josé Luís Peixoto


Patrícia Reis,

Já foi ao Intendente, Sr Presidente?
Compreendo que tenha pouco tempo,
Cada movimento precisa de um documento,
Isso é algo que eu consigo compreender
Mas, precisa de ver, Sr. Presidente, os seus próprios
olhos, têm um olhar diferente de toda a gente.
Deixe em casa os óculos de ver ao longe, a realidade
não foge,
A realidade está sentada e espera toda a noite por
nada,
ou encosta-se a uma parede,
Talvez com fome, talvez com sede.
Fumo um cigarro no infinito,
Descubro na escuridão 1 grito, dentro de si próprio.
A realidade chegou à 6 meses da Nigéria, do Senegal ou
da Costa do Marfim.
A realidade não tem fim.
Com uma nota de 20 euros chego onde quiser,
A realidade é uma mulher.

Já foi ao Intendente, Sr. Presidente?
Não vá em visita de Estado, deixe o carro blindado na
garagem,
Dê folga aos guarda-costas,
Finja que vai de viagem e apanhe o metro,
Saia no Martim Moniz e caminhe,
Faz bem caminhar, apanhar ar, respirar.
Passear no Intendente é um passeio original,
È um passeio diferente sem sair de Portugal.
Vá para fora cá dentro, vá aos subúrbios do Mundo no
centro da cidade
Igualdade, integração social, seja por 10 minutos um
emigrante ilegal, como se chegasse do Brasil, do
Paquistão.
Vá ao Intendente e invente uma solução que satisfaça
aos que já chegaram e chegarão.
Mesmo que não tenha vontade de ir, vá ao Intendente,
Sr Presidente.
Aprenda, para chegar é sempre preciso partir.

Já foi ao Intendente, Sr presidente?
Não leve a sua comitiva, não leve o telejornal
Leve-se a si próprio e avance natural,
Como se não fosse ignorado
Vá num dia normal ou num feriado, mas vá.
Por lá sua presença é urgente, no intendente.
Tem pouca diferença de uma Assembleia das Nações
Unidas.
A sua presença pode ajudar a salvar vidas vindas da
Ucrânia, da Roménia, Moldávia, Moçambique, Cabo Verde
e Angola.
Porque o Mundo, Sr. Presidente, não é mais do que uma
bola, talvez colorida, talvez entre as mãos de uma
criança.
Mas esse mesmo Mundo, Sr. Presidente, perde cor todos
os dias.
Quando eu largo, nesse largo, que eu largo, quando eu
largo, no Intendente.

José Luís Peixoto

9 comentários em “josé Luís Peixoto”

  1. Costa – O Presidente
    “Trabalha” com a sua tralha
    No Intendente…
    Não gosta do cheiro do vento…
    Propõe-se ir para S. Bento…

    Poeta do camando Zé da Roseta ( proxeneta)

  2. Neste tipo de poemas, as pessoas só prestam atenção às ideias e sentimentos, mas confesso que prefiro olhar para a forma, e toda ela me parece atabalhoada. É extraordinária como não há nada na poesia moderna que a identifique como poesia salvo o facto de mudar de linha antes de chegar ao fim da página. Caso contrário, é apenas um pedaço de prosa quebrado em pedaços.

    Este excerto de pseudo-poema:

    Já foi ao Intendente, Sr Presidente?
    Compreendo que tenha pouco tempo,
    Cada movimento precisa de um documento,
    Isso é algo que eu consigo compreender
    Mas, precisa de ver, Sr. Presidente, os seus próprios
    olhos, têm um olhar diferente de toda a gente.
    Deixe em casa os óculos de ver ao longe, a realidade
    não foge,

    podia muito bem ser um texto em prosa:

    “Já foi ao Intendente, Sr Presidente? Compreendo que tenha pouco tempo. Cada movimento precisa de um documento. Isso é algo que eu consigo compreender. Mas, precisa de ver, Sr. Presidente, os seus próprios olhos, têm um olhar diferente de toda a gente. Deixe em casa os óculos de ver ao longe, a realidade não foge.”

    sem perder qualquer nuance ou sentido na conversão, sem se empobrecer. Uma pessoa pode mudar a ordem das palavras e não interessa nada. “Compreendo que tenha pouco tempo” podia ser “Tem pouco tempo, compreendo isso” e não faria qualquer diferença. Ou “Mas, precisa de ver, Sr. Presidente, os seus próprios olhos” podia ser “Mas, Sr. Presidente, precisa de ver, os seus próprios olhos” e nada se perderia. É um daqueles “poemas” escritos em cima do joelho tão ao gosto dos nossos tempos que odeiam o esforço e a dedicação, sem apuro, sem reflexão, apenas uma torrente descabida do que estiver na cabeça do poeta na altura em que decide verter os pensamentos para a página, sem qualquer trabalho de cinzelamento posterior.

    Se este exemplo de prosa tivesse sido escrito por um bloguista qualquer, teria sido completamente ignorado, ninguém olharia para ele nem lhe passaria pela cabeça que estivesse a ler literatura; mas quebre-se a linha da página, faça-se dele um “poema,” junte-se-lhe o nome de um escritor famoso, e o que temos?

    Temos poesia! Temos arte! Ha ha ha ha, claro que temos…

  3. E o sr Peixoto, que soluções terá para a imigração da Ucrânia, da Roménia, Moldávia, Moçambique, Cabo Verde e Angola, etc.?

    E serão “emigrantes ilegais” ou “imigrantes ilegais”?

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