Uma revolta popular pacífica, ordeira, participadíssima, onde as únicas bandeiras são as nacionais, deita abaixo uma tirania. Sem necessidade de intervenção dos marines norte-americanos, sem líderes “carismáticos”, sem partidos ou igrejas a “organizar” as multidões.
Devia ser motivo de congratulação em todo o mundo democrático. Mas não é. Em redutos de opinião, bem entrincheirados nas suas certezas graníticas, analistas derramam por jornais e blogues o seu imenso desdém pela página histórica que acaba de se virar no Cairo. Como se os egípcios, com os seus cinco mil anos de civilização, não estivessem minimamente preparados para a democracia e precisassem para o efeito do aval das ilustres bempensâncias cá do sítio.
Fernando Martins n’ O Cachimbo de Magritte, apressa-se a enumerar um inevitável cortejo de desgraças: «Certamente provocará contra-revolução, guerra contra inimigos internos e externos, terror e caos económico e social.» Verdadeiramente estarrecedor. «Quem acredita que o Egipto teve o seu ’25 de Abril’ deve preparar-se para um PREC islamita triunfal», exclama, na mesma linha, João Pereira Coutinho no Correio da Manhã. Como antes dele fez Vasco Graça Moura, ao escrever no DN sem dúvidas de qualquer espécie: «Está na cara que [as coisas] vão correr mal, mesmo muito mal.» E hoje Vasco Pulido Valente, bem ao seu estilo, proclama no Público: «Presumindo a mais do que provável (se não inevitável) interferência do Irão, como imaginar que se resolveria fosse o que fosse com eleições? O único resultado seria quase com certeza o alargamento e o reforço da ‘Irmandade Muçulmana’». Suprema heresia, optar por eleições…
Leio estas opiniões e parece que estou a escutar Glenn Beck, na Fox News, com as suas «tiradas histéricas» (a definição é dos Los Angeles Times) contra o “avanço do extremismo islâmico” que só ele, dotado de vistas mais apuradas do que o comum dos mortais, consegue descortinar.
Ah, como tudo soa bem melhor quando a “democracia” é imposta pelos fuzis do Pentágono e os ditadores, em vez de caírem por determinação do povo, cedem o poder por pressão dos tanques.


Profetas da desgraça sempre existiram. O que não se disse, quando caiu o muro de Berlim, o medo que se tinha da reunificação alemã…
Que fotografia bonita!
Tal e qual, Cristina. Os profetas da desgraça anteviram dilúvios no antigo bloco de Leste, na América Latina, na África do Sul… Infelizmente para eles, e felizmente para o mundo, não acertaram uma só vez.
A foto simboliza, creio eu, muito do que se tem vivido por estes dias no Egipto – um país muito mais plural do que os ‘egiptólogos’ de ocasião imaginam por cá.
As imagens que nos chegam do Egipto têm sido das mais emocionantes a que já alguma vez assisti. Não me apetece deixar-me contaminar pelo pessimismo da maioria dos analistas até porque felizmente eles enganam-se muito.
Vários «analistas» portugueses vivem no século XIX. São herdeiros directos do pessimismo muito em voga no último quartel desse século e convivem mal com a ‘choldra’ contemporânea. Ainda tenho esperança que alguns deles um dia destes, ao acordar, reparem que estamos no século XXI.
A imagem é linda, Pedro, e muito simbólica!
Nenhum dos Velhos do Restelo cá do burgo reparou nela, Ana. Andavam demasiado ocupados a tecer os mais negros vaticínios sobre o futuro do Egipto. Quanto pior, melhor.
E lá vou eu outra vez bater palmas – Clap, clap, clap, clap.
Já está.
Que texto do caraças, Pedro!!!
M’cói, Pedro.