Já não é possível o Ocidente continuar indiferente perante o que está a ocorrer no Egipto. A teimosia de um só homem em permanecer agarrado ao poder despótico que conserva desde 1981 ameaça mergulhar o país num banho de sangue. Tivemos a primeira amostra disso há poucas horas, quando bandos de arruaceiros claramente incentivados pelo agonizante regime de Hosni Mubarak carregaram contra manifestantes ordeiros e pacíficos que há vários dias aí se concentravam reivindicando direitos fundamentais: liberdade de expressão, liberdade de voto, liberdade de imprensa.
No conforto ocidental, onde há muito estes direitos estão adquiridos, continua a haver quem agite o papão do extremismo islâmico para negar aos egípcios aquilo de que nenhum de nós prescindiria a pretexto algum. São os mesmos que alertaram contra os riscos do “marxismo” numa América Latina livre dos tiranetes de caserna, os mesmos que alertaram contra o “caos” em que se transformaria a Europa submetida ao império soviético quando a democracia ali vigorasse, os mesmos que lamentaram a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã em nome da sacrossanta realpolitik, os mesmos que ainda hoje choram a queda de Ferdinand Marcos nas Filipinas e elogiaram a “firmeza” da clique chinesa que esmagou os estudantes de Tiananmen.
Este é um momento crucial no mandato de Barack Obama. Um momento em que terá de decidir se apoia sem ambiguidades o movimento pró-democracia no Egipto, sem escutar os estrategos que lhe recomendam “prudência”, ou se prefere manter-se equidistante no conflito insanável entre o ditador e o seu povo. Enquanto escrevo estas linhas escuto mais uma Cassandra doméstica alertar a plebe para os riscos do “perigo islâmico”. Esquecendo que o Xá e a cegueira dos seus apoiantes de longa data em Washington foram o ninho que permitiu ao extremismo de Khomeini chocar o ovo da serpente.


Muito bem, compadre. A hora das ambiguidades, se alguma vez a houve, já passou há muito. Também ouvi a Cassandra doméstica e estou à espera de ouvir Obama.
Esta é a ocasião ideal para Obama revelar um golpe de asa. Fazendo como fez Reagan em 1987, indiferente aos palpites dos assessores que o aconselharam a “não provocar” Gorbachev na visita que então fez a Berlim. Indiferente a tais conselhos, Reagan proferiu a célebre frase junto às Portas de Brandenburgo: “Senhor Gorbachev, deite abaixo este muro!” O muro caiu de facto, dois anos depois – e a frase entrou na História.
Não deve haver muros em lado nenhum. A começar pelo Médio Oriente.
هي دي مصر الحقيقية
será real o egipto
serão reais os muros que nos dividem?
nosso pai (Mu Barack ) é um monstro humano
ou um humano monstro
Há dias em que os muros crescem mais que os homens
Se há muro é para deitar abaixo.
Á sombra do ditador que já devia ter saído podem esconder-se ditadores com a pressa de entrar? Com Setembro aqui tão perto podia evitar-se um banho de sangue? A carne para canhão sempre á mercê de qualquer calibre? Amanhã é sexta.
Amanhã é um dia crucial. E não só no Egipto.
A Obama e restante diplomacia ocidental importa apoiar o movimento popular, desde que seja assegurado um processo democrático assim como (e este ‘assim como’ é um ponto fundamental) sejam respeitada a liberdade de expressão e os direitos das mulheres. Não podemos esquecer os fuzilamentos dos derrotados que seguiram à vitória eleitoral do Hamas. Esquecendo isso, ainda hoje a esquerda alegre enche a boca a dizer que o poder em Gaza é democrático.
A falta de cultura e vivência democrática dos egípcios só se pode vencer com eleições.
Assegurando isso entra-se num debate ideológico que faz lembrar uma frase que ouvi aquando da queda do Aparthaid em que alguém dizia que os sul-africanos não sabiam o que queriam, mas sabiam, e bem, o que não queriam.
Estamos num cruzamento da história que nos foi dada a viver e o silêncio e a demora na exigência por parte do Ocidente ao abandono do poder por Mubarak, poderá ter implicações terríveis para o nosso mundo.
Aos exemplos que apontei faltou acrescentar também o caso sul-africano. Fez bem em trazê-lo cá, Paulo. Ouvi nessa época de transição os mais catastróficos vaticínios sobre o destino da África do Sul. Apesar das dificuldades ocorridas, esses vaticínios felizmente não se cumpriram.
É sempre mais fácil assumir o papel de Cassandra e depois proclamar com ar enfatuado: «Eu bem avisei…» Mas as Cassandras erram muitas vezes – e as Cassandras lusas erram quase sempre. A chamada ‘revolução islâmica’ do Irão foi um dos raros casos em que o genuíno sentimento pró-liberdade da população foi esmagado. Na grande maioria das situações a democracia vingou. Um regime imperfeito? Sem dúvida. Mas, como dizia Churchill, não conhecemos outro melhor.