Nítido nulo


Pedro Correia,

Nunca vi tantos democratas na bloga em defesa tão denodada de um ditador, sugerindo que depois só pode vir o caos. Alguns, talvez por mero acaso, são os mesmos que elogiam Israel por ser “a única democracia do Médio Oriente”.

10 comentários em “Nítido nulo”

    1. Pois. Outros, noutras épocas também diziam que a América Latina “não estava preparada para a democracia”. E a Europa de Leste. E o Extremo Oriente. E a África do Sul. É sempre a mesma cantiga. Impressiona-me ver democratas com tão pouca fé na democracia.

  1. Ao fim e ao cabo a malta gosta é de ditadores.

    Chavez, Fidel, Mubarak, Morales, Kadhafi tudo gente ‘hermosa’ ou males menores.

    Mas, que esperar de um país onde trostkistas têm quase 10% de votos e 60% de fãs junto dos jornalistas?

    1. O que me faz impressão é ver tantos democratas defenderem ditadores conforme eles se situem numa ou noutra trincheira. Uma certa esquerda, sem abdicar do ‘pedigree’ democrático, cultiva os seus ditadores de estimação. Uma certa direita, também sem abjurar da democracia, sai em defesa de certas ditaduras, a que gosta de chamar “regimes autoritários” – um notável eufemismo.
      Faz-me ainda mais impressão que uma organização como a Internacional Socialista acolha tantos ditadores no seu seio e ver a espantosa passividade que os militantes do PS mantêm perante isto.

  2. Permito-me discordar, Pedro, talvez por receio.
    Mubarak ascendeu ao poder após o assassínio de Anwar Al Sadat, líder carismárico e profundamente impopular entre os fundamentalistas islâmicos. O seu não alinhamento nos restantes conflitos, a tentativa de paz com Israel, sem uso de força militar e uma procura da ocidentalização do país, leva-o ao Prémio Nobel da Paz, juntamente com o primeiro-ministro israelita Begin.
    Mubarak seguiu a mesma linha, sempre neutro nos conflitos do Médio Oriente, o que já por si só é uma façanha, até agora garantindo uma paz pouco conhecida em territórios muçulmanos e uma aproximação à Europa e aos EUA.

    Trinta anos no poder é muito tempo? É!
    Com 81 anos provavelmente já não tem o mesmo rasgo, as mesmas faculdades e será um ditador? Sim, suponho que sim.

    O que se seguirá?
    Provavelmente o radicalismo islâmico que conhecemos.

    1. Provavelmente… se o mundo não tivesse mudado, se o mundo nunca mudasse. Mas é preciso ver o que já mudou: boa parte do mundo, em áreas geográficas que eram impensáveis aos “observadores” de sempre, descobriu que a vida pode ser melhor.

      Se não houver um lampejo de esperança, se não acreditarmos que a informação hoje circula através das ditaduras como água pelos dedos, então nós é que cristalizámos fantasmas. Mesmo que tenha de haver alguns sobressaltos pelo meio, medo de quê? De termos mudado o mundo sem querermos mudá-lo?

      1. Caríssima, um democrata convicto acredita que a democracia tem virtualidades próprias, adaptáveis a todas as regiões do mundo, independentemente de religiões ou etnias. Nos últimos dias, tenho ouvido por aí os maiores disparates. Um deles: “A democracia não existe nos países islâmicos”. Como se a Turquia e a Indonésia – países onde vigoram sistemas democráticos – tivessem deixado de ser sociedades islâmicas. Considero um erro profundo apoiar uma ditadura no receio permanente de que venha a ser substituída por uma ditadura pior. O erro do Ocidente no Irão, em 1978/79, foi precisamente esse: apoiar o regime iníquo do Xá até a inevitável revolta contra a dinastia Pahlevi se transformar também numa revolta contra o Ocidente e os EUA em particular.
        Nestas gigantescas manifestações egípcias em defesa dos direitos fundamentais não vemos palavras de ordem contra o Ocidente nem bandeiras dos EUA a ser queimadas. Pelo contrário, o Ocidente representa um capital de esperança para aquela gente que já não suporta o regime corrupto e ditatorial de Mubarak. Repare que estamos a falar de um país onde 55 milhões de pessoas dispõem de telemóvel e 20 milhões – um quarto do total da população – utilizam regularmente a Internet. Nada a ver com o quadro social existente no Irão de há 32 anos.
        A revolta egípcia deve ser acolhida por nós com aplauso e esperança. Inversamente, os teocratas de Teerão olham para ela com inevitável temor. Porque o efeito de contágio pode chegar lá.

  3. O quotidiano pacífico, estável e confortável das sociedades ocidentais torna-as cegas relativamente à necessidade de mudança de outras sociedades. A Europa inventou os direitos humanos, outros países ocidentais adoptaram-nos e em teoria defendem-nos, isso claro, desde que não comporte nenhum risco ou desconforto. Isto tem um nome: egoísmo.
    Para qualquer pessoa que se interesse por história a mudança aparece como uma lei natural. Qualquer tentativa de a contrariar é a garantia de uma explosão violenta no futuro. Quanto mais rígida for a determinação em manter o status quo mais dramático será o resultado final. Contudo, a doutrina de Roosevelt do our son of bitch continua a vigorar à esquerda e à direita em muitos países.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *