Louise Gluck


Patrícia Reis,

GRETEL NA ESCURIDÃO
Este é o mundo que desejávamos.

Todos os que nos queriam mortos estão mortos.

Ouço o grito da bruxa

a rasgar o luar através de uma mortalha

de açúcar: Deus recompensa.

A língua dela desfaz-se em gás.


Agora, longe de braços de mulheres

e memória de mulheres, na cabana do nosso pai

dormimos, nunca temos fome.

Por que não esqueço?

O meu pai tranca a porta, tranca o mal

fora desta casa, e passaram anos.


Ninguém se lembra. Até tu, meu irmão,

nas tardes de estio olhas para mim como se

quisesses partir, 

como se nunca tivesse acontecido.

Mas eu matei por ti. Vejo pinheiros armados,

as agulhas daquele forno dardejante –

 

De noite volto-me para ti, para me abraçares

mas não estás lá.

Estarei sozinha? Há espiões

a sibilar no silêncio, Hansel,

ainda lá estamos e é real, real,

aquela floresta negra e o fogo ao rubro.
 

Tradução Inês Dias

 

 

 

 

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