Egipto: o que escreve Vargas Llosa


Pedro Correia,

 

 

Uma pequena multidão de comentadores domésticos continua a dirigir farpas aos movimentos pró-democracia nos países árabes, chorando a queda dos ditadores Ben Ali e Mubarak. Neste desfile, Alberto Gonçalves não podia faltar à chamada. Lá vem ele, no DN, juntar-se ao coro: “Após a queda de Mubarak, as odes dos jornalistas à alegria do povo e as invectivas aos ‘cínicos’ que não a partilham resultam de óptimas intenções, mas de péssima memória. A História recente ensina que a felicidade de certos transtornados religiosos tem um preço: a nossa.”

Extraordinário: assume-se a defesa póstuma da ditadura para lançar um vigoroso anátema sobre a democracia que ainda nem começou a ser construída. Como se o mundo árabe sofresse de um atavismo genético que o torna incapaz de conviver ad seculum seculorum com estados de direito e o respeito escrupuloso dos direitos humanos. Nessa convicção, Gonçalves vergasta os repórteres que têm relatado o que testemunham no Egipto: “Se calhar, os jornalistas confundem o seu ofício com a repetição de clichés, na convicção um bocadinho infantil de que qualquer protesto público contra uma ditadura acarinha valores opostos aos ditatoriais.”

Não sei se entre esses jornalistas que tanto enojam o colunista do DN se inclui John Simpson, o prestigiado editor de assuntos internacionais da BBC, que escreve do Cairo sem a menor dúvida: “A deposição do presidente Hosni Mubarak é tão significativa como o colapso do bloco soviético na Europa de Leste em 1989.” Um cliché, diria certamente Alberto Gonçalves, talvez saudoso daqueles tranquilos tempos em que o Muro de Berlim se erguia como fronteira natural à expansão da democracia. E o que dirá este sociólogo do mais recente artigo de Mario Vargas Llosa publicado no El País, precisamente sobre os ventos da liberdade que percorrem o Magrebe e o Médio Oriente? “O Ocidente liberal e democrático deveria celebrar este facto como uma extraordinária confirmação da vigência universal dos valores que representa a cultura da liberdade e dirigir todo o seu apoio aos povos árabes neste momento da sua luta contra os tiranos»,  sublinha o Nobel da Literatura-2010.

Felizmente Simpson e Vargas Llosa têm vistas menos curtas do que a agremiação de admiradores portugueses de Mubarak. Como nada acontece por acaso, é precisamente do Irão que nos chegam hoje notícias de corajosos levantamentos populares contra a ditadura, na linha das impressionantes manifestações de Junho de 2009. É óbvio o efeito de contágio dos acontecimentos da Tunísia e do Egipto. Perante tanta “agitação”, os cínicos de serviço por cá, tal como os aiatolas por lá, devem estremecer de horror.

 

Imagem: manifestação contra a ditadura iraniana

10 comentários em “Egipto: o que escreve Vargas Llosa”

    1. Tenho a certeza do que fará quando cair a ditadura cubana e a dinastia Kim for à vida na Coreia do Norte: vai celebrar. Só o mundo árabe, pelos vistos, não merece viver em democracia. Será por motivos rácicos? Resta-me esperar pelo próximo texto dele para perceber.

  1. Se Alberto Gonçalves representasse os nossos sociólogos (ou ao menos a linha média), os cursos de Sociologia deixariam muito a desejar. Digo isto porque era suposto um sociólogo ver mais longe do que a mediania das carpideiras de ditaduras. Acho isto inexplicável. Mas Alberto Gonçalves, sociólogo, deve estar certo: Vargas Llosa é conhecido em todo o mundo por ver os filmes ao contrário.

    1. Trouxe aqui o John Simpson e o Vargas Llosa como podia ter trazido vários outros comentadores de reputação internacional que olham para o Egipto e sublinham a necessidade de o Ocidente apoiar o que lá se passa ao contrário dos «cépticos» portugueses que teimam em perpetuar a pose de velhos do Restelo.

  2. É muito revelador o facto de quem acusa os jornalistas de repetirem clichés o faça recorrendo ao cliché do muçulmano como um “transtornado religioso”.

    A ideia de o muçulmano ter exactamente as mesmas preocupações que nós (emprego, um futuro para os filhos, paz, progresso e desenvolvimento, democracia e liberdade), é uma ideia corrosiva plantada nas nossas cabeças por jornalistas que nada percebem de história.

    Felizmente existem os comentadores domésticos para nos “educarem” na dura realidade: celebrar a queda de tiranos e ter esperança num povo que até ao momento se portou de forma impecável é sinónimo de estar iludido. Que faríamos nós sem eles?

  3. Tem a sua piada, esta espécie de atitude “blasé” e condescendente em relação ao que se tem passado naquela região.
    Lembro-me de, aqui há tempos, quando no Iraque se faziam reportagens acerca das primeiras eleições, muitos dos que agora olham de cima para o “perigo egípcio” ficarem muito ofendidos com essa mesma atitude que, na altura, vinha de uma certa esquerda em relação ao que se passava no Iraque…

    1. Nem mais. É exactamente como diz. Com a diferença assinalável de que no Iraque a democracia – com ou sem aspas – foi imposta pela lei da bala, recorrendo ao «amigo americano», e agora, noutros países árabes, está a nascer pela vontade cívica de tunisinos e egípcios, de forma pacífica e sem canhões estrangeiros.

    1. Obrigado, Ana. De facto, esse deteminismo de análise conduz a perspectivas totalmente desfocadas. Além de que é absurdo defender a instauração da democracia em países como Cuba e a Coreia do Norte e negá-la no mundo árabe. Sobretudo quando a democracia é o melhor antídoto para a pacificação do Médio Oriente. Está mais que provado que as democracias são regimes muito mais pacíficos nas relações externas do que as ditaduras.

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