balanço do segundo trimestre, produto de insónia estúpida


Patrícia Reis,

Dizem que é preciso tempo e distância e, por isso, querido segundo trimestre, adianto-me já e deixo as contas feitas que a dia 20 será tão bom quanto a 30. Não sei quantos caracteres escrevi nestes três meses, mas sei que a minha cabeça reclama. Tão-pouco sei quantos livros li, mas foram muitos, entre Julieta e Paolo Giordano, Elena Ferrante e Teresa Veiga, e Jhumpa Lahiri e se continuar a tentar recordar-me de tudo o que li talvez pensem que é mentira ou que sou uma snob de merda. De uma forma ou de outra, é-me indiferente. Percebi que já pouca coisa me afecta. As minhas pessoas são as minhas e estão perto, sempre a espreitar, mesmo que longe. Não vendo ideias aos desbarato, não faço dinheiro com o que penso, ofereço, dou. É quem eu sou. Não me magoa a indiferença dos amargos ou a presunção dos perus, para citar Tchekhov, citação indecentemente roubada ao meu querido Mário de Carvalho, de quem gosto tanto. Tudo o que optar por esquecer, querido trimestre, é apenas uma ferramenta de sobrevivência que eu, feita esperta, tenha a mania que agora posso escolher e recordar apenas o que importa recordar. Tenho um livro para colorir e até lápis de cor me foram oferecidos tão generosa e inesperadamente pela Paula. Tenho encontros marcados, para repetir os anteriores, sempre tão honestos com a Ana, ou com a outra Ana, ou com a outra Ana, ou com a outra Ana. Quem tem uma Ana… Já se sabe. Tenho esta sorte de conseguir, querido trimestre, ignorar os gestos menos felizes: lembrar alguém que um dia se amou, um amigo, dar os parabéns e ser olimpicamente ignorada; sentir que precisava de colo de um filho e saber que nada volta para trás e que a adolescência é o que é e a idade adulta, aquela que começou agora mesmo, é ainda tão ávida de vida que não tem espaço para sossego; que os projectos não são todos “os” projectos”, que os clientes podem ser mal educados, porque pagam, acham eles, e por isso podem. Coisas destas. É a acidez de um mundo cão, canta-se no novo disco da Márcia, sabias? Não é só a acidez, é também uma forma de me obrigar a pensar, dentro da minha pele, como quero eu viver sem viver o que não quero. Opções. Querido trimestre, devo dizer que do ponto de vista financeiro foste uma desgraça, és quase uma Grécia infeliz no meu bolso ou conta bancária, não sei como daremos a volta, mas como damos sempre, creio que me irei ralar daqui a meia hora. Não me custa ter pouco dinheiro na conta, custa-me não conseguir fazer o preciso de fazer. E o que será isso? Talvez no próximo trimestre te possa dizer, até lá, fui.

mãe, a culpa é tua


Patrícia Reis,

A mãe chama-lhe a metafísica-especulativa-substancial-nervosa-da-criança- oprimida. Nun

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A mãe chama-lhe a metafísica-especulativa-substancial-nervosa-da-criança- oprimida. Nunca lhe disse que se podia sofrer de tal mal até aos cinquenta anos. Na verdade, a mãe não a avisou de muita coisa. Assim, recém-divorciada, a tentar equilibrar-se numa sanita de uma discoteca, fazendo todos os esforços para não tocar em nada, a ouvir a música desconhecida aos berros, lê na parede:

Ai que nervos

Conclusão: a culpa é da mãe. 

a vida real está nas séries, não te enganes


Patrícia Reis,

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A identificação com a personagem é a sorte do comum mortal. A televisão salva-nos. Série atrás de série, gravações numa box preta que controla os conteúdos do mundo, e podemos apenas vegetar. Pensar em quê? Tudo o que sentimos está no pequeno ecrã. Os personagens já fizeram o esforço para conseguir os mesmos objectivos e fracassaram, para quê tentar? No próximo episódio haverá solução, ou não. A vida real não precisa de existir.

a prisioneira


Patrícia Reis,

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A borboleta está ali a fingir que decora a mesa com estilo. É uma peça com algum requinte. O homem encara aquela prisão de vidro – as asas desenhadas de perfeição máxima – e imagina que a borboleta seja feliz. Feliz com a vida dele, testemunha da sua história. Acaricia a peça de vidro, a casa da borboleta, agradece-lhe a companhia, e volta ao trabalho.

mete as chaves onde quiseres, ou melhor, onde couberem


Patrícia Reis,

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Vou deixar as chaves em cima da tua mesa de trabalho. Não, vou deixar na caixa de correio da tua casa. Ou então mando entregar num envelope. Carta registada. Não. Vou esperar que saias do emprego, hora de almoço, vou na tua direção e direi:

Mete as chaves da tua casa onde quiseres.

É uma boa ideia.

Seria uma boa ideia, mas sei que não te posso ver. Se te vejo, ganhas e volta tudo ao mesmo.

As chaves vão, dentro de um saco de plástico fechado, para a conduta do lixo. Espero que tenhas muitas cópias.

jovem: álcool ou mentol?


Patrícia Reis,

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Os pais bebiam um vinho tinto que não a fazia morrer de inveja. A adolescente mantinha-se na água. Se fosse vinho branco, talvez sofresse de uma qualquer tentação, talvez até pedisse para provar. Não, não faria isso. Água é bom. É saudável. Enumerou mentalmente os shots bebidos na festa de sábado. Pensou na figura triste na casa de banho. Na forma disfarçada como a melhor amiga a tinha deixado em casa, sem alarmes paternos, sem sermões. Tudo tranquilo. A melhor amiga dissera:

A Joana comeu qualquer coisa estragada. Eu também estou mal disposta. Tivemos azar.

Lembrou-se do gosto a mentol das pastilhas para chupar. O álcool não resiste ao mentol. Ou resiste? Será que o cheiro a tequilla barata desaparece? Seja como for, a mãe limitou-se a concordar, a dizer que há muitas intoxicações alimentares. Joana deitou-se e dormiu até tarde. Durante o fim de semana portou-se bem. Estudou para os exames. Viu um filme antigo com a mãe, ambas no sofá a fingir uma imensa tranquilidade. O pai no computador.

Agora, Joana bebe água e pensa na próxima festa de sexta-feira. Tem de deixar as misturas, vinho, cerveja, shots. Não pode voltar a cair para o lado. Concentrou-se na água. O pai, a fazer as palavras cruzadas enquanto comia a carne de porco à alentejana, perguntou:

 Qual é a capital do Burundi? Vocês sabem?

Joana sentiu o cérebro diminuir e a boca abriu-se e respondeu

Bujumbura.

chapéus há muitos


Patrícia Reis,

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“Tu sabes que o sol faz mal?”

“Sei.”

“Então, usa o chapéu.”

“Tenho calor na cabeça.”

“Vai ao mar.”

“Não me apetece.”

“Vais ficar com dores de cabeça. Põe o chapéu.”

“Não me apetece.”

“Enquanto não puseres o chapéu não me vou calar.”

“Não faz mal. Eu não me importo de te ouvir.”

podia ser a tua mulher


Patrícia Reis,

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O casal estava sentado numa esplanada da cidade do Porto. Não sentiam a urgência de uma conversa. Bebiam com calma um vinho branco, fresco. Não sentiam urgência em mexer o corpo. Ao lado sentou-se uma mulher com um vestido salmão, colar de pérolas e a primeira mulher, a bebericar o vinho, disse:

“Podia ser a tua mulher. Ficaria a pensar coisas sobre nós. A magicar.”

“Não fizemos nada.”

“Pois não.”

“Pensamos.”

“Sim, pensamos em fazer o que nunca pensámos fazer antes.”

Saul Bellow


Patrícia Reis,

Ontem, Saul Bellow, autor canadiano, vencedor de um Nobel da Literatura, teria feito 100 anos. Escreveu vários livros, muitos traduzidos em português. Para quem não leu, fica a dica e uma citação:

“Eu quero dizer-te, não te cases com o sofrimento. Algumas pessoas fazem-no. Casam-se com ele, dormem e comem juntos, como marido e mulher. Se se deixam levar pela alegria acham que é adultério.”

Nunca serás uma flor


Patrícia Reis,

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O pior de ser a mulher mais feia da sala levava a gestos impensados: tinha sempre flores frescas na sua mesa; a mala era de marca; o fato de saia casaco imaculado; a joalharia não era bijutaria. Todos os bens de sedução a gritarem beleza não anulavam o que murchara na mulher há anos. Era o tempo. E old tricks don’t work anymore. Ela não podia esconder a idade ou as rugas ou a falta de boa pele e outras maleitas. A beleza é um consolo da natureza, a mulher feia é uma inconveniência.

o resto da vida


Patrícia Reis,

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A vida cabe numa malinha feia e com rodas, uma mala que não se fecha e não ostenta nenhum marca. O pensamento pareceu-lhe absurdo, o homem continuou a andar no tapete rolante, sentindo-se um desperdício, podia parar e ser levado. A sua vida não estava na mala, mas no avião estacionado na manga 44B. O resto da sua vida.

vê se te calas


Patrícia Reis,

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– Podíamos ir passear…

– Para quê?

– Para esticar as pernas, ver o mar…

– E as pessoas na praia? Deve ser o sítio mais anti-erótico que existe.

– Não sejas assim.

– Queres que seja como?

– Quero fazer alguma coisa.

– Ok, então vê lá se te calas e consegues fazer silêncio.

complicada é a tua tia


Patrícia Reis,

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A mulher viu o filme no avião pela terceira vez. Não gostava, nem deixava de gostar da história ou dos actores, sabendo que para muitos o filme, aquele filme, se tornou por razões insuspeitas uma forma de culto. Viu com calma a tentar não pensar na turbulência do avião, feliz com o efeito dos comprimidos que tomara. Quando a mulher perguntou a razão para tanta complicação, ocorreu-lhe que um homem não faria a pergunta da mesma forma. Não tinha como confirmar a sua teoria. Estava sozinha, num avião, a 39 mil pés, longe da terra e parecia-lhe muito fácil complicar tudo.

a isto também se chama amor


Patrícia Reis,

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Imagina que os nossos corpos desenham uma sombra estranha, longuínqua como num espelho deformado de circo. Não precisamos de dizer muito mais. Estamos lado a lado em total falta de sintonia. Ninguém repara. Nem tu que não olhas para o chão, dizes que tens vertigens. Constato que é assim, que estamos assim e continuo, ao teu lado, a fazer a vida de todos os dias. A isto também se chama amor.

dear john


Patrícia Reis,

Tal como na série, velha, americana, pouco risível, deixo-te esta carta para que saibas que fui. Fui sem qualquer culpa ou ressentimento. Não ficas privado de nada. Levo apenas o meu corpo e uma mala que odeias por ser cor de laranja. Acintosa, tinhas dito. Para onde vou será tropical, fará calor, será estranho e lento. Tu ficarás nesta vidinha de todos os dias e eu, lamento, não tenho nada para te desejar.

 

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pega na bicicleta e vai


Patrícia Reis,

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Gemuce pensou na instalação como um organismo vivo, em movimento. Como uma bicicleta. O artista moçambicano não queria apenas explorar a ideia do selim, desse banco portável que nos leva em cima de duas rodas. Queria um pouco mais e a instalação foi crescendo. É uma metáfora da vida que não precisa de explicação. A vida não precisa de orientações específicas, vive-se. Pega-se na bicicleta e vai-se.