Notas sobre os processos revolucionários em curso (3)


Rui Rocha,

Os ecos das revoluções tunisina e egípcia não chegam apenas aos países vizinhos. Na China, a elite que detém o poder também os escuta. E quer abafá-los. A ideia de que os chineses comuns possam sentir-se inspirados pelos ventos da liberdade aterroriza os seus dirigentes. Por isso, a palavra Egipto foi banida nos motores de busca utilizados em território chinês. Sempre presente, está o fantasma de Tiananmen. À partida, a situação da China não é comparável à de qualquer dos países em que o processo revolucionário está em curso. A China atravessa um período de fortíssima expansão económica. E, apesar de alguns desequilíbrios evidentes, é previsível que a economia chinesa possa continuar a crescer a um ritmo acelerado. À primeira vista, o contexto parece favorável ao aproveitamento pelos dirigentes da expansão económica para melhorar o nível de vida, assim se  perpetuando o poder. Todavia, o gráfico infra, roubado no blog de Paul Krugman, poderá ter parte da explicação para o nervosismo das autoridades chinesas. O Egipto, apesar de tudo, tem um perfil bem diferente daqueles que, por exemplo, as Filipinas e a Indonésia apresentavam antes de sofrerem graves convulsões. No fundo, a pista que o gráfico deixa no ar é a de que a razão fundamental do descontentamento não está sempre indexada aos indicadores de crescimento económico. Em certas circunstâncias, será ainda mais relevante a capacidade de promover a redistribuição da riqueza criada. E poderá bem acontecer que seja isso que os dirigentes chineses não querem ou não sabem fazer. Sendo esta uma pista de análise, resta uma outra justificação para a inquietude dos líderes chineses. O estômago vazio é um bom detonador do sentimento da revolta. Mas, a liberdade é um valor em si mesmo. O seu aroma é inebriante e a sua ausência agride igualmente o mais básico sentido da dignidade humana. E é particularmente preocupante para o regime que esta aragem chegue através do Google às imediações da cidade proibida. Até porque pode bem acontecer que numa futura revolta, tal como aconteceu na Tunísia, o exército se recuse a tomar partido contra o povo.DESCRIPTION

Notas sobre os processos revolucionários em curso (2)


Rui Rocha,

Começa a ser recorrente a comparação entre a revolução egípcia e aquela que ocorreu no Irão em 1979. Esta é uma das declinações do argumento do perigo islâmico. O risco que se acena existe. Todavia, devem sublinhar-se algumas diferenças entre uma situação e outra. Até este momento, a revolução egípcia tem apresentado uma origem não ideológica. A actividade da Irmandade Islâmica tem sido discreta e não é comparável com a intervenção dos seguidores de Khomeini na revolução iraniana. Por outro lado, um dos factos que precipitaram o desenlace iraniano foi o ataque, ainda em 1978, das forças de Reza Pahlevi sobre manifestantes. A carnificina ocorrida (4000 a 5000 mortos?) eliminou qualquer possibilidade de sucesso de correntes moderadas. O banho de sangue radicalizou as posições e acabou por abrir a porta para os resultados que se conhecem. No Egipto, adivinha-se uma escalada de violência. Para evitar a concretização da ameaça de repetição da história é fundamental evitar que o ódio e a ira atinjam o ponto de não retorno. No estado actual da situação só a queda imediata de Mubarak assegura este objectivo. Às diplomacias americana e europeia não resta outro caminho senão promover esse desenlace antes que seja tarde demais. Os acontecimentos de ontem são bem a evidência de que o desastre pode acontecer nas próximas horas.

Notas sobre os processos revolucionários em curso (1)


Rui Rocha,

 

Uma certa casta de comentadores continua a investir o seu esforço na tarefa de encontrar argumentos que contrariem a legitimidade das revoluções populares da Túnisa e do Egipto. Depois de invocada a ameaça islâmica, há quem tenha avançado para i) a constatação da falta de alternativas credíveis às lideranças dos ditadores desses países; ii) para a tese da inviabilidade da democracia em certas geografias, iii) para a defesa das múmias. Estamos, ainda e sempre, perante a afirmação da mais bacoca superioridade civilizacional. Para os egípcios e tunisinos, dizem, é melhor um ditador competente do que um democrata impreparado. Este é um argumento com inaceitável conteúdo totalitário. A liberdade é um valor. A competência é uma qualidade. A competência nunca poderá ser moeda de troca da liberdade. A ausência de lideranças alternativas é um desígnio da própria ditadura. Não é por isso que se deve beneficiar o infractor. Para além disso, a premissa é falsa. Seria bom que estes postadores ilustrados pudessem apresentar o seu argumento sobre a preparação e competência de Mubarak às centenas de milhares de pessoas que vivem na mais miserável indigência nos arredores do Cairo. Por outro lado, não consigo encontrar racionalidade na ideia de que um país ou uma região, não estando preparados para a democracia, possam estar preparados para uma ditadura. Francamente, a fábula do ditador útil e bonzinho não é para gente crescida. Como teste definitivo à validade destas teses proponho um caso de estudo. Em que posição ficaria nesse argumentário o Portugal que foi entregue às mãos de Vasco Gonçalves? No que diz respeito à tese da defesas das múmias, parecem-me estas muito importantes. E penso que devem ser feitos todos os esforços para preservar o património cultural que é uma marca da humanidade. Mas, não encontro ponto de partida que nos permita aceitar que uma parte de humanidade viva em privação de liberdade e dignidade com o objectivo de preservar as múmias. No fundo, o que este tipo de argumentos esconde é uma desorientação e um incómodo. O erudito geo-estratega da bloga ou da imprensa tem o seu quadro mental preparado para uma certa tipologia de acontecimentos: as revoluções não acontecem em países liderados por ditadores ‘amigos’. Perante a evidência de que esta asserção estava errada, resta-lhes recolher do baú dos trastes uma ou outra sentença de condenação dos povos em causa a uma vida de injustiça. Antes isso que pôr em causa as verdades absolutas em que querem continuar a acreditar. Para além do mais, sempre asseguram a si próprios o conforto de poderem acertar nas piores previsões. Equiparam-se, neste aspecto, aos relógios parados que têm razão duas vezes ao dia. E esquecem-se que tornam evidente a diferença que existe entre os que defendem a liberdade em qualquer lugar e os que pensam que a liberdade é o lugar onde se defendem os interesses (ainda que este interesse seja a mera validação das suas teses auto-confirmatórias).