Notas sobre os processos revolucionários em curso (2)


Rui Rocha,

Começa a ser recorrente a comparação entre a revolução egípcia e aquela que ocorreu no Irão em 1979. Esta é uma das declinações do argumento do perigo islâmico. O risco que se acena existe. Todavia, devem sublinhar-se algumas diferenças entre uma situação e outra. Até este momento, a revolução egípcia tem apresentado uma origem não ideológica. A actividade da Irmandade Islâmica tem sido discreta e não é comparável com a intervenção dos seguidores de Khomeini na revolução iraniana. Por outro lado, um dos factos que precipitaram o desenlace iraniano foi o ataque, ainda em 1978, das forças de Reza Pahlevi sobre manifestantes. A carnificina ocorrida (4000 a 5000 mortos?) eliminou qualquer possibilidade de sucesso de correntes moderadas. O banho de sangue radicalizou as posições e acabou por abrir a porta para os resultados que se conhecem. No Egipto, adivinha-se uma escalada de violência. Para evitar a concretização da ameaça de repetição da história é fundamental evitar que o ódio e a ira atinjam o ponto de não retorno. No estado actual da situação só a queda imediata de Mubarak assegura este objectivo. Às diplomacias americana e europeia não resta outro caminho senão promover esse desenlace antes que seja tarde demais. Os acontecimentos de ontem são bem a evidência de que o desastre pode acontecer nas próximas horas.

Notas sobre os processos revolucionários em curso (1)


Rui Rocha,

 

Uma certa casta de comentadores continua a investir o seu esforço na tarefa de encontrar argumentos que contrariem a legitimidade das revoluções populares da Túnisa e do Egipto. Depois de invocada a ameaça islâmica, há quem tenha avançado para i) a constatação da falta de alternativas credíveis às lideranças dos ditadores desses países; ii) para a tese da inviabilidade da democracia em certas geografias, iii) para a defesa das múmias. Estamos, ainda e sempre, perante a afirmação da mais bacoca superioridade civilizacional. Para os egípcios e tunisinos, dizem, é melhor um ditador competente do que um democrata impreparado. Este é um argumento com inaceitável conteúdo totalitário. A liberdade é um valor. A competência é uma qualidade. A competência nunca poderá ser moeda de troca da liberdade. A ausência de lideranças alternativas é um desígnio da própria ditadura. Não é por isso que se deve beneficiar o infractor. Para além disso, a premissa é falsa. Seria bom que estes postadores ilustrados pudessem apresentar o seu argumento sobre a preparação e competência de Mubarak às centenas de milhares de pessoas que vivem na mais miserável indigência nos arredores do Cairo. Por outro lado, não consigo encontrar racionalidade na ideia de que um país ou uma região, não estando preparados para a democracia, possam estar preparados para uma ditadura. Francamente, a fábula do ditador útil e bonzinho não é para gente crescida. Como teste definitivo à validade destas teses proponho um caso de estudo. Em que posição ficaria nesse argumentário o Portugal que foi entregue às mãos de Vasco Gonçalves? No que diz respeito à tese da defesas das múmias, parecem-me estas muito importantes. E penso que devem ser feitos todos os esforços para preservar o património cultural que é uma marca da humanidade. Mas, não encontro ponto de partida que nos permita aceitar que uma parte de humanidade viva em privação de liberdade e dignidade com o objectivo de preservar as múmias. No fundo, o que este tipo de argumentos esconde é uma desorientação e um incómodo. O erudito geo-estratega da bloga ou da imprensa tem o seu quadro mental preparado para uma certa tipologia de acontecimentos: as revoluções não acontecem em países liderados por ditadores ‘amigos’. Perante a evidência de que esta asserção estava errada, resta-lhes recolher do baú dos trastes uma ou outra sentença de condenação dos povos em causa a uma vida de injustiça. Antes isso que pôr em causa as verdades absolutas em que querem continuar a acreditar. Para além do mais, sempre asseguram a si próprios o conforto de poderem acertar nas piores previsões. Equiparam-se, neste aspecto, aos relógios parados que têm razão duas vezes ao dia. E esquecem-se que tornam evidente a diferença que existe entre os que defendem a liberdade em qualquer lugar e os que pensam que a liberdade é o lugar onde se defendem os interesses (ainda que este interesse seja a mera validação das suas teses auto-confirmatórias).

Um teste decisivo a Obama


Pedro Correia,

 

 

Já não é possível o Ocidente continuar indiferente perante o que está a ocorrer no Egipto. A teimosia de um só homem em permanecer agarrado ao poder despótico que conserva desde 1981 ameaça mergulhar o país num banho de sangue. Tivemos a primeira amostra disso há poucas horas, quando bandos de arruaceiros claramente incentivados pelo agonizante regime de Hosni Mubarak carregaram contra manifestantes ordeiros e pacíficos que há vários dias aí se concentravam reivindicando direitos fundamentais: liberdade de expressão, liberdade de voto, liberdade de imprensa.

No conforto ocidental, onde há muito estes direitos estão adquiridos, continua a haver quem agite o papão do extremismo islâmico para negar aos egípcios aquilo de que nenhum de nós prescindiria a pretexto algum. São os mesmos que alertaram contra os riscos do “marxismo” numa América Latina livre dos tiranetes de caserna, os mesmos que alertaram contra o “caos” em que se transformaria a Europa submetida ao império soviético quando a democracia ali vigorasse, os mesmos que lamentaram a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã em nome da sacrossanta realpolitik, os mesmos que ainda hoje choram a queda de Ferdinand Marcos nas Filipinas e elogiaram a “firmeza” da clique chinesa que esmagou os estudantes de Tiananmen.

Este é um momento crucial no mandato de Barack Obama. Um momento em que terá de decidir se apoia sem ambiguidades o movimento pró-democracia no Egipto, sem escutar os estrategos que lhe recomendam “prudência”, ou se prefere manter-se equidistante no conflito insanável entre o ditador e o seu povo. Enquanto escrevo estas linhas escuto mais uma Cassandra doméstica alertar a plebe para os riscos do “perigo islâmico”. Esquecendo que o Xá e a cegueira dos seus apoiantes de longa data em Washington foram o ninho que permitiu ao extremismo de Khomeini chocar o ovo da serpente.

As revoluções JÁ levam muito tempo


modosdever,

O grito de liberdade que alastra no Norte de África e vai no Médio Oriente é galvanizador. É impossível ficar indiferente. Multidões pedem reformas políticas, sociais e económicas JÁ! Mas onde irá desaguar a onda é um mistério. Anos depois da conferência de Viena sobre a Declaração Universal de Direitos Humanos – a quem ninguém ligou peva, literalmente – as teses relativistas, defendidas, entre outros, pela generalidade dos países árabes, cedem perante as universalistas. Mas por muito que isto signifique um avanço promissor ao encontro de tudo o que há de mais fundo e comum no homem, há que pensar. O grito mais sagrado das democracias modernas – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – andou até nas ruas de Xangai, durante a Guerra do Ópio, mas não pegou – como se sabe e vê. Os russos saltaram do feudalismo para o comunismo, o futuro-mais-que-perfeito, e tiveram de recuar com a implosão da URSS, desaguando nessa coisa informe que agora têm que é o regime Medvedev-Putin. Pelo contrário, todos os sobressaltos dos países da América Latina, desde as independências, têm um enquadramento cultural, quase diria um alinhamento, bem claro. É bem possível que as revoluções, para produzirem alguns efeitos imediatos, mesmo contando com os passos que dão atrás, tenham de assentar numa matriz e caminhar por etapas, que é o que me escapa nestas aparentemente em curso. Todos os fenómenos políticos têm ancoradoros históricos nas culturas e nas mentalidades, não bastam as motivações. Quais são os destes? Pergunto, porque não sei.

Tiananmen nunca mais


Pedro Correia,

 

 

Ouço e leio alguns cínicos de turno, à esquerda e à direita, recomendando palavras de precaução contra as imagens impressionantes que nos vão chegando do Cairo e repetem as de há duas semanas na Tunísia. No momento em que escrevo estas linhas, mais de um milhão de pessoas afluíram já à Praça de Libertação, no coração da capital egípcia, para reclamarem aquilo a que todos os povos de todas as latitudes deviam ter direito: liberdade. Sem adereços, sem adjectivos. A simples, pura, antiga e sempre desejável liberdade – palavra tantas vezes pervertida quando vem da boca de políticos que fazem tudo para a espezinhar. Políticos como Hosni Mubarak, um dos tiranos há mais tempo em funções no continente africano.  

“As pessoas deixaram de ter medo”, diz uma jovem, algures na multidão, à reportagem da BBC. Algo impensável ainda há poucos dias no mais populoso dos países árabes. Como era impensável também, para os defensores da “estabilidade” a todo o preço, que a ditadura de Ben Ali ruísse como um castelo de cartas poucas semanas após um jovem desesperado se ter imolado pelo fogo. Chamava-se Mohamed Bouazizi. Mal podia imaginar que aquelas trágicas labaredas que lhe custaram a vida iriam desencadear um incêndio sem precedentes por todo o mundo árabe.

Ontem à noite, também na BBC, um ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Jordânia advertia: “Se aconteceu na Tunísia, pode acontecer em qualquer outro país.” A crise económica, particularmente dura entre os jovens, transformou drasticamente a relação entre estado e sociedade nos países árabes, submetidos durante décadas a regimes assentes na repressão e na corrupção – um cocktail só tornado possível, em muitos casos, graças à generosa ajuda ocidental: só no ano passado, Mubarak recebeu 1300 milhões de dólares em ajuda militar dos Estados Unidos. 

 

 

Chegou-se a um ponto sem retorno, o que parece apavorar alguns “pragmáticos” de serviço, receosos do extremismo islâmico e de outros vírus que poderão contaminar o Egipto – onde vive um terço de toda a população árabe – à boleia dos ventos da liberdade. Conheço bem estes argumentos: já os escutei em 1989 e 1990, quando o império soviético ruía. Muitos preferiam o mundo arrumadinho em dois blocos imóveis para poupar o planeta a “novos conflitos”. Falavam do lado de cá, gozando da liberdade que não queriam conceder aos do outro lado – como se os direitos humanos não devessem ter expressão universal. Foram os mesmos que, pelo mesmíssimo motivo, mal contiveram expressões de alívio quando viram o exército chinês reprimir ferozmente manifestantes pacíficos na Praça Tiananmen. O mundo ficava mais “previsível”, menos “perigoso”.

Não perceberam nada então, tal como não querem perceber nada agora: é hoje impossível delimitar fronteiras geo-estratégicas à expansão dos direitos humanos. Nem travar o espírito refomista contra os regimes que esmagam as liberdades. A ditadura teocrática iraniana certamente acompanha com a máxima apreensão o que está a suceder no Cairo. Porque, nestes dias em que as manifestações são convocadas através da Internet, em Teerão pode acontecer o mesmo a qualquer altura. Como já sucedeu em Junho de 2009. E as imagens que hoje chegam do Cairo são capazes de contagiar vários outros países – Líbia, Argélia, Marrocos, Jordânia, Síria, Iémene, Omã e Arábia Saudita.

Os militares egípcios já garantiram que não virarão as armas contra o povo. A gigantesca manifestação que neste momento ocorre funciona, até por isso, como um genuíno plebiscito à liberdade.