Excertos (11)


Patrícia Reis,

«Tivesse a minha fantasia permanecido dentro de limites, se assim se pode dizer, aceitáveis, e as suas consequências talvez fossem benignas. Mas junto aos impulsos da leitura, o cinema simplesmente me fez desandar a cabeça.
Quando o noivado da Joaquina com o ourives se tornou oficial e deixei de ser preciso como chaperon, aos domingos, era certo e sabido no Estrêla- Cine de Coimbrões. Assistia à primeira matiné, repetia a dose na segunda e de longe a longe se meu pai, que também era fanático, chegava bem disposto e a horas, ainda ia com ele à sessão da noite.
Duma vez, porque ela nunca tinha visto o cinema, convenci minha avó a acompanhar-me, mas não gostou de se ver no escuro nem apreciou a «bonecada», e no intervalo quis que fôssemos embora. Recusei. Ela sem mais puxou-me uma orelha, torceu, fez-me pôr em pé, e com a gente a zombar levou-me pela coxia morto de vergonha. A mim! Que comandava legiões, que voava para planetas remotos e tinha um palácio em Bagdad!
Agora fará sorrir, mas foi dor funda. Pela humilhação e, em parte maior, por me ver tão brutamente expulso dos paraísos em que vivia e forçado a retornar ao dia-a-dia onde não era poderoso nem herói. Nem sequer adulto, sim um garotinho franzino do corpo, tímido no modo, que quando o deixavam sozinho apenas conhecia um fito: correr de volta aos seus sonhos».

 

J. Rentes de Carvalho in Ernestina

2 comentários em “Excertos (11)”

  1. Adorei este livro!
    Li-o em Agosto e não vou esquecê-lo tão depressa.
    Comoveu-me, fez-me rir muitas vezes e outras tantas quase chorar.
    É um livro extraordinário!
    Obrigada, Patrícia, por destacá-lo aqui.
    Bom domingo!
    🙂
    Antonieta

  2. Saíu há dias a reedição de Montedor, primeiro romance de J Rentes de Carvalho…

    (já encomendei na FNAC pela net, mas ainda não fui recolher)

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