Nuno Júdice


Patrícia Reis,

A VOZ QUE NOS RASGOU POR DENTRO

De onde vem – a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?

Esteve aqui — aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.

E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos re-
conhecido outrora, onde está? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.

Diz: “Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos.”

Como se a ouvíssemos.

 

Nuno Júdice in MEDITAÇÃO SOBRE RUÍNAS

H. G. Cancela


Patrícia Reis,

H.G.Cancela, blog contra mundum, escreve sobre a Literatura:

“Persiste à nossa volta o erro de confundir os livros com a literatura. De confundir o suporte com o discurso. Nem a literatura é redutível ao livro, nem o livro se esgota na literatura.
No livro não cabem nem o som nem a memória íntima das palavras, o timbre que ecoa na consciência como correlato de uma voz que ultrapassa a possibilidade de qualquer fixação gráfica. Na literatura mal cabe a multiplicidade de registos nos quais o livro se desdobra.
Importa acreditar mais na literatura do que no livro. Na voz, no ritmo, no fio de consciência que se faz mundo. Importa acreditar mais nas palavras do que em qualquer suporte. Acreditar que literatura é uma forma de compreensão. Não uma explicação, uma compreensão. Interior e voluntariamente condicionada pelas suas próprias opções. Exigente e sem compromissos que não sejam o da sua estrita legibilidade.”

 

Já leram os livros deste senhor? Se a resposta for não, lamento informar, mas estão atrasados:) Boa semana

Excertos (11)


Patrícia Reis,

«Tivesse a minha fantasia permanecido dentro de limites, se assim se pode dizer, aceitáveis, e as suas consequências talvez fossem benignas. Mas junto aos impulsos da leitura, o cinema simplesmente me fez desandar a cabeça.
Quando o noivado da Joaquina com o ourives se tornou oficial e deixei de ser preciso como chaperon, aos domingos, era certo e sabido no Estrêla- Cine de Coimbrões. Assistia à primeira matiné, repetia a dose na segunda e de longe a longe se meu pai, que também era fanático, chegava bem disposto e a horas, ainda ia com ele à sessão da noite.
Duma vez, porque ela nunca tinha visto o cinema, convenci minha avó a acompanhar-me, mas não gostou de se ver no escuro nem apreciou a «bonecada», e no intervalo quis que fôssemos embora. Recusei. Ela sem mais puxou-me uma orelha, torceu, fez-me pôr em pé, e com a gente a zombar levou-me pela coxia morto de vergonha. A mim! Que comandava legiões, que voava para planetas remotos e tinha um palácio em Bagdad!
Agora fará sorrir, mas foi dor funda. Pela humilhação e, em parte maior, por me ver tão brutamente expulso dos paraísos em que vivia e forçado a retornar ao dia-a-dia onde não era poderoso nem herói. Nem sequer adulto, sim um garotinho franzino do corpo, tímido no modo, que quando o deixavam sozinho apenas conhecia um fito: correr de volta aos seus sonhos».

 

J. Rentes de Carvalho in Ernestina

Excerto (9)


Patrícia Reis,

 “Os porcos são um autêntico mistério, é o que é, disse. O que é que uma pessoa consegue saber sobre um porco? Não muito. Ando a guardar porcos desde os meus tempos de catraio e nunca consegui chegar a percebê-los muito bem. E não tenho dúvidas que outros como eu tiveram a mesma experiência. Um porco é um porco. Pura e simplesmente. E é mais ou menos tudo que se pode o se pode dizer sobre ele. E são espertos, não penses que não. Espertos comó diabo. E não te deixes enganar por um que não tenha a pata fendida, porque esse é tão endiabrado comós outros.
Acho que os porcos são porcos e pronto, comentou Holme.”

 

Nas Trevas Exteriores, Cormac McCarthy.

Excerto de um diálogo inesquecível entre um porqueiro e o Culla Holme.

Excerto (8)


Patrícia Reis,

“Todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo.
Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.”

O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe

Excerto (7)


Patrícia Reis,

Desgastava-o uma necessidade de estar sempre em dois lugares ao mesmo tempo: no seu corpo e fora dele, na cama e no varão
da cortina, na veia e no cilindro, com um olho atrás da pala e outro
olhando a pala, tentando sair deste estado de observação através
de um estado de inconsciência, mas sendo depois forçado a ob-
servar as franjas da inconsciência e tornar visíveis as trevas; can-
celando todo o esforço, mas estragando a apatia com inquietude;
atraído por trocadilhos mas repelido pelo vírus da ambiguidade;
inclinado a dividir frases ao meio, articulando-as com a reserva de
um «mas», mas desejando desenrolar a sua língua recolhida como
a de um geco e apanhar a mosca avistada à distância com uma ca-
pacidade resoluta; desesperado por escapar à autossubversão da
ironia e dizer o que verdadeiramente queria dizer, sendo que o que
verdadeiramente queria dizer só a ironia o poderia transmitir

 

Edward St Aubyn in “Alguma esperança & Leite materno”, tradução de Daniel Jonas, Sextante

Excerto (5)


Patrícia Reis,

“A Perturbação, mas também o deslumbramento estremecido que me tomam ao ler cada um deles, deve-se não sei se à acutilante lucidez a que o seu pensamento conduz, agudizando-se em mim a consciência da minha atroz condição com um futuro eternamente adiado, se à aproximação já dos ventos de revolta que a Lua inevitavelmente arrasta consigo. Tendo como meta abrir no mundo portas e janelas de claridade, desse modo destruindo o antigo estado de negrume onde se encontram firmadas as raízes dos nossos antepassados.”

 

Maria Teresa Horta, “As Luzes de Leonor”

Excertos (6)


Patrícia Reis,

A imprecisão sempre me irritou.
– Sim, mas eu disse-lhe que não fiz outra coisa senão pensar em si – respondi. Não me disse que pensou em mim.
Decorreu um instante. Por fim ela respondeu:
– Disse-lhe que pensei em tudo.
– Não deu pormenores.
– É que tudo é tão estranho, foi tão estanho…estou tão perturbada…Claro que pensei em si…
O meu coração bateu com força. Precisava de pormenores. O que me emociona são os pormenores, não as generalidades.

 

Ernesto Sabato in O Túnel,

Excerto (3)


Patrícia Reis,

 

I

 

Da cabra-cega

 

O meu espelho tem os olhos fechados desde criança.

 

Durante o intervalo, no pátio da escola primária, brincava-se a um jogo que sempre detestei: um lenço vermelho emprestado pela Professora Isabel da terceira classe, era amarrado à volta dos olhos da cabra-cega-A vítima que ficava acocorada, com os olhos escondidos pelo tecido, no centro de uma roda de mãos das outras crianças.

 

 «Cabra-cega, donde vens?»

 

«Venho da Serra.»

 

 «O que me trazes?»

 

«Trago bolinhos de canela.»

 

 «Dá-me um!»

 

«Não dou.»

 

“Gulosa, gulosa, gulosa…”

Repetia, incessante, o coro formado pelas crianças, numa lenga-lenga impiedosa renovada até à exaustão das lágrimas que acabavam por surgir ocultas pelo lenço vermelho da professora Isabel.

 

A Cabra-Cega levantava-se.

Se agarrasse alguém, todos se calavam. O pátio ficava mudo, os corpos pequenos permaneciam, por instantes, apenas por instantes, imóveis. Depois a Cabra-Cega para se libertar da sua condição precisava de adivinhar quem tinha conseguido aprisionar com as suas mãos miudinhas. Apalpando com os dedos, entre risos e cócega lá tentava adivinhar quem era o apanhado. Se acertasse, a venda mudaria de olhos.

 

Gostas do que vês?, Rute Coelho

Excerto sem númeração


Patrícia Reis,

Excerto do livro, As casas de Mirandela, Dóris Graça Dias, 1991

“Ela, quando o vir caminhando pela longa varanda, na sua direcção, encostar-se-á à parede (que fica entre a porta da cozinha e um espaço aberto, onde dois tanques servem momentos de lavar roupa) com as mãos atrás das costas para sentir o frio da pedra e, quando ele estiver a distância suficiente para a ouvir, perguntar-lhe-á:
– Como te chamas?
Ele parará de imediato. Estenderá a mão direita para o suporte de ferro do estendal e abandonará o corpo num desenhar de ângulo agudo em relação ao chão. O braço esquerdo pendendo. Livre. Dir-lhe-á o nome. Ficará à espera, desatento, que ela lhe diga o seu. Ela não lho dirá, antes perguntará:
– Quantos anos tens?
Ele endireitar-se-á encostando o frágil corpo ao ferro no mesmo instante em que o envolverá com o braço direito. Estenderá a mão esquerda, mostrando-lhe quatro dedos abertos e dirá:
– Est… quatro!
Ela, precipitadamente, dirá:
– Sou mais velha que tu um ano…
Esclarecerá:
– Tenho cinco!
Ele olhá-la-á desinteressado.
Mais tarde, quando passarem horas na invenção de jogos, ele, repetidas vezes afirmará:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
E ela, repetidas vezes o contrariará nessa inversão do tempo. Dir-lhe-á a impossibilidade dessa ultrapassagem. Dessa mentira. Julgá-lo-á tonto, despropositado. Depois, reconsiderará. Esperará o ano que a ele falta, para entender, como ela entende, essa incapacidade temporal e então dir-lhe-á:
– Agora, eu tenho seis anos e tu cinco: continuo a ter…
Ele interromper-lhe-á a frase e, no mesmo tom dos quatro anos, dirá:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
Será nessa altura, nessa idade que ela conhecerá, pela primeira vez, desejo de bater.
Não o fará. Recorrerá ao quarto. À sua irmã.”

MM, há dois dias fez 52 anos que morreu


Patrícia Reis,

 

Só na sombra é que encontro alguma paz. O sol persegue-me, entra-me pelo azul dos olhos, enche-me a cabeça de preguiça e as ideias não me ocorrem. Tenho suor nas costas, na curva do peito. A única coisa que quero é que me deixem em paz, que não falem comigo, que não me oiçam pensar.

 

Isto é que é aquilo a que se chama skip-to-my-lou,uma dança tipicamente americana. Adoro que saiba estas coisas. Odeio que me queira ensinar. As pessoas dizem: Arthur Miller, um génio. Eu oiço-o na casa de banho, a escovar os dentes, a tomar banho, a tossir os cigarros do dia, a bebida de há pouco. É um homem como os outros.

 

Tenho 32 anos. Nasci em 1926. Já fui deste tamanho.

 

Não se esqueçam de me gritar, de me avisar quando for a minha vez. Não adianta fazer gestos bruscos ou delicados. Sou míope. Preciso que me gritem.

 

No fim da conferência de imprensa talvez peça a Laurence Olivier para dançar. É o Waldorf Astoria Ballroom. Ele ficará com aquele ar de príncipe inglês, hirto, com um sotaque snob, agarrado à minha cintura com se fosse um bloco de gelo e eu vou sorrir e depois dar uma gargalhada. Será uma boa fotografia.

 

Só quero descansar. Não aguento os sapatos. Tenho calor. E sede. Dizem-me que aqui estou protegida dos olhares. É mentira. Estes dois fixam-me como se me engolissem. Não tenho forças. Quero ser feia outra vez.

 

É uma casa de banho de aeroporto. Ainda tenho de esperar uma hora. Eu disse que queria uma bebida. E privacidade. Vou retocar o cabelo. Puxar o vestido para cima para não ficar com nódoas. Fugir do calor e dos jornalistas lá fora: Miss Monroe, miss monroe…

 

Se cortar com muita força o tabuleiro tomba e perdemos o enquadramento perfeito. Arthur não diz nada. O silêncio é uma voz como as outras. Continuo a cortar. Se pudesse deixava-me tombar.

 

E depois alguém gritou: Marilyn, sorri.

 

Não suporto festas de cidadezinhas. O estúdio manda-me como se fosse um objecto de vitrine, uma peça de porcelana. Mesmo a descansar tenho de estar em pose. Não posso estar sozinha. Não me deixam. Eu também não quero.

 

A água é tão escura, ninguém me vê. A mão no sexo, o sorriso nos lábios. Agora. Quando o fotógrafo se esquecer de dizer.

 

Fecho os olhos. A minha mão nos olhos de Montegomery. Não sei como são os beijos dele. É tudo artificial. Nada tem importância. O nosso suor é de spray, as nossas lágrimas fabricadas. Não somos nós, somos o que inventam para nós.

 

John Huston deu-me o casaco, disse-me para me recompor, mandou-me passear. Vai rever as tuas deixas, ordenou. O Gable sabe tudo, sem falhas, todas as palavras, a pontuação certa. Eu não consigo articular um bom dia.  

 

Sim? Ah, estou à espera que o verniz das unhas esteja seco, à espera para pôr o vestido, ir trabalhar, ler o cartão que vem com as flores. Nada de especial.

 

E quando eles dizem que eu posso descansar mas ficam a olhar para mim, com as máquinas prontas, os flashes, os seus olhares cheio de lascívia, as línguas a espreitar nas bocas, o suor dos pensamentos menos terrenos, eu pergunto-me: cumpro as expectativas? Não sou eu, é o meu corpo.

 

E se trocássemos? E se eu tivesse esses óculos? Esses lábios? Podias ser a Monroe, podias beijar o Clark Gable e o Montegomery Clift, ter todos os sorrisos e gentilezas do mundo. Eu trocava contigo e voltava para casa, a tua casa, para o teu marido e para os teus filhos e dizia: ah, ela tão simpática.

 

What shall I ask te dice for, John?

Don’t think honey, just throw. Don’t think, do it

 

A minha cabeça vai estoirar. Os comprimidos não fazem efeito. Já não sei o texto. A tristeza afoga-me. Não há ninguém com quem se possa falar. Daqui a pouco tenho de sorrir. Sorrir é uma das coisas que faço bem. Consigo até sorrir com os olhos. Poucas pessoas conseguem sorrir assim.

 

Vou descansar, a minha professora deixa-me descansar. Olha por mim, à sombra, no lugar do morto de um automóvel que não pertence a ninguém. Quando já estou perto do sono, há uma mão que me desperta.

 

Dentro desta mala tenho todos os meus segredos. Consigo transformar-me de corpo e alma. Faço o meu papel. Do outro lado do espelho há uma estranha que me cumprimenta. Tenho medo dela, mas não digo a ninguém.

 

Vou esperar aqui na sombra. Vou fechar os olhos. Quando se aperceberem, terei desaparecido. Nunca fui mais do que isto, uma rapariga a fugir do sol.

Excerto (4)


Patrícia Reis,

A FÁBULA

 

O antigo embaixador estava vestido de seda e, por estranho que pareça, o caminho que iria conduzir aos memoráveis teve início no copo de uísque escocês que andava nas suas mãos. Igual líquido circulava pelos copos daqueles que o acompanhavam, e talvez por isso mesmo as gargalhadas que soaram no amplo salão da casa tenham sido tão desabridas, quando o anfitrião disse para aquele que lhe estava mais próximo – «Afilhado, agora que uns quantos mercadores estão empenhados em demonstrar que a Terra é plana, não faltará quem venha dizer que a história é redonda. Estão a ver como se constrói uma bela impostura? A Terra lisa como um guardanapo, a história sem uma ponta por onde se lhe pegue como se fosse uma esfera. E agora, tu, Bob? Como é que vais desfazer um embuste tão bem montado?»

Os vários homens que o acompanhavam desmancharam‐se de riso. Depois é que chamaram a portuguesa para que se risse também. Ela abandonou o canto onde se encontrava e foi inte‐ grar o grupo que se divertia em torno do anfitrião, mas em breve, naquela divisão apenas iriam permanecer o homem vestido de seda, o afilhado Robert Peterson e ela, ou melhor, eu mesma. Então o silêncio ali dentro, em contraste com a alegria que se propagava pelas outras divisões da casa, criou um intervalo demasiado prolongado entre nós, até que o padrinho, com um aceno amigável, me chamou para junto da grande janela. Lá fora, uns fiapos brancos tinham começado a voar com umas horas de atraso em relação à previsão da meteorologia, e o antigo embai‐ xador achava interessante que eu assistisse à sua chegada. Ele disse – «Venha até aqui, Miss Machado, venha ver o que está a cair do céu sobre o nosso jardim.» Eu fui e ali ficámos os três junto do vidro, tocados de encantamento e melancolia.

Mas essa fina contemplação diante do prenúncio da neve não durou um instante. O padrinho logo se desprendeu daquele clima de fascínio e perguntou ao Bob, como se a neve não exis‐ tisse e eu ali não estivesse – «A propósito, afilhado, o que decidiu ela sobre o assunto que te propus?» E aí, ambos começaram a trocar impressões sobre o calendário das futuras deslocações aos países do deserto, lá onde, passados seis meses, a guerra conti‐ nuava sem pausa nem fim à vista. A partida estava marcada, a escala encerrada. Renitente, o padrinho insistiu – «Não te esque‐ ças que ela pode muito bem ser substituída nessa missão. Milha‐ res de jovens repórteres da sua idade estão neste momento a caminho dos desertos para falarem com as viúvas dos mártires. O que vai ela lá procurar que outras não o possam fazer em seu lugar?» Padrinho e afilhado falavam em inglês e de novo aquele she era eu. Até que o homem vestido de seda iniciou uma longa exposição sobre o vício de reportar batalhas.

Sentámo‐nos.

O anfitrião falava com o copo na mão, rodando‐o, como se fosse um adorno, e eu pensava que aquele líquido bem poderia não ser uísque mas água pintada. Falava lentamente, dirigindo‐se a Bob Peterson, uma longa exposição sobre o vício de cobrir con‐ flitos armados, vício que se pegara ao afilhado Bob, e provavel‐ mente a todos aqueles que lhe passavam pelas mãos, incluindo ela, a rapariga que ali estava. Muito desgostoso com o facto, o padrinho começou a expor a sua teoria a propósito desse triste vício, que sempre incluía calendários em sobressalto, urgên‐ cias inadiáveis e repórteres imprescindíveis. Estivéssemos nós, porém, bem descansados que assunto para cobrirmos nunca nos faltaria ao longo de toda a vida, e quanto a carnificinas e viúvas, onde quer que fosse, e quando quer que fosse, para infelicidade de todos, sempre as teríamos. Era, precisamente, para contra‐ balançar a permanente lei da recidiva que valia a pena escolher da sua espiral os momentos de intervalo que de onde em onde sempre iam surgindo. Dizia o diplomata, e no meio dessa fala, metodicamente monótona, como se escutá‐la por si só consti‐ tuísse uma prova, acabou por se me dirigir em português – «Miss Machado, já aqui disse ao meu afilhado que nem sempre a histó‐ ria é um pesadelo de que em vão tentamos acordar para regressar ao ponto de partida. Olhe que por vezes, embora escassas vezes, a história também é um sonho agradável, e tão apaziguante pode ele ser que vale a pena uma pessoa ao acordar tentar por todos os meios guardar‐lhe a imagem para que não se esvaia. Sejamos práticos. Quando acontece despertarmos a meio de um desses sonhos, o que devemos fazer é manter‐nos em estado de alerta, guardando o momento de excepção, prolongando‐o na memória de forma excepcional também. Tenho ou não tenho razão?»

E virando‐se para Bob, dirigiu‐se‐lhe em inglês – «Eu já te disse, afilhado, é preciso não baixar os braços. Para começar, sugiro‐te uma sequência de cinco ou seis episódios, como aquelas séries dos bons velhos tempos, quando tu eras um rapaz genial e o que produzias resultava ainda melhor do que planeavas. Alguma coisa que se chamasse A História em Vigília, ou uma outra designação semelhante. Um primeiro número, exemplar, e para esse início inaugural sugiro Miss Machado. A rapariga a abrir a série com o caso do seu país, aquele caso extraordinário que ocorreu na sua pátria, já lá vão vinte e cinco anos ou mais. O tempo sempre a pas‐ sar, cada vez mais rápido, cada vez mais rápido, o tempo sempre a abrir, não é mesmo assim, Bob? Aceita o conselho que te dou. Ela deveria ir lá, quanto antes, recolher o resto da metralha de flores que ainda existe entalada entre as pedras da calçada de Lisboa. Envia‐a para lá, afilhado, envia‐a antes que seja tarde. Sugiro que a série se designe por A História Acordada.» E o antigo embaixador elevou o copo à altura dos olhos e fez uma longa saúde, como se alguém no interior daquele salão fosse ter um filho.

 

Lídia Jorge, Os Memoráveis

e será que alguém se comove?


Patrícia Reis,

 

Quantos jornalistas portugueses estão em Gaza? Ah, esqueci-me, estamos à beira das primárias do PS e há o Ricardo Salgado. Ok. Como jornalista, com carteira e no sindicato, com contas em dia, não entendo. Alô? Está alguém a dirigir os jornais? As televisões? Quem são? De onde vêem? São jornalistas? E os donos dos órgãos de comunicação social são apenas isso: proprietários de imprensa escrita ou outra? Terão outros interesses? Devem ter.