Delitos poéticos
Patrícia Reis,

A minha morte, não ta dou.
De resto, tiveste tudo
– a flor, a sesta, o lusco-fusco,
a inquietação do dia 8,
as órbitas das mães, das mãos,
das curiosas palavras de não dizer nadinha.
Tudo tiveste: estás contente?
Feliz assim por teres tudo o que sou?
Feliz por perderes tudo o que sei?
Só não te dou o que não serei.
Não, a minha morte, não ta dou.
Guarda-me adormecida para sempre no teu peito
ou deixa-me voar uma vez mais
sobre esta terra de ninguém
onde morro por qualquer coisa que me fale de ti.
Há noites assim em que o silêncio se transforma
ao de leve numa lâmina que minuciosamente
rasga o linho onde ficou esquecido
o corpo que habitamos
em provisórias madrugadas felizes…
Depois é só abrir os braços e acreditar
que ainda faltam muitas horas para a partida
e que à-toa pelos corredores ainda escorre
uma razão primeira a trazer-me de volta.
E eu adormecida para sempre no teu peito.
E eu acorrentada para sempre no teu peito.
E de novo entre nós aquele choro de quem
não teve tempo de preparar a despedida
com as palavras certas;
porque as palavras certas
estavam todas em histórias erradas
que outros escreveram em lugares nublados
que nem vale a pena tentar recompor.
Muito ao longe uma voz desgarrada
estabelece o fim do verão…
E eu adormecida para sempre no teu peito
e eu acorrentada para sempre no teu peito…
“O que eu gostava, o que todo o escritor gostava, é de escrever o livro final, definitivo. Por isso digo: estou a pensar um livro e não a escrever um livro. Um livro que seja a possibilidade da sua própria possibilidade. Uma espécie de antologia em que reuniria textos, poemas, ensaios, versos, frases, palavras, sons, notas musicais, cores, sinais gráficos que um dia me tocaram. Um livro em que a última palavra, luminosa, seria sempre a palavra em falta.”
Maria Manuel Viana, A teoria dos limites
Aprendo muito quando o verão acaba
para lá das coisas habituais
o sinal ardente, primitivo:
uma espécie de abandono sem socorro
diferente da rendição
apercebo-me do frio pela primeira vez
no vento, na água
alugamos bicicletas para chegar à costa
à procura do que resta
uma estação
onde as imagens não naufraguem
a cada instante
também eu me recuso a dizer apenas
o que pode ser dito
in A que Distância Deixaste o Coração
Saudades da terra
Uns olhos que me olharam com demora,
não sei se por amor se caridade,
fizeram-me pensar na morte, e na saudade
que eu sentiria se morresse agora.
E pensei que da vida não teria
nem saudade nem pena de a perder,
mas que em meus olhos mortos guardaria
certas imagens do que pude ver.
Gostei muito da luz. Gostei de vê-la
de todas as maneiras,
da luz do pirilampo à fria luz da estrela,
do fogo dos incêndios à chama das fogueiras.
Gostei muito de a ver quando cintila
na face de um cristal,
quando trespassa, em lâmina tranquila,
a poeirenta névoa de um pinhal,
quando salta, nas águas, em contorções de cobra,
desfeita em pedrarias de lapidado ceptro,
quando incide num prisma e se desdobra
nas sete cores do espectro.
Também gostei do mar. Gostei de vê-lo em fúria
quando galga lambendo o dorso dos navios,
quando afaga em blandícias de cândida luxúria
a pele morna da areia toda eriçada de calafrios.
E também gostei muito do Jardim da Estrela
com os velhos sentados nos bancos ao sol
e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho
e a adormecê-la
e as meninas a correrem atrás das pombas
e os meninos a jogarem ao futebol.
A porta do Jardim, no inverno, ao entardecer,
à hora em que as árvores começam a tomar formas estranhas,
gostei muito de ver
erguer-se a névoa azul do fumo das castanhas.
Também gostei de ver, na rua, os pares de namorados
que se julgam sozinhos no meio de toda a gente,
e se amam com os dedos aflitos, entre cruzados,
de olhos postos nos olhos, angustiadamente.
E gostei de ver as laranjas em montes, nos mercados,
e as mulheres a depenarem galinhas e a proferirem palavras
grosseiras,
e os homens a aguentarem e a travarem os grandes camiões pesados,
e os gatos a miarem e a roçarem-se nas pernas das peixeiras.
Mas … saudade, saudade propriamente,
essa tenaz que aperta o coração
e deixa na garganta um travo adstringente, essa, não.
Saudade, se a tivesse, só de Aquela
que nas flores se anunciou,
se uma saudade alguém pudesse tê-la
do que não se passou.
De Aquela que morreu antes de eu ter nascido,
ou estará por nascer – quem sabe? – ou talvez ande
nalgum atalho deste mundo grande
para lá dos confins do horizonte perdido.
Triste de quem não tem,
na hora que se esfuma,
saudades de ninguém
nem de coisa nenhuma.
in “Máquina de Fogo” – 1961
Em alguma vida fui ave.
Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em vôo rasante.
E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.
Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.
Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.
Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.
Em alguma ave fui vida.
É um fardo aos ombros
o corpo, sem ti.
Até o amarelo dos girassóis se tornou cruel.
Não invento nada,
na arte de olhar
a luz é cúmplice da pele.
Being a parent has presented me with more challenges than I ever thought possible, both as a human being with finite patience and as a feminist. I struggle with how to raise a girl in a society that is replete with violence, rape apologia, attempts to thwart women’s access to healthcare, unequal pay, racism, sexism and a plethora of other social ills.
I want my daughter to be aware of these realities and uphill battles without letting them beat her down or dilute her potential. So what’s a list-loving feminist parent to do? Write a list of lessons, of course.
1. Having a vagina isn’t a disability. It’s a superpower.
2. In that vein, having a period isn’t a curse. It makes you uniquely qualified to create and sustain life, if you so choose.
3. Speaking of choice, only you can/should make the choice of if/when you would like to become a parent. Sure, some day I’d like grandbabies, but if — and only if — you’re ready to make ‘em.
4. Your lady parts, while powerful, are not your only defining characteristic. You also have a brain, a sense of humor and a million other qualities that make you awesome.
5. Sex is for pleasure, too. It’s not just for baby-making.
6. Safe sex is sexy sex. And by safe, I don’t just mean rubberized. By safe, I also mean consensual, comfortable and emotionally safe.
7. It’s never OK to judge someone based on perceptions of their outward appearance or identities — this includes skin color, sexual orientation, gender identity, physical abilities, etc.
8. Knowledge is power. Read, engage in thoughtful discourse, question authority. You’ll be a better person for doing so.
9. Be an ally, not a White Knight. Lend an ear, your support and compassion; don’t try and “save” someone.
10. Understand that every person has a different story and background, and that each story and background has value.
11. Your jean size is just a number on a tag. It doesn’t even begin to define your worth.
12. Neither does your bra size.
13. Love your body for what it can do, not for what it looks like.
14. I don’t care if a guy buys you the most expensive dinner — or jewelry, clothing, what-have-you — on the planet. You owe him nothing.
15. Laugh and smile as often as possible, even — hell, especially — in the face of adversity.
16. Know your financial worth and advocate for yourself. Ask for that promotion, raise, lead on a project; no one else will fight for you.
17. Support other girls and women, don’t demean or judge them. We need each other. Believe me.
18. Raise your voice — but never your fists — to demand justice for yourself and for others.
19. Vote. Seriously, vote. And not just in presidential elections, but in local and state ones, too.
20. Vote with your wallet, too. Support pro-choice, women-led, women-friendly businesses.
21. Travel whenever possible. Even if you can’t physically travel to a far-off locale, read about it. Watch documentaries. Exposure to other cultures is paramount to building tolerance and understanding.
22. Use your [financial, racial, educational] privilege for good. You have resources and a voice that, for various reasons, will be heard louder than others’. It’s your duty to use it to help others and to help stem oppression.
23. Having pretty eyes or silky hair is nice. But it’s nowhere near as beautiful as having self-confidence and passion.
24. It’s OK to like what your friends like — if you genuinely like it, too. But don’t be afraid to stand apart from the crowd and be passionate about something that isn’t popular or “cool.”
25. Never misconstrue sexual harassment or catcalling for compliments.
26. Yes means yes.
27. Just because you’re a female doesn’t mean you have to get married and have babies. It’s not for everyone, and that’s totally OK.
28. Don’t apologize for the sake of apologizing. Women tend to say “I’m sorry” for the littlest offenses — like, standing in a grocery store aisle when someone else wants to walk down it too. It’s annoying and unnecessary.
29. Don’t be afraid to be “bossy.”
30. Have your own bank account. Financial independence is crucial for your well-being.
31. Only date pro-choice guys (if you’re into guys). You deserve better than to be in a relationship with someone who thinks it’s OK to tell you what you can/should do with your body.
32. This is a big one: never, ever, ever get complacent. You may have the right to vote, access to birth control and the ability to date who you want, but it wasn’t always this way. Women fought and died for these rights you currently enjoy. And your generation has its own struggles carved out to fight.
Sopro do coração…Sim, o amor é vão
É certo e sabido
Mas então (porque não) porque sopra ao ouvido
O sopro do coração
Se o amor é vão
Mera dor
Mero gozo
Sorvedouro caprichoso
No sopro do coracão…
No sopro dom coracão…
Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do corpo num turbilhão
Sopra doido
E o que foi do corpo alado nas asas do turbilhão
Nisto ja nem de ar precisas
Só meras brisas,
Raras
Raras
Raras
Corto em dois limão
Chego ao ouvido
Ao frescor
Ao barulho
À acidez do mergulho
No sangue do coracão
Pulsar em vão
É bem dele
É bem isso
E apesar disso eriça a pele
No sopro do coracão…
No sopro do coracão…
Clã – Sopro do coração…Sim, o amor é vao
É certo e sabido
Mas entao (porque nao) porque sopra ao ouvido
O sopro do coracao
Se o amor é vao
Mera dor
Mero gozo
Sorvedouro caprichoso
No sopro do coracao…
No sopro dom coracao…
Mas nisto o vento sopra doido
E o que foi do corpo num turbilhao
Sopra doido
E o que foi do corpo alado nas asas do turbilhao
Nisto ja nem de ar precisas
Só meras brisas,
Raras
Raras
Raras
Corto em dois limao
Chego ao ouvido
Ao frescor
Ao barulho
À acidez do mergulho
No sangue do coracao
Pulsar em vao
É bem dele
É bem isso
E apesar disso erica a pele
No sopro do coracao…
No sopro do coracao…
Clã
Botões de amor postos à tua frente e dentro de ti, quem quer que sejas,
Botões que vão desabrochar como sempre,
Se trouxeres o calor do sol até eles, hão-de abrir para te trazerem forma, cor, perfume,
Se te tornares sustento e humidade, eles vão ser flores, frutos, altos ramos e árvores.
“É exactamente porque não há solidão que dizes que há solidão. Imagina que eras o único homem no universo. Imagina que nascias de uma árvore, ou antes, porque eu quero pôr a hipótese de que não há árvores, nem astros, nem nada com que te confrontes: supõe que o universo é só o vazio e que tu nascias no meio desse vazio, sem nada para te confrontares. Como dizeres «eu estou sozinho»? Para pensares em «eu» e em «sozinho» tinhas de pensar em «tu» e em «companhia». Só há solidão «porque» vivemos com os outros…”
Vergílio Ferreira, in ‘Estrela Polar’
“Desgastava-o uma necessidade de estar sempre em dois lugares ao mesmo tempo:
no seu corpo e fora dele, na cama e no varão da cortina, na veia e no cilindro, com um olho atrás da pala e outro olhando a pala, tentando sair deste estado de observação através de um estado de inconsciência, mas sendo depois forçado a ob-servar as franjas da inconsciência e tornar visíveis as trevas; cancelando todo o esforço, mas estragando a apatia com inquietude; atraído por trocadilhos mas repelido pelo vírus da ambiguidade;inclinado a dividir frases ao meio, articulando-as com a reserva de um «mas», mas desejando desenrolar a sua língua recolhida como a de um geco e apanhar a mosca avistada à distância com uma capacidade resoluta; desesperado por escapar à autossubversão da ironia e dizer o que verdadeiramente queria dizer, sendo que o que verdadeiramente queria dizer só a ironia o poderia transmitir”
“Alguma esperança & Leite materno” de Edward St Aubyn, tradução de Daniel Jonas, Sextante Editora