amigas


Patrícia Reis,

Uma das minhas amigas foi operada ao coração de repente. Outra está com uma depressão. Outra anda com a mãe para médicos e luta com dramas da tiróide. Há ainda uma amiga que está em baixo de forma e não entende porquê e uma que esconde a doença que tem, por saber que não há remédio. Tenho uma amiga cuja filha dá água pela barba e outra que controla os sms dos filhos. Concluo que tenho várias amigas e todas em situação de stress. Uma disse-me, hoje, pela manhã

 

– Estamos numa fase em que os vemos morrer, descobrimos que não somos invencíveis e não vemos ninguém nascer.

 

p.s.: obrigada, desconhecido!

Louise Gluck


Patrícia Reis,

GRETEL NA ESCURIDÃO
Este é o mundo que desejávamos.

Todos os que nos queriam mortos estão mortos.

Ouço o grito da bruxa

a rasgar o luar através de uma mortalha

de açúcar: Deus recompensa.

A língua dela desfaz-se em gás.


Agora, longe de braços de mulheres

e memória de mulheres, na cabana do nosso pai

dormimos, nunca temos fome.

Por que não esqueço?

O meu pai tranca a porta, tranca o mal

fora desta casa, e passaram anos.


Ninguém se lembra. Até tu, meu irmão,

nas tardes de estio olhas para mim como se

quisesses partir, 

como se nunca tivesse acontecido.

Mas eu matei por ti. Vejo pinheiros armados,

as agulhas daquele forno dardejante –

 

De noite volto-me para ti, para me abraçares

mas não estás lá.

Estarei sozinha? Há espiões

a sibilar no silêncio, Hansel,

ainda lá estamos e é real, real,

aquela floresta negra e o fogo ao rubro.
 

Tradução Inês Dias

 

 

 

 

José Gomes Ferreira


Patrícia Reis,

Um Dia a Solidão
…
Um dia, a solidão
– que dor de vergonha! –
levou-me pela mão
para seu baluarte
e disse-me ” sonha!
O sonho é a tua lei”

E eu para ali fiquei,
Tão farto de ser eu,
A ouvir o meu coração
Bater em toda a parte,
Nos astros do chão,
Nas pedras do céu.

E eu para ali fiquei
A arrancar a carne das unhas,
Sozinho no meu jardim,
A viver sem testemunhas
No espelho de mim.

E eu para ali fiquei
Com o mundo a obedecer aos meus caprichos:
A luz, as flores, os bichos

E o sol enforcado na floresta,
Na alucinação
Duma corda de lava
A baloiçar ao vento da minha alma à solta…

E eu para ali fiquei
– pobre de mim que ignorava
a dor da verdadeira solidão
que é esta! Que é esta!…

Muita gente à minha volta
E eu aos tombos pelas ruas,
longe de todos e de mim,
a morrer pelos outros
em barricadas de estrelas e de luas.

Elas na TV


Patrícia Reis,

Há cerca de dez anos, era comum lerem-se entrevistas a actrizes norte-americanas sobre a falta de papéis interessantes. Hoje, as actrizes têm papéis interessantes e estão a mudar a face de uma certa forma de se fazer televisão. Há dez anos, fazer televisão não era considerado prestigiante. Hoje, é um caminho.

Shonda Rimes (produtora) é uma das protagonistas da mudança. Começou com a Anatomia de Grey (o nome deriva do apelido da personagem que faz voz off e conta a história, Meredith Grey, interpretada por Ellen Pompeo), depois Scandall (com Olivia Pope – a actriz Keira Washington – a dar cartas no mundo da política e da espionagem) e agora surge com How to get away with murder ( Viola Davis a fazer de Annalise Keating, advogada e professora). Além destas séries, podemos ainda ver (abençoado cabo e internet) Madam Secretary (Tea Leoni na Casa Branca, Bess McCord) e Segurança Nacional (Claire Danes a fazer de Carrie Mathison e a lutar na CIA para que o mundo seja mais… qualquer coisa).

O mais pertinente não será entrar na discussão sobre o género, será reconhecer que é possível entregar a actrizes, produtoras, guionistas, todas com com enorme qualidade, séries de televisão que conseguem ter boa audiência e que reflectem o mundo na perspectiva das mulheres. Os maridos (personagens!) podem, ou não, sentir-se ameaçados com o poder que as mulheres têm; os filhos podem compreender ou nem por isso; os receios e as expectativas não são menores por serem personagens mulheres. As personagens prinicipais, mulheres, têm poder, são más, são boas, são interessantes. E a televisão, de acordo com os homens cá da casa, torna-se mais apelativa.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Patrícia Reis,

 

Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto

São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses

Aquelas aves que tinham
uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse

Luísa Jardim


Patrícia Reis,

Pergunta-me o que o vento acende
se me voltarei a encontrar
para que saiba
que é para ti que soltei o perfume do mar

Quem me dera
o meu próprio destino
aquela viagem mil vezes por mim adiada

Quem me dera
nenhuma palavra
só sonhos, um apenas
daqueles que nunca desertou

Orçamento Participativo


Patrícia Reis,

O período de votação está a terminar, logo na primeira semana de Novembro (dia 6).

No site www.lisboaparticipa.pt podem ver os projectos aprovados e votar através de SMS para o número 4301.

Para mim é um movimento de cidadania pela cidade de Lisboa.

São dois milhões e meio de euros para investir em Lisboa com projectos apresentados por qualquer um.

josé Luís Peixoto


Patrícia Reis,

Já foi ao Intendente, Sr Presidente?
Compreendo que tenha pouco tempo,
Cada movimento precisa de um documento,
Isso é algo que eu consigo compreender
Mas, precisa de ver, Sr. Presidente, os seus próprios
olhos, têm um olhar diferente de toda a gente.
Deixe em casa os óculos de ver ao longe, a realidade
não foge,
A realidade está sentada e espera toda a noite por
nada,
ou encosta-se a uma parede,
Talvez com fome, talvez com sede.
Fumo um cigarro no infinito,
Descubro na escuridão 1 grito, dentro de si próprio.
A realidade chegou à 6 meses da Nigéria, do Senegal ou
da Costa do Marfim.
A realidade não tem fim.
Com uma nota de 20 euros chego onde quiser,
A realidade é uma mulher.

Já foi ao Intendente, Sr. Presidente?
Não vá em visita de Estado, deixe o carro blindado na
garagem,
Dê folga aos guarda-costas,
Finja que vai de viagem e apanhe o metro,
Saia no Martim Moniz e caminhe,
Faz bem caminhar, apanhar ar, respirar.
Passear no Intendente é um passeio original,
È um passeio diferente sem sair de Portugal.
Vá para fora cá dentro, vá aos subúrbios do Mundo no
centro da cidade
Igualdade, integração social, seja por 10 minutos um
emigrante ilegal, como se chegasse do Brasil, do
Paquistão.
Vá ao Intendente e invente uma solução que satisfaça
aos que já chegaram e chegarão.
Mesmo que não tenha vontade de ir, vá ao Intendente,
Sr Presidente.
Aprenda, para chegar é sempre preciso partir.

Já foi ao Intendente, Sr presidente?
Não leve a sua comitiva, não leve o telejornal
Leve-se a si próprio e avance natural,
Como se não fosse ignorado
Vá num dia normal ou num feriado, mas vá.
Por lá sua presença é urgente, no intendente.
Tem pouca diferença de uma Assembleia das Nações
Unidas.
A sua presença pode ajudar a salvar vidas vindas da
Ucrânia, da Roménia, Moldávia, Moçambique, Cabo Verde
e Angola.
Porque o Mundo, Sr. Presidente, não é mais do que uma
bola, talvez colorida, talvez entre as mãos de uma
criança.
Mas esse mesmo Mundo, Sr. Presidente, perde cor todos
os dias.
Quando eu largo, nesse largo, que eu largo, quando eu
largo, no Intendente.

José Luís Peixoto

Mulheres ao debate


Patrícia Reis,

A RTP Informação decidiu promover um programa de comentário sobre a actualidade com um painel de mulheres. E, como está na moda, um humorista para dar cartas serve de moderador (!?)

Nada contra.

A primeira emissão – Manuela Moura Guedes, Marta Guatier, Raquel Varela, Isabel Moreira – foi de tal forma fraca que a primeira baixa apresentou-se ontem: a actriz e psicóloga, Marta Gautier anunciou a sua retirada.

O programa chama-se Barco do Inferno e diz que é para continuar.

Nada contra.

Não compreendo sequer os comentários nas redes sociais sobre o “clube do bolinha ao contrário”. Não vejo mal nenhum, pelo contrário, em ter a perspectiva das mulheres. Há anos que temos programas semanais com comentadores maioritariamente homens.

Nada contra, atenção!

Discutir, debater, analisar é saudável e há mulheres que o podem fazer com inteligência.

Escolher um bom painel é como escolher uma equipa para a seleccção nacional, dizia-me um senhor há dias.

Pode ser que sim. Escolher é sempre difícil. Perceber as dinâmicas também. As posições, políticas ou outras, também têm o seu papel neste tipo de programa. A formação ou experiência, diria, é crucial.

Vamos ver o que a Barca do Inferno nos dará no futuro.

E, para terminar, ficai com Gil Vicente que, sendo homem, tinha umas coisas para dizer.

“Corregedor – Ó arrais dos gloriosos,
passai-nos neste batel!
Anjo – Oh, pragas pera papel
pera as almas odiosos!
Como vindes preciosos,
sendo filhos da ciência!
Corregedor – Oh, habetatis, clemência
e passai-nos como vossos!
Parvo – Hou, homem dos breviários,
rapinastis coelhorum
et pernis perdigotorum
e mijais nos campanários!”

Luísa Jardim


Patrícia Reis,

Pergunta-me o que o vento acende
se me voltarei a encontrar
para que saiba
que é para ti que soltei o perfume do mar

Quem me dera
o meu próprio destino
aquela viagem mil vezes por mim adiada

Quem me dera
nenhuma palavra
só sonhos, um apenas
daqueles que nunca desertou “

 

Mia Couto


Patrícia Reis,

Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar.

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão .

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos

Excerto (16)


Patrícia Reis,

Natália

Cabra-cega

 

O meu espelho tem os olhos fechados desde criança.

 

Durante o intervalo, no pátio da escola primária, brincava-se a um jogo que sempre detestei: um lenço vermelho emprestado pela professora Isabel da terceira classe era amarrado à volta dos olhos de uma menina, a cabra-cega, que ficava acocorada no centro de uma roda.

 

Cabra-cega, donde vens?

Venho da serra.

Que me trazes?

Trago bolinhos de canela.

Dá-me um!

Não dou.

Gulosa, gulosa, gulosa…

 

Era isto que repetia, incessantemente, o coro formado pelas crianças, numa lengalenga impiedosa, renovada até à exaustão, que acabava por fazer surgir as lágrimas, apenas ocultas pelo lenço vermelho da professora Isabel.

 

Rute Coelho, Gostas do que Vês?

Excerto 15


Patrícia Reis,

De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e enregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os osso da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima – deve ser reumático – mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um certo cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface ou atão ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera, pôr arrelicas e se aparelhar do casaco comprido, cinzento e desbotado, meter a carteira na algibeira, descer de novo a escada em caracol para a cozinha

 

Almeida Faria, Paixão