. Todavia, hoje, 11 de Fevereiro de 2011, como resultado da revolução que eclodiu nas ruas do Cairo e em confluência com os ventos de liberdade que sopraram da Tunísia, foi obrigado a abandonar o poder e a entregá-lo ao exército. Começa, assim, a história do novo Egipto. Esperemos que as páginas seguintes se escrevam em liberdade. E que se encerre definitivamente o capítulo da tortura, da opressão, do sangue e do sofrimento.

    O canto da múmia: quando o ditador suspira pela democracia


    Rui Rocha,

    A declaração que Mubarak dirigiu ontem aos egípcios constitui um marco no processo revolucionário em curso. A mensagem transmitida é a de que o povo deve optar entre a democracia e a revolução. É claro que a via da democracia que foi proposta tem as suas particularidades. É a democracia Mubarak way. Lenta, controlada, de transição, protagonizada pelos escolhidos do déspota. Tudo isto em nome dos invocados superiores interesses do Egipto e com o objectivo de não permitir que o processo descambe para absolutismos (isso é que não pode ser!). Chega a ser comovente ver o coração empedernido do tirano a encher-se de entusiasmo pelo processo democrático. Mubarak afirma querer dar a democracia aos seus filhos. Acontece que, vá lá saber-se porquê, eles ainda não estão prontos para a desfrutar. A sociedade civil não está organizada, os partidos são imaturos, os cidadãos não atingiram o grau de civilidade necessário. Na verdade, neste preciso momento, os egípcios só estão preparados para a ditadura que Mubarak lhes proporcionou durante 30 anos. Felizmente, ele é um especialista no assunto da transição democrática e sabe exactamente como deve conduzir o processo de forma a atingir em 6 meses os resultados que não foram alcançados em três décadas. Perante isto, é bom de ver qual será a opção dos egípcios. A luta revolucionária vai continuar. À falta de preparação adequada para o processo democrático, o caminho terá que fazer-se ao andar. Se a revolução não pode ser feita por cidadãos integralmente formados, a revolução fará os cidadãos. Rapidamente, Mubarak vai perceber que não lhe será permitido despedir-se do poder ao  ritmo que pretendia impor. Pela simples razão de que já não o tem. O dia em que o ditador suspira pela democracia representa o canto da múmia. Resta esperar que o exército saiba usar o poder que realmente detém para evitar o banho de sangue.

    Mirar o Cairo e ver o Apocalipse


    Pedro Correia,

     

     

    Depois de José Pacheco Pereira, também Vasco Graça Moura se debruça, angustiado, sobre os perigos do fundamentalismo islâmico num texto de pendor apocalíptico em que não há uma só linha de congratulação pela queda de Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egipto – ditadores que perfaziam 53 anos somados de mandato, com o requinte suplementar, no caso egípcio, de que já estava praticamente assegurada a sucessão para um dos rebentos do cleptocrata, travestindo a república em monarquia, em jeito de regresso aos tempos faraónicos do rei Faruk.

    Bom estilista do idioma, Graça Moura compõe o seu texto no DN em jeito de valsa lenta que vai acelerando e crescendo de emoção à medida que os parágrafos se sucedem.

     

    Primeiro parágrafo: «O mundo ocidental deveria olhar com grande apreensão as perturbações consecutivas que ali [Tunísia e Egipto] estão a acontecer e ameaçam alastrar rapidamente aos restantes países islâmicos do Médio Oriente e do Norte de África.»

    Segundo parágrafo: «Está na cara que [as coisas] vão correr mal, mesmo muito mal.»

    Quarto parágrafo: «O rastilho do fundamentalismo islâmico alastrará imparavelmente pelos caminhos da Al-Qaeda a todo o mundo árabe, ainda por cima com o risco de também acabar por envolver a Turquia.»

    Quinto parágrafo: «O Ocidente não está já em condições de se defender, por falta de valores éticos e cívicos que foi dissipando em nome de uma permissividade politicamente correcta e desastrosa.»

     

    Custa-me entender três coisas.

    Primeira: que um democrata não se congratule calorosamente, em termos inequívocos, com a queda de um ditador.

    Segunda: que seja sempre invocado o exemplo do Irão de 1979 como uma espécie de garantia prévia de que os movimentos pró-democracia no mundo islâmico estão condenados a ser mal sucedidos. Que eu saiba, a Indonésia também é um país islâmico – é aliás o maior país islâmico do globo – e transitou com sucesso da ditadura para a democracia no final da década de 90.

    Terceira e última: que não se perceba que todos estes persistentes receios são afinal a prova mais evidente de que as ditaduras foram incapazes de travar o passo à ameaça fundamentalista. E como poderiam ter sido, designadamente no Egipto, sob o mando despótico e decrépito de Mubarak?

    Lamento, sinceramente, que Graça Moura não tivesse espaço, tempo ou paciência para acrescentar um parágrafo ao seu texto. Um parágrafo em que aludisse à corrupção, à pobreza, às desigualdades, à repressão, às eleições fraudulentas, à censura aos meios de informação, à falta de liberdades fundamentais no Egipto. Por um simples motivo: este quadro confrangedor é que constitui o maior caldo de cultura do extremismo islâmico. Não perceber isto é não perceber o fundamental.

    O “vazio” depois de Mubarak


    Pedro Correia,

     

     

    Da esquerda à direita, não faltam por aí certos opinion makers apostados em transmitir à plebe a noção de que a conquista de direitos fundamentais no Egipto é matéria de somenos, devendo moldar-se a critérios de natureza geoestratégica ou ao medo perante a possibilidade de vir aí “algo pior” do que Hosni Mubarak. Para o efeito, agita-se a todo o momento o cenário da revolução islâmica de Khomeini para demonizar as manifestações populares que estão a varrer parte do mundo islâmico. Confundindo deliberadamente o Irão de 1979 com o Cairo de 2011.

    Estas considerações desembocam no puro relativismo político: procuram submeter a instauração de estados de direito a critérios culturais ou geográficos. Como se certos povos ou determinadas regiões não merecessem ascender à democracia.

    Entre os comentadores a que me refiro destaca-se José Pacheco Pereira, mais bem informado que a maioria dos restantes mas tão preconceituoso como eles. Basta reparar numa prosa muito preocupada que publicou na última edição da revista Sábado. Passo a transcrevê-la com a devida vénia:

     

    «No Egipto, tudo pode ainda vir a correr bem, sem Mubarak, e com mais democracia, mas o que se está a passar é ainda demasiado confuso para se começar a bater palmas. Na verdade, o Egipto foi a pátria ideológica da Al-Qaeda, e a organização que individualmente mais moldou o fundamentalismo islâmico é a Irmandade Muçulmana, que, sabe-se, não teve até agora papel fundamental nos protestos. Mas o grupo existe, tem força e uma longa história de perseguições por parte de Nasser, Sadat e Mubarak, e representa uma presença activa contra o secularismo e a modernização da sociedade egípcia.

    A queda de Mubarak significa o fim de uma ditadura, mas também tira do poder um militar que sempre foi um travão à influência fundamentalista. Para haver democracia no Egipto não basta derrubar Mubarak, é preciso impedir que, no vazio do poder, ascenda a Irmandade Muçulmana.»

     

    É assombrosa, esta noção de que à eternização de um ditador no poder deverá seguir-se o vazio político. Imagine-se agora o que anotaria um observador norte-americano da mesma escola de pensamento de Pacheco Pereira escrevendo sobre Portugal no dia 28 de Abril de 1974 (três dias após a Revolução dos Cravos e no auge da Guerra Fria, portanto), adaptando apenas ligeiramente as suas palavras actuais à realidade portuguesa daquela época (os sublinhados, naturalmente, são da minha responsabilidade):

     

    «Em Portugal, tudo pode ainda vir a correr bem, sem Caetano, e com mais democracia, mas o que se está a passar é ainda demasiado confuso para se começar a bater palmas. Na verdade, Portugal foi a pátria de diversos movimentos revolucionários, e a organização que individualmente mais moldou esses movimentos é o Partido Comunista Português, que, sabe-se, não teve até agora papel fundamental nos protestos. Mas o grupo existe, tem força e uma longa história de perseguições por parte de Salazar e Caetano, e representa uma presença activa contra a democracia e a liberalização da sociedade portuguesa.»

    A queda de Caetano significa o fim de uma ditadura, mas também tira do poder um político que sempre foi um travão à influência comunista. Para haver democracia em Portugal não basta derrubar Caetano, é preciso impedir que, no vazio do poder, ascenda o Partido Comunista.»

     

    Por outras palavras: podemos supor sempre o pior para justificar o injustificável. Também houve uma época em que não faltava quem garantisse que Portugal precisava do seu Mubarak para conter a expansão do comunismo.

    Bacoquice lamentável


    jmmcc,

    Com umas promessas de revisão constitucional e eleições, a vida no Egipto começa a regressar à normalidade: os manifestantes nas ruas vão desmobilizando, as palavras de ordem vão-se calando e os protestos vão-se silenciando, enquanto Mubarak volta a ganhar algum espaço de manobra. Foi isto que me fartei de ouvir a vários opinadores todo o dia na televisão, com a agravante de terem até (concluo eu) influenciado certos blocos noticiosos.

    Afinal, todos sabemos já que o dia que está a terminar registou as maiores manifestações destas duas semanas que já leva a revolta egípcia. Pelos vistos, ainda e sempre, continua a haver quem insista em olhar para o ar, para não ver o que é e tentar ver o que quer. Lamentável, esta bacoquice cansativa.

    Sinais deste tempo


    jmmcc,

    Hoje sabe-se quando uma revolução está no bom caminho.

    É quando são milhões e há flores.

    É quando as mulheres têm voz.

    É quando os militares também são povo e a solidariedade não tem fronteiras.

    É quando a liberdade não tem idade e a resistência tem pão.

    É quando todas as ditaduras são denunciadas e rejeitadas.

    É quando existe informação sem fronteiras.

    É quando as pedras servem para gravar mensagens.

    É quando os exemplos dos outros não foram em vão.

    É quando pessoas de religiões diferentes rezam juntas em público.

    Quando a tortura permanece impune


    Pedro Correia,

    A tortura é um problema endémico no Egipto de Hosni Mubarak. Esta é uma das conclusões de um relatório de 95 páginas do Observatório de Direitos Humanos. Com um título significativo: ‘Work on Him Until He Confesses’: Impunity for Torture in Egipt.

    Uma leitura que recomendo em particular àquelas almas mais sensíveis que agora se mostram tão preocupadas com a “pressão das ruas” e o destino do Egipto pró-Mubarak.