Excerto do livro, As casas de Mirandela, Dóris Graça Dias, 1991
“Ela, quando o vir caminhando pela longa varanda, na sua direcção, encostar-se-á à parede (que fica entre a porta da cozinha e um espaço aberto, onde dois tanques servem momentos de lavar roupa) com as mãos atrás das costas para sentir o frio da pedra e, quando ele estiver a distância suficiente para a ouvir, perguntar-lhe-á:
– Como te chamas?
Ele parará de imediato. Estenderá a mão direita para o suporte de ferro do estendal e abandonará o corpo num desenhar de ângulo agudo em relação ao chão. O braço esquerdo pendendo. Livre. Dir-lhe-á o nome. Ficará à espera, desatento, que ela lhe diga o seu. Ela não lho dirá, antes perguntará:
– Quantos anos tens?
Ele endireitar-se-á encostando o frágil corpo ao ferro no mesmo instante em que o envolverá com o braço direito. Estenderá a mão esquerda, mostrando-lhe quatro dedos abertos e dirá:
– Est… quatro!
Ela, precipitadamente, dirá:
– Sou mais velha que tu um ano…
Esclarecerá:
– Tenho cinco!
Ele olhá-la-á desinteressado.
Mais tarde, quando passarem horas na invenção de jogos, ele, repetidas vezes afirmará:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
E ela, repetidas vezes o contrariará nessa inversão do tempo. Dir-lhe-á a impossibilidade dessa ultrapassagem. Dessa mentira. Julgá-lo-á tonto, despropositado. Depois, reconsiderará. Esperará o ano que a ele falta, para entender, como ela entende, essa incapacidade temporal e então dir-lhe-á:
– Agora, eu tenho seis anos e tu cinco: continuo a ter…
Ele interromper-lhe-á a frase e, no mesmo tom dos quatro anos, dirá:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
Será nessa altura, nessa idade que ela conhecerá, pela primeira vez, desejo de bater.
Não o fará. Recorrerá ao quarto. À sua irmã.”
– Como te chamas?
Ele parará de imediato. Estenderá a mão direita para o suporte de ferro do estendal e abandonará o corpo num desenhar de ângulo agudo em relação ao chão. O braço esquerdo pendendo. Livre. Dir-lhe-á o nome. Ficará à espera, desatento, que ela lhe diga o seu. Ela não lho dirá, antes perguntará:
– Quantos anos tens?
Ele endireitar-se-á encostando o frágil corpo ao ferro no mesmo instante em que o envolverá com o braço direito. Estenderá a mão esquerda, mostrando-lhe quatro dedos abertos e dirá:
– Est… quatro!
Ela, precipitadamente, dirá:
– Sou mais velha que tu um ano…
Esclarecerá:
– Tenho cinco!
Ele olhá-la-á desinteressado.
Mais tarde, quando passarem horas na invenção de jogos, ele, repetidas vezes afirmará:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
E ela, repetidas vezes o contrariará nessa inversão do tempo. Dir-lhe-á a impossibilidade dessa ultrapassagem. Dessa mentira. Julgá-lo-á tonto, despropositado. Depois, reconsiderará. Esperará o ano que a ele falta, para entender, como ela entende, essa incapacidade temporal e então dir-lhe-á:
– Agora, eu tenho seis anos e tu cinco: continuo a ter…
Ele interromper-lhe-á a frase e, no mesmo tom dos quatro anos, dirá:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
Será nessa altura, nessa idade que ela conhecerá, pela primeira vez, desejo de bater.
Não o fará. Recorrerá ao quarto. À sua irmã.”

“quando o vir caminhando” ou “quando o ver caminhando”?
Já esclareci as minhas dúvidas.